Da Grande Rede à Grande Muralha. O Firewall de nossas internéticas angústias

Creative Commons LicenseAtenção: Todo o conteúdo deste blog esta assegurado por uma licença Criative Commons.

Os blogueiros e os negócios da China

High tech, low life de Stephen Maing (traduzido no Brasil para “Blogueiros da China”), é um filme excelente, sob vários pontos de vista. Meticulosamente construído como cinema, um roteiro muito bem amarrado em suas intenções de ser fábula com uma moral clara expressa ao final, ele nos mostra – as vezes de forma didática até demais – um painel bem completo e emocionado do que é ser blogueiro na China moderna, capitalista libertária e comunista totalitária ao mesmo tempo.

Diante do prato feito de uma sociedade ainda meio caipira, a comunicação social contida por suas raízes fincadas até hoje nos seus modos ruralistas de ser, amarrada por séculos de enrustição oriental, aguçada pela condição de Estado ditatorial, os blogueiros de lá cumprem do jeito que podem a sua obrigação de espicaçar o Capitalismo de Estado em sua mais perfeita tradução, cutucar o tigre com a vara curta, mordendo on line o rabo da besta.

É bastante simples a proposta do argumento do filme: Dois blogueiros chineses (‘Zola’ e ‘Tigre Temple’) bem diferentes entre si como indivíduos, circulam pelo país à fora flagrando situações que a mídia oficial e convencional chinesa, controlada pelo Partido Comunista omite, oculta, não exibe de jeito nenhum. Uma fábula como disse, comum à luta contra todos os totalitarismos. O controle, a censura da livre informação como dispositivo de manutenção da segurança interna e da garantia da persecução dos desígnios que o poder hegemônico de plantão tentando dar, à força, as suas cartas.

Vimos bem isto aqui no Brasil durante a nossa ditadura. De certo modo, por meios mais sutis andamos vendo isto ainda hoje por aqui. É só prestar atenção. Capitalismo não é sinônimo de liberdade e democracia, a China prova isto muito bem.

É pois um filme que, por um outro enfoque, também fala da liberdade de expressão em geral, a Internet como leit motiv, no papel da comunicação humana em versão mais moderna, diante de um novo paradigma, aparentemente virtuoso, um Avatar ou um Deus onisciente diante do qual as pessoas todas se ajoelham e rezam, enxergando nele aquela tão sonhada e utópica liberdade absoluta que parece representar as novidades midiáticas, hoje a ainda enigmática Grande Rede.

É este o mote do argumento. O filme tem como seu eixo emocional principal a luta da censura estatal contra o desassombrado ativismo de uns gatos pingados. Nos sentimos solidários diante daqueles quixotes pós modernos e saimos do cinema enlevados – e aliviados também de não vivermos na China – contentes de podermos – ou imaginarmos poder – exercer enfim, por aqui, a liberdade de expressão que desfrutamos no nosso doce mundinho ocidental brasileiro

Hum…Vai saber?

Estive lá na mesa de debates sobre ‘High tech, low life”, na qualidade de… ‘influente blogueiro” convidado pela amiga Vik Birkbeck, junto com o também – aí sim – influente blogueiro Bruno Cava.

Não que seja modéstia do Titio não, é que fui lá completamente surpreso e desarmado ainda com o fato de estar virando – rapidamente demais para o meu gosto – uma espécie de referencia no campo desta modernidade fugidia que é a Internet dos blogueiros, com um número de acessos e seguidores ainda tão ínfimo.

Só para se ter uma ideia, tendo que aferir minha performance para me situar no assunto, acabei descobrindo que tenho, no máximo, 200 acessos em média por dia. Bruno Cava, meu colega de mesa afirmou lá para as tantas que tem perto de mil e também se declarou, modestamente, um blogueiro de pequeno dimensão.

Um dos blogueiros chineses (Zola), aliás, lá para as tantas e no mesmo ensejo de aferir os acessos a seu blog, declara que depois de um post mais bombástico como denúncia, subiu numa noite, de 200 acessos (como o meu) para 200.000!

