Batalhas e batalhas… Remota memória das Congadas do Brasil

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Rituais tradicionais trazidos da África pelos escravos são  ressignificados na controversa relação com o catolicismo

Para os mais atentos um texto excelente, irrepreensível da historiadora da USP: Marina de Mello e Souza

A ilustração acima, de uma série que acabo de encontrar numa fonte italiana, foi extraída de uma cópia mais recente de um manuscrito 1747 (guardado na Biblioteca Civica de Turim).  A série de aquarelas descreve as expedições dos capuchinhos Bernardino Ignazio e Gaspare da Bassano para o Reino do Kongo e momentos da vida quotidiana dos missionários que residiram no Reino do Sogno (uma província do reino do Congo) entre 1743-1747. A dita, ilustrava este excelente artigo da historiadora citada. tanto as ilustrações qaunto os manuscritos foram feitos pelo já indicado missionário Bernardino Ignazio.

A informação que o texto de Marina de Mello Souza nos traz é inestimável. Sempre me atraiu demais as incríveis evidências de que as batalhas teatralizadas de que tive notícia como ainda ocorrentes em Minas Gerais e Goiás nos anos 1970 (denominadas por alguns como ‘Congadas de Embaixada‘) não eram exatamente fruto da catequese portuguesa aqui no Brasil, extraídas que teriam sido do livreto ‘Pascoal Magno e os doze pares de França”.

Não. A gênese destas batalhas simuladas, dança dramática, teatro popular na acepção da palavra como se vê por este texto de Marina, é bem mais antiga, remontando, no mínimo o século 18, 17 ou mesmo o século 16 talvez e localizada não na Europa, mas na prórpia África.

Estou no momento (na verdade há muitos meses) preparando um post bem supimpa sobre as demais gravuras, registros inestimáveis dos incidentes, porque foram realizadas por testemunha ocular, acrescidas de legendas meticulosas que descrevem as cenas em detalhes primorosos.

(É claro que devemos olhar com parcimônia a excessiva reverência dos africanos diante dos padres, já que as aquarelas revelam os fatos sob a ótica e os interesses do autor em impressionar os superiores no Vaticano e os desenhos funcionavam, no caso como uma espécie de relatório ilustrado)

Hábitos, práticas culturais remotíssimas, mesmo o sendo por esta ótica ideologicamente interesseira da Igreja Católica  Apostólica Romana em seu projeto de dominação, estão ali flagradas.

Apaixona-me, particularmente o estudo meticuloso que se pode fazer, a partir dos desenhos, dos detalhes dos figurinos, dos hábitos de vestuário dos reis e sobas da região, numa curiosa transição entre o fashion look ‘primitivo‘ e os maneirismos do vestuário europeu.

Ouro para quem sabe o valor que o passado registrado tem. Faço uso então, inicialmente, a guisa de introdução esta imagem que Marina conosco compartilha de forma brilhante.

Sangamentos e congadas são representações de batalhas.

Fazem parte dos festejos em homenagem aos santos protetores das comunidades negras no Brasil, no caso dos sangamentos, e demonstram o poder dos chefes do Congo, de Matamba e de Angola nos séculos XVII e XVIII, no caso das congadas.

Esses ritos, realizados nas duas margens do Atlântico em contextos completamente diferentes, como formas africanas de exaltar o poder dos governantes e ligá-los ao mundo espiritual, também serviram para reverenciar os que se destacavam no interior de comunidades formadas por descendentes de escravizados que aderiram ao catolicismo e os santos de sua devoção.

Em 1624, o então governador de Angola, Fernão de Sousa, escreveu longa carta ao rei de Portugal, na qual se referiu às estreitas relações entre os chefes do Congo e os holandeses, com quem comerciavam apesar das recomendações contrárias dos portugueses, que se julgavam seus senhores.

