Kalunga forever! O Cais do Valongo não pertence à Rainha má

Foto: http://afroetic.com/tag/african-holocaust/

African Holocaust

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Caraca! Titio nem se deu conta.

São OITO pontas soltas desta nossa soterrada escravidão!

Correto. Escrevi OITO posts já sobre o caso do Cemitério dos Pretos Novos, raro sítio arqueológico próximo ao antigo Cais do Valongo (ou “da princesa”) no Rio de Janeiro!

Me empolguei, me empolgaram e lá se vão, sei lá, mais de 50 páginas de debate e polêmica (os doutores e os acadêmicos de papel passado, ‘pira’!)

Nos tempos passados, da pré internet, daria para editar um livro inteiro. Na verdade dá ainda, mas sabem como é: Quem se habilita a editar ideias em papel? E o tempo necessário para um livro convencional fazer crescer as minhocas na cabeças das pessoas, a ponto de instigar alguma mudança nos pensamentos arcaicos mais renitentes delas?

Os livros de papel, coitados – bem entendido os que não forem escritos por celebridades fortuitas – mofam nas bancas das livrarias, mofam nos sebos, definham até morrer em alguma fogueira de quintal. Dá para esperar? Para que esperar se nem dinheiro os livros de papel rendem para a maioria esmagadora de seus autores?

Tenho conhecido à vida inteira livros de papel com temas mais ou menos candentes que, por conta de sua iconoclastia revigorante, a sua proposta quebra muros, democratizante, de certo modo incômoda aos padrões editoriais e ideológicos de plantão, amargaram o limbo do ostracismo por decênios.

Ainda bem que existe hoje a inexorabilidade do destino em suas duas faces: Os livros de papel morrem sim, mas as almas deles são agora imortais.

Sou um amante fiel e apaixonado destes alfarrábios sobreviventes, mapas das verdades ocultas, mesmo as supostas. Nem as traças conseguiram apagá-los e eles amarfanhados, esfarinhando-se em nossas mãos às vezes, idosos sem lugar reservado em ônibus algum, seres inermes, vulneráveis ao tempo, coisas velhas em extinção. É por isto mesmo que gosto de vê-los ganhando hoje a sobrevida da digitalização.

É que só assim, penso agora, queimarão ainda outras muitas consciências, queimarão também – o que é mais impressionante – incinerarão as ideias ‘rainhas más’, arcaicas e despeitadas que tentaram fazê-los belos adormecidos para sempre.

Tal é o poder que as palavras e os livros antes adormecidos têm, quando inflamados por alguma ideia limpa, de qualquer maneira, em qualquer lugar.

Ah, ah, ah! A Internet é a ‘princesa’ boa que os despertará.

Gavetas escancaradas de posts quase livros circulam agora na nuvem da rede como passarinhos estorninhos sem dono, e podem fazer chover revigorantes temporais, furacões, só com o balançar ritmado de suas asas.

Como dizia aquele ‘seu’ Donga do Samba: “_ Quem pegar pode levar”.

O certo é que as gavetas entulhadas de pesquisadores autores como o Titio, iconoclastas ou não, pertinentes ou não, jamais precisarão esperar ali, lacradas em nossas cabeças, travadas pelos intermediários censores aristocráticos, que detestam o novo porque, ignorantes que são, não sabem que ‘o novo sempre vem‘.

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Esta série de posts (logo abaixo linkada) tenta contar esta história torpe do Valongo com pertinência e meticulosidade, porém sem panos quentes e desconversações. É que o que se visa com os textos e sua veemência é alimentar as fogueiras do debate, com dados e informações que, muitas vezes acabam invisíveis aos vis mortais, por conta de tergiversações acadêmicas, conversas fiadas e enganações doutas eivadas de intenções mal explicadas. Coisas do Brasil.

Bem sei que os interesses em jogo são complexos – os políticos, turísticos e empresariais então, nem se fala – aliás, tão complexos quanto eram no tempo da escravidão. Mas são mais indignos ainda os interesses de indivíduos trânsfugas, dos muitos oportunistas que atravancam o debate das questões brasileiras mais ligadas aos estigmas da escravidão e do racismo.

Contudo há questões éticas – e técnicas – muito sérias envolvidas e elas precisam ser debatidas à exaustão, doa a quem doer, para que não se soterre mais ainda um passado arqueológico que pertence de todos nós – como sempre digo – negros e brancos do Brasil.

Neste aspecto é bom se ressaltar que não se pretende, de modo algum desqualificar o trabalho dos técnicos envolvidos na pesquisa do sítio. O que os posts demonstram – penso eu que cabalmente – é que há certas incongruências e imprecisões digamos assim, históricas e etnológicas, publicamente expressas pelos principais responsáveis técnicos pelos trabalhos, imprecisões graves que carecem de aprofundamentos.

