O Ovo da Serpente Tupiniquim também foi chocado assim

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Redenção de Cam Modesto Brocos y Gomes 1895

Congresso Universal de Raças, Londres, 1911: contextos, temas e debates

Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Vol.7 no.3 Belém Sept./Dec. 2012

(O texto é longo, mas recomendo fortemente.

No início do século 20 as ideias racistas foram introduzidas no Brasil logo em seguida à abolição da escravatura (que era um sistema com regras e leis específicas que dispensava o dispositivo da exclusão racial). Elas, as ideias racistas surgiam no contexto de uma reciclagem do sistema colonialista, no bojo de uma ‘nova’ ordem econômica Mundial.

A tese do Titio (que na verdade nem do Titio deve ser) em linhas bem gerais reza o seguinte:

– Estas ideias gestadas em 1911, por aí, estão ainda impregnadas, embora enrustidas, bem arraigadas no pensamento de uma Universidade, uma Academia brasileiras ainda muito influenciadas por aquele pensamento, supostamente moderno deste início do século 20.

O momento atual, com o incremento de algumas ações afirmativas no Brasil e, no campo internacional, com certa expansão das economias africanas, tem sido o ensejo para o ressurgimento daquelas mesmas ideias malsãs, racistas em última análise, como contraponto reacionário a este pequeno rompante de democracia que grassa o mundo pós colonialista.

– Os sinais mais evidentes deste racismo requentado são o surgimento em altas rodas acadêmicas no Brasil, da América Latina e da África, de discursos e teorias voltadas para o que chamamos de “Elogio à Mestiçagem” no Brasil e, no dizer africano e latino americano, de “Crioulidade”.

O texto a seguir vai te ajudar a se situar neste babado cheio de artimanhas e mumunhas: O neo Racismo.

MEMÓRIA RESUMO

O texto aborda o contexto histórico e sociopolítico no qual se inseriu o Primeiro Congresso Universal de Raças, realizado em Londres em 1911, e discute os principais temas abordados no evento por antropólogos, sociólogos e ativistas sociais de diferentes lugares do mundo. Destacamos a presença dos médicos e antropólogos João Baptista de Lacerda (1846-1915) e Edgard Roquette-Pinto (1884-1954), os dois representantes do Brasil no congresso, e analisamos os trabalhos apresentados por algumas das principais autoridades do campo da antropologia e dos estudos raciais da época. Esses trabalhos foram publicados em um volume organizado pelo sociólogo inglês Gustav Spiller.

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O ano de 2011 marcou o centenário de um dos eventos científicos mais emblemáticos e significativos na história da antropologia (em especial da antropologia física) e do debate internacional sobre nação, raça e relações inter-raciais no início do século XX. Trata-se do aniversário do Primeiro Congresso Universal de Raças (First Universal Races Congress), realizado em Londres nos dias 26 a 29 de julho de 1911, promovido no contexto de expansão da política imperialista europeia e das discussões sobre a paz mundial. Amplamente divulgado no meio científico internacional, mas também entre políticos e ativistas envolvidos com a questão racial e as relações entre o Ocidente e o Oriente, o congresso reuniu representantes de mais de 50 países da Europa, América do Sul e do Norte, África e Ásia.

O centenário do congresso pode ser visto como uma oportunidade singular para analisar o significado histórico, político e científico que o evento representou no conturbado cenário que antecedeu a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).Neste texto, procuraremos destacar especialmente o complexo contexto de realização do evento e os principais temas e debates que mobilizaram os congressistas, formados em sua maioria por antropólogos, ativistas sociais e autoridades políticas de diferentes lugares do mundo. Para isso, apresentaremos os anais do congresso, organizados pelo sociólogo inglês Gustav Spiller, sob o título “Papers on inter-racial problems communicated to the First Universal Races Congress” (Figura 1) (Spiller, 1911a). Além de destacarmos a presença dos médicos e antropólogos João Baptista de Lacerda e Edgard Roquette-Pinto, os dois representantes do Brasil enviados ao congresso pelo governo de Hermes da Fonseca1, também comentaremos os trabalhos apresentados por algumas das principais autoridades do campo da antropologia e dos estudos raciais, como Franz Boas, W. E. B. Du Bois, Felix von Luschan, Gustav Spiller, Giuseppe Sergi e Charles Myers (Figuras 2 e 3).

