Guerra Santa dos Malês. Ahá! Aquilo foi mesmo uma Jihad!


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Esta gravura do século 19 mostra uma caravana de comércio de escravos árabe transportar escravos negros africanos através do Saara. O comércio de escravos trans-saariano desenvolvido nos séculos 7 e 8 como árabes muçulmanos conquistaram a maior parte do norte da África. O comércio cresceu de forma significativa a partir do 10 para o século 15 e atingiu o pico em meados do século 19.

O comércio de escravos trans-saariano se desenvolveu nos séculos 7 e 8 quando os árabes muçulmanos conquistaram a maior parte do norte da África. O comércio cresceu e atingiu o pico em meados do século 19, sendo francamente adotado pelos colonialistas europeus já no século 16.

Livro de Kangni Alem, do Togo quebra a banca de JJ Reis.

Titio falou e disse: Em algumas poucas páginas o desmonte da tese de JJ Reis sobre a Revolta dos Malês.

Resenha livre abusada de algumas poucas páginas do livro “Escravos” de Kangni Alem

(Tradução de Aurélio Barroso Rebello e Laura Alves. Revisão de tradução de Fernanda Pantoja) Fonte: Editora Pallas, 2011. 258 págs., R$ 38. Romance.)

“Kangni Alem nasceu no Togo, em Lomé. Possui PhD em Francês e Literatura Africana e Francesa na Universidade de Bordoaux. Romancista e dramaturgo, já publicou mais de dez livros. É professor de Teatro e Literatura na Universidade de Lomé (Togo). Seu trabalho explora a memória política e histórica da África em temas como escravidão, ditadura e questões culturais e raciais. Um de seus livros mais importantes é ‘Escravos’ (‘Esclaves’) .

No final do século XVIII e início do século XIX, a onda de revoltas de negros escravizados resultou num clima generalizado de histeria antinegro nas colônias, do qual nem as metrópoles brasileiras escapariam. Mas a principal inovação nesse período foi o envio de negros “indesejáveis” de volta à África, para que não perturbassem a ordem escravista.

A maioria dos escravos expulsos do Brasil era composta por negros alforriados antes da abolição da escravidão no Brasil (1888). Os que retornaram do Brasil tiveram certamente muitos motivos, mas não é possível esquecer, entre eles, a violenta repressão à Revolta dos Malês (1835).

“…Graças aos libertos retornados, formava-se na costa ocidental da África uma elite profissional e política que, lá, conseguira o que a aristocracia agrária e escravista lhes negara nas Américas.”

“…Seu súdito mais fiel, um jovem mestre de rituais, é vendido para um comerciante Inglês e enviado como escravo ao Brasil. Kangni Alem narra a saga desse personagem que, depois de 24 anos como escravo e de participar de inúmeras revoltas, retorna à África para honrar a memória do seu rei, morto no esquecimento, para um país que o tornara estrangeiro.

Kangni Alem nasceu no Togo, em 1966. Autor de peças teatrais, contos e romances, ensina teatro e literatura comparada na Universidade de Lomé.

(Trechos da resenha oficial da Editora Pallas para a edição brasileira de “Escravos”)

Como veremos rapidamente a seguir, as resenhas do livro de Kangni Alem cometem crioulodoidices crassas com o enredo que é o de um romance histórico. Quem conhece o gênero, por mínimo que seja sabe que ele costuma se apoiar em dados e documentos históricos atestados, cabais no máximo possível, em cujos hiatos e entrelinhas não sabidas – ou mesmo insuficientemente comprovadas ou ambíguas – se insere amarrações e ganchos ficcionais, imaginados. Isto significa dizer que os fatos e personagens dados como sendo verídicos não são nunca contraditados ou alterados, estruturais que são a toda arquitetura ficcional do texto.

Vivo martelando isto aqui: Há que se ter muito cuidado ao resenhar a história africana do Brasil por causa das inúmeras mistificações interpostas na bibliografia, a maioria marcada por desvios relacionados ao indefectível mito da supremacia nagô, por exemplo, o apagamento compulsório das evidências que desmentam esta teoria tão cara à historiografia acadêmica do Brasil de que houveram aqui uma casta minoritária de negros africanos ‘puros‘ e superiores (os ‘nagôs‘ yoruba) e uma esmagadora maioria de uma massa negra amorfa, negra ou mestiça, sempre impura, a quem a inferioridade étnica, cultural (e genética) justificaria reservar a ela os piores lugares da sociedade.

É que velha e destrambelhada mentira, de tanto ser repetida nos livros acabou virando verdade por aí.

São muitas as pedras deste caminho. As maiores são aquelas espalhadas na estrada por alguns intelectuais brancos e negros, acadêmicos em geral, ciosos de uma história do afro brasileira pretensamente heroica, marcada por fantasias épicas, às vezes totalmente impertinentes e inverosíméis…descabeladas, costumo dizer.

O caso de Nã Angotimé a tal “rainha negra do Maranhão” é emblemático. É ele que, de forma até nem muito fortuita liga as pontas do romance de Kangni Alem com outras mumunhas ocultas da história africana do Brasil.

Tem jeito não: Tudo de bom na história do negro do país costuma ser atribuído a alguma gênese ligada a dinastias de nobres, reis, príncipes e rainhas, misteriosamente deportados para cá ou vendidos como escravos. Incrível! Nunca se atribui a herança cultural e civilizatória do negro africano no Brasil à pessoas negras comuns. Vejam nas ambíguas minúcias abaixo o quanto de joio se precisa tirar deste trigo:

Segue a  resenha dita por mim ‘oficial’ da Editora Pallas:

“…Escrito pelo dramaturgo e escritor togolês Kangni Alem, ‘Escravos’ conta a história dos primeiros afro-brasileiros. No início do século XIX, o tráfico negreiro fez a fortuna dos senhores de escravos e seus aliados no continente africano. O único que se atreve a falar contra a escravidão, o rei Adandozan, é deposto. Seu súdito mais fiel, um jovem mestre de rituais, é vendido para um comerciante Inglês e enviado como escravo ao Brasil.

Kangni Alem narra a saga desse personagem que, depois de 24 anos como escravo e de participar de inúmeras revoltas, retorna à África para honrar a memória do seu rei, morto no esquecimento, para um país que o tornara estrangeiro.”

Parece certo, mas leia esta outra resenha sucedânea:

“Kangni Alem nasceu em Lomé, capital do Togo, África, em 1966. Possui PhD em Francês e Literatura Africana e Francesa na Universidade de Bordoaux. Romancista e dramaturgo, já publicou mais de dez livros. É professor de Teatro e Literatura Comparada na Universidade de Lomé (Togo).

Seu trabalho explora a memória política e histórica da África em temas como escravidão, ditadura e questões culturais e raciais. Um de seus livros mais importantes é Escravos, lançado no Brasil pela Editora Pallas em 2011, que narra a saga de um rei chamado Adandozan, do próspero reino de Daomé, que é traído pelo irmão e vendido como escravo ao Brasil; depois de participar da Revolta dos Malês, converte-se ao Islã e retorna à África, para um país que o tornara estrangeiro.

O percurso deste personagem é emblemático como de toda uma população de “Afro-brasileiros” que se estabeleceu no século 19 ao longo da costa do Golfo da Guiné (África Ocidental), vinda do Brasil, especialmente de Salvador, Bahia. “Escravos” é uma contraversão romanceada de “O Vice-Rei de Uidá”, do inglês Bruce Chatwin, que a partir dos mesmos fatos tidos como históricos, a partir do resgate documental de Pierre Verger, pinta Adandozan como um traidor cruel e louco. As razões de Kangni Alem para a nova visão sobre o real monarca Adandozan serão expostas na Flica 2012.”

( FLICA, Feira Literária de Cachoeira, Bahia – 2012)

Ui!! Crioulo Doido até se desendoidece nesta hora.

É por estas e outras que o Titio sempre recomenda muita calma nesta hora. É que em muitos casos, como este do romance de Kangni Alem – graças a Deus um togolês – baseado em incidentes históricos africanos a nós brasileiros relacionados diretamente, as resenhas brasileiras (pelo menos as que tivemos a oportunidade de ler sobre o assunto) pelas mesmas razões aludidas acima, podem nos levar a conclusões bem estapafúrdias.

A maioria destas distorções recorrentes – tirando esta mosca incrível comida pelo pessoal da FLICA baiana – diz respeito aos panos quentes com que historiadores em geral – e próceres do movimento negro em especial – só como exemplo, tentam ocultar as práticas escravistas dos reis do Daomé deste período. Assim, a associação comercial francamente escravista firmada entre Ghezo (irmão de Adandozan) e o mega mercador de gente Xaxá de Ajudá, – prática ademais usual entre todos os reis do Daomé no período (e isto sem falar nos de outros reinos africanos) – acaba atenuada, velada para dar lugar a uma nobreza africana idealizada. Não é, pelo que parece o caso de Kangni Alem, felizmente. Vejam o que diz uma outra resenha brasileira sobre o seu livro:

“O livro conta a história de um mestre dos rituais Vaudoun (babalorixá) e do rei de Abomey (Adandozan), que foi traído e depois vendido em 1818 a um negociante inglês que o enviou ao Brasil e retorna a sua terra natal em 1836 como muçulmano. Tendo se convertido durante a revolta dos Males, em Salvador (1835), participou dela ativamente como um dos líderes. Adandozan mudou pelo menos três vezes de nome… “

(Biblio França, o portal do livro francês )

 Para começar, o termo ‘babalorixá‘, de origem claramente yorubana nada tem a ver com o nome dos sacerdotes de vudu que se chamam hoje no Haiti hougan‘ (homens) e ‘mambo‘ (mulheres) e ‘vudunce‘ no Maranhão, Brasil. Lógico que é mais pertinente se considerar que estes termos atuais devem guardar alguma semelhança com suas origens etimológicas no Daomé (Benin).

Em segundo lugar, ao contrário do que o texto desta resenha parece confusamente nos indicar, o rei Adandozam jamais foi ‘traído’, exatamente, como um heroi bíblico. Na verdade ele foi deposto por seu irmão Ghezo e, pelo que ficou registrado pela história oficial do Benin (escrita a princípio pelos colonizadores e seus aliados locais), era um “crápula sórdido e sanguinário”, estigmas que Kangni Alem tenta agora apagar ou melhor esclarecer em seu romance.

O erro mais grave desta resenha brasileira é, pois, confundir a história fictícia do personagem ‘Miguel‘ (o mestre de vudu, suposto discípulo de Adandozam na história, que é quem seria efetivamente vendido como escravo para o Brasil e aqui se converte ao islamismo) com o Rei Adandozam, cujo paradeiro real, depois de deposto não foi, de modo algum o Brasil.

Como tivemos a oportunidade de ressaltar num post recente, aqui mesmo no blog (veja no link: Xaxá de Ajudá e a mancha branca da nossa escravidão) até mesmo as sórdidas atividades escravistas de Xaxá são muitas vezes minimizadas nos livros, existindo até versões de sua suposta biografia que circularam nos anos 1970, afirmando que ele teria sido um “promissor e pioneiro comerciante’… mulato empreendedor, quase um negro heroico e pitoresco vice rei do Daomé.

Tudo falso. Xaxá era tecnicamente um português branco, apenas nascido no Brasil (supostamente filho ou neto de uma índia com um português poderoso funcionário do Forte de São Jorge de El Mina, grande entreposto comercial lusitano na Costa ocidental africana), ambos cruéis traficantes de milhões de almas para o Brasil e para as Américas em geral na virada do século 18 para o 19.

Existem sim uma série de incidentes, supostamente ocorridos no Brasil relacionados à história do Daomé/Benin. O mais célebre é aquele que se refere a introdução do culto do Vudu daomeano no Maranhão, atribuída a uma espécie rainha do Daomé, a suposta deusa e sacerdotisa do vudu maranhense Nã Angotimé que existiu sim, pois foi a madrasta de Adandozan (teria sido deportada por ele como escrava para o Brasil) ele, Adondozam personagem real que sustenta a trama dos dramas de “Aluna“, imaginado personagem do livro “Escravos” do togolês Kangni.