Ameaçado de ser atacado pelo exército de João Corrêa de Sousa, o governador lusitano anterior, o manicongo, ou rei do Congo, Garcia I, escreveu aos holandeses pedindo ajuda militar. Ao saber da chegada de uma armada na costa, o mani de Bamba, indicado na carta como sendo a segunda pessoa do reino do Congo, festejara muito e “sangara, que é festejar esgrimindo com espadas nuas”.

De acordo com o missionário capuchinho Girolamo da Montesarchio, em 1652, antes de assumir o governo de Sundi, uma chefatura do Congo, D. Rafael Vale das Lágrimas e seu séquito travaram uma batalha fingida com o quitome (ou kitome), sacerdote que atendia toda a região e era responsável pelos ritos dos espíritos territoriais. Com a vitória de D. Rafael, que também usava o título de duque, o quitome cedeu-lhe os direitos à terra e à água.

Em 1660, Jinga (Njinga ou Nzinga), rainha de Matamba, estado vizinho do Congo e de Angola, recebeu, por meio dos missionários capuchinhos, uma carta do papa Alexandre VII, em resposta à missiva que lhe endereçara anos antes. O padre João Antônio Cavazzi de Montecuccolo descreveu as cerimônias com que se celebrou o recebimento dessa carta. Um cortejo formado por guardas armados, escravos pintados, chefes “enfeitados com o melhor que tinham”, músicos, damas que carregavam arcos, cestos, vasos e um estandarte, acompanhou a rainha à igreja, onde foi celebrada uma missa. Ela estava “ricamente ataviada com adereços de ouro e muitas jóias, e com um elegante elmo coberto com penas”. Após a missa, permeada de discursos sobre a carta, que Jinga trazia numa bolsa de brocado pendurada ao pescoço, foram distribuídos títulos, honras e presentes, e se libertaram escravos. Fechando as celebrações, “à tardinha, na praça real, enquanto estrepitavam os instrumentos guerreiros, as donzelas da rainha, à maneira das amazonas, fingiam uma batalha”, da qual também participou Jinga, que, apesar dos seus cerca de 80 anos, impressionou Cavazzi pela agilidade com que manejou as flechas, o arco e a azagaia.

Batalhas rituais também foram por ele presenciadas nas cerimônias fúnebres da rainha, que morreu em 1663, depois de receber a extrema-unção do missionário. Por cinco dias, de manhã, ao meio-dia e à tarde, sucederam-se representações de guerras, com assaltos, ciladas, perseguição dos inimigos, enfrentamento de esquadrões, “num arremedo de peleja em que uns fingiam ceder o lugar, outros defendê-lo e outros reconquistá-lo.” Alguns se faziam de mortos, outros se rendiam prisioneiros, uns fugiam e depois se recompunham, outros venciam e descansavam, e era tão intensa a batalha fingida “que qualquer pessoa teria julgado verdadeira”.

Um século depois, os capuchinhos ainda estavam dedicados a salvar almas naquelas terras, e um deles registrou a representação de uma batalha ritual no Congo. Em manuscrito anônimo de meados do século XVIII, atribuído a Bernardino d’Asti, em meio a uma série de aquarelas, há uma que representa uma batalha ritual, na qual um grupo dança, ao som de um tambor e uma marimba, empunhando espadas e escudos. Diz o início da legenda: “O missionário dá sua bênção ao manipara seus jogos de armas, o que significa que o chefe da aldeia, que mostra ostensivamente sinal de grande respeito para com o pai missionário, recebe, de joelhos, a bênção para lutar; é uma espécie de jogo, no qual, com o povo reunido, se fazem movimentos de armas, como mostrado aqui”.

No contexto da presença holandesa na região e das disputas entre o Congo e Sônio (Sonho ou Soyo) – uma província que clamava por autonomia política –, o manicongo D. Garcia II enviou em 1643 uma embaixada a Mauricio de Nassau, em Recife, buscando exclusividade de comércio e apoio político. Gaspar Barleus fez uma descrição das danças que os embaixadores congoleses executaram diante das autoridades flamengas, com saltos e “temíveis floreios de espadas, o cintilar dos olhos simulando ira contra o inimigo”.