Ao longo de quatro dias, o congresso atraiu uma audiência de mais de duas mil pessoas, sendo caracterizado como “um rico e envolvente episódio da história moderna” pelo historiador Ian Christopher Fletcher (2005, p. 99). Estiveram presentes ao evento mais de uma centena de autoridades públicas, presidentes de parlamentos e representantes de Estado de diferentes nacionalidades, inclusive membros da Corte Permanente de Arbitragem (Permanent Court of Arbitration) e delegados representantes da Segunda Conferência de Haia2. Entre as autoridades europeias, pode-se destacar a presença dos ingleses Charles Brice e Harry Johnston, importantes figuras da administração colonial britânica nos continentes africano e asiático; do primeiro ministro inglês Arthur Balfour; e de Lord Philip Weardale, político e ativista inglês do movimento em prol da paz mundial.

Weardale seria nomeado para a Presidência Honorária do congresso, tendo em vista a sua destacada atuação diplomática entre as nações imperialistas e os territórios coloniais. Do lado oriental, pode-se destacar a presença de políticos, intelectuais e ativistas, como o sul-africano John Tengo Jabavu, o nigeriano Mojola Agbebi, o filósofo e humanista indiano Brajendranath Seal e seu compatriota G. H. Gokhale, o chinês Wu Ting-Fang, o egípcio Mohammed Sourour Bey, o persa Hadji Mirza Yahya e os japoneses Tongo Takebe e Teruaki Kobayashi. Entre as delegações presentes, a maior foi a dos Estados Unidos, que teve como principal liderança W. E. B. Du Bois, proeminente escritor e ativista do Movimento Pan-African, fundador da National Association for the Advancement of Colored People e da revista “The Crisis”, dedicada aos estudos raciais e à divulgação do movimento pan-africano (Figura 4). O antropólogo Franz Boas, como veremos adiante, estava listado no programa, mas não compareceu, tendo enviado sua contribuição para ser lida no evento. Entre os latino-americanos, além da presença brasileira, havia delegações do México, de Cuba, da Argentina, do Uruguai, Chile e Peru (Spiller, 1911a, p. XVII-XLVI).

A indicação para a realização do congresso foi feita durante a Segunda Conferência de Haia, realizada em 1907, e fazia parte de um esforço internacional em prol da pacificação das diversas nações do mundo. Um dos principais entusiastas do evento foi Felix Edler, historiador e filósofo alemão de origem judaica que havia dedicado boa parte de sua trajetória intelectual à divulgação dos ideais humanistas e pacifistas. Outra figura importante na promoção do congresso foi o sociólogo Gustav Spiller, que, financiado pela Ethical Culture Society, movimento fortemente ligado ao pensamento humanista moderno, trabalhou durante dois anos na organização e divulgação do evento (Du Bois, 1911a, p. 200). De acordo com a circular encaminhada pelos organizadores do congresso, o objetivo da reunião era “discutir, à luz da ciência e da consciência moderna, as relações gerais existentes entre os povos do Ocidente e do Oriente, entre os assim chamados brancos e os povos de cor, com a intenção de encorajá-los a um amplo entendimento, com os mais amigáveis sentimentos e a mais saudável cooperação” (Spiller, 1911a, p. XIII).