A tese sobre Nã Angotimé, como se sabe é do insuspeito Pierre Verger, mas me parece algo fantasioso que uma figura proeminente da família real de um reino tão poderoso e importante na conjuntura política do colonialismo do início do século 19, fosse deportada para cá e nunca encontrada, ainda mais se tivesse sido ela, realmente uma importante líder religiosa por aqui, residindo num sítio tão minúsculo como devia ser São Luís do Maranhão da época, onde poderia ser facilmente encontrada.

Adandozam foi efetivamente deposto logo depois por seu irmão Ghezo, com a ajuda do seu sócio escravista Francisco Félix de Souza, o Xaxá de Ajudá, que assume funções de eminência no poder do reino por conta, exatamente deste seu favor inestimável, se transformando então no maior traficantes de escravos de seu tempo.

“..Adandozan também é retratado como incompetente – como comandante e guerreiro – e como um traidor da família real, pois teria vendido sua madrasta, a rainha Nã Agontimé, aos traficantes de escravos. Gakpe, que já havia fingido problemas mentais para evitar atrair a atenção do irmão, fugiu para o exílio. Pesquisas realizadas por Pierre Verger sugerem que Nã Agontimé teria sido enviada como escrava a São Luís do Maranhão – onde foi renomeada como Maria Jesuína – e seria a fundadora da célebre Casa das Minas . “ (fonte Wikipedia)

A mais promissora referencia histórica que se pode encontrar na obra referencial de Kangni Alem, no entanto são as candentes evidências de que, como o Titio tanto insistiu na hoje popular série (“Revolta dos Malês. João José Reis e a Historiografia…”) a Revolta dos Malês pode ter sido mesmo, não uma mera revolta de escravos africanos nagôs ‘heroicos e superiores‘ (como afirmou enfaticamente em seu livro o historiador JJ Reis e como afirma também a maioria seus pares), mas sim um braço americano de uma Jihad islâmica que mobilizou muçulmanos – inclusive escravos, mas não somente, nem preferencialmente  – sacudindo a ordem constituída de muitos países que haviam trazido muçulmanos para seu território.

“Eu não disse? Eu não disse? Eu não disse?”

Este trecho da obra de Kangni Alem que pinço aqui exultante, em sendo uma tese abalizada de um historiador africano de alto nível acadêmico, parece que desmonta fragorosamente as teses toscas de João José Reis e seus seguidores.

Página 247 do livro "Escravos" do toglôs Kangni Alem

  Página do livro “Escravos” do togolês Kangni Alem, 2011.

Cismado que só eu, analisando com lupa estas páginas tão elucidativas, achei curioso demais também a meticulosa estratificação eugenista descrita na suposta lista de ‘infiéis‘ a serem dizimados pelos jihadistas da Bahia. Preciso ler “Escravos” no original para saber se esta meticulosidade (ipsis leteris a mesma estratificação adotada por JJ Reis e Nina Rodrigues) foi resultado da pesquisa do próprio Kangni Alem (que, eventualmente pode ter lido JJ Reis) ou se foi introduzida aí pelos tradutores ou resenhistas distraídos.

De todo modo acho bastante improvável que líderes religiosos islâmicos no século 19 fossem se valer dos princípios claramente racistas que caracterizam a lista. Não nos parece condizente com a doutrina islâmica tal qual a conhecemos hoje e os princípios do conceito ‘Guerra Santa“. Mais provável que a intenção dos Jihadistas fosse assassinar TODOS os infiéis, todos aqueles, brancos ou não que não seguissem o Islã.  Consideremos fortemente inclusive que no amplo contexto destes muçulmanos devia haver até uma considerável parcela de pessoas ‘árabes‘, ou mestiças com árabes, e outros povos do norte da África de perfil fenotípico não exatamente negróide, ou seja nunca um recorte racial assim tão radical como JJ Reis e seus pares asseveram. É o que sugere este trecho do livro de Alem:

  Página do livro "Escravos" do togolês Kangni Alem, 2011.

Viram só? Um dos mais ativos militantes da causa jihadista, denominado Félix Santana, pai de um dos presos na refrega é um aristocrata… mulato? É. Parece que o veneno de JJ Reis andou ciscando no livro de Alem também, pelo menos como referencia para a tradução, gerando mais este ruído conceitual aí. Kangni Alem como se pode ver neste personagem, contudo não mordeu a isca eugenista aí não.

Desculpem o Titio. É que pulgas nas orelhas ardem.

Amante inveterado das entrelinhas, chamo a atenção de vocês também para um fato não menos candente desta eletrizante resenha. Reflitam com o Tio: Se ‘Miguel‘ o personagem discípulo de Adandozam, como diz uma das resenhas que li, se converte ao islamismo já aqui na Bahia, pode-se supor então que não era assim tão relevante a população jêje vinda já islamizada da África no período e – o que é mais importante ainda –  nem muita extensa, por outro lado a participação de gente do Daomé na Revolta. Teria havido aqui no Brasil, portanto um bem sucedido – e subversivo – processo de disseminação da crença muçulmana por parte de sacerdotes maometanos nagôs, fenômeno que muda muita coisa no quadro da formação das religiões afro negras no Brasil.

Por esta hipótese, a tão propalada associação religiosa entre os jêjes e nagôs (ou ‘ewe’ e ‘yoruba’), um dos pilares do mito da supremacia nagô, seria muito mais uma associação étnica assentada ideologicamente no Islamismo e, portanto bem anterior à própria invenção do Candomblé. As supostas premissas da tal ‘pureza negro africana’ destes ‘africanos seminais‘ (na tese eugenista de JJ Reis e outros), como o Titio sempre sugeriu, poderia estar ligada a uma espécie de ‘islamismo enrustido’, camuflado, do qual o Candomblé seria uma espécie de aculturação e nunca uma ‘purificação’, de resto tão improvável.

De fato, mesmo do ponto de vista destes eugenistas toscos, etnicamente esta aculturação evidente (que pode ser vista em certos detalhes sutis dos rituais do chamado ‘Culto aos Orixás’ da Bahia) seria tão ‘impura’ quanto o subestimado e vilipendiado (pelo nagôs e seus acólitos mais radicais) Afro catolicismo dos bantu.

A se conferir, pois este será o mote de um próximo post aqui do blog.

Olhos atentos e orelha em pé. E tomem mais entrelinhas:

…O percurso deste mestre de rituais (‘Miguel’, nota minha) é emblemático como de toda uma população de “Afro-brasileiros” que se estabeleceu no século 19 ao longo da costa do Golfo da Guiné (África Ocidental), vinda do Brasil, especialmente de Salvador, Bahia.”

Esta ponta aí de cima de nossa história então, tem mais e mais panos quentes (para mangas frias). Em verdade vos digo que existem evidências bem fortes de que esta “população de afro brasileiros que se estabeleceu no século 19 no Golfo da Guiné” – em sua maioria pessoas dignas, diga-se de passagem – abrigou no entanto, infelizmente um número considerável de comerciantes negros muito ricos, há muito tempo libertos, alguns deles ligados intimamente ao comercio e a indústria colonialista em África (em Lagos, Nigéria, principalmente) para as Américas, instancias colonialistas estas que utilizavam, francamente – e sem nenhum pudor ou solidariedade étnica ou racial – o braço escravo.

“…Elite profissional e política…” Diz e escreve uma destas resenhas brasileiras, se esquecendo das linhas tortas.

Verdade seja dita: Aliás, alguns destes pretos ricos estavam mesmo dedicados, visceralmente ao tráfico de escravos nos anos finais do degradante comércio, principalmente àquele tráfico clandestino do Porto de Benguela para o Rio de Janeiro, a quem as pedras do Porto do Valongo tanto evocam. As pulgas cochicham nas minhas orelhas que as raízes mais profundas deste ‘elitismo negro’ que se aferra ferozmente a manutenção do “Mito da supremacia nagô” está fincada aí neste passado de velhas chagas que ninguém quer tocar, como uma bandeira espúria que tremula no céu do racismo brasileiro até hoje.

                                 Página do livro “Escravos” do toglôs Kangni Alem, 2011.

Mas isto já é outra conversa que nada tem a ver com as calças do jihadista Miguel, do Benin.

Pontas soltas, páginas arrancadas ou borradas de nossa história que podem preencher lacunas doídas, como esta de explicar como se montou, esta capa de interesseira – e racista – historiologia sobre o negro do Brasil, são estas perguntas que não querem calar. Vale a pena cavucar a própria carne? Dói, mas acho que sim.

Vivo repetindo aqui: A verdade – mesmo que sendo apenas esta, ainda suposta-  é o que nos liberta. Quem não achar isto que se dane no inferno das mentiras descabidas.

————–

O que sei mesmo é que vou correndo comprar o livro do Kangni Alem. Se a resenha de umas poucas páginas dele rendeu estas pérolas ambíguas que, praticamente desmontam de vez o núcleo das teses crioulodoidas de um João José Reis sobre a Revolta dos Malês, por exemplo (dando foros de pertinência histórica às ligeiras teses do Titio…uhhú!), imaginem o resto contido em suas muitas entrelinhas, como esta aqui:

  Página do livro "Escravos" do togolês Kangni Alem, 2011.

Página do livro “Escravos” do togolês Kangni Alem, 2011.

Bebam sempre na fonte, lá bem junto à nascente onde a água é limpa. Não confiem totalmente nos genéricos. Façam como Tio e demonstrem, sempre que puderem e em tudo na vida, o cansaço e o desejo de não serem nunca mais enganados.

Ah…e com uma abraço forte na amiga facebuquiana e colaboradora assídua do blog, a  Bete Sg que mais uma vez, com precisão cirúrgica me cantou mais esta pedra, colaborando com todos os dados (as páginas soltas desta resenha) que o Titio precisou para mais esta rápida abordagem inchirida.

E é assim, cansado se ser enganado e levantando as ventas, que o Titio subescreve-se, atenciosamente:

Spírito Santo

Outubro 2012

O ‘E.Titio’ e o direito autoral na Internet: Sentado a beira do caminho o que cair na rede é peixe.


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Sabe o que estou achando, sem falsa modéstia?

É que sem querer descobri – mas sei que não inventei – e estou usando, intuitivamente por aqui uma forma de escrever baseada nos relacionamentos na Internet que está sendo bem moderna, inovadora para o caso de textos mais densos e longos (inovadora em termos, porque é bem sucedânea da crônica jornalística que é tão velha quanto a imprensa).

Talvez esta forma – que já está se tornando bem comum por aí, todo mundo pode observar – substitua o papel que os livros convencionais estão perdendo. Tem também esta coisa literária, do tom escorregadio, coloquial e professoral ao mesmo tempo, que me esforço por utilizar, deliberadamente, desde que comecei a escrever as primeiras linhas da vida, mas que não sabia que ia ter tanto sucesso justamente no futuro, como linguagem ‘de internet‘.

É que cada mídia tem lá as suas formas e arranjos para ser linguagem pertinente e objetiva. Quem gosta de beletrismo é museu. No início eu não conseguia revisar um texto escrito no computador sem antes lê-lo impresso em papel. Os erros me escapavam na tela. Hoje nem tinta de impressora compro mais.

Pois é. Qualquer um de nós tem lá os seus bloqueios e inseguranças diante do novo, ainda mais os mais velhos como o Tio. Tenho percebido por exemplo, que os doutores – alguns meus amigos até, entre os mais convencionais e acadêmicos – comem muita mosca em suas pesquisas e ficam defasados porque não aprenderam ainda a ter desapego pelos seus saberes supostamente doutorais (além de uma certa empáfia e arrogância um tanto arcaicas e fora de lugar) e por não saberem também, por conta de seu aristocracismo relutante, pesquisar em sites de busca na Internet, no Google, por exemplo que, impressionantemente, guarda rigorosamente quase tudo que se quer saber sobre o que quer que seja.

Basta ter foco, perspicácia e paciência. Dia destes ouvi a festejada acadêmica Heloísa Buarque de Holanda, autocriticando-se, falando exatamente isto num seminário na UFRJ.

