Historiografia malsã em xeque. A defesa de João José Reis

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Tem gente que duvida e fica ali sentado no trono, esperando a hora da criadagem servir o banquete.

Mas creiam: mais cedo ou mais tarde a fila anda. A Bastilha às vezes está desmoronando logo ali, na esquina, onde e quando a nobreza, menos espera.

A série de posts a que este debate abaixo se refere, é um evento mais do que emblemático do quanto – como o sangue de Cristo que tem poder – a Internet pode mexer com o mundo real para movê-lo de lugar e revolucioná-lo.

Texto ‘metedor de bedelho onde não foi chamado’, daqueles que o Titio adora produzir, a série Revolta dos Malês e João José Reis. A historiografia que não sai do corpo que não lhe pertence– quem diria -acabou virando uma bem sucedida – e bombada – provocação à Academia, pois se propõe a fazer uma crítica a mais profunda e abalizada possível – nos limites dos textos ligeiros para a Internet – de um trabalho acadêmico clássico, considerado aqui pelo Tio um equivocado e capcioso exercício de disseminação do racismo residual de nossa academia.

Não curti e pronto, resenhei minha crítica. “Rebelião escrava no Brasil” (sobre a Revolta dos Malês) de João José Reis faz, compulsoriamente a cabeça de 10 entre 10 alunos de pós graduação em História do Brasil. Sabem lá o que é isto? A mim bastou me sentir afrontado com algumas partes do texto, instigado a debater e a querer encarar uma pendenga. Pronto.

Observem que a expressão ‘texto acadêmico‘, aquele escrito de um autor incensado e admirado por seus pares, que se torna um clássico, objeto de discussão em classe, por conta de ter sido eleito como referencia obrigatória em cursos de pós graduação e/ou doutorado (caso evidente de João José Reis) não deveria ser atribuída aos textos como os do Titio, não mais que um leigo abusado e assumido “Nativo fora do lugar”. Mas não é que é isto mesmo que o que texto está sendo, assim na prática, considerado?

Os professores doutores pira!

E aí está o xis da questão. Os alicerces da torre de marfim, carcomidos em alguns pontos podem ser movidos sim com uma balançadinha de leve que seja. Água mole em pedra dura…

Pois não é exatamente isto – pasmem vocês – que professora doutora da Universidade Camilo Castelo Branco (UniCastelo/São Paulo) Fábia Barbosa Ribeiro acaba de confirmar, por força sabe-se lá de que urgente solicitação (presumo que de alunos seus de pós graduação) elevando o texto do Tio a um legítimo texto ‘acadêmico‘ a ser debatido em sala de aula (e com direito à réplica da própria professora doutora, o que me deixou extremamente honrado).

Sério.

Uhhù! Cadê a minha beca preta? Cadê o paraninfo, o baile? Cadê a minha bolsa do CNPQ?

O fato é que Titio agora tipo que ‘pós graduado’ – sem nunca nem graduado ter sido – acha muito incrível ter adquirido este inusitado status de referencia (mesmo assim, subversivamente como lhe apetece).

Sei muito bem que o título de referencia fortuita, se deve exclusivamente ao fato da referida série de posts, contendo críticas ácidas à historiografia eventualmente racista de João José Reis, estar sendo lida, num fluxo espantoso e crescente de leitores, exponencialmente, por força de um movimento totalmente espontâneo, tocado por milhares – sim, alguns poucos, mas milhares sim! – de leitores, a maioria deles, presumo, jovens alunos e alunas, negros e negras, dos inúmeros cursos de pós graduação em História hoje espalhados por este Brasil.

É portanto com a minha malinha preta de rodinhas bem acondicionada no guarda volumes deste aeroporto virtual que é a Internet – o Campus de mim mesmo – como é do meu feitio não fugindo às minhas obrigações para – ou proto – acadêmicas (e o apreço pelo leitor freguês, enfim exercitado em primeiro lugar) que faço aqui a tréplica da crítica que recebi da professora Fábia Barbosa Ribeiro à minha diatribe, deixando as supostas verdades de uns ou de outros voando aí ao léu, João José Reis e Eu, navegando na democrática e promissora Grande Rede de todos nós.

