E o índio Rondon não comeu o preto Cândido…

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Marinheiros da Revolta da Chibata em convés de navio rebelado

Marinheiros da Revolta da Chibata em convés de navio rebelado

…Mas a antropofagia ‘branca’, ah… esta continua.

Ainda a antropofagia – literal e conceitual – de nossas elitistas – e racistas – ciências sociais. Tudo junto e misturado dá um quadro de churrasco na laje para favelado nenhum botar defeito.

O chato mesmo é que a carne do churrasco é a nossa e o churrasqueiro é o Brasil branco carrasco (o cão da república positivista, chupando manga) e a laje é a chapa quente de nossas velhas angústias sociais.

Ai como dói.

Está até na minha peça teatral “ExuChibata“, escrita em 1994. São as pontas que ligam as bonitinhas loas da política indigenista de Rondon, a ‘integração nacional’, as precursoras aventuras proto antropólogicas de Roquete Pinto como contraponto bonzinho ao ferro em brasa da cana dura da repressão assassina às revolstas populares na Capital Federal do comecinho do século 20 de tantas mágoas. O nazifascismo dos anos 1930 já ruminando em nós.

Extraí a maioria dos dados para a minha peça teatral do excelente ensaio “A Revolta da Chibata” de Edmar Morel, jornalista que durante a ditadura militar, viveu as duras penas da pressão da censura, acossado e perseguido pela Marinha do Brasil por ter ousado ser o responsável em 1959 por levantar as sombras que escondiam a história da saga do grande herói nacional que foi João Cândido Felisberto.

Ele foi aquele grande ícone da rebeldia contra todas as injustiças nacionais, aquele que pôs a Marinha de quatro, a ponto desta, que deveria se manter altiva como instituição honrada da pátria de todos nós, ter descido ao nível de uma organizaçãzinha criminosa qualquer para tentar matar João, covardemente e, por fim não conseguindo, condená-lo à morte em vida, tentando salgar a sua memória para sempre.

Não sabiam disto tudo não? Pois é. A mentira tem pernas curtas. A verdade sempre aparece.

O relato de Francisco Martins que reproduzo abaixo (e que me foi enviado pela amiga e assídua colaboradora do blog Bete Scg) foi, provavelmente extraído da mesma fonte (Morel). Ele torna mais pungente ainda esta sequencia dolorosa de fatos, quando nos damos conta de que João Cândido estaria entre os presos que seriam, solerte e covardemente fuzilados em alto mar no ano novo de 1911 por ordens expressas do governo brasileiro.

Poucos sabem – e convenhamos que nem é preciso mais atiçar a censura do governo nestes casos, porque uma rede enorme de boquirrotos da omissão distorce as evidencias e oculta os cadáveres mais incômodos – mas o fato é que João Cândido foi salvo desta morte infame, por conta de pressão internacional, dos contatos e apoios que ele, na qualidade de timoneiro mais experiente de nossas forças navais, obteve na Inglaterra, para onde viajou como membro de uma comitiva especial para inspecionar as obras da grande encomenda que o governo brasileiro havia feito à estaleiros de Liverpool (inclusive o encouraçado Minas Gerais, nau capitânea da revolta).

João Cândido era uma personalidade moral e profissionalmente muito respeitada na Marinha. A Revolta da Chibata, que ninguém se engane, foi meticulosamente planejada, muito tempo antes de eclodir etem bastidores e implicações ainda por serem reveladas.

Foram as sutis pressões feitas pela embaixada inglesa aqui no Brasil que tornaram o embarque de João para o fuzilamento em alto mar, diplomaticamente arriscado. Preferiram então lançá-lo com mais 11 companheiros numa masmorra da velha prisão colonial na Ilha das Cobras, grande instalação militar sede da Marinha nacional Rio de Janeiro.

(Coincidentemente, o Titio quando bem jovem estudou nesta lúgubre Ilha, encostada ao continente, na ensejo de se formar em sua primeira profissão decente na Escola Técnica do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Titio virou alí operário metalúrgico, trabalhando pouco depois nos grandes estaleiros da japonesa Ishikawajima do Brasil, uma das maiores empresas do ramo, na época. Mais isto é outra história.