Aos participantes, era solicitado, inclusive, que mantivessem em seus “espíritos” este objetivo, lembrando que o congresso tinha, ao mesmo tempo, propósitos científicos e humanitários (Spiller, 1911a, p. V). Nesta mesma circular, em uma referência indireta ao colonialismo, os organizadores lembravam que a origem do congresso estava ligada aos sentimentos raciais e sociais que aproximavam e afastavam os diferentes povos, sobretudo nos últimos anos, quando aumentara significativamente o comércio de “materiais e outras riquezas” entre as diferentes “raças humanas” (Spiller, 1911a, p. XIII-XIV).

Na prática, o que estava em questão eram os conflitos raciais em diversas partes do mundo e a própria sobrevivência do sistema colonialista, que, na passagem do século XIX para o XX, chegara ao seu auge, envolvendo especialmente países da Europa e suas colônias nos continentes africano e asiático. As disputas e rivalidades entre as nações europeias pelo domínio colonial também mobilizavam os participantes do congresso. Ainda estavam bastante vivas na memória dos governos e administradores coloniais europeus as consequências da Guerra dos Bôers, conflito ocorrido na África do Sul envolvendo colonizadores britânicos e colonos franceses e holandeses estabelecidos no continente desde o século XVIII. Além disso, a invasão da Líbia pela Itália e a crescente influência da Alemanha em regiões coloniais já ocupadas pela França davam sinais de que “a era dos impérios”, conforme escreveu o historiador Eric Hobsbawm (2003), poderia entrar em crise, aumentando ainda mais a possibilidade de eclosão de uma guerra de enormes proporções.

Não bastasse isso, as grandes nações europeias temiam que as populações nativas se voltassem cada vez mais contra o domínio imperialista, aumentando o clima de conflito nas possessões coloniais. Esse tipo de tensão estava tão latente naquele momento que o próprio Lord Philip Weardale lembraria, na introdução que preparou para os anais do congresso, que nenhum historiador poderia negar que os conflitos e as antipatias raciais na era moderna seriam os principais responsáveis pelo desencadeamento de guerras e disputas entre as nações (Weardale, 1911, p. VII).

É neste complexo contexto histórico que a realização do congresso deve ser compreendida. A harmonia e a paz entre as diferentes civilizações, como também o controle, o contato e o conhecimento dos povos colonizados pelo Ocidente, eram de grande interesse para as potências coloniais (Penny e Bunzl, 2003a; Zimmerman, 2001). Os organizadores do evento não deixariam de destacar, conforme constava no convite que enviaram para instituições de diferentes lugares do mundo, que o congresso “dará especial tratamento ao problema do contato de europeus com outros tipos desenvolvidos de civilização”, em especial as civilizações do Oriente (Spiller, 1911a, p. XIII).

O congresso não representava o “encontro de todas as raças” com o propósito de discutir questões relacionadas aos diversos povos do mundo, tampouco tinha a intenção de debater questões puramente europeias, tais como as relações existentes entre as nações do velho continente; nem mesmo as relações da Europa com os Estados Unidos e outros países americanos representantes de raças descendentes de europeus (Spiller, 1911a, p. XIII). O interesse do congresso dizia respeito, na verdade, às relações dos países imperialistas com os povos de regiões oficialmente colonizadas por europeus.

A própria Antropologia, em particular a Antropologia Física, assumiu neste contexto um papel estratégico para o sucesso dos empreendimentos coloniais. Desde o final do século XIX, antropólogos europeus vinham sendo financiados por nações imperialistas, em especial Inglaterra, França e Alemanha, para viajar às diferentes regiões da África e da Ásia com o interesse de desenvolver estudos sobre as características raciais, o caráter psicológico e os hábitos dos povos colonizados. Não se pode perder de vista que, desde meados do século XIX, a questão do conhecimento e da classificação racial alimentava antigos debates políticos e científicos, como o arianismo e a supremacia nórdica, os efeitos da miscigenação, o tema das identidades nacionais, assim como a unidade e a diversidade da espécie humana (Stocking Jr., 1968; Stepan, 1982; Proctor, 1988; Massin, 1996; Lindee e Santos, 2012). Neste período, muitos foram os antropólogos que viajaram para as colônias com o objetivo de coletar dados antropométricos e identificar as variações ou os padrões anatômicos e fisiológicos dos diferentes ‘tipos raciais’, especialmente aqueles de formação mestiça.

