No júri dos lobos, as hienas e a confissão de culpa de todos nós.

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Caçar os lobos e não aceitar só carniça: Tal é a lei da savana.

É um mistério para mim. Não sei o que faz as pessoas em geral – inclusive as aparentemente mais lúcidas e centradas – perderem totalmente a noção, o senso de avaliação quando mergulham no poço fundo da adoração por uma religião, uma celebridade, uma tendencia política, um time de futebol, etc. O que estes temas chamarizes da dicotomia e do fanatismo têm de especial para provocar estes sentimentos tão primitivos é a coisa mais enigmática deste mundo. Eu acho.

Burrice, ignorância, ingenuidade política ou oportunismo social? Fico sempre na dúvida.

A criação de acirradas oposições entre grupos de pessoas, a radical polarização delas em dois lados de uma questão candente, uma muralha de fogo surgida do nada entre elas, é uma coisa que, às vezes, escapa a qualquer lógica. Bom senso algum prevalece nestas horas e as pessoas podem mesmo entrar em guerra até a morte de umas e outras, simplesmente por causa de divergências mínimas, as mais tolas, num ‘é pau ou pedra‘, ‘é oito ou oitenta’ totalmente sem sentido.Deve ser atávico ao ser humano, coisa normal portanto.

…Ou será que fazem isto sempre por ‘espirito de corpos’, por interesse de classe, de caso pensado? Não consigo definir uma posição firme e segura quanto a isto.

Me lembro claramente que na eleição para presidente da República de 1989 – a primeira eleição real depois da ditadura – uma coligação entre o PDT de Brizola e o PT de Lula venceria fácil, acachapadamente o outro candidato, o indigitado dito canalha e depois empichado Collor de Melo.

Como é comum no Brasil, a tragédia se fez presente desta vez e o PC Farias (o ‘careca do Fernando’) apareceu arquivo morto, ‘suicidado‘.

Mas o que foi que que as pessoas da classe média ‘de esquerda’ fizeram na época? Rejeitaram com nojo a coligação mais lógica das ‘esquerdas‘, desejada por Brizola que cansou de propor uma aliança de esquerdas clássica, um vice do outro, não importava muito quem seria quem, para enfrentar de forma arrogante uma direita esperta e articulada que, na indecisão das esquerdas, rapidamente ganhou o jogo, adiando os planos de plena democracia para um futuro bem distante.

Hoje fica óbvio que aquela coligação de apenas dois partidos, ambos de esquerda, com divergências apenas cosméticas, um assumindo pragmaticamente posições neo liberais, outro se dizendo socialista mais radical (para inglês ver, viu-se depois) tinha potencial e quadros de sobra para realizar uma transição virtuosa para a democracia com amplas chances de trazer para o país todos os benesses econômicos que, mal ou bem vieram (porque viriam de qualquer jeito) do esforço dos governos democráticos que se seguiram.

Ou somos, politicamente uns idiotas ou há algo de errado com a ideologia desta tal de ‘classe média‘ de esquerda porque, até hoje estamos patinando nesta maneira escorregadia e imoral de lidar com os interesses do país. É a única conclusão a que se pode chegar. Esta dicotomia entre as esquerdas, recorrente no Brasil, desde a primeira república, atravessando o tempo dos conflitos da chamada ‘esquerda revolucionária‘ até os dias de hoje, talvez seja o que mais atravanca um real progresso do país.

É uma cunha entre os interesses reais da população – que se submete à carniça do clientelismo por necessidade – e os interesses de uma minoria em cima do muro que, adepta fervorosa da ‘Lei de Gerson‘, leva vantagem em tudo. Podem crer.

‘Mares de lama’ e a história repetida como farsa

Foi assim com o polêmico Getúlio Vargas que, de certo modo representando um governo de centro esquerda em 1954 foi deixado sozinho pela classe média de esquerda, acossado, entregue às feras da direita fascista de Carlos Lacerda (franco aliado depois do golpe militar de 1964).

(Para quem não conheceu o Carlos Lacerda foi uma espécie de Roberto Jefferson melhorado)

E a tragédia, aquela mãe da outra, esteve aí presente, a ponto dele, Getúlio, vir a se suicidar.

Foi mais ou menos assim em 1964 quando João Goulart, do mesmo modo que Getúlio, seu suposto pai político, foi abandonado por esta mesma classe média ‘bem pensante‘ (neste caso cindida, uma parte se assumindo, francamente de direita, “pela família, com Deus e pela liberdade”, anti comunista e outra, enrustidamente se assumindo ‘revolucionária‘).