Ao contrário do que se imaginava há bem pouco tempo, Lê-se muito na Internet hoje em dia. Tanto que até a forma do e.book decantada como o supra sumo do futuro literário na rede, anda patinando em muitos lugares, como no Brasil por exemplo. As pessoas lêem coisas densas e longas sim na Internet, mas não necessariamente querem pagar diretamente por isto (na verdade como demonstrarei mais abaixo, elas estão certas porque JÁ PAGAM por isto, mesmo sem perceber)

Tem gente que detesta o modo como o Titio escreve, paciência. Já me externaram isto alguns leitores mais afoitos, mas até a ojeriza destes desafetos quando expressa, me ajuda porque dá ao Titio uma certa aura de transgressor, rebelde sem causa, que acho exagerada e imerecida, mas que – cá entre nós – me rende um ibope até muito bem vindo, além de me ajudar muito a afiar melhor as minhas lâminas verbais. Só falta agora descobrir como ganhar uns trocados com isto, já que boa parte do sucesso está ligada ao fato de serem conteúdos gratuitos.

Eu já andei olhando estas coisas de saber como ser remunerado pelo que escrevo, claro. Não sou nem bom nem mau samaritano, mas acho que o sistema ainda é antipático para os leitores. Na verdade eu acho que não se esclareceu ainda esta questão da remuneração de conteúdos na internet. Acho que quem tem que pagar não são os leitores, mais os sites que hospedam os conteúdos os quais, ganham os tubos com os anúncios que veiculam atrelados aos conteúdos publicados… às nossas custas.

Devem pagar também – e uma parte bem maior que os sites – os fabricantes de hardware, pois, segundo propus num post aí (Tá na Rede ou Tá Frito!), tempos atrás, o que rende direito autoral, o que vende enfim não é a ideia do autor, o seu conto, sua reportagem, seu romance, o seu post, a sua música o que quer que seja, mas sim a MÍDIA FÍSICA na qual esta ideia está impressa.

Não fui compreendido ainda porque o problema é bem novo e sutil, mas a mídia física, aquilo que retém a ideia do autor e é vendido, no caso da Internet são os computadores, os tablets, os smartphones, etc, os ‘tocadores de mídias‘ (os ‘players’, como disse no outro post) por suposto.

No mundo nada se cria, tudo se copia. Quem não sabe disto ainda precisa refletir. Teria que ser, exatamente como eram remunerados os conteúdos (os autores, artistas, etc.) no tempo do Rádio e mesmo da Televisão: Os anunciantes pagavam as emissoras (‘retransmissoras de conteúdos’) que, por sua vez remuneravam os autores, artistas, etc.

Quem não se lembra dos anúncios da “Tonelux” (uma espécie de Casas Bahia) ou do programa ‘Noite de Gala’ patrocinado pelas lojas ‘Rei da Voz” de Abraão Medina, que como a Tonelux vendia vitrolas e televisores nos idos dos anos 1960? Fica a lembrança de que estes patrocinadores promoviam os seus programas de TV e Rádio com intuito inicial de vender seus aparelhos, seus ‘players‘, exatamente com a Aple e a Microsoft vendem os seus, mas só que estes últimos, espertinhos que são, acharam por bem, até agora, não remunerar um centavo que seja, nem aos sites hospedeiros e nem tampouco aos artistas, aos criadores que abastecem estes sites e a sua rede de conteúdos.

(E nem me venham questionar dizendo que o que a maioria dos conteúdos que circula na rede é lixo porque, até isto é comum a todas as mídias de massa, como é o caso flagrante da Internet) . Afinal, pensando bem, o sistema de arrecadação de direitos autorais na Internet seria até muito mais eficiente e justo porque seria, rigorosamente automático: Um clique, um ponto a ser remunerado. Lógico que se isto passou no tempo do Rádio e por certo, passará nos nossos tempos também.

Descartes e o Macaco estão certos.

Penso que está todo mundo comendo mosca nisto aí ainda porque ninguém levou esta hipótese da fonte dos direitos autorais ser o fabricante de hardware à sério, por conta do aturdimento que estas novas mídias trouxeram, neste tudo em um que o computador acabou virando.

Mas ando otimista. Acho que os pioneiros mais ‘cri cris’, os chatos de galocha, serão recompensados (na verdade já estão). Além disso, vamos combinar, se o Titio fosse enumerar quantos ganhos indiretos teve, relacionados a sua atuação e projeção comentando, postando e escrevendo sobre o que lhe dá na telha na Internet

Tratando só de leve neste assunto em meu livro ‘Do Samba ao Funk do Jorjão, chamei a atenção dos leitores sobre o fato de que o conceito “Direito Autoral’ (no caso da música, em especial), simplesmente inexistia antes do início do século 20 (antes do disco e do rádio). “Compositor‘ (de música popular) era uma figura absolutamente irrelevante na cultura de massa. De pouco valia ter composto uma canção. Ganhava-se ninharia.

Qualquer um que saiba da história dos maiores mestres do ‘Blues‘, por exemplo sabe que eles ganhavam trocados, moedas por suas criações, logo depois tornadas milionárias para os primeiros empresários de disco, sabichões do tipo dos Jobs e Gates da vida deste nosso ambíguo dia a dia.

Não pregue pregue sem estopa. Fique certo de que este imbróglio dos direitos autorais ma Internet mais cedo ou mais tarde se resolverá. Só espero estar vivo nesta hora para poder gastar a bufunfa, nem que seja com remédios.

Spírito Santo

Outubro 2012

Historiografia malsã em xeque. A defesa de João José Reis


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Tem gente que duvida e fica ali sentado no trono, esperando a hora da criadagem servir o banquete.

Mas creiam: mais cedo ou mais tarde a fila anda. A Bastilha às vezes está desmoronando logo ali, na esquina, onde e quando a nobreza, menos espera.

A série de posts a que este debate abaixo se refere, é um evento mais do que emblemático do quanto – como o sangue de Cristo que tem poder – a Internet pode mexer com o mundo real para movê-lo de lugar e revolucioná-lo.

Texto ‘metedor de bedelho onde não foi chamado’, daqueles que o Titio adora produzir, a série Revolta dos Malês e João José Reis. A historiografia que não sai do corpo que não lhe pertence– quem diria -acabou virando uma bem sucedida – e bombada – provocação à Academia, pois se propõe a fazer uma crítica a mais profunda e abalizada possível – nos limites dos textos ligeiros para a Internet – de um trabalho acadêmico clássico, considerado aqui pelo Tio um equivocado e capcioso exercício de disseminação do racismo residual de nossa academia.

Não curti e pronto, resenhei minha crítica. “Rebelião escrava no Brasil” (sobre a Revolta dos Malês) de João José Reis faz, compulsoriamente a cabeça de 10 entre 10 alunos de pós graduação em História do Brasil. Sabem lá o que é isto? A mim bastou me sentir afrontado com algumas partes do texto, instigado a debater e a querer encarar uma pendenga. Pronto.

Observem que a expressão ‘texto acadêmico‘, aquele escrito de um autor incensado e admirado por seus pares, que se torna um clássico, objeto de discussão em classe, por conta de ter sido eleito como referencia obrigatória em cursos de pós graduação e/ou doutorado (caso evidente de João José Reis) não deveria ser atribuída aos textos como os do Titio, não mais que um leigo abusado e assumido “Nativo fora do lugar”. Mas não é que é isto mesmo que o que texto está sendo, assim na prática, considerado?

Os professores doutores pira!

E aí está o xis da questão. Os alicerces da torre de marfim, carcomidos em alguns pontos podem ser movidos sim com uma balançadinha de leve que seja. Água mole em pedra dura…

Pois não é exatamente isto – pasmem vocês – que professora doutora da Universidade Camilo Castelo Branco (UniCastelo/São Paulo) Fábia Barbosa Ribeiro acaba de confirmar, por força sabe-se lá de que urgente solicitação (presumo que de alunos seus de pós graduação) elevando o texto do Tio a um legítimo texto ‘acadêmico‘ a ser debatido em sala de aula (e com direito à réplica da própria professora doutora, o que me deixou extremamente honrado).

Sério.

Uhhù! Cadê a minha beca preta? Cadê o paraninfo, o baile? Cadê a minha bolsa do CNPQ?

O fato é que Titio agora tipo que ‘pós graduado’ – sem nunca nem graduado ter sido – acha muito incrível ter adquirido este inusitado status de referencia (mesmo assim, subversivamente como lhe apetece).

Sei muito bem que o título de referencia fortuita, se deve exclusivamente ao fato da referida série de posts, contendo críticas ácidas à historiografia eventualmente racista de João José Reis, estar sendo lida, num fluxo espantoso e crescente de leitores, exponencialmente, por força de um movimento totalmente espontâneo, tocado por milhares – sim, alguns poucos, mas milhares sim! – de leitores, a maioria deles, presumo, jovens alunos e alunas, negros e negras, dos inúmeros cursos de pós graduação em História hoje espalhados por este Brasil.

É portanto com a minha malinha preta de rodinhas bem acondicionada no guarda volumes deste aeroporto virtual que é a Internet – o Campus de mim mesmo – como é do meu feitio não fugindo às minhas obrigações para – ou proto – acadêmicas (e o apreço pelo leitor freguês, enfim exercitado em primeiro lugar) que faço aqui a tréplica da crítica que recebi da professora Fábia Barbosa Ribeiro à minha diatribe, deixando as supostas verdades de uns ou de outros voando aí ao léu, João José Reis e Eu, navegando na democrática e promissora Grande Rede de todos nós.

Faço a tréplica como de praxe em partes (como o Jack), comentando ponto por ponto, cascudo por cascudo revidando de leve, como cavalheiro que sou. É assim que tentando arranhar a Torre de Marfim da academia à cabongadas e empurrões francos que vou (com todo respeito) em frente. Permitam-me apenas gritar mais um…Uhhù!

_Uhhù!

(Onde ela viu o chamado ao duelo, veja bem quem tirou primeiro a luva)

J J Reis esbofeteando a Dona ‘Verdade dos fatos e Silva’ ´defendido por Fábia Barbosa Ribeiro.

Com relação ao texto apresentado no blog (Spirito Santo.wordpress.com) , este apresenta uma visão particular da obra “Rebelião escrava no Brasil”, de João José Reis, editada no ano de 1986, que retrata a conhecida revolta dos Malês na Bahia no ano de 1835. O texto do blog me parece estabelecer um duelo entre bantus e nagôs, denunciando a excessiva elevação dos nagôs na Bahia por parte de JJ. Reis em detrimento dos bantus especificamente dos chamados angolas. Não devemos esquecer que nem angolas e muito menos nem nagôs, são identidades étnicas pré-existentes em território africano, a primeira seria uma identidade diaspórica, ou segundo Mariza Soares, de procedência, pois criada no contexto do tráfico de escravos, denominação oriunda da colônia portuguesa estabelecida em Luanda, e referência direta ao cargo de comando do “N’gola a kiluanje”. Já o termo nagô, segundo Luis Nicolau Parés seria uma identidade meta étnica, que se disseminou no Brasil também no contexto da diáspora.

(Professora doutora Fábia Barbosa Ribeiro)

Alto lá que vem aí a Pílula comentada número um:

A professora se equivoca redondamente.

Podem ler lá. O texto do meu blog não estabelece, de modo algum um ‘duelo‘ entre bantu e nagô, absolutamente. Quem estabelece este embate, no ensejo claro de firmar uma hierarquia entre os nagô e os bantu é o autor JJ Reis. Os termos da crítica que faço a esta exacerbação de JJ Reis neste sentido, carecia de elementos que a atestassem, e foi o que eu tentei fazer em atenção aos leitores leigos (ou mesmo ainda estudantes) que não costumam ler as entrelinhas (muitas vezes omitidas por orientadores de teses politicamente mais perspicazes)

O meu texto é, pois que afirma: João José Reis propõe uma dicotomia mais que impertinente, abjeta entre negros assim e negros assados, induzindo os leitores a julgar os ‘Nagôs-jêjes’ superiores aos ‘bantus- crioulos’

A professora se equivoca de novo quando se refere ao uso que eu, supostamente teria feito da expressão ‘angolas‘. Ora, como afirmo claramente no meu texto, quem utiliza esta classificação superada de ‘angolas” é o professor JJ Reis. Só utilizo a expressão raramente e assim mesmo apenas para pontuar o equívoco dele, JJ Reis. Podem ir lá no blog conferir.