Na minha fala sempre atabalhoada – ao vivo sou tímido pra cacete, pessoal. Diante de uma platéia fico quase ‘ao morto’– tentei exprimir para a pequena platéia (como sempre, a maior parte da platéia não ficou para o debate) esta minha perplexidade pessoal com a ainda mal compreendida e desconfotável situação de estar ali, vendo reconhecido o meu papel de…rs rs rs! ‘importante blogueiro’, sem nunca ter tido a intenção de exercê-lo ou mesmo merecê-lo neste momento e as minhas pessimistas preocupações com o futuro deste paradigma comunicativo que é a Internet das redes sociais e blogs, instancias que têm um presente e um futuro bastante obscuros para mim.

Tentei enfim mobilizar – sem sucesso – a platéia a debater dois pontos que para mim seriam cruciais da questão que são:

  • O que caracterizaria estes indivíduos que se destacam neste mundo da Grande Rede, em que todos são, ao mesmo tempo, repórtes e leitores de si mesmos, a ponto se tornarem referencia para milhares, as vezes milhões de seguidores? Quem são estes ‘profetas’ do novo tempo? Quem são os ‘apóstolos’ seus seguidores?
  • E – o que seria a pergunta mais crucial – qual poderá ser o futuro desta liberdade de expressão exacerbada, esta “democracia plena da Grande Rede”?

Alguém aí poderia me dizer?

Bem, como disse, não consegui sensibilizar ninguém da platéia com este meu papo niilista. Platéia de debates de “filmes cabeça”, desde os idos tempos de minha juventude de habituè de cine clubes nos anos 70, é sempre uma tribo estranha e diminuta.

Afinal quem é tonto a ponto de, logo ao acabar de assistir um filme, se dar ao displante de comentá-lo num ambiente tão formal e contido quanto uma mesa oficial de debates (por que será as mesas de debates são sempre assim tão formais e contidas?). Eu, nos meus bons tempos, no máximo, debatia o filme numa animada mesa de bar. E assim mesmo se o filme fosse mesmo ‘cabeça‘, daqueles de dar enxaqueca de tentar entender.

O fato é que apenas uma senhora, lá para tantas discorreu sobre a sua fé inabalável na Grande Rede e condenou, simpaticamente o meu pessimismo recorrente. É por isto, estimulado por minhas angústias ainda tão solitárias e individuais e meu inconformismo militante, que decido discorrer sobre aquelas – pelo menos para mim – candentes questões lá de cima.

Nós, os blogueiros

Para começar, nós os blogueiros – como bem disse o Bruno Cava no debate – somos seres solitários. Eu acrescentaria dizendo que somos movidos por alguma força complexa, mista de indignação e altruísmo, mas também de muita necessidade de autoafirmação (vontade de aparecer, no português mais claro, vale dizer). Os blogueiros, vamos combinar, são como os artistas em geral: seres cheios de inquietação, meio messiânicos mas muito egocêntricos, uns mais que os outros, embuídos da pretensão de que tem algo muito importante a dizer para o mundo.

Há que ser muito egocêntrico para se achar um ser humano que tem coisas importantes a dizer para muitas pessoas, possuidor da missão irreprimível de mover o mundo a sua volta, se indignar com aquilo que todos querem muitas vezes – por medo ou comodismo – ‘deixar quieto’, assumir os riscos dos micos e das saias justas de incomodar interesses muitas vezes poderosos, de gente as vezes muito perigosa, frustrar, as intenções mais recônditas e camufladas de canalhas, conquistar desafetos, inimigos mortais e até mesmo magoar velhos amigos de fé.

Blogueiros são também seres viciados em adrenalina ou alguma auto droga destas aí e a comunicação on line é o seu crack virtual. Nada de moderninho não, pois, a humanidade sempre teve gente assim. É isto, ocupantes deste escaninho dos indignados, raça comum da natureza humana o que, pelo menos em parte, os blogueiros são.

Posso falar por mim. Sou assim desde muito antes de existir a Internet. Tenho ainda pilhas de papéis escritos sobre tudo que me mobilizou e mobiliza na vida, letras de música, crônicas, poemas, tratados esotéricos, textos de projetos nunca realizados, acho que se me solicitarem até bula de remédio eu sou capaz de escrever com prazer. Babo até de pensar naquelas letrinhas, naquela descrições meticulosas de contraindicações e fórmulas escalafobéticas. Como gosto. Adoro!

É que a minha sede pela escrita é pura compulsão. Nada tem de ideológica, de vontade planejada de mudar o mundo. Não, nada disso. É vício mesmo , como álcool, cocaína, maconha, um vício destes aí ao qual tento dar algum sentido de instigação normal.