Não importa, a classe média ‘de esquerda’ (ou ‘de direita’, difícil saber) tem sido sempre o fiel torto da balança política do Brasil desde sempre.

Que ninguém se esqueça que neutralizada pelo cansaço a esquerda social democrata de Leonel Brizola, dita ‘populista‘, isolada como arcaica e ‘caudilhesca’, sobrou-nos a social democracia light do atual PSDB, uma articulação de centro esquerda que, se foi por um lado – precisamos admitir – responsável pelas soluções mais cruciais dos nós de nossa economia, tem sido também um atrativo e habitat seguro para tendencias direitistas as mais pragmáticas, o que polarizou mais ainda o cenário político e parlamentar da nação, transformando-o neste saco de gatos dos neo capitalistas ruralistas de um lado e esquerdistas de fachada (oportunistas) e clientelistas de outro, articulados em torno do PT, com a corrupção estatal e institucional disparando aos píncaros até assumir os níveis de vergonhoso campeonato mundial de ladroagem organizada que ocupa hoje.

O que se vê de diferente agora no panorama, alguém pode nos dizer? Nada. Tudo piorou.

Se fôssemos fazer uma analogia entre a campanha do ‘Mar de Lama’, série de denúncias deflagradas na imprensa dita ‘marron‘ (como a ‘golpista’ de hoje) sobre os desmandos e a corrupção nas antessalas do governo de Getúlio Vargas e o suposto ‘mensalão‘- o ‘Mar de Lama’ de Lula – o que poderíamos esperar com resultado do desfecho?

Nada de muito ético ou meritório e honroso posso garantir.

Mesmo estando moralmente desmascarado pela simples existência da denúncia do Mensalão tão sobejamente demonstrada nos autos, Lula não se suicidará caso José Dirceu e os figurões do PT sejam condenados.

Pior ainda: caso seus assessores e amigos mais diretos sejam inocentados – o que não é de modo algum improvável – Lula será reentronizado no poder e toda a curriola de supostos mensaleiros estará de volta às ruas e aos cargos, coroando estes modos torpes de se dirigir e gerir um país, divido como butim de guerra em ‘tenebrosas transações’.

Será a desmoralização total da política. A avacalhação total de nossos modos de lidar com nós mesmos. Nós o povo acanalhdado nos entredevorando na política suja do ‘meu pirão primeiro‘.

(Outro dia, vindo de táxi do aeroporto o motorista me disse: “_ Vou votar sim, tenho um candidato a vereador. Quero grama sintética na quadra de futsal do meu condomínio. Se ele me der arranjo mais de mil votos pra ele”)

Lá atrás, como hoje, quem é que dá suporte a esta esquerda torta que adotou a tática dos ‘fins justificam os meios’ que marca a corrupção generalizada no Brasil? Quem dá apoio político a estas práticas torcendo militantemente pela absolvição dos mensaleiros? Ora, alguém duvida que são os quadros desta mesma classe média ‘de esquerda’ de sempre?

(Claro que existem os ingênuos e os românticos – meus amigos por exemplo-  mas estes são poucos)

Insisto. Não sei o que faz boa parte das pessoas no Brasil apostar assim tão irresponsavelmente nesta esperteza rasa como forma de conduta, esta coisa de hiena que ri da morte alheia porque espera a hora de ganhar os restos da vítima, largados pelos lobos já fartos de comer.

É preciso exterminar os lobos e as hienas, é o que deviam saber os bons caçadores.

Como bem disse, mais ou menos assim, Bertold Brecht: um dia a vítima comida pelos lobos, aquela que você deixou ser capturada porque é a carniça que você, covardemente almeja saborear – pode ser… você.

Spírito Santo

Agosto 2012

(Mês e ano da graça da terceira idade do Titio)

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~ por Spirito Santo em 25/08/2012.

2 Respostas to “No júri dos lobos, as hienas e a confissão de culpa de todos nós.”

  1. Valeu, parceiro! Estamos juntos.

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  2. Olá Spirito Santo, estou sempre vendo suas participações plo facebook do CEPEafro e outros grupos, mas nem tinha me tocado do seu blog…, muito bom gostei muito e vai par5 o meu blogroll, ah! achei muito interessante aquela descrição de perfil em “Neo língua geral” 🙂 perfeito, sinceramente não conheço esperanto, mas fiquei com a impressão de que era “o sujeito” 🙂

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