Na verdade dou real ênfase às expressões ‘bakongo‘,  ‘ovimbundo‘, ‘kimbundo‘ etc. termos etnológicos mais pertinentes ao caso, chegando a criticar, literalmente a imprecisão da terminologia etnológica usada por JJ Reis (‘bantus’, ‘sudaneses’, ‘angolas’, ‘nagôs’), acentuando que ela é tributária da arcaica definição de Nina Rodrigues, válida apenas para o século 19 ou o iniciozinho do 20.

O equívoco da professora neste caso me parece mais grave ainda porque esta questão é central em minhas colocações e está claramente expressa em meu texto, tornando as afirmações da professora algo distorcidas e improcedentes.

Há, portanto imprecisões importantes nas colocações da professora doutora quando, citando segundo a afirma, Mariza Soares, se reporta à denominação ‘angola‘. Observe-se que ‘ngola‘ é, com toda certeza um termo toponímico (que designa, de algum modo um local associado a um grupo étnico) um reino da região compreendida por Luanda e o seu interior, as pedras negras de Npungo Ndongo como sede, desde sempre, pelo menos desde antes do século 15, antes mesmo dos portugueses portanto, segundo se pode observar em inúmeras fontes da época.

O termo ‘Ngola‘ acabou gerando a atribuição nobiliárquica ‘Mwene e ngola‘ (supremo mandatário da Ngola). Reparem que o mesmo ocorreu com o Kongo (o reino) cujo supremo mandatário na mesma época se chamava “Mwene e Kongo” (“manicongo” para os portugueses). A língua, mais ou menos comum por esta época na região referida era o kimbundo, originário do kikongo ancestral, do tempo de Diogo Cão, século 15. É por intermédio desta etimologia que se pode construir um conceito menos simplista da questão.

A expressão “Angolas” não é, por isso mesmo equivocada em sua origem, porque neste caso ela é apenas imprecisa (e por culpa de imprecisões, exatamente…historiológicas).

Como já se sabia desde os tempos de Nina Rodrigues, eram embarcados em Luanda escravos de outras procedências (‘cambindas‘, ‘monjolos‘, ‘nkangelas‘, ‘kissamas‘, etc) além dos oriundos da área regida por ‘Ngola’ Kiluange (pai da Rainha Jinga, sua legítima sucessora).

É óbvio, portanto que o termo ‘angolas‘ se referia a escravos oriundos de uma região determinada sim, tornada imprecisa, como disse acima, pela má leitura feita dos dados comerciais do tráfico de escravos contidos nos diários dos navios e dos livros de embarque nos portos de Luanda e desembarque do Brasil (o porto do Rio de Janeiro, principalmente) por parte de estudiosos como o acima referido Nina Rodrigues, que fez leituras algo requentadas de outros autores como Ladislau Latalha, e Alfredo Ellis, por exemplo.

É bom se frisar também que o nome pelo qual são conhecidas as figuras históricas desta região, não são nomes próprios, exatamente. ‘Jinga‘ por exemplo (“Nzinga‘) a afamada rainha, se refere uma dinastia remota, um ramo genético do qual ela era descendente direta, assim como ‘Kiluange‘ (seu pai) que se refere, ao que parece ao fato deste rei ter pertencido a uma estirpe de exímios caçadores (‘kilwange‘ na língua local, presumo). Há pois uma série de reis ‘Mwene’ Ngolas’ com este título na história da região (e até mesmo no Brasil, pois há um quilombola chamado ‘Kiluange‘ na crônica final do Kilombo de Palmares pós Zumbi).

Estas informações assim rapidamente expressas, as quais considero mais alentadas, obtidas sem grande dificuldade por aí (algumas em longas, embora simples zapeadas no Google) vindas de um leigo como o Titio podem atestar muito bem o quanto anda patinando em velharias metodológicas a historiografia acadêmica do Brasil, isto sem mais falar das rateadas ideológicas, representadas em seu renitente e aqui sobejamente comentado (data vênia e com todo respeito) racismo.

E mais: Tem a pílula comentada dois:

“Não consigo enxergar na obra de Reis “o forte teor eugenista com o rabo de fora enrustido”, apontado no blog, sobretudo quando menciona a polarização entre crioulos e africanos ou mesmo entre “bantus” e ‘nagôs”. O que me parece é que João José Reis deseja realmente em sua obra, a qual não esqueçamos data de 26 anos atrás, ressaltar as qualidades dos africanos durante a revolta dos Malês, destacando talvez excessivamente seus atributos étnicos, a sua suposta “africanidade”, como a herança nas artes da guerra.

Não consigo enxergar conotações racistas, etno geneticistas”, mesmo porque as teorias raciais dizem respeito a uma hierarquização baseada na “cor de pele”, uma discussão que a meu ver nem poderia ser colocada junto ao debate sobre identidades étnicas no Brasil do período colonial e imperial (tema muito mais complexo do que pode parecer), uma vez que são todos negros, os crioulos e os africanos.”

                            (Professora doutora Fábia Barbosa Ribeiro)

—————–

Mais equívocos, infelizmente. O eugenismo na obra de JJ Reis aparece óbvio em seu texto. Só não vê quem não quer. E vejam que incrível! Esta minha afirmação, contida que está no enunciado desta mesma questão aludida pela professora, está sendo atestada e negada por ela neste mesmo enunciado: Ela diz: “A polarização entre crioulos e africanos” (no olhar de JJ Reis).

“_Cuma?”

Não é curioso a professora doutora afirmar não ver exatamente o que refere – e portanto viu – logo a seguir? O que seria esta…“polarização‘ exagerada observada por ela no caso, forçada de diversos maneiras por JJ Reis, senão um expediente de sua argumentação para afirmar a suposta inferioridade…genética de uns (os crioulos e os bantu) em relação aos outros (os ‘africanos e os ‘nagôs-jêjes)?

Um recorte eugenista, ora pois pois! Claramente caracterizado pela expressão ‘crioulo‘ que tem sim, pelo menos no contexto em que JJ Reis a coloca em seu discurso, este sentido cabal de ‘mestiço‘, por extensão ser humano ‘impuro‘. Ora, se o ‘africano’ é incensado como o supra suma da raça negra, o ‘crioulo‘ é o ‘sub sumo’, ora. Que outra conclusão se poderia tirar desta dicotomia?

Cansa repetir, mas o texto do meu blog enumera diversas imprecisões em ‘barras forçadas‘ na argumentação de JJ Reis, entre as quais se destaca a incrível – e que me pareceu deliberada – omissão ou subestimação da maciça presença de africanos bantu no Recôncavo baiano.

É típico: no pensamento torto de JJ Reis: Apenas os nagôs e jêjes e assemelhados (vizinhos em África) merecem o qualificativo ‘africanos‘, com ênfase, como status de superioridade cultural e…por extensão, na falta de explicações mais aprofundadas da parte do autor, proeminência, superioridade…genética.

Óbvio está que a presença de africanos não nagôs no âmbito da Salvador da época da Revolta dos Malês desmontaria a tese da suposta ‘Pureza Nagô’ claramente aludida e ventilada pelo autor (e os africanos bantu chegavam no Brasil aos borbotões neste período) Talvez seja por esta razão que esta africanidade evidente dos milhares de bantu que chegavam à cidade entre 1805 e 1835 (período abordado por JJ Reis) e eram espalhados pelo Recôncavo (e em Salvador) não seja devidamente considerada pelo historiador.

(Aliás, reparem só: Os estudos sobre a cultura negra do Recôncavo baiano são, até hoje, inusitadamente rarefeitos.)

Como pode a professora doutora não ver nesta afirmada ‘polarização‘ tão eufemística, de trato claramente etno racial (“crioulos versus africanos, Nagôs versus bantu) uma classificação de ‘forte teor eugenista? Será que ela não viu, simplesmente porque não quis ver?

Quando afirma “Não consigo enxergar conotações racistas, etno geneticistas, mesmo porque as teorias raciais dizem respeito a uma hierarquização baseada na “cor de pele” bem se vê que a professora doutora simplifica uma questão de enorme complexidade.

Se esquece sobretudo que no contexto histórico do fim do século 19 (numa referencia à Nina Rodrigues em que as teses de JJ Reis se assentam fortemente) as teorias racistas eram baseadas em princípios bem mais ‘profundos‘ e radicais (afinal, só como exemplo, diga-se que estes conceitos usados por Nina – e JJ Reis – são a base ideológica que configurou na Europa colonialista as ideias nazistas emergentes na década de 1930). Óbvio está que a mera ‘diferença de cor da pele’ é um parâmetro utilizado apenas hoje em dia.

Aliás, mesmo se considerássemos este parâmetro dos dias atuais, se poderia constatar facilmente que o conceito simplista da ‘diferença apenas da cor da pele’ não procede totalmente. Nunca procedeu senão como tergiversação racista ou sofisma. A discussão das cotas raciais está aí mesmo para provar que esta não é uma questão que se possa tratar com uma análise apenas… grosso modo, com filtros limitados ao preto & branco, ao pau ou pedra ou ao oito ou oitenta.

Ainda assim, quando utiliza a expressão ‘etno geneticista’ já em si fora de contexto em sua contra argumentação, a professora se embanana nos outros sentidos embutidos no tema, por que só aborda o conceito parcialmente, em seu aspecto ‘genético‘ (‘racial‘), se esquecendo de que existem contornos culturais (‘étnicos‘) embutidos no racismo de JJ Reis, claramente expressos na dicotomia criada por ele entre ‘Jêje/ Nagô (culturas supostamente ‘evoluídas‘) e Bantu /Crioulo‘ (culturas pretensamente ‘atrasadas‘), instancias culturais e, portanto etnológicas do problema, que dão a ele um perfil de complexidade bem maior.

Aliás, vale ressaltar – e fiz isto veementemente no texto original do meu blog – que o parâmetro usado enrustidamente por JJ Reis para hierarquizar a superioridade dos ‘Jejes/nagôs‘ frente aos ‘bantu/crioulos”, tem como parâmetro a civilização ocidental, europeia, o ponto de vista dos ‘brancos‘, da matriz eurocêntrica como se diz, a da raça superior a todas as outras, por suposto.

É este o tal ‘rabo enrustido’ da ideologia de JJ Reis, ao qual a professora alude, com mal disfarçada ironia.

Hum…

Duvidam? Pois vão lá e leiam: É este, exatamente o conceito emitido, literalmente por Nina Rodrigues em seu livro clássico “Os Africanos no Brasil” de 1906. Nem é preciso ser historiador para se  concluir que este acabou sendo o maquiavélico parâmetro de estratificação socio racial de todas as sociedades racistas, de todos os apartheids.

A Pílula comentada três o diabo fez:

“As qualidades atribuídas aos africanos nagôs, em detrimento dos “bantus”, e ainda mais dos crioulos (destacada no blog como “reducionismo racista”), se configuram, a meu ver, muito mais em uma polarização étnico geográfica do que racial, e mais ainda, em uma visão pessoal por parte dos autores, tanto de João José Reis quanto do autor do blog, ambos defendendo suas próprias opiniões). Concordo que o acadêmico baiano se excede em sua busca por uma africanidade “legítima”, essa hoje é na verdade a grande meta da maioria dos africanistas que estudam a diáspora: “enxergar a África no Brasil”. Reginaldo Prandi, por exemplo, relativiza a permanência de práticas legitimamente africanas no Brasil (texto que encaminho em anexo), criticando sutilmente aqueles que “forçam a barra” para enxergar a África no Brasil. Há muitas visões sobre essa temática.”

Tedioso enfatizar, mas de novo as incongruências da crítica da professora se excedem. Cabe-me portanto a tarefa de definir o que é, exatamente ‘reducionismo racista”.

Permitam-me esclarecer que a expressão ‘reducionismo‘ se refere geralmente a um modo simplista, raso de se definir algo, ‘reduzindo-o’ a sua expressão mais aparente, mais evidente, o que, evidentemente turva qualquer possibilidade de análise abalizada, incompatível com o fazer acadêmico.

Bem…racismo vocês já sabem o que é, certo?

Logo “Reducionismo Racista”, na forma como formulo é a utilização de uma conceituação, deliberadamente reducionista, rasa, com fins  que falseiam a verdade – mesmo a relativa – dos fatos, no caso com intenções racistas, ou seja, classificar o ‘outro‘ como inferior a partir de premissas etnorraciais .