Sei, vagamente que os estímulos para ser o que sou vieram de alguma necessidade irreprimível de me relacionar com as pessoas, fruto de uma relação travada que tenho com este ímpeto comunicativo, por culpa da timidez. Sei lá. De repente todo blogueiro ou artista é assim como eu, acredito

É por isto que eu nem levo fé que o tema de Hight Tech, Low Life tenha mesmo algo a ver com a Internet em si. De alguma maneira, nós os blogueiros somos mesmo é ‘malucos beleza’ que se julgam profetas do apocalipse com tanta convicção, mas tanta que acabamos por convencer muitas pessoas que se tornam apóstolos fiéis de nossas supostas profecias.

Sabem aqueles camera men que filmam a própria morte só porque são viciados em flagrar imagens em tempo real? Fácil perceber que com ou sem internet o mundo sempre foi movido por malucos beleza meio suicidas assim.

Ela, a Grande Rede

E é daí que sai o outro fio e nossa história. O futuro da Internet movida por estes indivíduos, me parece que é o mesmo da pré Internet ditado por aqueles paradigmas da comunicação humana quebrados no passado. Foi mais ou menos o que uma pessoa da platéia colocou, aludindo à invenção do livro impresso pelo Gutemberg que teria matado os escribas dos manuscritos de antes. A caligrafia morta amassada pela prensa.

E digo ‘mais ou menos’ porque o livro acabou sendo o que a gente sonha que a Internet seja para sempre: Um território livre e democrático da comunicação humana onde as regras são ditadas por nós mesmos. Balela pura, infelizmente. Ocorre que a imprensa acabou não sendo apenas o livro. A sua outra face mais hegemônica, mais ‘de massa’, o que nos pegou mesmo pelo pé, ficou sendo a chamada Mídia Impressa que acabou capturada por interesses sociais e comerciais bem menos democráticos e meritórios que os do livro.

Meu medo é este: A internet sendo capturada por algum grupo político tutelador de profetas, alguma instancia de governo, nacional ou mesmo internacional, de caráter político ou meramente econômico, comercial, que nos submeta a todos ao seu tacão. Seria mais ou menos este o futuro líquido e certo da Grande Rede?

Eu acho que é e dá o maior medão.

O fato é que, cada vez mais exposta às idiossincrasias comezinhas do ‘Mundo Real‘ – como disse uma das pessoas da platéia do debate – frente ao surpreendente poder que cada vez mais vai demonstrando ter de persuadir e mobilizar consciências (e até mesmo, em certa medida ditar dramáticas mudanças, principalmente políticas, em nossa vida real) a ‘Grande Rede’ vai nos levando como uma sereia lírica e ardilosa, para os confins mais imprevisíveis do Bem ou do Mal estar social.

Os sintomas já são muito claros. Aparecem nítidos no filme de Stephen Maing em vários momentos. Principalmente quando o jovem “Zola” é abordado por um repórter fotográfico francês (um representante do ‘Outro mundo‘, o da imprensa convencional) para fornecer uma entrevista a qual recusa. “Zola” alega que aparecer na mídia convencional (a do mundo ‘real’) falando e opinando seria um risco muito grande, perseguido que estava pelos órgãos de segurança do governo chinês.

Conciliando, embora assumindo a postura auto atribuída de defensor dos interesses populares, “Zola” aceita ser apenas fotografado, mas exige que o seja junro de alguns populares que assistiam a cena. Não abre mão, porém de uma pose claramente estudada, que o destaca como protagonista, com o celular na mão, demonstrando ter a aguda e vaidosa consciência de que sua imagem vai extrapolar o limite dos dois mundos (o virtual opressivo da China e o do ‘mundo livre’ do exterior do país).

Na tão suposta liberdade dele, caído na enorme rede virtual da China, espécie de exemplo de um provável futuro para a Grande Rede geral.

A analogia entre o repórter do ‘Mundo Real”, já domado e tutelado, a serviço de uma empresa jornalística comercial e a liberdade vigiada do blogueiro Chinês (que insiste como todo blogueiro que não é um repórter) é meio que um divisor de águas entre o que os ‘profetas‘ blogueiros são hoje, independentes e audazes (por enquanto) e o que podem vir a ser no futuro, meros intermediários entre os interesses de algum poder instituído (cuja presença invisível já pode ser sentida), que assumirá o controle da Rede e nós todos, omissa população em sua maioria passiva consumidora de anúncios e conteúdos.

