Fakebook look. Não queime o filme da História de nós mesmos

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Foto é de um navio inglês “Daphne” aportado em Londres, com uma carga de escravos apreendida em águas próximas á Zanzibar em 1873. O fotógrafo, provavelmente a serviço da Coroa inglesa, se chama George L. Sullivan

Foto do navio inglês “Daphne” aportado em Londres, com uma carga de escravos apreendida em águas próximas á Zanzibar em 1873. O fotógrafo, provavelmente a serviço da Coroa inglesa, se chama George L. Sullivan

O espelho não é meu nem seu. O espelho tem que ser de todos nós.

O texto a seguir, assim mesmo, bombástico e em caixa alta, é a legenda desta imagem acima, postada numa página do facebook. O post da imagem tem impressionantes 11.911 compartilhamentos. Seu autor se chama Jorge S.Cavalcante:

“A ÚLTIMA E TALVEZ A ÚNICA FOTOGRAFIA DE UM

NAVIO DE TRÁFICO NEGREIRO,EXECUTADA PELO FABULOSO MARC FERREZ!!!DETALHES CURIOSOS:O NAVIO ERA FRANCÊS E A FOTO FOI FEITA DE FORMA CLANDESTINA”

Muito provavelmente o responsável pelo compartilhamento original desta imagem, em português e aqui no facebook, tenha sido eu mesmo, pois a pincei anos atrás de um site norte americano para ilustrar o meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão”. Fiz nesta oportunidade uma ampla pesquisa iconográfica e me empenhei bastante em buscar imagens inéditas

Podem ser encontradas desde então na internet, imagens que foram compartilhadas originalmente por mim, usadas no livro e no meu blog www.spiritosanto.wordpress.com

Cabe a mim, portanto, informar e tentar corrigir alguns detalhes coisa da conta do açodamento irresponsável dos compartilhadores, infelizmente coisa típica da internet.

A foto – realmente impressionante – não é a única foto de um navio negreiro, o navio não é francês, o local não é o Brasil e tampouco foi feita por Marc Ferrez. A foto é de um navio inglês chamado “Daphne” aportado em Londres, com uma carga de escravos apreendida em águas próximas á Zanzibar em 1873. O fotógrafo, provavelmente a serviço da Coroa inglesa, se chama George L. Sullivan

A legenda da imagem no facebook é, portanto totalmente falsa. É um “chute” irresponsável de alguém, algum compartilhador que nem podemos ter certeza se foi mesmo o Jorge S. Cavalcante. Jamais saberemos quem foi na verdade

A questão dos créditos em compartilhamentos na internet é muito grave. Os plágios descarados e os equívocos rasos são como uma praga. Eu mesmo já fui vítima em vários deploráveis incidentes. É grave, principalmente porque muita gente usa material da rede como referência, as vezes até acadêmica e erros como este se propagam como epidemia

Outra questão importante é que a iconografia sobre escravidão no Brasil é paupérrima. As referencias às fontes também são cheias de equívocos crassos, fruto de um enorme descaso acadêmico pela questão do negro ainda muito recorrente entre nós.

Só para se ter uma ideia, a quantidade de fotos históricas sobre escravidão no Brasil só agora, de uns 5 anos para cá começa a ser significativa e, ainda assim com estes erros que são por demais recorrentes (ainda mais no facebook). como disse, eu mesmo esbarrei com este problema, razão pela qual cuidei de passar a buscar imagens em sites em outras línguas que não o português

A maioria das imagens brasileiras que temos disponíveis são imagens de fotógrafos europeus, em grande parte alemães ou franceses, imagens “chapa branca”, posadas, de estúdio (as escravas em geral vestidas com roupas finas, emprestadas pelas senhoras para a ocasião) quase nada de foto reportagem porque os fotógrafos, em sua maioria eram profissionais contratados pela Corte imperial e deviam fazer, por sua própria conta algum tipo de autocensura.

Há que se ter, por todas estas razões, muito cuidado na pesquisa de iconografia sobre escravidão e cultura negra no Brasil na internet. Há que se ter, principalmente rigor na hora de referendar e legendar este material para não se perpetuar erros crassos como este que são imperdoáveis.

A verdade liberta.

Spirito Santo

Janeiro 2012

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~ por Spirito Santo em 20/01/2013.

5 Respostas to “Fakebook look. Não queime o filme da História de nós mesmos”

  1. Eu vi alguma coisa sobre imagens do RGS. Não sei se nesse livro. Me lembro que eram imagens bem diferentes do geral, algumas com muita proximidade dos fotografados, umas quase íntimas.
    Tem o link do livro aí?

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  2. Muito bom Spirito Santo. Você conhece o trabalho da fotógrafa Irene Santos, de Porto Alegre? tem dois livros com material extenso sobre iconografia sobre escravidão e cultura negra no Rio Grande do Sul. grande abraço e valeu por mais essa informação. Mateus

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  3. Daniel,
    Que fantástico este site. É seu? Estou preso nele há horas. Algumas imagens você já havia me fornecido. É surpreendente haver tantos negros em Portugal no século 16. Diogo Cão em 1585 nem mal havia chegado ao Kongo. (1492), menos de 100 anos e tanto negro em Portugal…

    Grande abraço

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  4. o site onde esta a imagem:http://randuwa.blogspot.com.br/2012/12/reavealing-african-presence-in.html

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  5. Fala ai Spirito Santo, 2013 chegando com otimos achados, finalmente encontrei uma imagem em alta resolução da fantastica cena de lisboa no século 16 com uma forte presença de africanos .

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