A dicotomia boba lançada por Nina Rodrigues – e endossada por JJ Reis – entre ‘Sudaneses‘ (um conceito geográfico, pois se refere a um grupo impreciso de povos de um região africana) e ‘Bantus” (um conceito etnolinguístico, pois, se refere a um grupo de povos com idiomas aparentados) como a professora doutora bem observou, é incompatível com as premissas mais elementares de uma metodologia que visa estudar, aprofundadamente uma questão de tanta relevância para nós todos. Mas devo ressaltar que isto não se dá pelas razões que ela alude.

É por demais evidente no livro a JJ Reis (e os 26 anos atrás em que ele foi escrito não é muito do ponto de vista historiológico, já que alguma profunda revisão poderia ter sido realizada) é evidente repito, que ele tenta criar um sucedâneo para esta imprecisão existente entre os dois conceitos (Sudaneses e Bantus). Quem leu algumas entrelinhas do seu texto, como o Titio fez, pode perceber no entanto que ele, simplesmente substituiu mecanicamente o conceito original de Nina Rodrigues (“Sudaneses e bantus”) por uma estreita dicotomia idêntica (e tão impertinente quanto a do velho mestre baiano), que é a dos “Africanos superiores aos crioulos” (no âmbito da Revolta dos Malês) e a dos “Nagô e Jêjes superiores aos angolanos ou bantu” (no âmbito geral).

Está na cara! É nítida demais a polarização criada por JJ Reis entre o grupo dos Nagôs e Jêjes (e outros povos da parte mais ao norte da África, da Costa dos escravos antiga, ‘Sudaneses‘ por suposto) e Bantus, ‘angolanos‘ (ou crioulos), como ele os identifica lá para as tantas, tratando-os – como fez Nina Rodrigues, seu guru – como o ‘resto‘, o rebotalho da ‘raça‘ africana.

É sim: Só não vê esta ‘polarização’ exacerbada quem não quer. E suas eventuais motivações ideológicas não contam? Se este tipo de classificação etno racial não tem forte conteúdo etno geneticista o que poderia ter? Não é relevante demais esclarecer estes pontos tão obscuros de nossa historiografia oficial? Se isto aí não é relevante o que seria?

A este respeito, cabe frisar – já que é a hora – insisto que é muito forte entre os historiadores acadêmicos mais tradicionais e conservadores do Brasil esta tendência a propor uma inexplicável diluição das etnicidades e dos valores culturais tradicionalmente africanos (preservando apenas valores eleitos por eles mesmos como sendo os ‘puros‘, ou seminais, os tais valores da ‘pureza nagô’ e do Candomblé apontados por JJ Reis e quase todos os seus pares).

O mais surpreendente é que, mesmo deixando tantas questões destas alegações improváveis sem explicações fundamentadas, esta tendencia predomina até agora, a ponto de figuras como JJ Reis terem, ainda hoje, defensores ferrenhos de suas ideias, em si mesmas tão metodologicamente arcaicas (e tão claramente racistas, diríamos, mais uma vez).

Montou-se todo um edifício de ideias historiologicas equivocadas, malsãs, a ponto dos jovens doutores negros que vão se formando por aí, andarem a enfatizar, replicar ideias mal alinhavadas que os degrada pessoalmente, socialmente, sem nem se darem conta da armadilha maquiavélica em que estão enredados.

O preocupante é que a posição expressa pela professora doutora a coloca exatamente no âmbito destas posições recorrentes, já consideradas bastante questionáveis por parte de historiografias estrangeiras, menos imbuídas do racismo renitente e residual que contamina ainda as Ciências Humanas do Brasil.

Todos os dados mais modernos sobre o fluxo de escravos para o Brasil, por exempo, já vão orientando os estudos recentes para uma negação quase absoluta desta diluição improvável das culturas africanas no Brasil. Há uma lógica cultural na Diáspora evidenciada pelas circunstancias todas que caracterizaram o fenômeno que é, antropologicamente bem complexo. A diluição de culturas num melê crioulo, ‘miscigenado‘ é, por isto mesmo um conceito simplista, que carece, cada vez mais, de sentido historiológico.

Não fossem já determinantes as cirunstancias geográficas destas origens e demais fatores ligados à especial logística do comércio de escravos da África para o Brasil (com seu eixo determinado – no caso do Brasil, ressalto – como estando localizado em Angola, pela maior parte do tempo), não confirmassem já estas novas linhas de pesquisa, as próprias circunstancias de prolongado isolamento cultural a que estiveram expostos os escravos aqui no Brasil, nos longos períodos de duração de cada ciclo econômico (Açúcar, Ouro/Diamantes e Café) em que estes estiverem fixados numa mesma região, o que mais se necessitaria provar?

Apenas isto, fatores inquestionáveis que são, já determinaria o forjamento – ou mesmo a manutenção, a sobrevivência – de uma cultura sucedânea, quase que totalmente tributária de suas características africanas originais.

Não é assim – diz a boa antropologia – que acontece com a cultura dos seres humanos em geral? A não ser que consideremos negros africanos seres inferiores e anormais em relação aos outros, incapazes de reter em suas memórias as marcas mais prfundas de sua experiencia cultural secular no continente africano.

É por demais evidente para mim e por todo o exposto – e isto não pode ser afirmado que não deixei claramente expresso no texto do meu blog – que há razões políticas e ideológicas muito fortes embasando o pensamento de historiadores como JJ Reis e seus pares mais fiéis, razões de classe, motivadas pela opção pela manutenção de privilégios sociais antigos que a historiografia, enquanto ciência isenta que deveria ser, não poderia endossar.

Pílula comentada quatro:

“A meu ver, a linha seguida por João José Reis, é a de ressaltar esse Brasil africano e não crioulo e ele interpreta os seus documentos nessa direção. Diversos autores já escreveram sobre os processos de “assimilação, “aculturação”, “transformações”, “plurissignificações”, “transmutações”, ‘recriações” (quaisquer que sejam os termos usados) ocorridos durante a longa e forçada diáspora, é uma discussão bastante antiga, iniciada segundo especialistas, por Melville Herskovits. Mintz e Price elaboraram interessante análise sobre a realidade norte-americana em seu texto.

“…Acho que a formação das irmandades de pretos e pardos no Brasil ajuda a entender e muito as dissensões étnicas no Brasil colonial e imperial. A partir do estudo das irmandades de pretos, o trabalho de Lucilene Reginaldo, historiadora baiana e negra, (caso essa última informação seja importante), professora de História da África da UNICAMP, caminha na direção de relativizar algumas dessas dissensões e ainda de mostrar a forte presença dos “angolas” nesse “mundo nagô” que se constrói na Bahia dos séculos XVIII e XIX. Essa pesquisa já está disponível em livro, pela editora Alameda com o título: “Os rosários dos angolas”.

Há, contudo no texto em que tento fazer uma análise crítica da obra de JJ Reis um aspecto que a professora não considerou (ou não intuiu) A intenção política de apontar a existência de um pensamento acadêmico tornado hegemônico na universidade do Brasil. Esta corrente de pensamento é composta por uma maioria esmagadora de doutores brancos (não que este fator seja, especialmente determinante na ideologia deles) mas enfim, um bloco poderoso de ‘donos da verdade’ que lhes interessa, verdade esta que, no caso específico do Brasil, acabou por instituir e sacralizar conceitos ambíguos de nacionalidade (os quais considero eugenistas em si mesmos).

Por estes conceitos, suspeitosamente o negro é sempre colocado como aquele elemento passível de aculturação, o ‘catequizado‘, o ‘assimilado‘, o “transformado”, “ressignificado”, “transmutado”, desprovido portanto de autenticidade, originalidade, tutelado que sempre está – ou se pretende que esteja – à alguma superioridade cultural branca e suposta, tão temente de uma afirmação etnológica do negro brasileiro que nos surpreende e nos induz às perguntas:

Em que reside este temor atávico que a academia branca tem da afirmação de uma cultura negra autônoma no Brasil? Porque este medo absurdo da África que reside, indelevelmente em todos nós? Porque esta estratégia de apagamento compulsório de valores que, seja lá de que modo tenha sido, forjaram a nossa ainda tão imprecisa nacionalidade?

Como bem diz a professora na parte mais pertinente de seu arrazoado:

“Qualquer obra acadêmica é questionável, não apenas por suas qualidades ou defeitos, mas pelo simplesmente fato de que a História é múltipla, o historiador que quiser encontrar a “verdade” histórica está fadado ao fracasso, pois sempre existirão muitas versões para os mesmos fatos e ainda bem, a possibilidade de discordar, sempre a partir de novas fontes.”

Ora, Já ouvimos este ramerrão recorrente das ‘várias verdades‘, quinhentas vezes. O fato de, em tese, existirem várias versões para um mesmo fato, não impediu a historiografia oficial do Brasil de plantar ou tornar hegemônicas e inquestionáveis aos vis mortais, apenas as verdades cômodas para um grupo social ‘diferenciado‘, neste patriarcalismo caquético que nos caracteriza.

Faltou a ela dizer – ou reconhecer – que a estratificação social – e racial – da academia só agora começa a permitir o surgimento tímido de teses que contradigam estas verdades super estabelecidas por uma casta arrogante, baseadas em linhas de pensamento já tornadas arcaicas e superadas em outras partes do mundo (como as de Nina Rodrigues, Gilberto Freire, Sergio Buarque de Hollanda e JJ Reis para citar apenas os mais notórios.).

E vamos combinar também: A história sem verdades absolutas só será possível mesmo num contexto de ampla democracia na construção, na transmissão e na discussão ou troca de saberes, sem doutores ‘brancos‘ sabichões de carteirinha mandando em todos os ‘pedaços‘. Não há modernidade possível numa instituição com um recorte de classe calcado nesta estratificação sócio racial tão exacerbada como é a universidade do Brasil.

É promissor que esta universidade – mesmo que seja assim de baixo para cima – esteja, ainda que em efêmeras chispas, cozinhando um futuro menos conservador, menos submisso e tutelado. As universidades não foram criadas para a manutenção do status quo e do passado. O bolor da arrogância acadêmica conservadora e o frescor do conhecimento instigado não combinam. Diante do futuro, da modernidade, da quebra de paradigmas engessados e da transgressão a todo custo devemos gritar sempre: Uhhú!

É assim que com os direitos de palpitar no que me der na telha que a lei dos sexagenários me faculta, eu vou, eu vou, porque não?

(A seguir a professora traz a apreciação dos seus alunos um trecho de sua própria tese ):

“Brevíssima discussão acerca da questão das identidades étnicas na Diáspora.”

Adaptado de: Fábia Barbosa Ribeiro: “Caminho da piedade, caminhos de devoção: as irmandades de pretos no Vale do Paraíba paulista – século XIX”(capítulo I) –  disponível aqui neste link.

Spírito Santo

Outubro 2012

A “Lei do Boi”. Misteriosa Juli traz mais leis de cotas para brancos


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 “Apaixonada pelo tema, que me pega da carapinha aos artelhos, uma contribuição ao debate, sem paixões”

Juliaura – eu disse ‘aura’ –  da Luz Bauer (Colaborando de Porto Alegre para o blog do Titio)

Você acreditava mesmo que elas nunca existiram? Tolinho.

Mais uma vez, aos brancos anticotistas empedernidos que ficam por aí afirmando que as leis afirmativas para negros são uma aberração jurídica que nos levará aos conflitos raciais, pois, subvertem a nossa constituição, patati patatá, dedico mais este post varonil, agora com a colaboração da moça mais misteriosa deste mundo…e do outro. A mui querida Juli:

—————–

“A instituição de sistema de cotas na última década tem produzido fortes debates. Mas isso nem sempre foi assim. Neste ano, uma das primeiras leis instituindo cotas na educação pública brasileira completa 44 anos. Trata-se da Lei nº 5.465, de 3 de julho de 1968, mais conhecida como a “Lei do boi”.

De forma mais abrangente a lei assegurava reserva de vagas tanto no ensino médio quanto em instituições superiores. Ainda, conforme a lei, 50% das vagas nos estabelecimentos de ensino médio agrícola e nas escolas superiores de agricultura e veterinária mantidos pela União ficariam disponíveis para atender às demandas de formação específica para alguns segmentos sociais.

