O ‘Meia Ponto Cinco’ da longa estrada e o engano da cigana que não me enganou

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O dia, o mês e o ano da graça da terceira idade de mim

Foi numa pracinha ali do aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro. O ano? Nem sei mais.

A cigana me enganou, claro (ou se enganou, vai saber?). Me disse com aquela cara de pau santa de toda cigana que eu ia morrer aos 53 anos de idade. Me lembro que faltava muito para isto. Imagina! Uma idade remota demais esta. Não dava para imaginar. Nem achei um destino tão triste assim. “_ Aos 53!”_ pensei: _” Ah…já vou estar cansado, de saco cheio de viver”. Pois é: Eu tinha aquela idade entre a pós adolescência inconsequente e a consciência vaga e babaca de que precisava tomar prumo na vida, amadurecer.

A possibilidade da morte precoce me atazanava a alma sim, desde que me dei conta de que a idade tão precoce em que meu pai morrera era a de um quase menino, uma prova inconteste de que não ia mesmo ficar para semente. O fato é que estava até me conformado já com aquela linha da vida na mão direita se desmilinguindo em linhazinhas loucas que não iam mais sozinhas a lugar nenhum.

_ Aos 53…mais ou menos”_ ponderou a cigana, já meio vacilante.

A cigana deve ter visto isto, esta coisa de hora temer, hora não temer  a morte logo ali na esquina, num lampejo dos meus olhos meio incrédulos meio cabreiros, curiosos com o que ela ia dizendo de mim. Não sei não, mas se fosse crer em profecias de mulheres de saião florido já teria morrido mesmo, há muito tempo. Algumas destas, nem ciganas eram, mas desejaram de algum modo que eu morresse, me escafedesse, desaparecesse nos quintos do inferno.

Nada que me incrimine. No noves fora até que sou e sempre fui um cara bom. Mas vocês sabem como são as mulheres, não sabem não? Algumas, às vezes são dadas mesmo a estas maldades gratuitas e despeitadas, com estas manias de bruxa que algumas têm, isto de não querer ser fadas, mães, isto de achar feio e revoltante serem boazinhas para os homens que têm, coitados, que só querem mamar e ser felizes no quentinho de um ninho qualquer.

(Fico até rindo delas agora, daquelas que me perderam – ou não me acharam – quando me vejo no espelho e sei, por A mais B que não desapareci, desapareceram elas. E é por isto que, enfim:

Yo no creo en las brujas mujeres, pero en las mujeres brujas yo creo si.)

Não sei. Acho que a cigana trocou os números 3 e 5 que viu no meu pavor e leu a linha da vida de minha mão às avessas, como a daquele cara do filme que nasce velho e envelhece bebê. O certo é que temi até os 35 anos uma morte, como a do meu pai chegar por alguma razão fortuita, mas ela, a danadinha, não chegou. Esperei aos 53 ela me aparecer de novo, definitiva, poderosa, toda cheirosa e sestrosa me chamando para dançar, mas ela, a bandida, percebendo talvez que dançar nunca foi mesmo o meu forte, jamais apareceu. Daí, já sabem, relaxei.

Olhando esta foto aí eu fico surpreso demais da conta de ter ultrapassado os 35 ou os 53 anos desta quase interrompida vida e ainda ter avançado outro tanto mais, sobrevivendo a tudo e a todos apesar do que desse, houvesse e viesse.

Bem sei que a maioria das pessoas sobrevive assim, de algum modo, mas vejam esta minha vida. O quase nada que éramos naquela casinha quase a desabar, a alegria fortuita do velocípede que meu pai me dera – e que a minha irmãzinha sempre querida, arredia e ressabiada em outra foto agora ostenta nesta, irradiando felicidade de estrela matutina – é tudo, mas só ali naquele momento. O tempo todo, do que dá para se ver assim de longe, era de uma pobreza digna, porém áspera, de marré de si.

Corina, a mais velha, tia temporã, meio irmã dos dois já tem, percebo agora alguma coisa no olhar que entrega alguma tristeza vaga.

(E se quiser veja mais sobre o tio pequenino e seu velocípede aqui neste link)

Ah que dela ainda recordo o cheirinho cálido. A primeira casinha da vida, sabem lá o que é isto? Estrada Comandaí 632, Marechal Hermes, um subúrbio tão tão distante do Rio de Janeiro. Foi nela que eu vim a este mundo cão sem dono, assim vindo à luz, sei lá se pela chama claudicante de um candeeiro ou de uma vela, pela mão de uma parteira daquelas, das redondezas, aquelas mulheres mandonas e altivas, sempre disponíveis, que pela gratidão das paridas que assistiram, têm mais amigas devotadas do que as santas virgens marias.

Estas sim, por certo, as que merecem ir pro céu de cadeirinha, mais do que certas outras santas de pau oco, que lá no céu já estão, mesmo sem merecer, apenas porque são ou foram esposas interesseiras de Jesus.

O tempo foi furacão neste período de minha curta vida. Bibi, minha maninha já nasceu numa maternidade. Mudamos logo para a segunda casa, da qual nem uma fotozinha temos. Construída num terreno doado ou comprado a perder de vista de alguma promoção do governo de Getúlio para enganar a pobreza dos ex pracinhas, heróis da guerra na Itália – como o meu pai foi – ela, a casinha a ser nova, nos livraria do aluguel da outra, que mesmo assim tão desabada, não era nossa, fazer o que?