Faço a tréplica como de praxe em partes (como o Jack), comentando ponto por ponto, cascudo por cascudo revidando de leve, como cavalheiro que sou. É assim que tentando arranhar a Torre de Marfim da academia à cabongadas e empurrões francos que vou (com todo respeito) em frente. Permitam-me apenas gritar mais um…Uhhù!

_Uhhù!

(Onde ela viu o chamado ao duelo, veja bem quem tirou primeiro a luva)

J J Reis esbofeteando a Dona ‘Verdade dos fatos e Silva’ ´defendido por Fábia Barbosa Ribeiro.

Com relação ao texto apresentado no blog (Spirito Santo.wordpress.com) , este apresenta uma visão particular da obra “Rebelião escrava no Brasil”, de João José Reis, editada no ano de 1986, que retrata a conhecida revolta dos Malês na Bahia no ano de 1835. O texto do blog me parece estabelecer um duelo entre bantus e nagôs, denunciando a excessiva elevação dos nagôs na Bahia por parte de JJ. Reis em detrimento dos bantus especificamente dos chamados angolas. Não devemos esquecer que nem angolas e muito menos nem nagôs, são identidades étnicas pré-existentes em território africano, a primeira seria uma identidade diaspórica, ou segundo Mariza Soares, de procedência, pois criada no contexto do tráfico de escravos, denominação oriunda da colônia portuguesa estabelecida em Luanda, e referência direta ao cargo de comando do “N’gola a kiluanje”. Já o termo nagô, segundo Luis Nicolau Parés seria uma identidade meta étnica, que se disseminou no Brasil também no contexto da diáspora.

(Professora doutora Fábia Barbosa Ribeiro)

Alto lá que vem aí a Pílula comentada número um:

A professora se equivoca redondamente.

Podem ler lá. O texto do meu blog não estabelece, de modo algum um ‘duelo‘ entre bantu e nagô, absolutamente. Quem estabelece este embate, no ensejo claro de firmar uma hierarquia entre os nagô e os bantu é o autor JJ Reis. Os termos da crítica que faço a esta exacerbação de JJ Reis neste sentido, carecia de elementos que a atestassem, e foi o que eu tentei fazer em atenção aos leitores leigos (ou mesmo ainda estudantes) que não costumam ler as entrelinhas (muitas vezes omitidas por orientadores de teses politicamente mais perspicazes)

O meu texto é, pois que afirma: João José Reis propõe uma dicotomia mais que impertinente, abjeta entre negros assim e negros assados, induzindo os leitores a julgar os ‘Nagôs-jêjes’ superiores aos ‘bantus- crioulos’

A professora se equivoca de novo quando se refere ao uso que eu, supostamente teria feito da expressão ‘angolas‘. Ora, como afirmo claramente no meu texto, quem utiliza esta classificação superada de ‘angolas” é o professor JJ Reis. Só utilizo a expressão raramente e assim mesmo apenas para pontuar o equívoco dele, JJ Reis. Podem ir lá no blog conferir.

Na verdade dou real ênfase às expressões ‘bakongo‘,  ‘ovimbundo‘, ‘kimbundo‘ etc. termos etnológicos mais pertinentes ao caso, chegando a criticar, literalmente a imprecisão da terminologia etnológica usada por JJ Reis (‘bantus’, ‘sudaneses’, ‘angolas’, ‘nagôs’), acentuando que ela é tributária da arcaica definição de Nina Rodrigues, válida apenas para o século 19 ou o iniciozinho do 20.

O equívoco da professora neste caso me parece mais grave ainda porque esta questão é central em minhas colocações e está claramente expressa em meu texto, tornando as afirmações da professora algo distorcidas e improcedentes.

Há, portanto imprecisões importantes nas colocações da professora doutora quando, citando segundo a afirma, Mariza Soares, se reporta à denominação ‘angola‘. Observe-se que ‘ngola‘ é, com toda certeza um termo toponímico (que designa, de algum modo um local associado a um grupo étnico) um reino da região compreendida por Luanda e o seu interior, as pedras negras de Npungo Ndongo como sede, desde sempre, pelo menos desde antes do século 15, antes mesmo dos portugueses portanto, segundo se pode observar em inúmeras fontes da época.