É. Titio tem história.)

Pois foi nesta prisão insalubre, encravada na pedra batida pelas ondas do mar que, numa trama sórdida, fuzileiros navais por ordem de altas patentes da Marinha – do governo Hermes da Fonseca, por suposto – lançaram cal e ácido fênico para, assassinar todos os presos por asfixia, João Cândido, principal alvo da trama, entre eles. Tentavam simular um acidente fortuito, os canalhas. Sobreviveram apenas dois marujos. Para o azar dos assassinos, João Cândido e um outro preso apelidado de ‘Pau da Lira”.

Reproduzo aqui então, emocionadamente, extraindo do texto de meu texto teatral, um trecho do relatório de bordo do capitão do navio Carlos Brandão Storry. Na peça, numa alusão ao caráter pré nazista dos incidentes que envolveram esta covardia de nossa marinha, os atores cantam a natalina canção ‘Noite Feliz” …em alemão:

…Luz caindo. Som de sereia de navio.

Filas vão sendo encaminhadas pelos guardas para fora de cena. Alguns prisioneiros tentam reagir, xingam os guardas, se debatem. Os últimos tumultos vão se diluindo, encobertos pelo som insistente da sereia de um navio e pelo black out.

Som de sereia de navio prossegue no black out, espaçadamente. Coro de vozes afinadas canta “Noite Feliz” em alemão.

Heilligue nacht
Stile nacht
Alles schläft
Einsam wacht
Nur das traurigue
kindlein schläft
Rut gehrut
auf die wiglein schläft
Schlafe in himmlischer ruhn
schlafe in himmlischer ruhn”

—————

…Voz narra o texto sem nenhuma emoção particular:

Narrador: ( em off )

_ …”A partida do porto do Rio de Janeiro, foi a 25 de Dezembro, pelas onze horas da noite. A descarga do navio iniciou por volta da meia noite de 24 e terminou por volta das 22 horas do dia 25 e, ato contínuo se deu o embarque do pessoal para os porões que estavam imundos, devido ao carregamento de açúcar bruto…Nestas condições partimos, levando 105 ex-marinheiros, 292 vagabundos, quarenta e quatro mulheres e cinqüenta praças do exército.

No dia 26, adoeceu um dos nossos foguistas. Fiz subir um dos prisioneiros afim de substituir o doente. Este denunciou que nos porões se tramava uma revolta, comandada pelo ex-marinheiro Hernani Pereira dos Santos, vulgo “Sete”. No dia 27. Com os inquéritos, alguns marinheiros foram algemados.

No dia 1 de janeiro, quando entrava o ano de 1911, estávamos já fora da barra e me afastei da costa para serem fuzilados seis homens, o que fizeram às duas horas da manhã porém dois, sendo um o “Chaminé”, se atiraram ao mar, morrendo afogados, visto que estavam com os pés amarrados.

No dia 2 de janeiro, às 23 horas, foram fuzilados mais dois marinheiros. Ao todo foram mortos 9 bandidos que conduzíamos…

No dia 3 de Fevereiro, foram entregues ao Capitão Rondon, duzentos homens, conforme ordem do governo. Os restantes, teriam que descer com eles, deixando-os pelas margens do rio. Os seringueiros, ao longo do rio, iam pedindo homens e assim, no mesmo dia, ficamos livres das garras de tão perversos bandidos.

Navio “Satélite”
Rio de Janeiro, 5 de Março de 1911
Diário de bordo do
Capitão Carlos Brandão Storry

(ExuChibata“, a peça em 1994)

E antes que Titio chore de novo vamos logo ao texto de Francisco Martins:

A viagem do navio Satélite

(Extraído de “A ocupação da Amazônia por sugestão de Bete Scg)

A segunda e definitiva fase de construção da ferrovia Madeira-Mamoré (1907 /1912) e a implantação das estações e linhas telegráficas da Comissão Rondon (1908 / 1916) foram de fundamental importância para o processo de ocupação humana da área geogificuldades desse primeiro processo de povoamento das terras rondonienses, o desbravamento da selva inóspita e o pioneirismo de uma época em que havia poucos recursos técnicos. Vários eráfica quem constituiu o Estado de Rondônia.

