Aos gajos brancos os cargos. Aos mulatos as batatas.

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Lei de cotas raciais para brancos.

Você acreditava mesmo que elas nunca existiram? Tolinho.

Aos brancos anticotistas empedernidos que ficam por aí afirmando que as leis afirmativas para negros são uma aberração jurídica que nos levará aos conflitos raciais, pois, subvertem a nossa constituição, patati patatá, dedico este post varonil.

Eles não sabem do que estão falando.

É para que saibam, de uma vez por todas, que afirmo sim, desde sempre o Brasil teve privilegios para os brancos do país em detrimento dos negros, dos não brancos em geral. Cotas raciais ora pois, pois. Esta ignominiosa prática, racista, eugenista, caso alguns não saibam, foi inclusive determinada por lei lavrada na Metrópole, sempre que leis foram necessárias para a Cora decretar o apartamento de pessoas, afim de privá-las do acesso a vantagens sociais que se queria fossem privilégio só de brancos. É provável que existam centenas destas leis por aí, a serem esmiuçadas em velhos arquivos coloniais.

O documento da Coroa portuguesa a seguir, é uma líquida e cabal ação ‘afirmativa‘ governamental, oficial, que visava garantir a hegemonia de brancos no contexto da administração pública colonial de uma capitania: No caso a das Minas Gerais.

A data – 1725 – é eloquente para provar que o nosso racismo institucional já vem de muito longe, do tempo de D. João Charuto, se bem me entendem.

Ponderando o Conselho (Ultramarino) que, achando-se hoje, as vilas da Capitania das Minas Gerais, tão numerosas quanto se acham e que sendo uma grande parte das famílias de seus moradores de limpo nascimento, era justo que somente as pessoas de limpo nascimento, que tivessem esta qualidade, fossem eleitas para servirem de vereadores e andar na governança delas, porque, se a falta de pessoas capazes fez a princípio necessária atolerancia de admitir mulatos ao exercício daqueles ofícios, hoje, que tem cessado esta razão, se faz indecoroso que eles sejam ocupados por pessoas em que haja semelhante defeito.

E, como pode, muitas vezes, suceder que venha a faltar algum dos ouvidores das comarcas daquela capitania e pela sua falta haja de servir o juiz-ordinário mais velho, na forma das ordens de sua majestade, será talvez em ocasião que se vejam ocupar aqueles lugares por pessoas notoriamente defeituosas e maculadas, seguindo-se, naturalmente, por esta causa, menos reverencia aos mesmos lugares e desprezo às suas ordens e mandados, do que procedem sempre desordens do povo e perturbações na boa administração da justiça.

“E, porque a maior parte dos moradores daquelas terras não tratam de casar-se pela soltura e liberdade com que nelas se vive, não sendo facil a coação para que se apartem do concubinato das negras e mulatas e, por esta escusa, se vão maculando as famílas todas é preciso uma providência, pela qual se evite esta dano.

Portanto pede o conselho que vossa majestade se sirva mandar passar ordem ao governador das Minas pela qual se declare que possa daqui em diante, ser eleito vereador ou juiz ordinário, nem andar na governança homem algum que seja mulato nos quatro graus em que o mulatismo é impedimento e que, da mesma sorte, não possa ser eleito e que mande passar esta ordem aos ouvidores pra que façam registrá-la nos livros das comarcas e no das ouvidorias, recomendando-lhes que ponham especial cuidado na sua observância.

Desta sorte, ficarão aquele ofícios dignamente ocupados e poderá conseguir-se que os homens daquele País procurem deixar descendentes não defeituosos, impuros, vendo que, de outro modo, não podem alcançar, nem para si, nem para os seus, os empregos de maior distinção e honra das terras em que vivem, pois o afeto de conseguí-los é natural em quase todos os homens.

Lisboa oriental, 25 de Setembro de 1725.

(Extraído de “História em curso“, ano II, nº 09)

Anticotista empedernido, pense bem. Leia de novo. Entendeu ou quer que o Titio desenhe?

O STF já bateu o martelo. Ficar agora esperneando, pirando aí na batatinha se esganiçando neste racismozinho tão demodè não vai adiantar nada. Recicle-se, mermão. Faz uma forcinha. Afinal, se você for brasileiro não pode escapar de ter um pézinho que seja na cozinha. 

Pincei este outro texto aqui em baixo, porque ele tem termos mais objetivos só para você refletir (na versão integral dele você vai achar inclusive um enfoque juríco inquestionável sobre a constitucionalidade da lei das cotas). Você está redondamente enganado em sua contrariedade. Vai vendo aí:

…No Estado social é assim mesmo. Em geral para realização de uma maior igualdade material temos de restringir a igualdade formal. Ambos os valores entram em tensão e pelo plano de valores de nossa Constituição a busca de maior igualdade material deve preponderar na maior parte das situações, mas sem eliminar por completo a igualdade formal, restringindo-a no mínimo necessário para que a igualdade material prevaleça.