Embora afirmasse que as vagas se destinavam para os filhos de proprietários e não proprietários rurais, ninguém precisa ser um especialista em sociologia rural para saber que os beneficiários da lei foram apenas os filhos da elite rural. A razão é muito simples. Se, ainda hoje, a agricultura de subsistência demanda o trabalho de todos os membros da família, pais e filhos, para garantir sua sobrevivência, há quatro décadas a situação não era melhor.

A Lei do boi foi revogada em 1985, portanto, 17 anos após a sua criação. Todavia existem boas razões para questioná-la. A primeira é que a Lei do boi, ao desconsiderar as condições sociais dos filhos dos camponeses, atendia apenas aos filhos da elite rural. Segundo, se propunha ao estabelecer uma política permanente, ou seja, sem previsão de término.

Muito diferente das proposições atuais, a Lei do boi não atendia aos princípios de justiça reparatória e de busca de equidade. Isso porque não se propunha a eliminar distorções sociais que ainda hoje condenam gerações inteiras de famílias a nascerem e morrerem nos gradientes mais baixos da hierarquia social.

Como a Lei do boi atendia aos interesses da elite rural, o questionamento foi infinitamente menor. Sua legalidade só foi objeto de debate após anos de existência e só caiu porque se reconheceu que os filhos de camponeses não eram beneficiados. Portanto, apenas reproduzia e reforçava a desigualdade social.

As leis atuais, muito diferentes da Lei do boi, pretendem reduzir as fortes distorções que vêm sendo perpetuadas ao longo de séculos. Negros libertos não tiveram acesso a educação pública, moradia nem trabalho assalariado. Mesmo os brasileiros só ganharam status de cidadãos no governo de Getúlio Vargas, porque os países europeus proibiram a saída de migrantes devido à escassez de mão de obra produzida pelas duas Guerras Mundiais.

Apesar do histórico da desigualdade brasileira, muitos ainda tentam nos convencer de que é preciso “esperar” a melhoria da escola pública. Contudo essa promessa vem de longa data. Aliás, muito semelhante à ideia de “esperar o bolo crescer, para depois repartir. Diante de promessas de cumprimento improvável, seguramente é melhor apostar em uma proposição concreta de implantação de uma política de cotas, para que daqui a dez anos não precisemos mais dela, e cobrar ao mesmo tempo uma política sistemática de melhoria real da escola pública. Sem isso, ano após ano, a desigualdade nos perseguirá.

Dijaci David de Oliveira

Dijaci é doutor em sociologia, professor da Faculdade de Ciências Sociais (FCS) da Universidade Federal de Goiás (UFG).”

Aos gajos brancos os cargos. Aos mulatos as batatas.


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Lei de cotas raciais para brancos.

Você acreditava mesmo que elas nunca existiram? Tolinho.

Aos brancos anticotistas empedernidos que ficam por aí afirmando que as leis afirmativas para negros são uma aberração jurídica que nos levará aos conflitos raciais, pois, subvertem a nossa constituição, patati patatá, dedico este post varonil.

Eles não sabem do que estão falando.

É para que saibam, de uma vez por todas, que afirmo sim, desde sempre o Brasil teve privilegios para os brancos do país em detrimento dos negros, dos não brancos em geral. Cotas raciais ora pois, pois. Esta ignominiosa prática, racista, eugenista, caso alguns não saibam, foi inclusive determinada por lei lavrada na Metrópole, sempre que leis foram necessárias para a Cora decretar o apartamento de pessoas, afim de privá-las do acesso a vantagens sociais que se queria fossem privilégio só de brancos. É provável que existam centenas destas leis por aí, a serem esmiuçadas em velhos arquivos coloniais.

O documento da Coroa portuguesa a seguir, é uma líquida e cabal ação ‘afirmativa‘ governamental, oficial, que visava garantir a hegemonia de brancos no contexto da administração pública colonial de uma capitania: No caso a das Minas Gerais.

A data – 1725 – é eloquente para provar que o nosso racismo institucional já vem de muito longe, do tempo de D. João Charuto, se bem me entendem.

Ponderando o Conselho (Ultramarino) que, achando-se hoje, as vilas da Capitania das Minas Gerais, tão numerosas quanto se acham e que sendo uma grande parte das famílias de seus moradores de limpo nascimento, era justo que somente as pessoas de limpo nascimento, que tivessem esta qualidade, fossem eleitas para servirem de vereadores e andar na governança delas, porque, se a falta de pessoas capazes fez a princípio necessária atolerancia de admitir mulatos ao exercício daqueles ofícios, hoje, que tem cessado esta razão, se faz indecoroso que eles sejam ocupados por pessoas em que haja semelhante defeito.

E, como pode, muitas vezes, suceder que venha a faltar algum dos ouvidores das comarcas daquela capitania e pela sua falta haja de servir o juiz-ordinário mais velho, na forma das ordens de sua majestade, será talvez em ocasião que se vejam ocupar aqueles lugares por pessoas notoriamente defeituosas e maculadas, seguindo-se, naturalmente, por esta causa, menos reverencia aos mesmos lugares e desprezo às suas ordens e mandados, do que procedem sempre desordens do povo e perturbações na boa administração da justiça.

“E, porque a maior parte dos moradores daquelas terras não tratam de casar-se pela soltura e liberdade com que nelas se vive, não sendo facil a coação para que se apartem do concubinato das negras e mulatas e, por esta escusa, se vão maculando as famílas todas é preciso uma providência, pela qual se evite esta dano.

Portanto pede o conselho que vossa majestade se sirva mandar passar ordem ao governador das Minas pela qual se declare que possa daqui em diante, ser eleito vereador ou juiz ordinário, nem andar na governança homem algum que seja mulato nos quatro graus em que o mulatismo é impedimento e que, da mesma sorte, não possa ser eleito e que mande passar esta ordem aos ouvidores pra que façam registrá-la nos livros das comarcas e no das ouvidorias, recomendando-lhes que ponham especial cuidado na sua observância.

Desta sorte, ficarão aquele ofícios dignamente ocupados e poderá conseguir-se que os homens daquele País procurem deixar descendentes não defeituosos, impuros, vendo que, de outro modo, não podem alcançar, nem para si, nem para os seus, os empregos de maior distinção e honra das terras em que vivem, pois o afeto de conseguí-los é natural em quase todos os homens.

Lisboa oriental, 25 de Setembro de 1725.

(Extraído de “História em curso“, ano II, nº 09)

Anticotista empedernido, pense bem. Leia de novo. Entendeu ou quer que o Titio desenhe?

O STF já bateu o martelo. Ficar agora esperneando, pirando aí na batatinha se esganiçando neste racismozinho tão demodè não vai adiantar nada. Recicle-se, mermão. Faz uma forcinha. Afinal, se você for brasileiro não pode escapar de ter um pézinho que seja na cozinha. 

Pincei este outro texto aqui em baixo, porque ele tem termos mais objetivos só para você refletir (na versão integral dele você vai achar inclusive um enfoque juríco inquestionável sobre a constitucionalidade da lei das cotas). Você está redondamente enganado em sua contrariedade. Vai vendo aí:

…No Estado social é assim mesmo. Em geral para realização de uma maior igualdade material temos de restringir a igualdade formal. Ambos os valores entram em tensão e pelo plano de valores de nossa Constituição a busca de maior igualdade material deve preponderar na maior parte das situações, mas sem eliminar por completo a igualdade formal, restringindo-a no mínimo necessário para que a igualdade material prevaleça.

Pois é esta situação a que ocorre na questão das cotas raciais em nossas universidades.

Durante um bom pedaço de nossa história os negros não eram tidos como pessoas por nossa ordem jurídica, eram coisas, escravos!

A escravidão gerou graves distorções sociais. Existem brancos pobres, mas esses são minoria entre os pobres. Existem negros ricos, mas esses são minoria entre os ricos.

Etnia no Brasil, por conta de nossos antecedentes históricos, é fator profundamente relacionado as desigualdades sociais. Racismo aqui é forma de garantia dos interesses econômicos de nossa elite euro-descendente.

Não é segredo para ninguém que estudo significa ascensão social…”

Cotas étnicas e igualdade’ Por Pedro Estevam Serrano para Carta Capital

Se não entender assim, nem assado, vou achar que existe algum problema com você. Seria o gajo um destes enrustidos racistas que andam, como cassandras ou madalenas putas, arrependidas?

Relaxa, pessoa! Então! Sai deste armário, deste corpo que não te pertence e libera a mulata sestrosa e assanhada que tem dentro de si. Tome um passe na macumba, se livre desta culpa,  mermão.

Spírito Santo

Outubro 2012

 

Da Grande Rede à Grande Muralha. O Firewall de nossas internéticas angústias


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Os blogueiros e os negócios da China

High tech, low life de Stephen Maing (traduzido no Brasil para “Blogueiros da China”), é um filme excelente, sob vários pontos de vista. Meticulosamente construído como cinema, um roteiro muito bem amarrado em suas intenções de ser fábula com uma moral clara expressa ao final, ele nos mostra – as vezes de forma didática até demais – um painel bem completo e emocionado do que é ser blogueiro na China moderna, capitalista libertária e comunista totalitária ao mesmo tempo.

Diante do prato feito de uma sociedade ainda meio caipira, a comunicação social contida por suas raízes fincadas até hoje nos seus modos ruralistas de ser, amarrada por séculos de enrustição oriental, aguçada pela condição de Estado ditatorial, os blogueiros de lá cumprem do jeito que podem a sua obrigação de espicaçar o Capitalismo de Estado em sua mais perfeita tradução, cutucar o tigre com a vara curta, mordendo on line o rabo da besta.

É bastante simples a proposta do argumento do filme: Dois blogueiros chineses (‘Zola’ e ‘Tigre Temple’) bem diferentes entre si como indivíduos, circulam pelo país à fora flagrando situações que a mídia oficial e convencional chinesa, controlada pelo Partido Comunista omite, oculta, não exibe de jeito nenhum. Uma fábula como disse, comum à luta contra todos os totalitarismos. O controle, a censura da livre informação como dispositivo de manutenção da segurança interna e da garantia da persecução dos desígnios que o poder hegemônico de plantão tentando dar, à força, as suas cartas.

Vimos bem isto aqui no Brasil durante a nossa ditadura. De certo modo, por meios mais sutis andamos vendo isto ainda hoje por aqui. É só prestar atenção. Capitalismo não é sinônimo de liberdade e democracia, a China prova isto muito bem.

É pois um filme que, por um outro enfoque, também fala da liberdade de expressão em geral, a Internet como leit motiv, no papel da comunicação humana em versão mais moderna, diante de um novo paradigma, aparentemente virtuoso, um Avatar ou um Deus onisciente diante do qual as pessoas todas se ajoelham e rezam, enxergando nele aquela tão sonhada e utópica liberdade absoluta que parece representar as novidades midiáticas, hoje a ainda enigmática Grande Rede.

É este o mote do argumento. O filme tem como seu eixo emocional principal a luta da censura estatal contra o desassombrado ativismo de uns gatos pingados. Nos sentimos solidários diante daqueles quixotes pós modernos e saimos do cinema enlevados – e aliviados também de não vivermos na China – contentes de podermos – ou imaginarmos poder – exercer enfim, por aqui, a liberdade de expressão que desfrutamos no nosso doce mundinho ocidental brasileiro

Hum…Vai saber?

Estive lá na mesa de debates sobre ‘High tech, low life”, na qualidade de… ‘influente blogueiro” convidado pela amiga Vik Birkbeck, junto com o também – aí sim – influente blogueiro Bruno Cava.

Não que seja modéstia do Titio não, é que fui lá completamente surpreso e desarmado ainda com o fato de estar virando – rapidamente demais para o meu gosto – uma espécie de referencia no campo desta modernidade fugidia que é a Internet dos blogueiros, com um número de acessos e seguidores ainda tão ínfimo.

Só para se ter uma ideia, tendo que aferir minha performance para me situar no assunto, acabei descobrindo que tenho, no máximo, 200 acessos em média por dia. Bruno Cava, meu colega de mesa afirmou lá para as tantas que tem perto de mil e também se declarou, modestamente, um blogueiro de pequeno dimensão.