Essas duas importantes obras, de interesses políticos, econômicos e estratégicos externos à região, estabeleceram um novo modelo de desenvolvimento na medida em que, até então, o povoamento da Amazônia rondoniense era feito exclusivamente por seringueiros e seringalistas, e o único núcleo urbano existente era a Vila de Santo Antônio do Rio Madeira. A ferrovia Madeira-Mamoré e as estações telegráficas da Comissão Rondon tornaram-se ponto de referência para a fixação do povoamento urbano deste lado da Amazônia Legal.

Hoje em dia, não se pode avaliar com precisão as dpisódios podem ser narrados com referência à primeira metade deste século e os povoadores de Rondônia. Um deles é o da viagem do Navio Satélite, como tantos outros, diretamente ligada a fatores políticos externos à região. No caso, a Revolta da Chibata e a da Ilha das Cobras.

O motim conhecido historicamente como a Revolta da Chibata, teve inicio em 22 de novembro de 1910, no Rio de Janeiro, quando marinheiros que serviam nos navios “Minas Gerais”, “São Paulo”, “Deodoro” e “Bahia”, liderados pelo marinheiro João Cândido, o “Almirante Negro”, assim chamado por causa de sua cor, insurgiram-se contra as severas punições físicas que lhes eram aplicadas por seus superiores na Armada Naval. Essa revolta somente terminou porque o Congresso Nacional, reunido às pressas no dia 26 daquela mês, anistiou os amotinados.

No dia 09 de dezembro de mesmo ano, uma nova rebelião eclodiu na baía de Guanabara, desta vez envolvendo soldados do Batalhão Naval da Ilha das Cobras. O governo reagiu e prendeu centenas de pessoas, entre elas João Cândido e outros marinheiros anistiados que haviam participado da Revolta da Chibata. O “Almirante Negro” e outros líderes foram encarcerados na Ilha das Cobras. Os demais, foram condenados a um terrível castigo: o degredo na Amazônia, para trabalharem na Comissão Rondon e na estrada de ferro Madeira-Mamoré.

Trabalhadores da Comissão Rondon. Alguns destes, os negros principalmente, podem ser presos oriundos da Capital Federal, rebeldes e 'arruaceiros' da revoltas da Vacina e Da Chibata.

Trabalhadores da Comissão Rondon. Alguns destes, os negros principalmente, podem ser presos oriundos da Capital Federal, rebeldes e ‘arruaceiros’ da revoltas da Vacina e Da Chibata.

Em 25 de dezembro de 1910, esses degredados foram embarcados no navio cargueiro “Satélite”, que partiu do Rio de Janeiro no mesmo dia. A bordo estavam cento e cinco ex-marinheiros, duzentos e noventa e oito criminosos comuns e quarenta e quatro prostitutas, confinados em seus porões. Todos com o mesmo e cruel destino: serem abandonados em Porto Velho. Sua guarda era feita por uma força de cinqüenta soldados e três oficiais do exército. As ordens do governo, através do Ministério da Agricultura, determinavam que duzentos homens seriam entregues à Comissão Rondon e o restante à Madeira-Mamoré. Alguns prisioneiros, entretanto, tinham seus nomes na lista assinalados por um “X”, o que significava execução sumária em alto mar.

O “Satélite”, comandado pelo capitão Carlos Brandão Storry, fez sua primeira escala no porto de Recife, onde o contingente militar foi reforçado por mais vinte e oito soldados e aplicadas as punições previstas. Logo no primeiro dia, seis homens foram utilizados e dois, desesperados, jogaram-se ao mar para morrerem afogados, já que estavam com os pés e as mãos amarrados. No outro dia, mais dois marinheiros foram executados.