O termo ‘Ngola‘ acabou gerando a atribuição nobiliárquica ‘Mwene e ngola‘ (supremo mandatário da Ngola). Reparem que o mesmo ocorreu com o Kongo (o reino) cujo supremo mandatário na mesma época se chamava “Mwene e Kongo” (“manicongo” para os portugueses). A língua, mais ou menos comum por esta época na região referida era o kimbundo, originário do kikongo ancestral, do tempo de Diogo Cão, século 15. É por intermédio desta etimologia que se pode construir um conceito menos simplista da questão.

A expressão “Angolas” não é, por isso mesmo equivocada em sua origem, porque neste caso ela é apenas imprecisa (e por culpa de imprecisões, exatamente…historiológicas).

Como já se sabia desde os tempos de Nina Rodrigues, eram embarcados em Luanda escravos de outras procedências (‘cambindas‘, ‘monjolos‘, ‘nkangelas‘, ‘kissamas‘, etc) além dos oriundos da área regida por ‘Ngola’ Kiluange (pai da Rainha Jinga, sua legítima sucessora).

É óbvio, portanto que o termo ‘angolas‘ se referia a escravos oriundos de uma região determinada sim, tornada imprecisa, como disse acima, pela má leitura feita dos dados comerciais do tráfico de escravos contidos nos diários dos navios e dos livros de embarque nos portos de Luanda e desembarque do Brasil (o porto do Rio de Janeiro, principalmente) por parte de estudiosos como o acima referido Nina Rodrigues, que fez leituras algo requentadas de outros autores como Ladislau Latalha, e Alfredo Ellis, por exemplo.

É bom se frisar também que o nome pelo qual são conhecidas as figuras históricas desta região, não são nomes próprios, exatamente. ‘Jinga‘ por exemplo (“Nzinga‘) a afamada rainha, se refere uma dinastia remota, um ramo genético do qual ela era descendente direta, assim como ‘Kiluange‘ (seu pai) que se refere, ao que parece ao fato deste rei ter pertencido a uma estirpe de exímios caçadores (‘kilwange‘ na língua local, presumo). Há pois uma série de reis ‘Mwene’ Ngolas’ com este título na história da região (e até mesmo no Brasil, pois há um quilombola chamado ‘Kiluange‘ na crônica final do Kilombo de Palmares pós Zumbi).

Estas informações assim rapidamente expressas, as quais considero mais alentadas, obtidas sem grande dificuldade por aí (algumas em longas, embora simples zapeadas no Google) vindas de um leigo como o Titio podem atestar muito bem o quanto anda patinando em velharias metodológicas a historiografia acadêmica do Brasil, isto sem mais falar das rateadas ideológicas, representadas em seu renitente e aqui sobejamente comentado (data vênia e com todo respeito) racismo.

E mais: Tem a pílula comentada dois:

“Não consigo enxergar na obra de Reis “o forte teor eugenista com o rabo de fora enrustido”, apontado no blog, sobretudo quando menciona a polarização entre crioulos e africanos ou mesmo entre “bantus” e ‘nagôs”. O que me parece é que João José Reis deseja realmente em sua obra, a qual não esqueçamos data de 26 anos atrás, ressaltar as qualidades dos africanos durante a revolta dos Malês, destacando talvez excessivamente seus atributos étnicos, a sua suposta “africanidade”, como a herança nas artes da guerra.

Não consigo enxergar conotações racistas, etno geneticistas”, mesmo porque as teorias raciais dizem respeito a uma hierarquização baseada na “cor de pele”, uma discussão que a meu ver nem poderia ser colocada junto ao debate sobre identidades étnicas no Brasil do período colonial e imperial (tema muito mais complexo do que pode parecer), uma vez que são todos negros, os crioulos e os africanos.”

                            (Professora doutora Fábia Barbosa Ribeiro)

—————–

Mais equívocos, infelizmente. O eugenismo na obra de JJ Reis aparece óbvio em seu texto. Só não vê quem não quer. E vejam que incrível! Esta minha afirmação, contida que está no enunciado desta mesma questão aludida pela professora, está sendo atestada e negada por ela neste mesmo enunciado: Ela diz: “A polarização entre crioulos e africanos” (no olhar de JJ Reis).