Um dos blogueiros chineses (Zola), aliás, lá para as tantas e no mesmo ensejo de aferir os acessos a seu blog, declara que depois de um post mais bombástico como denúncia, subiu numa noite, de 200 acessos (como o meu) para 200.000!

Na minha fala sempre atabalhoada – ao vivo sou tímido pra cacete, pessoal. Diante de uma platéia fico quase ‘ao morto’– tentei exprimir para a pequena platéia (como sempre, a maior parte da platéia não ficou para o debate) esta minha perplexidade pessoal com a ainda mal compreendida e desconfotável situação de estar ali, vendo reconhecido o meu papel de…rs rs rs! ‘importante blogueiro’, sem nunca ter tido a intenção de exercê-lo ou mesmo merecê-lo neste momento e as minhas pessimistas preocupações com o futuro deste paradigma comunicativo que é a Internet das redes sociais e blogs, instancias que têm um presente e um futuro bastante obscuros para mim.

Tentei enfim mobilizar – sem sucesso – a platéia a debater dois pontos que para mim seriam cruciais da questão que são:

  • O que caracterizaria estes indivíduos que se destacam neste mundo da Grande Rede, em que todos são, ao mesmo tempo, repórtes e leitores de si mesmos, a ponto se tornarem referencia para milhares, as vezes milhões de seguidores? Quem são estes ‘profetas’ do novo tempo? Quem são os ‘apóstolos’ seus seguidores?
  • E – o que seria a pergunta mais crucial – qual poderá ser o futuro desta liberdade de expressão exacerbada, esta “democracia plena da Grande Rede”?

Alguém aí poderia me dizer?

Bem, como disse, não consegui sensibilizar ninguém da platéia com este meu papo niilista. Platéia de debates de “filmes cabeça”, desde os idos tempos de minha juventude de habituè de cine clubes nos anos 70, é sempre uma tribo estranha e diminuta.

Afinal quem é tonto a ponto de, logo ao acabar de assistir um filme, se dar ao displante de comentá-lo num ambiente tão formal e contido quanto uma mesa oficial de debates (por que será as mesas de debates são sempre assim tão formais e contidas?). Eu, nos meus bons tempos, no máximo, debatia o filme numa animada mesa de bar. E assim mesmo se o filme fosse mesmo ‘cabeça‘, daqueles de dar enxaqueca de tentar entender.

O fato é que apenas uma senhora, lá para tantas discorreu sobre a sua fé inabalável na Grande Rede e condenou, simpaticamente o meu pessimismo recorrente. É por isto, estimulado por minhas angústias ainda tão solitárias e individuais e meu inconformismo militante, que decido discorrer sobre aquelas – pelo menos para mim – candentes questões lá de cima.

Nós, os blogueiros

Para começar, nós os blogueiros – como bem disse o Bruno Cava no debate – somos seres solitários. Eu acrescentaria dizendo que somos movidos por alguma força complexa, mista de indignação e altruísmo, mas também de muita necessidade de autoafirmação (vontade de aparecer, no português mais claro, vale dizer). Os blogueiros, vamos combinar, são como os artistas em geral: seres cheios de inquietação, meio messiânicos mas muito egocêntricos, uns mais que os outros, embuídos da pretensão de que tem algo muito importante a dizer para o mundo.

Há que ser muito egocêntrico para se achar um ser humano que tem coisas importantes a dizer para muitas pessoas, possuidor da missão irreprimível de mover o mundo a sua volta, se indignar com aquilo que todos querem muitas vezes – por medo ou comodismo – ‘deixar quieto’, assumir os riscos dos micos e das saias justas de incomodar interesses muitas vezes poderosos, de gente as vezes muito perigosa, frustrar, as intenções mais recônditas e camufladas de canalhas, conquistar desafetos, inimigos mortais e até mesmo magoar velhos amigos de fé.

Blogueiros são também seres viciados em adrenalina ou alguma auto droga destas aí e a comunicação on line é o seu crack virtual. Nada de moderninho não, pois, a humanidade sempre teve gente assim. É isto, ocupantes deste escaninho dos indignados, raça comum da natureza humana o que, pelo menos em parte, os blogueiros são.

Posso falar por mim. Sou assim desde muito antes de existir a Internet. Tenho ainda pilhas de papéis escritos sobre tudo que me mobilizou e mobiliza na vida, letras de música, crônicas, poemas, tratados esotéricos, textos de projetos nunca realizados, acho que se me solicitarem até bula de remédio eu sou capaz de escrever com prazer. Babo até de pensar naquelas letrinhas, naquela descrições meticulosas de contraindicações e fórmulas escalafobéticas. Como gosto. Adoro!

É que a minha sede pela escrita é pura compulsão. Nada tem de ideológica, de vontade planejada de mudar o mundo. Não, nada disso. É vício mesmo , como álcool, cocaína, maconha, um vício destes aí ao qual tento dar algum sentido de instigação normal.

Sei, vagamente que os estímulos para ser o que sou vieram de alguma necessidade irreprimível de me relacionar com as pessoas, fruto de uma relação travada que tenho com este ímpeto comunicativo, por culpa da timidez. Sei lá. De repente todo blogueiro ou artista é assim como eu, acredito

É por isto que eu nem levo fé que o tema de Hight Tech, Low Life tenha mesmo algo a ver com a Internet em si. De alguma maneira, nós os blogueiros somos mesmo é ‘malucos beleza’ que se julgam profetas do apocalipse com tanta convicção, mas tanta que acabamos por convencer muitas pessoas que se tornam apóstolos fiéis de nossas supostas profecias.

Sabem aqueles camera men que filmam a própria morte só porque são viciados em flagrar imagens em tempo real? Fácil perceber que com ou sem internet o mundo sempre foi movido por malucos beleza meio suicidas assim.

Ela, a Grande Rede

E é daí que sai o outro fio e nossa história. O futuro da Internet movida por estes indivíduos, me parece que é o mesmo da pré Internet ditado por aqueles paradigmas da comunicação humana quebrados no passado. Foi mais ou menos o que uma pessoa da platéia colocou, aludindo à invenção do livro impresso pelo Gutemberg que teria matado os escribas dos manuscritos de antes. A caligrafia morta amassada pela prensa.

E digo ‘mais ou menos’ porque o livro acabou sendo o que a gente sonha que a Internet seja para sempre: Um território livre e democrático da comunicação humana onde as regras são ditadas por nós mesmos. Balela pura, infelizmente. Ocorre que a imprensa acabou não sendo apenas o livro. A sua outra face mais hegemônica, mais ‘de massa’, o que nos pegou mesmo pelo pé, ficou sendo a chamada Mídia Impressa que acabou capturada por interesses sociais e comerciais bem menos democráticos e meritórios que os do livro.

Meu medo é este: A internet sendo capturada por algum grupo político tutelador de profetas, alguma instancia de governo, nacional ou mesmo internacional, de caráter político ou meramente econômico, comercial, que nos submeta a todos ao seu tacão. Seria mais ou menos este o futuro líquido e certo da Grande Rede?

Eu acho que é e dá o maior medão.

O fato é que, cada vez mais exposta às idiossincrasias comezinhas do ‘Mundo Real‘ – como disse uma das pessoas da platéia do debate – frente ao surpreendente poder que cada vez mais vai demonstrando ter de persuadir e mobilizar consciências (e até mesmo, em certa medida ditar dramáticas mudanças, principalmente políticas, em nossa vida real) a ‘Grande Rede’ vai nos levando como uma sereia lírica e ardilosa, para os confins mais imprevisíveis do Bem ou do Mal estar social.

Os sintomas já são muito claros. Aparecem nítidos no filme de Stephen Maing em vários momentos. Principalmente quando o jovem “Zola” é abordado por um repórter fotográfico francês (um representante do ‘Outro mundo‘, o da imprensa convencional) para fornecer uma entrevista a qual recusa. “Zola” alega que aparecer na mídia convencional (a do mundo ‘real’) falando e opinando seria um risco muito grande, perseguido que estava pelos órgãos de segurança do governo chinês.

Conciliando, embora assumindo a postura auto atribuída de defensor dos interesses populares, “Zola” aceita ser apenas fotografado, mas exige que o seja junro de alguns populares que assistiam a cena. Não abre mão, porém de uma pose claramente estudada, que o destaca como protagonista, com o celular na mão, demonstrando ter a aguda e vaidosa consciência de que sua imagem vai extrapolar o limite dos dois mundos (o virtual opressivo da China e o do ‘mundo livre’ do exterior do país).

Na tão suposta liberdade dele, caído na enorme rede virtual da China, espécie de exemplo de um provável futuro para a Grande Rede geral.

A analogia entre o repórter do ‘Mundo Real”, já domado e tutelado, a serviço de uma empresa jornalística comercial e a liberdade vigiada do blogueiro Chinês (que insiste como todo blogueiro que não é um repórter) é meio que um divisor de águas entre o que os ‘profetas‘ blogueiros são hoje, independentes e audazes (por enquanto) e o que podem vir a ser no futuro, meros intermediários entre os interesses de algum poder instituído (cuja presença invisível já pode ser sentida), que assumirá o controle da Rede e nós todos, omissa população em sua maioria passiva consumidora de anúncios e conteúdos.

As pessoas nem se dão mais conta da dimensão de armadilha tecnológica oculta por trás deste novo paradigma em vias de ser quebrado. Não seria uma grande ironia do destino que o bem de consumo mais lucrativo do planeta – a internet e suas mídias múltiplas – seja exatamente aquele que detém o poder de ser comunicação livre, instantãnea e democráica de ideias e conteúdos ideológicos em geral?

É uma liberdade virtual esta que temos ou imaginamos ter. Óbvio que, no contexto dos interesses do capitalismo mundial, a liberdade e a democracia não poderiam estar dando dinheiro. Se dão algo está errado e será corrigido no processo.

Compramos como algodão doce uma ilusão de liberdade. Uma liberdade virtual e transitória.

Me parece – e esta é apenas uma sensação baseada na lógica da crápula natureza humana – que muito em breve alguém, algum poder insidioso pegará as rédeas deste trem desembestado que é a Internet livre e encaminhará ele, o trem de nossos anseios de liberdade, para o desvio de sempre, aquele para o qual são levadas todas as liberdades públicas depois de mopidas e massacradas.

Vocês se lembram dos Saltimbancos Trovadores e dos Griots do nosso passado mais remoto, aqueles gatos pingados que circulavam pelas sendas do mundo difundindo notícias  e lendas antes das outras mídias mais novas existirem? Pois é, foram engolidos e dominados pelo rádio, pelo disco e pela televisão. As mídias sempre capturam e são capturadas por algum dono. Questão de tempo. Nós, os blogueiros do mundo todo, do mesmo modo que os da China, seremos aprisionados no papel pega mosca da comunicação tutelada.

Só rezo para que seja que seja um sinhô bão, daqueles que não batem na gente com a palmatória nem colocam os mais falastrões feito o Titio no tronco ou num pau de arara real. Quem haverá de postar no facebook a minha desdita?

Spírito Santo

Outubro 2012

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Stephen Maing – Director/Producer/Cinematographer/Editor

Trina Rodriguez – Producer

Richard Liang – Co-producer

Jonathan Oppenheim – Co-Editor/Editing Consultant

Eric Daniel Metzger – Editing Consultant

Anne Marie Stein – Consulting Producer

Edital de cultura só para negros? A polêmica cabeluda e eu, como um caipora com o pé atrás


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“Edital para negros divide o meio cultural”

Matheus Magenta e Lucas Mobile para o jornal ‘Folha de São Paulo”

MinC anuncia edital para negros e gera debate no meio cultural; leia repercussão

Enquanto parte defende os editais, que devem ser lançados no Dia da Consciência Negra (20/11), outros os consideram preconceituosos.

“É um absurdo. Se eu fosse negro, ficaria muito puto. É uma coisa de demência, ligada à culpa cristã de classe média branca. É só um passo a mais pelo ódio racial que está sendo potencializado desde que o PT entrou no poder”, disse o cantor Lobão.