Quando o navio atracou no porto de Manaus, houve um princípio de motim a bordo, tão logo a tripulação tomou conhecimento quer o destino final da viagem seria Porto Velho. O medo que a região provocava era muito grande devido às notícias de doenças, mortes e violência. Mas o navio seguiu seu rumo. Na manhã de 03 de fevereiro de 1911, uma sexta-feira, após quarenta e um dias de viagem, o “Satélite” lançou âncora no porto de Porto Velho, onde a situação era inquietante, em razão dos rumores sobre o fuzilamento de prisioneiros a bordo. A imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo fazia a cobertura do caso, que classificava de “o bárbaro e vergonhoso incidente do navio Satélite”. Por seu lado, o comandante enfrentava pressões da tripulação para que se desvencilhasse rapidamente da indesejável carga.

A situação piorou ainda mais porque a Madeira-Mamoré recusou-se a receber os presos que lhe eram destinados. Para esse fim, a empresa armou e municiou os homens do seu poderoso sindicato e impediu o desembarque em Porto Velho. Vários tiros foram disparados e o navio “Satélite” teve de levantar âncora e rumar para o Porto dos Vapores, na Vila de Santo Antônio.

O principal motivo que levou a diretoria da Madeira-Mamoré a tomar tal decisão, foi a presença das quarenta e quatro prostitutas a bordo. Não foi por causa dos marinheiros ou dos criminosos comuns, mas sim pelo motivo de que em Porto Velho não era permitida a prostituição.

Na Vila de Santo Antônio o comandante não teve dificuldades para desembarcar sua carga, em virtude de não haver o patrulhamento do sindicato da Madeira-Mamoré. No mesmo dia, ele entregou os duzentos homens destinados à Comissão Rondon ao próprio Cândido mariano da Silva Rondon. Mas a tripulação estava temerosa, porque a localidade era conhecida por seu elevado índice de doença e mortandade.

Quando os porões do “Satélite” foram abertos, pôde-se ver as tristes condições daquelas pessoas: mortas de fome, esqueléticas, semi-nuas, desesperadas e atiradas no porto, homens e mulheres, ou o que deles restava, foram submetidos a todo tipo de humilhações. Aqueles que não seguiram com a Comissão Rondon foram escolhidos para o trabalho nos seringais. As mulheres entregaram-se à prostituição e foram bem aceitas, porque em Santo Antônio, praticamente, não havia presença feminina.

E assim, a tripulação se dispôs de sua indesejável carga humana. Às sete horas da noite daquele mesmo dia, o navio “Satélite” zarpou do ponto de Santo Antônio, passou ao largo do de Porto Velho, e seguiu rumo ao Rio de Janeiro, onde aportou no dia 04 de março de 1911.

Para ter uma idéia da impressão que a região causava e dos momentos vividos, observe-se um trecho do relatório do capitão Carlos Brandão Storry, comandante do navio, que fez a seguinte citação: “ A 03 de fevereiro de 1911, pela manhã, foram entregues à Comissão do Dr. Rondon, duzentos homens, conforme ordem do governo. Os restantes teriam de descer com ele e ir deixando-os pelas margens do rio. Felizmente, momentos depois, chegavam aos poucos, os seringalistas, que pediam ao comandante da força, homens para o trabalho. Assim, foi se dispondo o pessoal, até que saíram os últimos. Nesse mesmo dia, pelas 7h p.m. deixávamos o porto de Santo Antônio, livres e salvos das garras de tão perversos bandidos”.

O relatório do comandante do navio “Satélite” revelou toda a trama montada para punir severamente os revoltosos da Ilha das Cobras e da Chibata, a maioria, marinheiros e soldados negros e mestiços, submetidos a toda espécie de humilhação, viajando como escravos, destinados ao degredo na Amazônia.

No entanto, a viagem do navio “Satélite”, suas razões políticas e raciais, e o destino final de sua carga, servem para dar uma pequena ideia de como era feito o povoamento da região do Alto Madeira, na primeira metade deste século, e as perversas condições de trabalho nas obras da ferrovia Madeira-Mamoré, na Comissão Rondon e nos seringais. “

Fonte: “PIONEIROS – Ocupação Humana e Trajetória Política de Rondônia – Francisco Matias (1998)

—————–

E aqui um brinde: O doc. “Desconstruindo João Cândido” de Helio de Assis e Umberto Alves (com direito à música do Titio)

E assim foi. Quem quiser que conte outra.

Spirito Santo

Agosto 2012

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~ por Spirito Santo em 19/08/2012.

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