Pois é esta situação a que ocorre na questão das cotas raciais em nossas universidades.

Durante um bom pedaço de nossa história os negros não eram tidos como pessoas por nossa ordem jurídica, eram coisas, escravos!

A escravidão gerou graves distorções sociais. Existem brancos pobres, mas esses são minoria entre os pobres. Existem negros ricos, mas esses são minoria entre os ricos.

Etnia no Brasil, por conta de nossos antecedentes históricos, é fator profundamente relacionado as desigualdades sociais. Racismo aqui é forma de garantia dos interesses econômicos de nossa elite euro-descendente.

Não é segredo para ninguém que estudo significa ascensão social…”

Cotas étnicas e igualdade’ Por Pedro Estevam Serrano para Carta Capital

Se não entender assim, nem assado, vou achar que existe algum problema com você. Seria o gajo um destes enrustidos racistas que andam, como cassandras ou madalenas putas, arrependidas?

Relaxa, pessoa! Então! Sai deste armário, deste corpo que não te pertence e libera a mulata sestrosa e assanhada que tem dentro de si. Tome um passe na macumba, se livre desta culpa,  mermão.

Spírito Santo

Outubro 2012

 

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~ por Spirito Santo em 12/10/2012.

2 Respostas to “Aos gajos brancos os cargos. Aos mulatos as batatas.”

  1. Juli,

    Muito pertinente. Vai para o corpo do post no blog.

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  2. Apaixonada pelo tema, que me pega da carapinha aos artelhos, uma contribuição ao debate, sem paixões: ”
    por Dijaci David de Oliveira

    A instituição de sistema de cotas na última década tem produzido fortes debates. Mas isso nem sempre foi assim. Neste ano, uma das primeiras leis instituindo cotas na educação pública brasileira completa 44 anos. Trata-se da Lei nº 5.465, de 3 de julho de 1968, mais conhecida como a “Lei do boi”.

    De forma mais abrangente a lei assegurava reserva de vagas tanto no ensino médio quanto em instituições superiores. Ainda, conforme a lei, 50% das vagas nos estabelecimentos de ensino médio agrícola e nas escolas superiores de agricultura e veterinária mantidos pela União ficariam disponíveis para atender às demandas de formação específica para alguns segmentos sociais.

    Embora afirmasse que as vagas se destinavam para os filhos de proprietários e não proprietários rurais, ninguém precisa ser um especialista em sociologia rural para saber que os beneficiários da lei foram apenas os filhos da elite rural. A razão é muito simples. Se, ainda hoje, a agricultura de subsistência demanda o trabalho de todos os membros da família, pais e filhos, para garantir sua sobrevivência, há quatro décadas a situação não era melhor.

    A Lei do boi foi revogada em 1985, portanto, 17 anos após a sua criação. Todavia existem boas razões para questioná-la. A primeira é que a Lei do boi, ao desconsiderar as condições sociais dos filhos dos camponeses, atendia apenas aos filhos da elite rural. Segundo, se propunha ao estabelecer uma política permanente, ou seja, sem previsão de término.

    Muito diferente das proposições atuais, a Lei do boi não atendia aos princípios de justiça reparatória e de busca de equidade. Isso porque não se propunha a eliminar distorções sociais que ainda hoje condenam gerações inteiras de famílias a nascerem e morrerem nos gradientes mais baixos da hierarquia social.

    Como a Lei do boi atendia aos interesses da elite rural, o questionamento foi infinitamente menor. Sua legalidade só foi objeto de debate após anos de existência e só caiu porque se reconheceu que os filhos de camponeses não eram beneficiados. Portanto, apenas reproduzia e reforçava a desigualdade social.

    As leis atuais, muito diferentes da Lei do boi, pretendem reduzir as fortes distorções que vêm sendo perpetuadas ao longo de séculos. Negros libertos não tiveram acesso a educação pública, moradia nem trabalho assalariado. Mesmo os brasileiros só ganharam status de cidadãos no governo de Getúlio Vargas, porque os países europeus proibiram a saída de migrantes devido à escassez de mão de obra produzida pelas duas Guerras Mundiais.

    Apesar do histórico da desigualdade brasileira, muitos ainda tentam nos convencer de que é preciso “esperar” a melhoria da escola pública. Contudo essa promessa vem de longa data. Aliás, muito semelhante à ideia de “esperar o bolo crescer, para depois repartir”. Diante de promessas de cumprimento improvável, seguramente é melhor apostar em uma proposição concreta de implantação de uma política de cotas, para que daqui a dez anos não precisemos mais dela, e cobrar ao mesmo tempo uma política sistemática de melhoria real da escola pública. Sem isso, ano após ano, a desigualdade nos perseguirá.

    Dijaci David de Oliveira é doutor em sociologia, professor da Faculdade de Ciências Sociais (FCS) da Universidade Federal de Goiás (UFG).”

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