Querem duas opiniões mais abalisadas e isentas que a de Lobão (as da Ivonne Maggie e do Demétrio Magnoli me dispenso de replicar)

NEI LOPES, compositor e escritor

ocentes e Plebe Rude

“Concordo plenamente com a ministra. Há uma grande ‘invisibilização’ da produção do povo negro nos circuitos da ação cultural. Como também há uma baixa frequência de afro-brasileiros em teatros, cinemas, salas de concertos, museus, exposições etc. Já é hora de acabar com isso. O Estado tem obrigação de criar políticas públicas para corrigir essa distorção, que é histórica no Brasil –com políticas de ação afirmativa.”

SEBASTIÃO VENTURA DA PAIXÃO JR., advogado e membro do Instituto Millenium (instituto tido com o caldeirão onde o pensamento de direita é cozido no Brasil, ao qual, inclusive o Ali Kamel está de algum modo ligado)

“Se o critério de seleção for unicamente racial, teremos uma potencial inconstitucionalidade. Primeiro, porque o art. 3º, IV, da Constituição estabelece, entre os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, o de ‘promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras forma de discriminação’. E o próprio art. 215 da CF, conforme já visto, busca tutelar a pluralidade e diversidade do patrimônio cultural brasileiro. Além disso, se todos são iguais perante a lei, uns não podem ser mais iguais do que outros. Assim, o governo deve ter muito cuidado para que, na ânsia de resolver um problema social, não faça um ato despido do necessário equilíbrio constitucional. E, sem equilíbrio, não resolveremos o problema do racismo, pois, ao invés de pautas divorcistas, precisamos de políticas que unam os brasileiros em torno dos justos ideais nacionais.”

Ou seja: Polêmica cabeluda para Titio nenhum botar defeito.

Eis então o meu pitaco franco de não branco

A matéria da Folha Ilustrada vacila em não publicar o edital em si e na íntegra. Poderíamos opinar melhor lendo os termos do edital. Fica precário qualquer comentário sem isto. Vindo de quem vem, Martha Suplicy do PT e a hora tão eleitoralmente propícia em que a notícia aparece, noto um que de oportunismo também. Tenho um pé atrás com este edital aí, confesso.

Vamos combinar, de saída que os editais de fomento à cultura no Brasil são sempre editais ‘para brancos”.

Contudo e a propósito, mesmo sabendo – por experiência própria inclusive – que há um evidente racismo neste aspecto da cultura brasileira, ou seja: há exclusão de autores e criadores quando se sabe que eles são negros e há exclusão de temáticas e abordagens do mesmo modo quando elas se assentam na afirmação de valores afro negros ou na denúncia do racismo em algum grau. Cabe resaltar também que os mecanismos, os filtros que permitem a perpetuação deste racismo não podem ser quebrados por simples editais de governos.

O racismo brasileiro – vivo dizendo – é sistêmico e logo, estruturante. Está em tudo, entranhado em todas as nossas instituições.

Por outro lado sou terminantemente contra a criação de ‘panelas‘, castas ou guetos artístico raciais, já não nos bastasse aqueles criados pelos próprios – e pobres – movimentos negros oficiais do Brasil. A medida, entrevista assim de forma rasa como está sendo apresentada pelo jornal, me sugere muitos problemas iguais ou maiores do que os existentes, ligados à mesma natureza ética da questão.

Todos sabemos muito bem que a falta de transparência, o apadrinhamento, o nepotismo, o corporativismo, a burla das regras destes editais é que permitem a exclusão deste ou daquele grupo de artistas e criadores. Não acredito mesmo que um edital exclusivamente para criadores negros se tornará ético apenas porque é ‘feito para negros’.

Os avaliadores serão negros? Que tipo de negros avaliadores integrarão estas bancas? Serão abalizadamente capazes? Quem os indicará? Serão funcionários destas instituições governamentais tuteladas pelo PT tipo as Seppirs e Comissões de negros de governos estaduais e prefeituras?

(Cá entre nós é constrangedor o nível deste pessoal, escolhido mais por sua fidelidade aos interesses do governo do que o dos negros em si.)

A criação por uma casta negra ‘chapa branca’ de uma outra casta de criadores negros, não necessariamente os melhores, mas apenas os mais adequados ao sistema e aos interesses neo populistas deste governo é a possibilidade mais plausível para mim no momento, logo, pelo menos até ler os termos exatos do edital, o Titio é, infelizmente…sei lá… não sabe ainda se é contra ou a favor.

Vindo deste pessoal, deste governo, um pé atrás e uma barba de molho são fundamentais.

…Gisele Jordão, responsável por um estudo sobre a produção cultural no Brasil, diz que o debate é anterior ao de raça: 63% dos produtores do país não conseguem viver da profissão. Segundo ela, projetos com tema afro-brasileiro têm mais dificuldade em captar recursos via Lei Rouanet que a média do país.”

Se rolar o edital me habilitarei, é claro, como sempre, pois o meu o pé atrás e a desconfiança são os mesmos que tenho com os editais governamentais em geral.

Óbvio também que aqueles que argumentam que “isto é racismo” estão viajando, redondamente enganados. Esta conversa de “Ódio Racial” é alarmista, terrorista e não passa muito de uma arma típica de racistas enrustidos que perderam o pouco que lhes restava de razão.

O perfil deste tipo de iniciativa – afora o oportunismo evidente desta aí, da Martha Suplicy em especial – estão no contexto das chamadas ações afirmativas que visam corrigir as graves distorções em nossa democracia ligadas à desigualdade sócio racial latente e renitente. A Abolição inconclusa, lembram?

Quem pariu Mateus que o embalance.

Spirito Santo
Outubro 2012

Titio (quase ‘arroz de festa’) e seu blog estarão no Festival do Rio 2012


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Tirei a notícia lá do blog teuto brasileiro da pesada “Mamapress” do meu amigo Marcos Romão.

Compartilho honrado porque é diploma de modernidade e inovação para o blog do Titio, que estará no Festival do Rio na mesa de debates denominada “O poder dos Blogueiros” um dos listados aí em baixo. Acho que se fosse uma mesa sobre o nosso racismo raivoso e babaca ou sobre politicagem sem vergonha no Brasil, não menos babaca, estas coisas aí mais normais e recorrentes, temas que sou uzeiro e vezeiro de comentar no blog, não ia ficar tão pimpão não.

É que, por culpa do bicho carpinteiro de que é tomado, o Titio é do furdunço, gente e adora estar no meio do que não é por que ainda vai ser. Titio tem está passado de véio, mas também tá ligado no futuro guri sim, ora, ora.

Gente, tem blogs com milhões de leitores, o meuzinho tá na faixa dos 100, 200 por dia, que é uma mixaria. Estarei lá, portanto muito por causa das coisas que conto para os meus minguados leitores sim, mas acho que é muito mais pelo jeito que arranjei de contar.

Afinal o ‘jeito de contar‘ é a única novidade da qual a gente pode se valer na hora de espalhar, compartilhar as mesmas histórias humanas de sempre deste hoje, cada vez, mais “Mundão véio sem porteira”.

É. Titio tem história.

DEBATES INTERNACIONAIS DO FESTIVAL DO RIO

CENTRO CUTURAL DA JUSTIÇA FEDERAL

Avenida Rio Branco 241 – Centro

MEU NOME É KUCHU (Call Me Kuchu)

DOMINGO | 30 DE SETEMBRO | 16:30 | SALA 2 – de Malika Zouhali-Worrall, Katherine Fairfax Wright. Com David Kato Kisule, Naome Ruzindana, Stosh Mugisha. Estados Unidos, 2012. 87min. (LEP) – 16 anos

David Kato, primeiro gay assumido de Uganda, iniciou uma luta pelos direitos da comunidade LGBT do seu país. Sua causa foi dificultada quando foi promulgada uma lei que propõe pena de morte para homossexuais soropositivos e prisão para aqueles que acobertem gays. Kato é um dos poucos que se opõem publicamente a esta opressão,  nos tribunais, na TV e na ONU. Um ano depois do início das filmagens do documentário, Kato é assassinado em casa. O filme é um tributo ao seu legado e à continuidade da luta pelos direitos dos gays no mundo todo. Prêmio Teddy de melhor documentário, Berlim 2012. MUNDO GAY

Seguido por debate: Com as diretoras do filme Malika Zouhali-Worrall e Katherine Fairfax Wright; Jim Hubbard, diretor de UNIDOS PELA RAIVA: A HISTÓRICA DA ACT-UP (United in Anger: a History of ACT-UP), Jean Wyllys, deputado federal e Jandira Queiroz, ativista e militante.

Mediadora: Suzy Capó/Mostra Gay

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A GUERRA A NOSSA VOLTA

(The War Around Us)

QUARTA – FEIRA | 03 DE OUTUBRO | 18:30 | SALA 2

de Abdallah Omeish. Com Ayman Mohyeldin, Sherine Tadros. Estados Unidos, 2012. 75min. 18 anos

Em 2008, o correspondente de Al Jazeera, Ayman Mohyeldin era o único cidadão americano vivendo na Faixa de Gaza. Com o rompimento da trégua entre Israel e o grupo palestino Hamas, a jornalista Sherine Tadros, que tinha vindo à região para um trabalho de 24 horas, também se viu presa ali por dois meses e meio. O governo israelense impediu o acesso da imprensa estrangeira à Faixa de Gaza, enquanto bombardeava a população civil, e Ayman e Sherine se tornaram os únicos jornalistas do Ocidente a cobrir o conflito. As imagens inéditas traduzem, além das atrocidades da guerra, os laços de amizade e o limite humano em situações extremas.LIMITES E FRONTEIRASSeguido por debate:

Entre a notícia e o silêncio: furando bloqueios, com a participação do diretor do filme, Abdallah Omeish, a antropóloga Gisele Fonseca da UFF e a jornalista Claudia Antunes da  Revista Piauí.

Mediadora: Vik Birkbeck/Fronteiras

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BLOGUEIROS DA CHINA

(High Tech, Low Life)

SEXTA – FEIRA | 05 DE OUTUBRO | 16:30 | SALA 2

de Stephen Maing. Estados Unidos, 2012. 87min. (LEP) – 12 anos

Enquanto o governo chinês se esforça para policiar a internet, alguns cidadãos utilizam-na para veicular notícias fazendo blogs. Chamados de cidadãos-repórteres, eles correm o país com notebooks, celulares e câmeras digitais para contar histórias que não têm lugar na mídia oficial. Tiger Temple, de cabelos grisalhos, se desloca de bicicleta para apurar denúncias. O jovem e humilde camponês Zola se torna uma celebridade internacional da internet. Desafiando a repressão, eles lutam pela liberdade de expressão no país, driblando aquilo que Zola denomina o grande Firewall da China.

Seguido por debate: O poder dos blogueiros/The power of the Bloggers, com a participação do diretor Stephen Maing, o músico, pesquisador e artista convidado da UERJ, Spirito Santo, e o blogueiro Bruno Cava.

Mediadora Vik Birkbeck/Mostra Fronteiras

http://2012.festivaldorio.com.br/downloads/alta/hightechl_f05cor_2012112238.jpg

AQUI AFOGAMOS OS ARGELINOS

(Ici on Noie Les Algeriens – 17 Octobre 1961)

SÁBADO | 06 DE OUTUBRO | 16:45 | SALA 1

de Yasmina Adi. França, 2011. 90min. (LEP) – 14 anosEm outubro de 1961, atendendo a um chamado da FLN (Força de Libertação Nacional), milhares de argelinos marcharam pelas ruas de Paris para protestar contra o toque de recolher imposto sobre eles. A manifestação pacífica foi violentamente reprimida pela polícia, resultando em 500 desaparecidos e mortos, muitos deles por afogamento no Rio Sena. Na época, o governo francês fez de tudo para esconder o caso dos noticiários e a tragédia só veio à tona décadas depois. Imagens de arquivo, depoimentos de sobreviventes e testemunhos revelam o que de fato aconteceu naquele dia.

LIMITES E FRONTEIRAS

Seguido por debate: A violência do estado e a estimatização/ State Violence and Stereotyping com a participação da Diretora do filme Yasmina Adi e o antropólogo Paulo Pinto da UFF

Mediadora Angélica Basthi, Jornalista da COJIRA

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