A julgar pelo que se pode ter acesso de textos, filmes e vídeos institucionais abordando estas pesquisas, o conhecimento manifestado por estes especialistas sobre a origem real e a cultura da maioria dos escravos desembarcados no Valongo – aos quais os resíduos arqueológicos se referem – é na verdade superficial, raso mesmo em certos aspectos (como no caso dos cachimbos, abordados num deste posts que escrevi).

Há também, na parte mais constrangedora do episódio, uma inexplicável – e espero que apenas descuidada e não proposital – utilização do respaldo ‘antropológico‘ de mães de santo de candomblé, espécie de assessoria totalmente impertinente e improcedente para o caso, o que dá bem a medida do descaso técnico (e acadêmico) com que a questão pode estar sendo tratada.

É certo, é visível, portanto que há uma, aparentemente interesseira displicência, um açodamento inexplicável de muitos dos envolvidos ao tratar da questão da prospecção de sítio arqueológico tão importante no contexto da história da escravidão nas Américas.

Há também, me parece, uma grande articulação política em jogo, visando atenuar ou calar críticas mais insistentes ao discutível processo de restauração e reforma da área chamada Porto Maravilha, envolta nos tantos compromissos turísticos assumidos pela prefeitura da cidade para breve futuro, como já repeti várias vezes, notadamente a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.

Existe, sobretudo – ou pelo menos parece haver – uma estratégia articulada por um grupo de interesseiras autoridades, baseada em muita propaganda e no aliciamento – ou convencimento – de adeptos de que “o que já se escavou é suficiente”, um jogo de ‘cala bocas’ paternalista, que exagera e ‘enfeita o pavão’ com intervenções cosméticas, placas comemorativas, ‘espelhinhos de índios‘, enfim uma espécie de ideologia malsã que tenta abafar e reduzir a dimensão fantástica deste pedaço da história do Brasil, para poder, rapidamente, à toque de caixa, revestir a área com o concreto dos empreendimentos arquitetônicos que produzirão – esperam os interessados –  lucros astronômicos. Lucros incessantes de ‘Cidade Empresa‘, o conceito de gestão urbanística que nos governa atualmente.

A área do Valongo (o porto antigo, o cais e os dois ‘cemitérios‘ conhecidos inclusos) precisa ser desvencilhada de todos estes oportunismos espertos, que a reduziram a ínfimos resquícios de uma pequena senzala de meninos africanos mortos, vindos ninguém quer saber exatamente de onde nem como.

O sítio do Valongo é, simplesmente um dos maiores e mais importantes sítios arqueológicos do mundo ligados à escravidão. A sua exploração total traria contribuições inestimáveis para a história do país e da diáspora africana nas Américas, além de – ironicamente – trazer muitos lucros financeiros também, por força de seu enorme potencial turístico cultural (bem maior, aliás do que o afobado e comercialista projeto atual)

Assim, para se trazer à luz em toda a sua inteireza verdade histórica tão candente ainda soterrada, vamos ter que matar e sepultar as ignorâncias todas que as sufocam.

Bem. É o que o Titio pensa por enquanto aqui do lado de cá, já quase rouco de falar.

(Em tempo: “Kalunga“, palavra simplificadamente associada ora à ‘Morte‘ ora ao ‘Mar‘  ou ao Céu, é um conceito extraído da filosofia bakongo clássica (Zaire, Angola), inscrita num cosmograma (leia Fu Kiau Benseki).

A palavra na verdade se refere a uma linha de tempo existencial, simbolizada por um meio líquido que separa o Mundo dos Vivos do Mundo dos Mortos, por extensão, o passado do futuro, a realidade da ficção, a verdade da mentira, como um portal entre as coisas físicas e as metafísicas, etc.)

Segurem as pontas e vão lendo aí. É só ir abrindo os links.

1- No fétido pântano, a cidade construída sobre os ossos de seus escravos/ 19 de Novembro de 2011

2- A maldição do Valongo

3- A lama do Valongo e a arqueologia do caô caô #01

4- A lama do Valongo e a arqueologia do caô caô #02

5- A lama do Valongo e a arqueologia do caô caô #03

6- A lama do Valongo e a arqueologia do caô caô: Post final

7- Preto Novo, Preto Véio. Na pista a busca do lenitivo da dor

8- A carta do Valongo. O enterro dos ossos

Spírito Santo

Setembro 2012

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~ por Spirito Santo em 22/09/2012.

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