Essas danças que simulavam batalhas e embates entre guerreiros chegaram ao Brasil não só com essa embaixada congolesa, mas também pelas mãos dos escravizados. Estes, ao inventarem novas formas de convívio social e de exercício da religiosidade no seio da sociedade brasileira escravista, recriaram as batalhas rituais, inserindo-as no interior das irmandades religiosas de homens leigos, que eram permitidas e mesmo estimuladas pelos senhores e administradores coloniais. No início do século XIX, elas passaram a ser chamadas de congadas e estavam disseminadas por várias regiões do Brasil, associadas aos festejos relacionados à coroação de um rei congo e à afirmação de uma identidade reconstruída neste lado do oceano, mas na qual ressoava o catolicismo adotado por africanos quando ainda estavam em sua terra natal. Travadas em torno das figuras de um rei, de seu séquito e exército, essas batalhas rituais, ou congadas, também estavam ligadas às formas de organização do poder no interior das comunidades que as realizavam.

São muitas as descrições dos cortejos reais e congadas no Brasil do século XIX.  Ao viajar pelo interior de Goiás em 1818, Johan Emanuel Pohl assistiu a uma dessas festas, em homenagem a Santa Ifigênia, na qual uma batalha foi representada. Conforme sua narrativa, respondendo à ordem do rei negro para que os festejos começassem, aquele que representava o general, após receber a bênção do rei com seu cetro, com olhar feroz gritou que via à distância um estrangeiro suspeito, “ao que o imperador ordenou que marchassem sobre o inimigo e o enfrentassem, e para tanto pedia a proteção de Santa Ifigênia nesse combate”. Depois de ameaçado de morte por espadas desembainhadas, o estrangeiro esclareceu que era embaixador de um reino distante e que viera participar da solenidade, à qual foi incorporado.

Francis de Castelnau, que esteve em Minas Gerais em 1843, descreveu a dança dramática como um “extravagante carnaval”, que “misturava as reminiscências da costa africana com os costumes brasileiros e cerimônias religiosas”. Na festa que ele presenciou, o rei e a rainha, cercados pela corte, acomodaram-se em suas cadeiras “magnificamente vestidos” e com coroas e cetros de prata. Diante deles desfilaram capitães, embaixadores e guerreiros, “com grandes topetes de penas, sabres de cavalaria ao lado, e escudos no braço”. Diálogos, danças e combates simulados ocorreram, com “toda espécie de cambalhotas dignas dos macacos mais exercitados”.

As descrições das congadas brasileiras do século XIX são mais preconceituosas e menos minuciosas do que as descrições das batalhas rituais africanas feitas pelos missionários dos séculos XVII e XVIII, pois, enquanto as primeiras diziam respeito a escravos, as segundas estavam ligadas a chefes centro-africanos, dos quais os missionários dependiam para sobreviver, e que eram o alvo de sua missão catequética. Também os significados dessas batalhas fingidas não eram os mesmos, apesar de guardarem alguma proximidade: no Brasil reforçavam uma identidade católica negra e no Congo e em Matamba reforçavam o poder político do chefe. Mas nos dois lugares ajudavam a definir a identidade do grupo, que se unia em torno de um chefe, real ou simbólico, que, além de governar os homens, fazia a conexão com a esfera dos espíritos, ancestrais ou santos.

Marina de Mello e Souza é professora da Universidade de São Paulo e autora de África e Brasil africano (Ática, 2006).

Saiba Mais – Bibliografia

ANDRADE. Mário de. “Os congos”, em Danças dramáticas do Brasil, tomo 2. São Paulo: Martins, 1959.

MONTECUCCOLO, João Antônio Cavazzi de. Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1965.

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~ por Spirito Santo em 09/11/2012.

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