“_Cuma?”

Não é curioso a professora doutora afirmar não ver exatamente o que refere – e portanto viu – logo a seguir? O que seria esta…“polarização‘ exagerada observada por ela no caso, forçada de diversos maneiras por JJ Reis, senão um expediente de sua argumentação para afirmar a suposta inferioridade…genética de uns (os crioulos e os bantu) em relação aos outros (os ‘africanos e os ‘nagôs-jêjes)?

Um recorte eugenista, ora pois pois! Claramente caracterizado pela expressão ‘crioulo‘ que tem sim, pelo menos no contexto em que JJ Reis a coloca em seu discurso, este sentido cabal de ‘mestiço‘, por extensão ser humano ‘impuro‘. Ora, se o ‘africano’ é incensado como o supra suma da raça negra, o ‘crioulo‘ é o ‘sub sumo’, ora. Que outra conclusão se poderia tirar desta dicotomia?

Cansa repetir, mas o texto do meu blog enumera diversas imprecisões em ‘barras forçadas‘ na argumentação de JJ Reis, entre as quais se destaca a incrível – e que me pareceu deliberada – omissão ou subestimação da maciça presença de africanos bantu no Recôncavo baiano.

É típico: no pensamento torto de JJ Reis: Apenas os nagôs e jêjes e assemelhados (vizinhos em África) merecem o qualificativo ‘africanos‘, com ênfase, como status de superioridade cultural e…por extensão, na falta de explicações mais aprofundadas da parte do autor, proeminência, superioridade…genética.

Óbvio está que a presença de africanos não nagôs no âmbito da Salvador da época da Revolta dos Malês desmontaria a tese da suposta ‘Pureza Nagô’ claramente aludida e ventilada pelo autor (e os africanos bantu chegavam no Brasil aos borbotões neste período) Talvez seja por esta razão que esta africanidade evidente dos milhares de bantu que chegavam à cidade entre 1805 e 1835 (período abordado por JJ Reis) e eram espalhados pelo Recôncavo (e em Salvador) não seja devidamente considerada pelo historiador.

(Aliás, reparem só: Os estudos sobre a cultura negra do Recôncavo baiano são, até hoje, inusitadamente rarefeitos.)

Como pode a professora doutora não ver nesta afirmada ‘polarização‘ tão eufemística, de trato claramente etno racial (“crioulos versus africanos, Nagôs versus bantu) uma classificação de ‘forte teor eugenista? Será que ela não viu, simplesmente porque não quis ver?

Quando afirma “Não consigo enxergar conotações racistas, etno geneticistas, mesmo porque as teorias raciais dizem respeito a uma hierarquização baseada na “cor de pele” bem se vê que a professora doutora simplifica uma questão de enorme complexidade.

Se esquece sobretudo que no contexto histórico do fim do século 19 (numa referencia à Nina Rodrigues em que as teses de JJ Reis se assentam fortemente) as teorias racistas eram baseadas em princípios bem mais ‘profundos‘ e radicais (afinal, só como exemplo, diga-se que estes conceitos usados por Nina – e JJ Reis – são a base ideológica que configurou na Europa colonialista as ideias nazistas emergentes na década de 1930). Óbvio está que a mera ‘diferença de cor da pele’ é um parâmetro utilizado apenas hoje em dia.

Aliás, mesmo se considerássemos este parâmetro dos dias atuais, se poderia constatar facilmente que o conceito simplista da ‘diferença apenas da cor da pele’ não procede totalmente. Nunca procedeu senão como tergiversação racista ou sofisma. A discussão das cotas raciais está aí mesmo para provar que esta não é uma questão que se possa tratar com uma análise apenas… grosso modo, com filtros limitados ao preto & branco, ao pau ou pedra ou ao oito ou oitenta.

Ainda assim, quando utiliza a expressão ‘etno geneticista’ já em si fora de contexto em sua contra argumentação, a professora se embanana nos outros sentidos embutidos no tema, por que só aborda o conceito parcialmente, em seu aspecto ‘genético‘ (‘racial‘), se esquecendo de que existem contornos culturais (‘étnicos‘) embutidos no racismo de JJ Reis, claramente expressos na dicotomia criada por ele entre ‘Jêje/ Nagô (culturas supostamente ‘evoluídas‘) e Bantu /Crioulo‘ (culturas pretensamente ‘atrasadas‘), instancias culturais e, portanto etnológicas do problema, que dão a ele um perfil de complexidade bem maior.

Aliás, vale ressaltar – e fiz isto veementemente no texto original do meu blog – que o parâmetro usado enrustidamente por JJ Reis para hierarquizar a superioridade dos ‘Jejes/nagôs‘ frente aos ‘bantu/crioulos”, tem como parâmetro a civilização ocidental, europeia, o ponto de vista dos ‘brancos‘, da matriz eurocêntrica como se diz, a da raça superior a todas as outras, por suposto.

É este o tal ‘rabo enrustido’ da ideologia de JJ Reis, ao qual a professora alude, com mal disfarçada ironia.

Hum…

Duvidam? Pois vão lá e leiam: É este, exatamente o conceito emitido, literalmente por Nina Rodrigues em seu livro clássico “Os Africanos no Brasil” de 1906. Nem é preciso ser historiador para se  concluir que este acabou sendo o maquiavélico parâmetro de estratificação socio racial de todas as sociedades racistas, de todos os apartheids.

A Pílula comentada três o diabo fez:

“As qualidades atribuídas aos africanos nagôs, em detrimento dos “bantus”, e ainda mais dos crioulos (destacada no blog como “reducionismo racista”), se configuram, a meu ver, muito mais em uma polarização étnico geográfica do que racial, e mais ainda, em uma visão pessoal por parte dos autores, tanto de João José Reis quanto do autor do blog, ambos defendendo suas próprias opiniões). Concordo que o acadêmico baiano se excede em sua busca por uma africanidade “legítima”, essa hoje é na verdade a grande meta da maioria dos africanistas que estudam a diáspora: “enxergar a África no Brasil”. Reginaldo Prandi, por exemplo, relativiza a permanência de práticas legitimamente africanas no Brasil (texto que encaminho em anexo), criticando sutilmente aqueles que “forçam a barra” para enxergar a África no Brasil. Há muitas visões sobre essa temática.”

Tedioso enfatizar, mas de novo as incongruências da crítica da professora se excedem. Cabe-me portanto a tarefa de definir o que é, exatamente ‘reducionismo racista”.

Permitam-me esclarecer que a expressão ‘reducionismo‘ se refere geralmente a um modo simplista, raso de se definir algo, ‘reduzindo-o’ a sua expressão mais aparente, mais evidente, o que, evidentemente turva qualquer possibilidade de análise abalizada, incompatível com o fazer acadêmico.

Bem…racismo vocês já sabem o que é, certo?

Logo “Reducionismo Racista”, na forma como formulo é a utilização de uma conceituação, deliberadamente reducionista, rasa, com fins  que falseiam a verdade – mesmo a relativa – dos fatos, no caso com intenções racistas, ou seja, classificar o ‘outro‘ como inferior a partir de premissas etnorraciais .

A dicotomia boba lançada por Nina Rodrigues – e endossada por JJ Reis – entre ‘Sudaneses‘ (um conceito geográfico, pois se refere a um grupo impreciso de povos de um região africana) e ‘Bantus” (um conceito etnolinguístico, pois, se refere a um grupo de povos com idiomas aparentados) como a professora doutora bem observou, é incompatível com as premissas mais elementares de uma metodologia que visa estudar, aprofundadamente uma questão de tanta relevância para nós todos. Mas devo ressaltar que isto não se dá pelas razões que ela alude.

É por demais evidente no livro a JJ Reis (e os 26 anos atrás em que ele foi escrito não é muito do ponto de vista historiológico, já que alguma profunda revisão poderia ter sido realizada) é evidente repito, que ele tenta criar um sucedâneo para esta imprecisão existente entre os dois conceitos (Sudaneses e Bantus). Quem leu algumas entrelinhas do seu texto, como o Titio fez, pode perceber no entanto que ele, simplesmente substituiu mecanicamente o conceito original de Nina Rodrigues (“Sudaneses e bantus”) por uma estreita dicotomia idêntica (e tão impertinente quanto a do velho mestre baiano), que é a dos “Africanos superiores aos crioulos” (no âmbito da Revolta dos Malês) e a dos “Nagô e Jêjes superiores aos angolanos ou bantu” (no âmbito geral).

Está na cara! É nítida demais a polarização criada por JJ Reis entre o grupo dos Nagôs e Jêjes (e outros povos da parte mais ao norte da África, da Costa dos escravos antiga, ‘Sudaneses‘ por suposto) e Bantus, ‘angolanos‘ (ou crioulos), como ele os identifica lá para as tantas, tratando-os – como fez Nina Rodrigues, seu guru – como o ‘resto‘, o rebotalho da ‘raça‘ africana.

É sim: Só não vê esta ‘polarização’ exacerbada quem não quer. E suas eventuais motivações ideológicas não contam? Se este tipo de classificação etno racial não tem forte conteúdo etno geneticista o que poderia ter? Não é relevante demais esclarecer estes pontos tão obscuros de nossa historiografia oficial? Se isto aí não é relevante o que seria?

A este respeito, cabe frisar – já que é a hora – insisto que é muito forte entre os historiadores acadêmicos mais tradicionais e conservadores do Brasil esta tendência a propor uma inexplicável diluição das etnicidades e dos valores culturais tradicionalmente africanos (preservando apenas valores eleitos por eles mesmos como sendo os ‘puros‘, ou seminais, os tais valores da ‘pureza nagô’ e do Candomblé apontados por JJ Reis e quase todos os seus pares).

O mais surpreendente é que, mesmo deixando tantas questões destas alegações improváveis sem explicações fundamentadas, esta tendencia predomina até agora, a ponto de figuras como JJ Reis terem, ainda hoje, defensores ferrenhos de suas ideias, em si mesmas tão metodologicamente arcaicas (e tão claramente racistas, diríamos, mais uma vez).

Montou-se todo um edifício de ideias historiologicas equivocadas, malsãs, a ponto dos jovens doutores negros que vão se formando por aí, andarem a enfatizar, replicar ideias mal alinhavadas que os degrada pessoalmente, socialmente, sem nem se darem conta da armadilha maquiavélica em que estão enredados.

O preocupante é que a posição expressa pela professora doutora a coloca exatamente no âmbito destas posições recorrentes, já consideradas bastante questionáveis por parte de historiografias estrangeiras, menos imbuídas do racismo renitente e residual que contamina ainda as Ciências Humanas do Brasil.

Todos os dados mais modernos sobre o fluxo de escravos para o Brasil, por exempo, já vão orientando os estudos recentes para uma negação quase absoluta desta diluição improvável das culturas africanas no Brasil. Há uma lógica cultural na Diáspora evidenciada pelas circunstancias todas que caracterizaram o fenômeno que é, antropologicamente bem complexo. A diluição de culturas num melê crioulo, ‘miscigenado‘ é, por isto mesmo um conceito simplista, que carece, cada vez mais, de sentido historiológico.

Não fossem já determinantes as cirunstancias geográficas destas origens e demais fatores ligados à especial logística do comércio de escravos da África para o Brasil (com seu eixo determinado – no caso do Brasil, ressalto – como estando localizado em Angola, pela maior parte do tempo), não confirmassem já estas novas linhas de pesquisa, as próprias circunstancias de prolongado isolamento cultural a que estiveram expostos os escravos aqui no Brasil, nos longos períodos de duração de cada ciclo econômico (Açúcar, Ouro/Diamantes e Café) em que estes estiverem fixados numa mesma região, o que mais se necessitaria provar?

Apenas isto, fatores inquestionáveis que são, já determinaria o forjamento – ou mesmo a manutenção, a sobrevivência – de uma cultura sucedânea, quase que totalmente tributária de suas características africanas originais.

Não é assim – diz a boa antropologia – que acontece com a cultura dos seres humanos em geral? A não ser que consideremos negros africanos seres inferiores e anormais em relação aos outros, incapazes de reter em suas memórias as marcas mais prfundas de sua experiencia cultural secular no continente africano.

É por demais evidente para mim e por todo o exposto – e isto não pode ser afirmado que não deixei claramente expresso no texto do meu blog – que há razões políticas e ideológicas muito fortes embasando o pensamento de historiadores como JJ Reis e seus pares mais fiéis, razões de classe, motivadas pela opção pela manutenção de privilégios sociais antigos que a historiografia, enquanto ciência isenta que deveria ser, não poderia endossar.

Pílula comentada quatro:

“A meu ver, a linha seguida por João José Reis, é a de ressaltar esse Brasil africano e não crioulo e ele interpreta os seus documentos nessa direção. Diversos autores já escreveram sobre os processos de “assimilação, “aculturação”, “transformações”, “plurissignificações”, “transmutações”, ‘recriações” (quaisquer que sejam os termos usados) ocorridos durante a longa e forçada diáspora, é uma discussão bastante antiga, iniciada segundo especialistas, por Melville Herskovits. Mintz e Price elaboraram interessante análise sobre a realidade norte-americana em seu texto.

“…Acho que a formação das irmandades de pretos e pardos no Brasil ajuda a entender e muito as dissensões étnicas no Brasil colonial e imperial. A partir do estudo das irmandades de pretos, o trabalho de Lucilene Reginaldo, historiadora baiana e negra, (caso essa última informação seja importante), professora de História da África da UNICAMP, caminha na direção de relativizar algumas dessas dissensões e ainda de mostrar a forte presença dos “angolas” nesse “mundo nagô” que se constrói na Bahia dos séculos XVIII e XIX. Essa pesquisa já está disponível em livro, pela editora Alameda com o título: “Os rosários dos angolas”.

Há, contudo no texto em que tento fazer uma análise crítica da obra de JJ Reis um aspecto que a professora não considerou (ou não intuiu) A intenção política de apontar a existência de um pensamento acadêmico tornado hegemônico na universidade do Brasil. Esta corrente de pensamento é composta por uma maioria esmagadora de doutores brancos (não que este fator seja, especialmente determinante na ideologia deles) mas enfim, um bloco poderoso de ‘donos da verdade’ que lhes interessa, verdade esta que, no caso específico do Brasil, acabou por instituir e sacralizar conceitos ambíguos de nacionalidade (os quais considero eugenistas em si mesmos).

Por estes conceitos, suspeitosamente o negro é sempre colocado como aquele elemento passível de aculturação, o ‘catequizado‘, o ‘assimilado‘, o “transformado”, “ressignificado”, “transmutado”, desprovido portanto de autenticidade, originalidade, tutelado que sempre está – ou se pretende que esteja – à alguma superioridade cultural branca e suposta, tão temente de uma afirmação etnológica do negro brasileiro que nos surpreende e nos induz às perguntas:

Em que reside este temor atávico que a academia branca tem da afirmação de uma cultura negra autônoma no Brasil? Porque este medo absurdo da África que reside, indelevelmente em todos nós? Porque esta estratégia de apagamento compulsório de valores que, seja lá de que modo tenha sido, forjaram a nossa ainda tão imprecisa nacionalidade?

Como bem diz a professora na parte mais pertinente de seu arrazoado:

“Qualquer obra acadêmica é questionável, não apenas por suas qualidades ou defeitos, mas pelo simplesmente fato de que a História é múltipla, o historiador que quiser encontrar a “verdade” histórica está fadado ao fracasso, pois sempre existirão muitas versões para os mesmos fatos e ainda bem, a possibilidade de discordar, sempre a partir de novas fontes.”

Ora, Já ouvimos este ramerrão recorrente das ‘várias verdades‘, quinhentas vezes. O fato de, em tese, existirem várias versões para um mesmo fato, não impediu a historiografia oficial do Brasil de plantar ou tornar hegemônicas e inquestionáveis aos vis mortais, apenas as verdades cômodas para um grupo social ‘diferenciado‘, neste patriarcalismo caquético que nos caracteriza.

Faltou a ela dizer – ou reconhecer – que a estratificação social – e racial – da academia só agora começa a permitir o surgimento tímido de teses que contradigam estas verdades super estabelecidas por uma casta arrogante, baseadas em linhas de pensamento já tornadas arcaicas e superadas em outras partes do mundo (como as de Nina Rodrigues, Gilberto Freire, Sergio Buarque de Hollanda e JJ Reis para citar apenas os mais notórios.).

E vamos combinar também: A história sem verdades absolutas só será possível mesmo num contexto de ampla democracia na construção, na transmissão e na discussão ou troca de saberes, sem doutores ‘brancos‘ sabichões de carteirinha mandando em todos os ‘pedaços‘. Não há modernidade possível numa instituição com um recorte de classe calcado nesta estratificação sócio racial tão exacerbada como é a universidade do Brasil.

É promissor que esta universidade – mesmo que seja assim de baixo para cima – esteja, ainda que em efêmeras chispas, cozinhando um futuro menos conservador, menos submisso e tutelado. As universidades não foram criadas para a manutenção do status quo e do passado. O bolor da arrogância acadêmica conservadora e o frescor do conhecimento instigado não combinam. Diante do futuro, da modernidade, da quebra de paradigmas engessados e da transgressão a todo custo devemos gritar sempre: Uhhú!

É assim que com os direitos de palpitar no que me der na telha que a lei dos sexagenários me faculta, eu vou, eu vou, porque não?

(A seguir a professora traz a apreciação dos seus alunos um trecho de sua própria tese ):

“Brevíssima discussão acerca da questão das identidades étnicas na Diáspora.”

Adaptado de: Fábia Barbosa Ribeiro: “Caminho da piedade, caminhos de devoção: as irmandades de pretos no Vale do Paraíba paulista – século XIX”(capítulo I) –  disponível aqui neste link.

Spírito Santo

Outubro 2012

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~ por Spirito Santo em 18/10/2012.

3 Respostas to “Historiografia malsã em xeque. A defesa de João José Reis”

  1. Allysson,

    Obrigado pela observação. Ocorre,contudo que a pertinência a qual você aludiu comentando a minha análise surge do fato daquelas 50 páginas conterem evidências muito eloquentes do caráter eugenista da tese. Acredito que o autor tenha obras onde este caráter eugenista não aparece. Até porque e a propósito esta tendência – que defini com malsã – não se encontra mais tão evidente na historiografia moderna.

    Chamo a atenção no entanto, para o fato de não ser assim tão raro o pensamento eugenista aparecer enrustido – colocado em termos menos evidentes, naturalmente – ainda na nossa historiografia. São referencias inevitáveis à nossa formação acadêmica, reflexo evidente de nossa estratificação social tão colonial.

    JJ Reis não é o único. Usei-o apenas(limitado àquelas 50 páginas de 1986) como exemplo de que pode haver muita coisa estranha ao pensamento moderno e democrático embutida nas entrelinhas de nossos melhores pensadores.

    A tese que afirma a existência de uma relevante divisão entre crioulos e africanos no Brasil (bastante discutível, aliás pois a eventualidade dela ter existido em Salvador em 1835, não autoriza a sua generalização para o Brasil inteiro) vem sendo reciclada até hoje, tendo servido de embasamento para correntes contrárias às cotas raciais muito radicais, por exemplo.

    No mundo da Diáspora africana inteiro esta tese (a da eventual existência de uma suposta ideologia mestiça, ‘crioula’, antagonista da ‘causa negra’) está muito em voga. A iluminá-la as mesmas velhas teses de Freire e Nina Rodrigues, circunstancia que deve deixar qualquer leitor mais curioso e perspicaz com o pé atrás.

    Por aí.

    Abs

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  2. Concluir a partir de 50 páginas que J. J. Reis é eugenista é muito estranho. A divisão entre crioulos (negros nascidos no Brasil) e africanos (independente da procedência geográfica e étnica) parece ser um fato que a documentação ilumina como provável.
    Em todo caso sua análise é pertinente, mas sugiro adquirir outras obras do autor para melhor fundamentar sua crítica.

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  3. Ninguem e’ intocável para sempre.

    A. Kandimba

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