A casa mais recente, sempre inacabada, acabou ficando ainda mais precária e distante do mundo ainda do que a casinha em que nasci. Desta outra me lembro apenas da escuridão profunda das noites de chuva, um negrume rasgado apenas pela chama trêmula das lamparinas de lata, artesanais. Me lembro das narinas amanhecidas, empretecidas da fuligem do querosene. Me lembro do chão ainda inconcluso, de terra batida, frio e úmido, como o daquelas casas mais selvagens.

Mas a gente se acostuma. Meu pai falecera em 1951, logo depois desta fotozinha aí, assim, quase de repente como se viu, nos seus plenos 35 anos. Morreu, imagino, de sequelas do alcoolismo que, por sua vez era sequela dos tormentos da guerra, as bombas dos tedescos ecoando na cabeça dele durante a Tomada de Monte Castelo, os amigos morrendo metralhados um aqui, outro ali, mais um acolá e ele, José Cyrilo, rezando o Salmo 91 do Davi da Bíblia Sagrada, única coisa assim mais religiosa que eu aprendi na vida (e nem deu tempo de ser com ele).

Mil cairão a teus pés, dois mil a tua direita, mas tu não cairás”

A casinha que era para ser nova, ficou ali nascida velha precoce porque sem pai muito mais difícil ainda se tornou a vida para todos nós, a mãe da roça, prendas do lar tendo que inventar uma profissão do nada, virando enfim a costureira mais artista que eu conheci na vida.

Azar dos ricos, mas só os pobres têm – como tenho agora – este orgulho desmedido de ter vindo da lonjura mais remota, das precariedades mais absolutas para estar aqui agora, lido e sabido, vivo da silva contando esta historinha pra vocês. O certo – nada a ver com duvidoso – é que estou aqui cascudo, ferrado mas não alquebrado, roto mais não torto, sexagenário menino, me remoçando a cada dia, na terceira idade desta terceira chance sem data marcada por nenhuma cigana 171.

 Trinta e cinco? Cinquenta e três? Sessenta e cinco?

Eu, Titio ainda no prazo de validade (alguns defeitos e remendos, pegando no tranco, mas vamos que vamos), sentado porque planejo uma longa espera, aguardando sem ansiedade Ela, a Bela, a irresistível Dona Morte sem saião estampado nem nada, derradeira mulher bruxa que me conquistará.

Ela, Aquela que me levará pela mão, não para o paraíso que nem me apetece, mas assim para um purgatório mais animado, iluminado à neon, com cerveja gelada, frango com quiabo e cafuné. Claro que quero do bom e do melhor. E eu lá sou tolo, inda mais assim sendo velho? Velho tem que ser sabido, porque senão, se não for, será batido e engolido pelo esmorecer.

Se for céu de algodão doce eu bocejo, me enfado. Édem de novela de TV eu não aturo, acho que peço para sair, pego o meu boné e vou embora.

O certo é que  na minha folha corrida –  minha longa e torta linha da vida – está lá escrita em algum lugar me referendando:

Foi Interno de escola-prisão, foi Preso político no Dops da Rua da Relação e na Ilha Grande, foi Pintor de letreiros de propaganda em muros, foi Operário metalúrgico, foi Desenhista projetista de arquitetura, fui Ilustrador de livros infantis. Cantor, Músico, Folião de Reis e CongadeiroProfessor de si mesmo e dos outros,  Fabricador de intrumentos musicais afro inusitados, Escrevinhador autodidata que escreve pelos cotovelos, sobre o que lhe dá na telha e está aqui, pronto para outra, a meia ponto cinco na longa estrada, olhando pros lados, nas curvas, esperando Ela.

(Bandida! Danada! Se bobear arranjo outra e traio ela)

Spirito Santo

27 de Agosto 2012

(Dia, mês e ano da graça da terceira idade do Titio)

3 respostas em “O ‘Meia Ponto Cinco’ da longa estrada e o engano da cigana que não me enganou

  1. Nogla,

    Ataque às mulheres? Rs rs rs rs rs! Foi só um jogo e palavras visando algumas mais vigativas que conheci. E veja: só expus uma carapuça pretinho básico que estas tais, se lerem, vão vestir ou não. O certo é que maioria que leu e comentou (lá no facebook) adorou a citação às ‘brujas’ do mal. Mas bem sei que mulheres não entendem bem umas às outras, tanto que competem entre si mais do que competem com os homens.

    E veja, são vudus de alfinetadadas simbólicas o que fazem estas algumas. Sorte que ‘brujas’do bem, no meu caso são (ou foram) maioria (embora todas pensem que voam e tem super poderes de adivinhação a parte melhor da brincadeira com elas, confesso).

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  2. Gostei, inclusive porque em BH estive mostrando ao Alan as casas em que morei na infância, e por eu tb ter pensado que morreria jovem e etc e tal… só não gostei do ataque às mulheres! rsrs Nunca fiz boneco vodu de ninguém! Nem de quem nunca me quis bem!

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  3. lindo. coisa de mestre mesmo… sobretudo no quesito generosidade… abraço.

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