As pessoas nem se dão mais conta da dimensão de armadilha tecnológica oculta por trás deste novo paradigma em vias de ser quebrado. Não seria uma grande ironia do destino que o bem de consumo mais lucrativo do planeta – a internet e suas mídias múltiplas – seja exatamente aquele que detém o poder de ser comunicação livre, instantãnea e democráica de ideias e conteúdos ideológicos em geral?

É uma liberdade virtual esta que temos ou imaginamos ter. Óbvio que, no contexto dos interesses do capitalismo mundial, a liberdade e a democracia não poderiam estar dando dinheiro. Se dão algo está errado e será corrigido no processo.

Compramos como algodão doce uma ilusão de liberdade. Uma liberdade virtual e transitória.

Me parece – e esta é apenas uma sensação baseada na lógica da crápula natureza humana – que muito em breve alguém, algum poder insidioso pegará as rédeas deste trem desembestado que é a Internet livre e encaminhará ele, o trem de nossos anseios de liberdade, para o desvio de sempre, aquele para o qual são levadas todas as liberdades públicas depois de mopidas e massacradas.

Vocês se lembram dos Saltimbancos Trovadores e dos Griots do nosso passado mais remoto, aqueles gatos pingados que circulavam pelas sendas do mundo difundindo notícias  e lendas antes das outras mídias mais novas existirem? Pois é, foram engolidos e dominados pelo rádio, pelo disco e pela televisão. As mídias sempre capturam e são capturadas por algum dono. Questão de tempo. Nós, os blogueiros do mundo todo, do mesmo modo que os da China, seremos aprisionados no papel pega mosca da comunicação tutelada.

Só rezo para que seja que seja um sinhô bão, daqueles que não batem na gente com a palmatória nem colocam os mais falastrões feito o Titio no tronco ou num pau de arara real. Quem haverá de postar no facebook a minha desdita?

Spírito Santo

Outubro 2012

————

Stephen Maing – Director/Producer/Cinematographer/Editor

Trina Rodriguez – Producer

Richard Liang – Co-producer

Jonathan Oppenheim – Co-Editor/Editing Consultant

Eric Daniel Metzger – Editing Consultant

Anne Marie Stein – Consulting Producer

Anúncios

~ por Spirito Santo em 12/10/2012.

2 Respostas to “Da Grande Rede à Grande Muralha. O Firewall de nossas internéticas angústias”

  1. Valeu Bobby!

    Curtir

  2. Um estudo divulgado nesta semana mostra que as ameaças à liberdade na internet têm crescido no mundo, com o aumento de práticas de censura, bloqueio a sites e até ataques físicos a blogueiros em países autoritários. Dos 47 países analisados, 20 vivenciaram uma trajetória negativa em termos de liberdade na internet desde janeiro de 2011, sendo as maiores quedas do Paquistão e da Etiópia. O Brasil obteve 27 pontos, ocupando a 11ª posição.

    De 2011 para 2012, perdeu apenas dois pontos no ranking, o que simboliza uma melhora ligeira em relação à liberdade de internet. Cabe lembrar que o Marco Civil, proposta para definir princípios para a internet no País, foi recentemente adiada mais uma vez. a terceira em três meses, esbarrando, principalmente, na questão de neutralidade de rede. Restrições. Segundo o relatório, “restrições à liberdade na internet em muitos países têm continuado a crescer, embora os métodos de controle estejam evoluindo lentamente e estejam se tornando menos visíveis.

    ” De acordo com a organização, a censura online tem se tornado mais intensa, seja com o bloqueio ou filtragem de sites, com novas leis que reduzem a liberdade de expressão, manipulação de conteúdo online e ataques físicos a blogueiros ou a usuários que criticam o governo vigente.Segundo o estudo, em alguns países, a internet segue como um domínio praticamente desobstruído em comparação à mídia tradicional, como rádio e jornal impresso, que podem sofrer mais repressões.Abaixo, 28 países que apresentaram uma diferença de dez pontos ou mais entre os dois estudos, estando o Brasil entre eles. “Essa diferença reflete as pressões em potencial tanto a curto como a longo prazo para a manutenção da liberdade de expressão online”, diz o relatório.

    (Bobby Benjamin, colaborando com o blog do Tio)

    Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: