A CARTA DO SAMBA e o I Congresso Nacional do Samba de 1962


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A carta do Samba é um documento fundamental de nossa cultura, notadamente a chamada – ainda naquela época, com certo preconceito rançoso – de ‘popular’.

Neste Dezembro de 2012, quando o emblemático I Congresso Nacional do Samba, encontro que teve a Carta como resultado mais palpável e relevante faz 50 anos, se organiza o II Congresso Nacional do Samba.

Titio, quase um garotinho ainda, adolescente naquela época quando curtia seus primeiros sambas na Mocidade Independente de Padre Miguel, por conta do tudo que viu por aí, escreveu um livro, exatamente sobre Samba denominado Do Samba ao Funk do Jorjão (veja edição Amazon.com no link) que tenta fazer historiografia sobre a gênero e suas mumunhas musicais mais complexas.

É – vejam só vocês! – É o livro que insere o honrado Titio nesta praia de bam bam bans.

É por estas e outras que o Titio estará lá “defendendo o enredo do seu samba“, fazendo uma apresentação escrita e falada para a mesa redonda ‘Diversidade do Samba e patrimônio Imaterial”que vai rolar de 30/11 a 02/12 às 10 hs no Museu da República.

Na Carta do Samba de 2062 Titio já não estará mais por aqui, presumo, mas vai estar com certeza nesta segunda carta que constará dos anais do II Congresso, com os seus leros, trecos e futricos de sambista empedernido, embora doente do pé.

Esta carta do Samba de cinquenta anos atrás é para vocês já irem esquentando os tamborins.

O documento de 1962 é muito pitoresco e curioso porque exprime posições muito marcadas por sentimentos nacionalistas exacerbados,  uma xenofobia mal disfarçada que fazia com que alguns de nossos intelectuais mais lúcidos para a época, perdessem de vista aspectos antropológicos mais técnicos da questão para  envolver o tema nos humores políticos de uma época cheia de maus bofes que, como se sabe, apenas dois anos depois (1964), deu no xabu que deu.

Vão vendo aí:

Infográfico Kilombo-Palmarino. Hipóteses em documentos oficiais


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genealogia palmares infográfico copy

Infográfico de uma provável genealogia palmarina, baseado em fontes documentais oficiais portuguesas e holandesas. (Por Spírito Santo. Todos os direitos reservados por licença Criative Commons)

Os nomes e uma provável genealogia de Palmares

Este infográfico que você vê aqui acima, além de ser uma obra em progresso é ‘comunitário‘, ou seja: Você pode sugerir inserções, correções, o que quiser. As regras ou orientações para se fazer isto, contudo são muito técnicas, antropológicas melhor dizendo e não podem ser assim aleatórias, infundadas, destrambelhadas, pois, deu um trabalho enorme pesquisar e estabelecer alguma lógica ou sentido historiográfico para os dados expostos aqui, mesmo ainda grosso modo como fiz.

Digo isso assim tão enfaticamente, porque a tendência a falsear, distorcer, fraudar mesmo a história do negro no Brasil tem sido uma prática muito comum por aqui, praticada não só por gente leiga, irresponsável, mas também por pessoas insuspeutas, mui letradas, gente acadêmica inclusive, com motivações as mais diversas, entre as quais tirar algum partido da lei 10.639, que abre um mercado editorial promissor num país carente de títulos sobre o assunto, carência esta cuja  primordial razão é o nosso racismo sistêmico.

Infelizmente, esta execrável onda de falsificação, de mistificação da história do negro por aqui, tem sido perpetrada –  ou, no mínimo tolerada –  por intelectuais e instituições culturais negras, inclusive governamentais, lançando um manto de constrangedora ignorância sobre nós mesmos.

Revoltado com este aspecto, tenho escrito, de forma incansável uma série de posts e artigos sobre o tema. Infelizmente a maioria dos textos, a despeito do cuidado com que trato a credibilidade das fontes usadas como referência, por não serem calcadas em lugares comuns, com algumas revelações surpreendentes, ainda são solenemente ignorados.

É o caso do presente artigo, que lancei em 2012, assim que as mistificações sobre a existência de supostos personagens – ou sobre a reputação dos conhecidos –  da história de Palmares começou a se tornar uma recorrência incômoda.

Foi o caso do suposto homossexualismo de Zumbi, uma estupidez proselitista lançada pelo ativista gay Luiz Mott (um antropólogo!) e a invenção de uma família para o mesmo Zumbi, com esposa (“Dandara“)  e filhos, dados descabelados, destrambelhados, quando os medianamente informados sabem que quase nada se conhece sobre a vida privada de Zumbi, nem mesmo seu nome de família, já que o termo “Zumbi” é um título apenas, atribuído a uma série de outros líderes quilombolas antes e depois deste, o enforcado que virou um mito historiológico.

É enfim, sobre essas regras ou orientações sobre como lidar, seriamente com as nossas memórias históricas mais caras que vos falo a seguir.

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Para início de conversa, se você seguiu a série de posts sobre o Kilombo de Palmares, Zumbi e outras mumunhas negro palmarinas que o Titio compartilhou recentemente aqui (busque aqui no blog sob a tag ‘Zumbi“) já sabe que o assunto é cheio de melindres, meandros, trics trics e entrelinhas, prato feito que foi para as mais confusas mistificações de curiosos e oportunistas de ocasião.

Reconheçamos mais uma vez: A historiografia do negro no Brasil, como disse acima, sempre foi tratada com um descaso enorme, pra lá de recorrente e as simplificações interpostas neste assunto sempre beiraram a ignorância mais profunda e grosseira.

Querem saber de uma, clássica? O desprezo pela etimologia. Ora se tratamos, no caso do Kilombo de Palmares de culturas africanas que se expressavam por meio de uma língua completamente específica, original e diferente do castiço português que se falava por aqui no século 17, como estudar o assunto sem considerar, o mínimo que seja, os elementos etimológicos e semânticos mais elementares destas línguas?

Pois é. Foi isto mesmo que a maioria dos historiadores brasileiros fez.

“O primeiro autor a analisar Palmares com intenções historiográficas foi Rocha Pitta, em seu livro História da América Portuguesa, de 1730. Nele, as lutas do governo português contra Palmares são comparadas às lutas de Roma contra os escravos gladiadores rebelados, sendo visível a intenção do autor de valorizar a honra e o poder portugueses, principalmente do governador de Pernambuco Caetano de Melo de Castro.

A primeira revisão historiográfica sobre Palmares, feita em 1905 por Nina Rodrigues, também reforça a visão da destruição de Palmares como algo positivo. Nesse texto, que foi muito utilizado pela historiografia posterior, o autor divide a história palmarina em três períodos distintos, sendo que sua cronologia é inteiramente baseada nas expedições realizadas contra os mocambos.

As expedições realizadas pelas “armas portuguesas” são claramente valorizadas por Nina Rodrigues, em detrimento dos palmarinos. Temeroso da formação de um “novo Haiti” e sob a justificativa da necessidade do avanço da civilização, o autor critica os que, no século XIX, utilizaram Palmares para defender a causa republicana e a abolição da escravidão:

“A todos os respeitos menos discutíveis é o serviço relevante prestado pelas armas portuguesas e coloniais, destruindo de uma vez a maior ameaça à civilização do futuro povo brasileiro, nesse novo Haiti, refratário ao progresso e inacessível à civilização, que Palmares vitorioso teria plantado no coração do Brasil. […]

…Quando esse confronto entre a bibliografia e as fontes é feito, porém, percebe-se que muitas informações são divergentes. Em um nível mais técnico, foram cometidos erros e enganos pelos historiadores de Palmares no que diz respeito à leitura e transcrição dos documentos. Além disso, houve uma falta de cuidado na referenciação das fontes, que em boa parte dos textos não são citadas, ou o são incorretamente, tornando mais difícil seguir os caminhos trilhados pelos autores.

(Laura Perazza Mendes

Como tentei demonstrar em posts anteriores sobre o assunto ( veja no link:  e    ).  e  a Laura Perazza confirma – não se pode confiar muito na veracidade desta historiografia, baseada exclusivamente em relatos de expedições paramilitares portuguesas contra Palmares, segundo a ótica interesseira de comandantes ávidos por conseguir títulos e promoções, além de vantagens pecuniárias diversas, tais como terras e ouro.

Fontes pra lá de furadas pela má interpretação que delas se fez ao longo de tantos anos, podem ser encontrados nelas, contudo (e o Titio flagrou isto várias vezes, sem problemas) indícios de falsificações grosseiras como as incríveis semelhanças entre o relato de três expedições tão idênticas que há três onde aparece a descrição de um Zumbi ferido em combate e em fuga, largando para trás uma pistola dourada.

Muito óbvio que, ao que tudo indica as três expedições não passaram de uma, replicada com as datas e alguns poucos dados alterados ao sabor dos relatores.

“Em um nível analítico, outro problema recorrente é a falta de crítica das fontes. Para abordar grande parte da história palmarina, principalmente o período que compreendeu os anos de 1675 e 1678, a historiografia baseou-se quase que exclusivamente em uma versão de uma crônica anônima escrita em 1678.

Esse documento contemporâneo a Palmares foi transcrito e publicado pelo Conselheiro Drummond na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1859, sendo essa a versão utilizada pela maioria dos historiadores de Palmares, sem nenhuma preocupação com o documento original. Desse modo, uma versão que foi produzida dentro da lógica historiográfica do século XIX foi lida por esses autores como se fosse um documento do século XVII.

Além disso, a maior parte dos estudos sobre Palmares não se preocupou com o fato da crônica de 1678 ter sido produzida com o claro objetivo de enaltecer o ex-governador de Pernambuco D. Pedro de Almeida caracterizando-o como o principal responsável pela vitória contra Palmares. Apesar de ela fazer parte de um esforço maior do governador em obter favores políticos, os historiadores leram-na como um relato fiel aos acontecimentos.”

(Laura Perazza Mendes)

A mais clássica destas distorções (calcada, exatamente nos escritos do Conselheiro Drummond e do Rocha Pitta) é aquela que gerou o mito ridículo denominado ‘A Tróia negra” que, aparentemente reproduz a saga grega dos 300 de Esparta” transportando-a para o Brasil do século 17 , para afirmar que Zumbi se atirou ao suicídio num penhasco junto com seus homens mais valorosos.

“…Em Janeiro de 1694 um exército contra Palmares é montado com soldados, mercenários e índios. Seu comandante geral é o mercenário paulista Domingos Jorge Velho. No ataque á Macaco, no qual uma tática de contra-cercas deixa como única saída para os  quilombolas um corredor ao lado de um precipício, mais de 300 quilombolas morrem e despencam. Dizem que Zumbi é um dos mortos mas não há provas, mesmo porque, pouco tempo depois aparece um outro Zumbi comandando lutando exatamente como o suposto morto.”

                             (O Titio mesmo, num post seu desses aí)

No embalo desta recapitulação é clássica também a farsa do Zumbi bebê sequestrado (veja no link:http://wp.me/p3BrN-2ow) mito quebrado pelo Titio aqui mesmo nesta série (Uhhú!), provavelmente inventado pelo historiador Decio Freitas, que descreve a saga de Zumbi como o mito cristão do Messias (educado por um padre católico) Zumbi no papel do mártir piedoso que morreu para nos salvar.

A história encaixada à fórceps por Décio no contexto de Palmares, na verdade (veja post do Titio sobre este incidente), copia a descrição verídica de cartas do padre capuchinho missionário Marcelino D’Atria enviadas à Roma, dando conta de fatos ocorridos na Batalha de Mbwila, em 1665 em Angola, fatos nos quais é personagem real o menino príncipe Francisco Nkanga Nvita filho de D. Antonio I (Nkanga a Nvita) rei do Kongo morto e decapitado na batalha, incidente que nada tem a ver com Palmares e Zumbi, pelo menos diretamente.

Tudo balela e xaropada. Nem tudo – no portugues claro – quase nada era verdade.

Desqualificaram os ‘falares e saberes’ populares como incertos para inserirem nos hiatos da história, explicações e versões mais desembasadas e desparafusadas ainda.

“Falares e saberes’, quem não sabe que estas chaves são essenciais à qualquer antropologia, historiografia, qualquer ‘logia‘ destas aí que este pessoal tanto ventila. Pois é. A maioria dos historiadores brasileiros são useiros e vezeiros de fazer isto, tratando de exercer a sua burrice ancestral menosprezando os idiomas alheios – africanos neste caso – chamados por eles, preconceituosamente de… ‘dialetos‘, fazendo especulações etimológicas e semânticas estapafúrdias que confundem tudo, mais do que esclarecem num melê pastiche de tudo que não é europeu.

(Já reparam que não fazem isto com falares e saberes indígenas? Conhecem esmiuçadamente as centenas de línguas dos índios do Brasil, até mesmo aquelas ex tintas. São milhares as teses de mestrado e doutorado baseadas em idiomas assim. Têm até um nome pomposo para esta área de conhecimento: “Etnolinguística”.)

Pois bem, se há bruma e confusão neste assunto – e as razões de ser deste ‘apagão’ já cansamos de ventilar por aqui, sendo assim em verdade em verdade vos digo:

É o ensejo de lançar alguma luz sobre todos estes fatos embaralhados que anima o esboço deste Infográfico Kilombo-Palmarino. Ele está baseado em dados e subsídios documentais contidos na série que o Titio acaba de publicar no facebook sobre o título “Semana do Zumbi do Titio”. Para os mais curiosos e instigados, há aqui mesmo, logo abaixo uma boa bibliografia na qual me baseei assim assim.

A história que proponho para os incidentes:

“..Dos muitos filhos, netos e/ou prováveis sobrinhos de Ganga Zumba identificados e citados nos documentos portugueses e holandeses desta ocasião, existem pelo menos quatro filhos adultos que teriam sido presos ou mortos (Zambi ou Zumbi, Acainene, Acaiuba, Tuculo)

São citados ainda por outros autores Zangui, Maiolo, Engana (nganga) Colomim, Camoanga, Cabanga, Gone, Zangui, Gongolo, Quiloange, Quissama, todos líderes de mocambos (além dos que foram mortos) pelo menos três adultos que teriam sido presos e libertados após o acordo de Cucaú (Acaiuba, Tukulo, ‘Zambi’). Há também pelo menos um sobrinho adulto (Pakassa, talvez filho de Ganga Zona) e um número impreciso de netos.

(O Titio mesmo, num post seu destes aí)

Também sugerido pelas pesquisas do Titio existe um fato, não se sabe porque omitido pela historiografia oficial posto que está claramente sugerido nos documentos oficiais portugueses:  Ganga Zumba, provavelmente um idoso por ocasião da invasão do mocambo do Macaco, não aparece, rigorosamente como presente em nenhum dos episódios relacionados à suposta rendição dos kilombolas e 1677. Tudo atribuído à ele parece ser mera suposição ou, simplesmente invenção, mentira.

Existe, isto sim a forte impressão de que o velho Ganga Zumba estaria já impossibilitado de reinar, sendo o contexto de todos os incidentes que redundaram  no acordo de Cucaú, o contexto de um conflito sucessório na liderança de Palmares, com o ‘tio’ Nganga Zona – e seus filhos – de um lado e o Zumbi legítimo herdeiro de outro.

Aliás – disse lá num post destes – é surpreendente a semelhança dos incidentes destes conflitos de sucessão em Palmares com conflitos semelhantes ocorridos na Angola mais remota, ao tempo do Reino do Kongo, no qual as regras ancestrais de sucessão matrilinear (no caso de Palmares, pela sugestão aqui do Titio, o sucessor de Ganga Zumba, o idoso teria que ser o filho mais velho de sua irmã), não raro eram tornadas dúbias e sabotadas pelos ‘tios‘ (‘sekulo‘ ou o ‘irmão da mãe’, uma instituição nobiliáquica fundamental na cultura bakongo), que tinham prerrogativas também de, em caso de dúvida (algo suspeito sobre a origem genética do filho da irmã do rei, por exemplo) entronizar seus proprios filhos.

O que o cruzamento dos próprios documentos oficiais portugueses demonstra, cabalmente – e não é, de modo algum sequer presumido pela historiografia oficial – é que houve sim uma traição de um membro da cúpula palmarina que, muito provavelmente, em troca de favores dos portugueses, denunciou o local remoto onde estava a cúpula kilombola, inclusive TODA  família do rei. Os dados cruzados pelo Titio dão conta de forma candente de que  a traição – injustamente atribuída ao Ganga Zumba mítico (o velho) – foi praticada isto sim por Nganga Zona, controverso  cunhado ou irmão do rei citado.

“ O novo governador João de Souza é contra qualquer acordo com os quilombolas). É ele quem substitui Aires Souza de Castro (signatário do acordo de Cucaú que batizou a dois filhos de Ganga Zona, dando-lhes o sobrenome Souza Castro).

(O Titio mesmo, num post seu destes aí)

Não há registro, portanto, muito provavelmente NUNCA existiu, uma mulher chamada ‘Dandara‘ em Palmares. Este nome aí, ao que parece foi inventado pelo historiador Joel Rufino para denominar uma personagem de seu livro que romanceava a suposta história de Palmares, muito calcado no livro de Decio Freitas.

Todos os nomes citados precisam ser por outro lado analizados segundo premissas histórico etimológicas que só serão abalisadas se forem feitas a luz de um profundo estudo sobre as línguas angolanas respectivas, notadamente o kikongo, língua muito complexa, já dicionarizada no início do século 17 pelo padre negro capuchinho Manoel Raboredo, membro da corte congolesa.

Por estes dados todos, dois aspectos iniciais já podem ser ressaltados : Os nomes propostos, provavelmente não são, necessariamente, os nomes próprios dos personagens, sendo em sua maioria  títulos e funções pelas quais as pessoas eram conhecidas e citadas nos depoimentos (caso flagrante de Ganga Zumba’ que é com certeza, como já disse em outro post, um nome dinástico – Nkanga, ou Nganga a Nzumbi , literalmente “Espírito Santo” (a pomba) uma entidade católica, com o sentido aproximado de ‘Rei com funções sacerdotais‘, líder espiritual e guerreiro)  usado por vários personagens de Palmares e cuja abreviação popular acabou sendo, simplesmente ‘Zumbi‘).

(Bom frisar aqui que a expressão ‘Zambi” que aparece como sinônimo de ‘Zumbi‘ muitas vezes nos relatos e até em letras de música popular, é um erro semântico banal pois ‘Nzambi‘ quer dizer ‘Deus” em kikongo e jamais seria uma atribuição válida para um humano. O correto, portanto seria “NZumbi“, com o sentido de “alma”, “espírito”, “fantasma”)

Andalaquituxe, por exemplo se refere claramente à expressão “Ndala” (vila, lugarejo) sendo ‘Kituche‘ o nome provável do comandante do kilombo assim denominado. Do mesmo modo, nomes como Acotirene e Aqualtune, se referem a palavras compostas (o “A” destes dois nomes, descritos como sendo de mulhers, pode se referir a ‘Nga“, tratamento respeitoso para ‘senhora‘ nas línguas citadas, palavras que precisam ser decupadas a luz de dicionários e gramáticas de kikongo ou kimbundo arcaicos, línguas mais prováveis usadas pelos kilombolas na ocasião).

Enfim, o mais surpreendente – e suspeito – é que o Titio não precisou se valer de nenhuma história oral já que os documentos disponíveis sobre os tempos do Kilombo de Palmares são profusos. Eles mesmos, os documentos interpretados erroneamente por tantos historiadores, já contêm as informações necessárias, basta apenas, como se diz dos ignorantes, ‘saber fazer um “o” com um copo’.

(A farsa do “bebê Zumbi’ , por exemplo, foi desvendada pelo tio simplesmente lendo na internet textos esparsos do John Torntom, incensado historiador norte americano que todo mundo por aí devia estar careca de conhecer.)

Então é isto: Vocês podem revisar todas estas informações, melhor aprofundadas nos posts da série, buscando no blog do Tio as palavras ‘Zumbi” e “Palmares” ou clicando links a cada matéria lida

Pronto. Fecho a tampa deste assunto então e deixo o prosseguimento da enxurrada de novidades para vocês.

Tuala Kumoxi! Tamu junto!

Spírito Santo

25 de Novembro de 2012

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Bibliografia (bem) sumária usada pelo Titio em toda a série sobre Zumbi e o Kilombo de palmares :

Abreu de Brito – Sumário e Descrição do Reino de Angola

António de Almeida e J.Camarate França– Estudos sobre Pré-História do Ultramar Português

Arquivos de Angola – Volume II , 1ª série Boletim da Diocese de Angola e Congo – Edição nº 29

Basil Davidson– “Mãe negra” – Livraria Sá da Costa editora, Lisboa

Cadornega – “História Geral das Guerras Angolanas”

Damião Peres – “História dos Descobrimentos Portugueses”

Decio Freitas- “Palmares- A guerra dos escravos”- Ed. Movimento

Domingos de Abreu de Brito – “Sumário e Descrição do Reino de Angola”

Gomes, Flávio – “Histórias de Quilombos”

Garcia de Resende – “Chrónica de D. João II”

Mario Martins de Freitas– “O Reino negro de Palmares”, Biblioteca do Exército editora- 1988

Manoel Pedro Pacavira – “Nzinga Mbandi”–Edições 70 – Lisboa

Lopes, Nei- Onomástica Palmarina

Rodrigues, Padre Francisco  – “História da Companhia de Jesus”

Montecuccolo, Padre João António Cavazzi de  – “Descrição Histórica dos Três Reinos do Congo, Matamba e Angola”, Vol. I e II -Paiva Manso – História do Congo

Duarte Lopes  e Pigafetta – “Relação do Reino do Congo”

Aê!! Titio de patrão no ‘Segue o Som” do Zumbi da TV Brasil!


TV Brasil

A voz da diáspora africana

Programa “Segue o Som” da TV Brasil celebra a cultura negra
Titio Spirito Santo é convidado

Spirito Santo e Mariano Marovatto

Spirito Santo e Mariano Marovatto

Para celebrar a importância da cultura negra, o Segue o Som vai fundo na ascestralidade africana. Com a ajuda da cantora portuguesa de origem cabo-verdiana, Sara Tavares e do músico e pesquisador Spirito Santo, o programa fala sobre a influência cultural africana e traça um panorama da paisagem musical no Brasil e no mundo.

Sara Tavares é o grande exemplo dessa nova geração multicultural. Ela mistura em seu trabalho a influência do país de origem de seus pais, Cabo-Verde, com o que há de mais atual na Europa. Para ela, que sofria preconceito na escola, e para Spirito Santo, o gueto, a periferia, é o grande celeiro artístico hoje.

“Não há ‘modernidade’, ‘novidade’ possível (pelo menos em se tratando de música e dança populares) fora do contexto efervescente das periferias. Fora dos guetos e favelas nada se cria. Tudo se copia. Sempre foi assim e, talvez sempre será.”, diz Spirito Santo.

Conduzido pelos músicos Maurício Pacheco e Mariano Marovatto, Segue o Som fala ainda da música de raiz negra brasileira, da importância de Monsueto para a formação musical do Brasil, das relações entre o samba e o kuduro (dança angolana) e sobre o Grupo Vissungo.

E como falar de África, sem lembrar Cesária Évora? A diva descalça que encantou os quatro continentes, e cantou no Olympia: “Si bô ‘screvê’ me/’M ta ‘screvê be/ Si bô ‘squecê me/’M ta ‘squecê be/Até dia/Qui bô voltà/ Sodade /Sodade/ Sodade Dess nha terra Sao Nicolau”.

Tem reggae, gospel, samba, zouk, morna, pantsula e, ainda, Kassav, The Ethiopians, Tito Paris, Elza Soares e Monsueto, Os Pilukas, Mahalia Jackson, Youssou N’Dour, Criolo, Pierre Verger, Paulo Flores, Clementina de Jesus. .E a primeira orquestra percussiva do Brasil, do maestro Abigail Moura, influência do musico Carlos Negreiros.

URL fixa:

Obama bem na fita. Não é o Titio, é o James Traub quem diz


Perdeu, playboy! Perdeu!

Anti obamistas, tremei! Sei que, em geral o que vos move é o racismo, não admitem que um negro possa fazer bem na entrada, melhor ainda na saída e ainda ser chamado de volta com gritos de…

‘Bis!, Bis! Bis!”

Incrível a falsidade desta capa de ‘anti americanistas radicais’ de vocês, inimigos irredutíveis do imperialismo norte americano do qual o Obama seria o ‘cão traidor da raça’. Da raça? De que raça, cara pálida? Nada a ver.

Pensam que o Titio não notou? Vocês falam mais mal do Obama do que falavam do Bush! Pode isto? O Bush foi a mais excrescente tradução de todo o mal mundial que aí está. Vocês sabem muito bem disto. Contem outra, tá?

Leiam este post do James Traub e vamos lá: Se esforcem mais neste antiobamismo racista de vocês. Melhorem os argumentos.

Como os da galinha d’angola, argumentos de vocês ‘estão fracos, estão fracos estão fracos’.

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“Obama, o último homem de pé no Ocidente

James Traub

Tem sido um par de anos difíceis para ocupantes de cargos executivos. Em maio de 2010, o Partido Trabalhista britânico, no poder, foi surrado pelos conservadores, perdendo 91 cadeiras no Parlamento, enquanto os tories ganhavam 97. O primeiro-ministro Gordon Brown deu lugar a David Cameron. Em fevereiro de 2011, o partido no poder na Irlanda, Fianna Fail, teve apenas 15% dos votos e uma coalizão de partidos de oposição assumiu em seu lugar.

Em junho, os socialistas em Portugal foram derrotados pelos social-democratas, que formaram novo governo. Em novembro, o Partido Popular da Espanha, na oposição, esmagou os socialistas do PSOE, no poder, conseguindo a mais ampla maioria em 30 anos. Este ano, o conservador Nicolas Sarkozy perdeu a presidência da França para o socialista François Hollande. Os líderes da Itália e da Grécia foram substituídos por tecnocratas.

Mas na semana passada, caso não saiba, o presidente Barack Obama não só derrotou Mitt Romney como seu partido ganhou mais duas cadeiras no Senado americano.

É difícil exagerar a força da crise econômica global na política ocidental. Quase todos os titulares do Poder Executivo perderam eleições nesse período – a esquerda deu lugar à direita, e vice-versa. Na maioria dos casos, por margens históricas. É claro que fatores locais influíram: o desprezo absoluto que tantos eleitores franceses sentiam por Sarkozy; o cansaço britânico com o semblante sombrio de Brown. Mas não chega a ser surpreendente que a pior crise econômica em 70 anos tenha derrubado os que estavam no poder. E o que mais se diga sobre a reeleição de Obama, precisamos considerá-la nesse contexto.

Por que Obama ganhou quando todos os demais perderam? Em primeiro lugar, claro, porque ele não estava no cargo quando a crise começou. Pesquisas mostraram que muitos americanos ainda culpam George W. Bush pela recessão. Obama também se beneficiou da fraqueza do oponente, que não despertava paixão e tinha pouco apelo para os novos eleitores que engrossaram as listas de votantes desde 2008.

Tudo verdade. Mesmo assim, nenhum desses fatores responde totalmente pelo sucesso de Obama ao superar uma tendência tão poderosa. As mesmas forças que criaram caos na Europa Ocidental levaram a perdas maciças de postos de trabalho no coração industrial dos EUA. E foi justamente nesses estados – Michigan, Ohio, Wisconsin, Pensilvânia – que asseguraram a vitória de Obama.

A explicação é que a perda de empregos não foi o fim da história: graças em parte a ações adotadas pelo governo federal, incluindo os estímulos e o resgate da indústria automobilística, o número de desempregados caiu firmemente, tanto no coração industrial como em outros lugares. Quando a eleição foi disputada, a economia tinha iniciado a recuperação e mais americanos acreditavam que ela estava melhorando, em relação aos que pensavam o contrário.

Os EUA escolheram um caminho diferente da maioria de seus parceiros ocidentais para sair da recessão. O mercado de títulos deixou aos países da zona do euro, especialmente os mais frágeis, como Grécia, Itália, Portugal e Espanha, poucas escolhas senão adotar políticas de austeridade para reduzir o déficit e atrair investidores. Esses países tiveram crescimento negativo.

Mas a Grã-Bretanha, que não sofria a mesma pressão, decidiu adotar profundos cortes orçamentários para restaurar o equilíbrio fiscal. E o resultado foi que, enquanto os EUA retornaram a níveis de crescimento de antes da crise, o prognóstico econômico britânico continua sombrio, segundo previsões da União Europeia, com uma expansão de 0,9% projetada para 2013, depois de uma queda de 0,3% este ano. (Há, obviamente, muito outros fatores.)

Segundo a OCDE, a expectativa é que a economia americana cresça a um ritmo de 2,5% este ano, enquanto a zona do euro ficará estagnada; e o desemprego nos EUA ficará (como tipicamente acontece) dois a três pontos abaixo do da Europa. Drásticos limites nos gastos públicos, tais como os impostos pela UE e pelos detentores de títulos da dívida europeia, eram precisamente a política que Mitt Romney vendia aos eleitores americanos. As urnas mostraram como ele estava errado.

Dado o elevado senso de desapontamento em relação ao que Barack Obama podia ter sido e não foi, precisamos lembrar-nos quão profundamente adversa foi a situação que ele herdou – econômica e politicamente – e quanto progresso fez seu governo para estabilizar a situação. E tanto isso é verdade que Obama agora tem, ao contrário de outros líderes ocidentais, a chance de perseguir as metas que ele alinhou ao concorrer ao primeiro mandato.

À medida que a economia continuar a melhorar, e os efeitos da reforma do sistema de saúde começarem a ser sentidos, é até possível que, como disse Obama, “a febre vai baixar” e ele poderá obter o tipo de amplo apoio público que tornará difícil para os republicanos no Congresso continuarem a obstruir suas iniciativas, como obviamente tentarão fazer. O anúncio da morte da esperança e da mudança pode ter sido prematuro.”

Fonte: O Globo

La Ley de Medios y la Orden Unida:’Derecha, isquierda, esquerda, direita!”


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O eixo é o parâmetro de onde estou. À esquerda ou à direita do mal, tanto faz, sempre. Já nem me importa bem quem é quem.

“…Otávio Frias Filho, atual diretor de Redação da Folha, diz que ‘durante o período inicial, o regime militar teve apoio de praticamente toda a mídia. Seguiu-se um período intermediário, que coincidiu com o endurecimento do regime, em que algumas publicações, entre elas O Estado de S. Paulo, tiveram uma atitude de resistência.

A Folha não tinha condições de levar adiante uma resistência desse tipo, mas teve uma participação realmente importante no terceiro período do regime militar, a partir do final do governo Médici e início do governo Geisel, quando o jornal contribuiu muito para a redemocratização.”

(Representações do golpe de 1964 e da ditadura na mídia – Flavia Birolli)

 Tenho um pé atrás com a Folha, com o estadão e com O Globo.Não sou argentino, todo mundo sabe, mas declaro aqui que não apoio esta Ley de Medios da presidente da Argentina Cristina Kirchner. Tanto quanto não apoio esta ventilada ‘Lei da Mídia‘, ou o ‘Controle de mídia’ que anda pululando por aí nos setores governistas e pró governistas do Brasil.

Me parece óbvio que a intenção de um grupo de governos da região é realmente controlar a outorga de licenças de operação para órgãos de imprensa, criando vantagens indevidas para órgãos de propaganda ideológica do governo – censura estatal, por suposto – sendo os demais itens puro douramento da pílula, afim de iludir incautos e dar um que de legitimidade à lei.

O discurso é antigo e, triste e infelizmente – vejam que incrível! – lembra muito o discurso da ditadura militar brasileira na tentativa de justificar a censura aos meios de comunicação depois do AI5. Quem não se lembra do conceito “Propaganda Política Adversa” do general rasputin Golbery do Couto e Silva e outros ideólogos da ditadura,que teorizavam acerca do conceito “propaganda subversiva’, supostamente praticada pela imprensa independente do país? Quem não se lembra que me entenda por outros meios.

A teoria fascista por excelência foi posta em prática por este decreto lei, a famigerada ‘Lei de Segurança Nacional’ cujo trecho compartilho (veja o link abaixo, quem quiser pode abrir, imprimir, pisar, rasgar, cuspir.)

DECRETO-LEI Nº 898, DE 29 DE SETEMBRO DE 1969

Define os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, estabelece seu processo e julgamento e dá outras providências.

OS MINISTROS DA MARINHA DE GUERRA, DO EXÉRCITO E DA AERONÁUTICA MILITAR, usando das atribuições que lhes confere o artigo 1º do Ato Institucional nº 12, de 31 de agôsto de 1969, combinado com o parágrafo 1º do artigo 2º do Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968,

decretam:

CAPÍTULO I

Da Aplicação da Lei de Segurança Nacional

Art. 1º Tôda pessoa natural ou jurídica é responsável pela segurança nacional, nos limites definidos em lei.

Art. 2º A segurança nacional a garantia da consecução dos objetivos nacionais contra antagonismos, tanto internos como externos.

Art. 3º A segurança nacional compreende, essencialmente, medidas destinadas à preservação da segurança externa e interna, inclusive a prevenção e repressão da guerra psicológica adversa e da guerra revolucionária ou subversiva.

§ 1º A segurança interna, integrada na segurança nacional, diz respeito às ameaças ou pressões antagônicas, de qualquer origem, fôrma ou natureza, que se manifestem ou produzam efeito no país.

§ 2º A guerra psicológica adversa é o emprêgo da propaganda, da contra-propaganda e de ações nos campos político, econômico, psicossocial e militar, com a finalidade de influenciar ou provocar opiniões, emoções, atitudes e comportamentos de grupos estrangeiros, inimigos, neutros ou amigos, contra a consecução dos objetivos nacionais.

Então? Muitas semelhanças, não é não? Sempre que vejo a expressão “Mídia Golpista’ escrita por aí em exortações bombásticas, neste tom de campanha inflamada, me vem a memória o teor espúrio desta ‘lei‘ destes tristes tempos da ditadura.

Quem não sabe? Está tudo aí nos livros de história do Brasil.

Estabeleceu-se na época um rígido controle estatal sobre toda a comunicação social no Brasil sob o pretexto de que a mídia, a imprensa em geral, era…”golpista”. Sim senhores. Até letras de música popular eram sumariamente proibidas de serem gravadas, cantadas ou veiculadas para qualquer público – e o Titio teve várias embargadas.

Quem for fraco que se arrebente nestas horas. É preciso estar atento e forte.

É. Arcaicos já, a mais não poder, é provável que os conceitos ‘esquerda‘ e ‘direita‘ estejam mesmo sendo usados hoje com os sinais trocados. As pessoas precisam ter uma ideologia pra viver, mas vamos com calma. Simancol e senso crítico são fundamentais, para quem sabe a diferença entre ideologia e religião, pragmatismo e fanatismo, estas coisas.

Sangue de Cristo não tem poder. Óleo de cozinha, mesmo ungido não cura aleijão mental.

E nem é uma grande novidade: Os mais velhos ainda que o Titio devem se lembrar das ideias do mesmo modo ambíguas da época do pré segunda guerra mundial, fins da década de 1930, por aí, quando nacionalismo, socialismo e nazifascismo se confundiam tão perigosamente, que cruéis ditaduras de direita acabaram por se estabelecer, com amplo apoio popular e de forma tão arraigada, que explodiram numa guerra mundial sangrenta.

Conto para todo mundo: Carlos Drummond de Andrade e muitos eméritos intelectuais brasileiros foram nesta época, em algum momento, integralistas (fascistas) de carteirinha. Muita calma nesta hora, é a lei de mais valia por enquanto. Bom que haja debate sobre isto. Cada cabeça uma sentença.

A minha é apenas uma das opiniões possíveis sobre o assunto.

Que tal vermos então (sigam a ilustração do post, em sentido horário) os conceitos estritos expressos por esta tal de Ley dos Medios argentina, item por item?

-Capital estrangeiro limitado à 30 %.

Primeiro seria necessário definir o que é capital estrangeiro num país capitalista. Óbvio está que o uso de capital estrangeiro num mundo – e numa imprensa, num sistema de comunicação social – globalizado, não traz em si nenhum problema para a população, nem mesmo para a democracia. Por outro lado já existem leis (de imprensa), nacionais e internacionais muito eficientes (tanto quanto possível no capitalismo) que nos regem, no controle dos excessos neste sentido.

-Descentralização territorial.

O critério da fruição territorial de entidades de mídia em países capitalistas, costuma ser um atributo do mercado, das tais ‘leis do mercado’ como se diz, da conta da livre ‘iniciativa privada’ que é, repito, uma instancia eminetemente capitalista. Investe em veículos de comunicação de massa quem quiser e onde quiser. Não há muito como fugir disto aí neste sistema econômico. Isto não é, portanto passível de controle estatal sem gerar distorções econômicas – e até culturais – graves, piores as vezes do que aquilo que se visava corrigir.

Por outro lado e a princípio, o Estado (o governo) quando insatisfeito com o comportamento eventualmente hostil e oposicionista da mídia tradicional, pode suprir a população de informação adicional sim, em todo o território nacional, por intermédio de órgãos de comunicação próprios, corrigindo qualquer desigualdade neste sentido, estimulando e facilitando a criação de jornais, redes de TV e rádios públicas, comunitárias, por exemplo, às suas próprias custas, ressalte-se, num clima de franca concorrência com os demais meios.

Por outro lado, não é incomum, pelo menos no Brasil a associação de governos com redes de mídia tradicional, por meio da troca de favores comerciais e vantagens fiscais, por exemplo.  A associação no Brasil entre o governo Lula com a Rede Record do Bispo Macedo é o exemplo mais recente. Fala-se também em recentes acordos pontuais, do mesmo tipo dos governos petistas com a Rede Globo, que passava por  dificuldades financeiras.

-Fim dos monopólios: Limite no número de outorgas

É preciso definir primeiro quem é ou será o responsável por estas outorgas (ou ‘concessões’, como se diz por aqui). A princípio os governos já controlam isto. Se no momento for realmente o governo, ao contrário, seria bastante positivo que se abrisse o setor, aí sim ao controle popular, do movimento social digo, mas não deste atual que, no Brasil – e presumo que na Argentina também – anda por demais tutelado, aparelhado. E a medida, ainda assim traria problemas de várias naturezas.

As propostas dos governos mais recorrente nestes casos tem sido a criação de agencias de controle interinstitucionais e inter disciplinares, mas a composição destas agencias só pode ser democrática mesmo se, como dissemos acima não contiverem, rigorosamente nenhuma ingerência estatal. Não é o mesmo que criar um agência de controle de empresas prestadoras de serviços convencionais. Trata-se do controle das opiniões, das ideias das pessoas.

-Cotas na radio difusão: 70% produção nacional, 30% música nacional, 50% música produzida de forma independente.

Não é tarefa fácil nem simples definir o que seria ‘produção nacional’ numa economia capitalista. É anti econômico e retrógrada a intenção, pois, trava a evolução natural da produção de radio difusão em geral, o intercâmbio entre produtos, equipamentos e agentes de mídia em geral, etc. Este tipo de ‘reserva de mercado’ de conteúdos, caso se tornasse mesmo necessário, precisaria ser definido por uma dupla forma de controle social que conciliasse as leis do mercado convencionais, com leis ou ‘gatilhos’ de controle social dos excessos. Sem falar que é fácil demais fraudar o conceito ‘produção nacional” em todos os casos.

O conceito ‘produção independente’ também, notadamente pelo alto nível da taxa estabelecida (50%) que vai atrair mais interessados e demandas, não é um conceito simples de ser definido. A se ressaltar também neste aspecto, que as sugestões que temos visto para a solução de tão controverso problema, os chamados “grupos de Mídia Livre”, por exemplo não raro são formados por grupos de militantes partidários, organizados e tutelados pelos próprios partidos detentores do poder de governos.

-Criação do conselho Assessor de Comunicação áudio visual e infância, assegura a qualidade da TV para crianças e adolescentes.

Estranha proposta. Como seria composto este conselho? Quem iria criá-lo, sistematizá-lo e geri-lo? Como se definiria o que seria ‘qualidade de TV para crianças e adolescentes’? Já não existe jurisprudência neste sentido? Não seria mais justo deixar este controle à cargo também das famílias?

-Proibição de concessões radio visuais para políticos.

Outro conceito estranho, quase cínico, facilmente fraudável por meio de ‘testas de ferro’ de políticos, sem falar do aspecto relacionado a quem faria o controle destas concessões. Sem se falar também que neste caso, o governo também pode ser considerado uma instituição política, composta de políticos e seus interesses afins.

-Divisão tripartite: Comunitário, Estatal, Privado.

Como assim? Como definir o que é cada um destes conceitos? Quem define isto? Sobre quais critérios? A criação de um setor ‘Estatal‘ me parece, aliás, bem impertinente, porque já é facultado e regido por lei aos governos a criação e o controle (limitado por lei) das redes de comunicação.

Parece muito com uma tentativa de aumentar a participação do Estado no setor, com vantagens, fora das leis do mercado para fins de propaganda ideológica. A rigor e na prática a medida estaria dando aos governos acesso à instrumentos de pressão e propaganda ideológica muito questionáveis, inaceitáveis na verdade numa democracia real.

-Concessão de 10 anos, através de licitação pública.

Uma medida inócua, vamos combinar. Como considerá-la pertinente sem se saber os detalhes de como seria a sua regimentação. O que diz a constituição argentina – ou a brasileira – a respeito?

Enfim, não temos a melhor imprensa do mundo aqui na América Latina.

Não sabemos, exatamente como se pode ‘controlar‘ os eventuais excessos da Mídia num regime de democracia plena, regidos que estamos pelas leis gerais de um sistema capitalista, onde o lucro é quem manda no desenvolvimento da sociedade e não valores humanistas mais transcendentais.

Imaginar, contudo que o controle estatal possa resolver isto é um retrocesso absoluto, posto que não temos por aqui ainda, algo que possa ser chamado, rigorosamente de Estado Democrático de Direito, no sentido estrito da palavra, infelizmente ainda uma utopia.

Me parece evidente, por tudo isto, dada a ambiguidade dos conceitos emitidos na proposta argentina, que existem sim intenções de natureza populista por trás desta onda de ‘controle de mídia’ em nossa região.

Talvez fosse o caso de se observar com mais responsabilidade as experiências em voga em democracias capitalistas mais bem estabelecidas e estáveis. Não me parece que se esteja cogitando aplicar leis de controle estatal da Mídia por aí afora. Não tenho meios para achar que as populações de países europeus – ou seus governos – estejam sendo acossadas por ‘mídias golpistas‘. Nestes casos extremos, por lá (há casos recentes na Inglaterra de atritos do governo com o império Murdoch) sempre vale o que está escrito nas leis de sempre, idênticas as que já temos por aqui.

Sempre chamo a atenção para este aspecto muito importante desta discussão que vale ser repetido: Se os governos supostamente de esquerda de nossa região se sentem tão injustamente tratados pela mídia comercial convencional, dita ‘de direita’, ‘golpista‘, etc. porque não investem numa rede de comunicação estatal (jornais, tvs, rádios, sites) mais ampla e eficiente, de modo a concorrer em igualdade de condições com os seus tradicionais e supostos desafetos?

Dinheiro é que não falta para uma ampla rede de comunicação ‘chapa branca’, no Brasil uma enorme ‘Voz do Brasil”, sei lá. Só não vale ficar repetindo a abertura de ‘O Guarani” em ritmo de samba ou rock nos nossos ouvidos, fingindo um patriotismo de almanaque do século passado.

Virem o disco, modernizem-se e entrem no jogo como qualquer um formador de opinião. Larguem o pé da imprensa livre, gente. As experiencias de controle anteriores deram xabu e prejuízo (as pensões do pessoal do Pasquim, Ziraldo, Jaguar, e outros jornalistas ‘de esquerda’ dos idos da ditadura, contam muito bem esta história)

Lobos em pele de cordeiro, é o que parecem os acólitos desta sanha anti midiática da Ley de Medios de la Kirchner. Os do Brasil também, embora os nossos estejam com as peles já bem esfarrapadas e imundas já, quase nus como o seu rei falastrão.

Hum… Será que o jovem sobrinho “de esquerda” se transformou num velho Titio “de direita”? Ou será que ‘as aparências já não enganam mais’?

Vão vendo aí.

Spírito Santo

Novembro 2012

Batalhas e batalhas… Remota memória das Congadas do Brasil


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Rituais tradicionais trazidos da África pelos escravos são  ressignificados na controversa relação com o catolicismo

Para os mais atentos um texto excelente, irrepreensível da historiadora da USP: Marina de Mello e Souza

A ilustração acima, de uma série que acabo de encontrar numa fonte italiana, foi extraída de uma cópia mais recente de um manuscrito 1747 (guardado na Biblioteca Civica de Turim).  A série de aquarelas descreve as expedições dos capuchinhos Bernardino Ignazio e Gaspare da Bassano para o Reino do Kongo e momentos da vida quotidiana dos missionários que residiram no Reino do Sogno (uma província ou reino associado ao reino do Congo) entre 1743-1747. A dita, ilustrava este excelente artigo da historiadora citada.

Tanto as ilustrações quanto os manuscritos foram feitos pelo já indicado missionário Bernardino Ignazio.

A informação que o texto de Marina de Mello Souza nos traz é inestimável. Sempre me atraiu demais as incríveis evidências de que as batalhas teatralizadas de que tive notícia como ainda ocorrentes em Minas Gerais e Goiás nos anos 1970 (denominadas por alguns como ‘Congadas de Embaixada‘) não eram,e xatamente fruto da catequese portuguesa aqui no Brasil, extraídas que teriam sido do livreto ‘Pascoal Magno e os doze pares de França”.

Não. A gênese destas batalhas simuladas, dança dramática, teatro popular na acepção da palavra como se vê por este texto de Marina, é bem mais antiga, remontando, no mínimo o século 18, 17 ou mesmo o século 16 talvez, e localizada não na Europa, mas na própria África.q

Estou no momento (na verdade há muitos meses) preparando um post bem supimpa sobre as demais gravuras, registros inestimáveis dos incidentes, porque foram realizadas por testemunha ocular, acrescidas de legendas meticulosas que descrevem as cenas em detalhes primorosos.

É claro que devemos olhar com certa parcimônia a excessiva reverência e sujeição dos africanos diante dos padres, já que as aquarelas revelam os fatos sob a ótica desses e os interesses do relator em impressionar os superiores no Vaticano e as aquarelas funcionavam, no caso como uma espécie de relatório ilustrado das ações dos agentes-missionários.

Hábitos, práticas culturais remotíssimas, mesmo o sendo por esta ótica ideologicamente interesseira da Igreja Católica  Apostólica Romana em seu projeto de dominação, estão ali flagradas.

Apaixona-me, particularmente o estudo mais ou menos meticuloso que se pode fazer, a partir dos desenhos, dos detalhes dos figurinos, dos hábitos de vestuário dos reis e sobas da região, numa curiosa transição entre o fashion look ‘primitivo‘ e os maneirismos do vestuário europeu.

Detalhes surpreendentes como a existência de armas de fogo (e atė um canhão!) entre os africanos anfitriões dos padres, são novidade para muitos de nós, desmontando o perfil de indígenas de arco e flecha, submissos ao poder europeu, mito que predomina na historiografia convencional.

Ouro para quem sabe o valor que o passado registrado tem.

Faço uso então, inicialmente, a guisa de introdução, desta imagem que Marina conosco compartilhou de forma brilhante.

(Nota em 2018: Já possuo e está disponível na internet a série completa de 11 imagens das quais Marina, na época, recolheu a que ilustra este post.

Sangamentos e congadas são representações de batalhas.

Fazem parte dos festejos em homenagem aos santos protetores das comunidades negras no Brasil, no caso dos sangamentos, e demonstram o poder dos chefes do Congo, de Matamba e de Angola nos séculos XVII e XVIII, no caso das congadas.

Esses ritos, realizados nas duas margens do Atlântico em contextos completamente diferentes, como formas africanas de exaltar o poder dos governantes e ligá-los ao mundo espiritual, também serviram para reverenciar os que se destacavam no interior de comunidades formadas por descendentes de escravizados que aderiram ao catolicismo e os santos de sua devoção.

Em 1624, o então governador de Angola, Fernão de Sousa, escreveu longa carta ao rei de Portugal, na qual se referiu às estreitas relações entre os chefes do Congo e os holandeses, com quem comerciavam apesar das recomendações contrárias dos portugueses, que se julgavam seus senhores.

Ameaçado de ser atacado pelo exército de João Corrêa de Sousa, o governador lusitano anterior, o manicongo, ou rei do Congo, Garcia I, escreveu aos holandeses pedindo ajuda militar. Ao saber da chegada de uma armada na costa, o mani de Bamba, indicado na carta como sendo a segunda pessoa do reino do Congo, festejara muito e “sangara, que é festejar esgrimindo com espadas nuas”.

De acordo com o missionário capuchinho Girolamo da Montesarchio, em 1652, antes de assumir o governo de Sundi, uma chefatura do Congo, D. Rafael Vale das Lágrimas e seu séquito travaram uma batalha fingida com o quitome (ou kitome), sacerdote que atendia toda a região e era responsável pelos ritos dos espíritos territoriais. Com a vitória de D. Rafael, que também usava o título de duque, o quitome cedeu-lhe os direitos à terra e à água.

Em 1660, Jinga (Njinga ou Nzinga), rainha de Matamba, estado vizinho do Congo e de Angola, recebeu, por meio dos missionários capuchinhos, uma carta do papa Alexandre VII, em resposta à missiva que lhe endereçara anos antes. O padre João Antônio Cavazzi de Montecuccolo descreveu as cerimônias com que se celebrou o recebimento dessa carta. Um cortejo formado por guardas armados, escravos pintados, chefes “enfeitados com o melhor que tinham”, músicos, damas que carregavam arcos, cestos, vasos e um estandarte, acompanhou a rainha à igreja, onde foi celebrada uma missa. Ela estava “ricamente ataviada com adereços de ouro e muitas jóias, e com um elegante elmo coberto com penas”. Após a missa, permeada de discursos sobre a carta, que Jinga trazia numa bolsa de brocado pendurada ao pescoço, foram distribuídos títulos, honras e presentes, e se libertaram escravos. Fechando as celebrações, “à tardinha, na praça real, enquanto estrepitavam os instrumentos guerreiros, as donzelas da rainha, à maneira das amazonas, fingiam uma batalha”, da qual também participou Jinga, que, apesar dos seus cerca de 80 anos, impressionou Cavazzi pela agilidade com que manejou as flechas, o arco e a azagaia.

Batalhas rituais também foram por ele presenciadas nas cerimônias fúnebres da rainha, que morreu em 1663, depois de receber a extrema-unção do missionário. Por cinco dias, de manhã, ao meio-dia e à tarde, sucederam-se representações de guerras, com assaltos, ciladas, perseguição dos inimigos, enfrentamento de esquadrões, “num arremedo de peleja em que uns fingiam ceder o lugar, outros defendê-lo e outros reconquistá-lo.” Alguns se faziam de mortos, outros se rendiam prisioneiros, uns fugiam e depois se recompunham, outros venciam e descansavam, e era tão intensa a batalha fingida “que qualquer pessoa teria julgado verdadeira”.

Um século depois, os capuchinhos ainda estavam dedicados a salvar almas naquelas terras, e um deles registrou a representação de uma batalha ritual no Congo. Em manuscrito anônimo de meados do século XVIII, atribuído a Bernardino d’Asti, em meio a uma série de aquarelas, há uma que representa uma batalha ritual, na qual um grupo dança, ao som de um tambor e uma marimba, empunhando espadas e escudos. Diz o início da legenda: “O missionário dá sua bênção ao manipara seus jogos de armas, o que significa que o chefe da aldeia, que mostra ostensivamente sinal de grande respeito para com o pai missionário, recebe, de joelhos, a bênção para lutar; é uma espécie de jogo, no qual, com o povo reunido, se fazem movimentos de armas, como mostrado aqui”.

No contexto da presença holandesa na região e das disputas entre o Congo e Sônio (Sonho ou Soyo) – uma província que clamava por autonomia política –, o manicongo D. Garcia II enviou em 1643 uma embaixada a Mauricio de Nassau, em Recife, buscando exclusividade de comércio e apoio político. Gaspar Barleus fez uma descrição das danças que os embaixadores congoleses executaram diante das autoridades flamengas, com saltos e “temíveis floreios de espadas, o cintilar dos olhos simulando ira contra o inimigo”.

Essas danças que simulavam batalhas e embates entre guerreiros chegaram ao Brasil não só com essa embaixada congolesa, mas também pelas mãos dos escravizados. Estes, ao inventarem novas formas de convívio social e de exercício da religiosidade no seio da sociedade brasileira escravista, recriaram as batalhas rituais, inserindo-as no interior das irmandades religiosas de homens leigos, que eram permitidas e mesmo estimuladas pelos senhores e administradores coloniais. No início do século XIX, elas passaram a ser chamadas de congadas e estavam disseminadas por várias regiões do Brasil, associadas aos festejos relacionados à coroação de um rei congo e à afirmação de uma identidade reconstruída neste lado do oceano, mas na qual ressoava o catolicismo adotado por africanos quando ainda estavam em sua terra natal. Travadas em torno das figuras de um rei, de seu séquito e exército, essas batalhas rituais, ou congadas, também estavam ligadas às formas de organização do poder no interior das comunidades que as realizavam.

São muitas as descrições dos cortejos reais e congadas no Brasil do século XIX.  Ao viajar pelo interior de Goiás em 1818, Johan Emanuel Pohl assistiu a uma dessas festas, em homenagem a Santa Ifigênia, na qual uma batalha foi representada. Conforme sua narrativa, respondendo à ordem do rei negro para que os festejos começassem, aquele que representava o general, após receber a bênção do rei com seu cetro, com olhar feroz gritou que via à distância um estrangeiro suspeito, “ao que o imperador ordenou que marchassem sobre o inimigo e o enfrentassem, e para tanto pedia a proteção de Santa Ifigênia nesse combate”. Depois de ameaçado de morte por espadas desembainhadas, o estrangeiro esclareceu que era embaixador de um reino distante e que viera participar da solenidade, à qual foi incorporado.

Francis de Castelnau, que esteve em Minas Gerais em 1843, descreveu a dança dramática como um “extravagante carnaval”, que “misturava as reminiscências da costa africana com os costumes brasileiros e cerimônias religiosas”. Na festa que ele presenciou, o rei e a rainha, cercados pela corte, acomodaram-se em suas cadeiras “magnificamente vestidos” e com coroas e cetros de prata. Diante deles desfilaram capitães, embaixadores e guerreiros, “com grandes topetes de penas, sabres de cavalaria ao lado, e escudos no braço”. Diálogos, danças e combates simulados ocorreram, com “toda espécie de cambalhotas dignas dos macacos mais exercitados”.

As descrições das congadas brasileiras do século XIX são mais preconceituosas e menos minuciosas do que as descrições das batalhas rituais africanas feitas pelos missionários dos séculos XVII e XVIII, pois, enquanto as primeiras diziam respeito a escravos, as segundas estavam ligadas a chefes centro-africanos, dos quais os missionários dependiam para sobreviver, e que eram o alvo de sua missão catequética. Também os significados dessas batalhas fingidas não eram os mesmos, apesar de guardarem alguma proximidade: no Brasil reforçavam uma identidade católica negra e no Congo e em Matamba reforçavam o poder político do chefe. Mas nos dois lugares ajudavam a definir a identidade do grupo, que se unia em torno de um chefe, real ou simbólico, que, além de governar os homens, fazia a conexão com a esfera dos espíritos, ancestrais ou santos.

Marina de Mello e Souza é professora da Universidade de São Paulo e autora de África e Brasil africano (Ática, 2006).

Saiba Mais – Bibliografia

ANDRADE. Mário de. “Os congos”, em Danças dramáticas do Brasil, tomo 2. São Paulo: Martins, 1959.

MONTECUCCOLO, João Antônio Cavazzi de. Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1965.