Havia, por parte das nações imperialistas, um interesse em conhecer de perto a formação, o desenvolvimento e as características das populações coloniais desde meados do século XIX. Por meio do conhecimento gerado pela ciência, o objetivo dos administradores era melhor conhecer estas populações, o que facilitaria submetê-las aos interesses políticos e econômicos dos colonizadores (Steinmetz, 2007, p. 217-218).

Em relação aos estudos antropológicos coloniais, deve-se destacar as tendências que variavam entre o humanismo liberal e o nacionalismo racista e abertamente colonialista. Ao mesmo tempo em que havia correntes da antropologia que tendiam a refutar o racismo científico, outras estavam fortemente comprometidas com as teorias biológicas que separavam os “grupos raciais” a partir de uma rígida hierarquia evolutiva, na qual os europeus eram vistos como portadores de caracteres físicos e intelectuais superiores (Penny e Bunzl, 2003b, p. 1-2).

Entre os participantes do congresso, predominaram concepções mais humanistas e liberais, uma vez que as próprias diretrizes do evento apontavam para essa direção. Embora seja possível observar contradições políticas e ambiguidades no modo de conceber o problema racial no mundo, os intelectuais, incluindo os antropólogos físicos, presentes ao congresso assumiram, senão uma visão deliberadamente antirracista, ao menos uma posição mais crítica sobre a maneira como as relações raciais e os conflitos nacionais vinham sendo geridos pelo sistema colonialista.

Um dos principais resultados do congresso foi a criação de um Comitê Internacional que seria responsável pela organização do Segundo Congresso Universal de Raças. Marcado para ocorrer em 1915, em Paris, a intenção foi implodida pelos longos anos de guerra que varreram a Europa entre 1914 e 1918. Na linha do primeiro evento, entre os principais objetivos do Comitê, constava a promoção permanente de um maior contato e entendimento entre as diversas nações e ‘raças’ do mundo. Outro objetivo era estimular um maior intercâmbio de investigações sobre as características das ‘raças humanas’, proporcionando um mútuo conhecimento. Também era desejo do comitê o incentivo às pesquisas antropológicas sobre os aspectos físicos dos diferentes ‘tipos raciais’, suas características sociais, morais e psicológicas, bem como os efeitos da miscigenação racial, possibilitando a formação de um banco de estatísticas e de informações (Du Bois, 1911a, p. 209).

No que diz respeito aos trabalhos apresentados no evento de 1911, mais de 50 conferências foram proferidas, divididas em oito sessões temáticas. A sessão de abertura do congresso, que discutiu as “Considerações Fundamentais” sobre o conceito e o problema da raça, foi formada por Brajendranath Seal (que proferiu a conferência “Meaning of race, tribe, nation”), o renomado antropólogo alemão Felix von Luschan (cujo trabalho debateu a visão antropológica de ‘raça’), o pensador social francês Alfred Fouliée (que apresentou o ponto de vista sociológico sobre ‘raça’) e o organizador do evento, Gustav Spiller (que polemizou acerca do ‘problema’ da igualdade de raça). A segunda sessão discutiu as “Condições de Progresso” das diferentes ‘raças humanas’, tendo sido um dos mais destacados fóruns do congresso. Dos 11 trabalhos debatidos nessa sessão, incluiu-se o de Franz Boas, antropólogo alemão radicado nos Estados Unidos desde o último quartel do século XIX, o do antropólogo italiano Giuseppe Sergi e o do psicólogo inglês Charles Myers.

A terceira sessão foi uma continuação das discussões temáticas da segunda, formada em sua grande maioria por antropólogos e pensadores asiáticos e africanos. A quarta sessão tratou do contato entre as diferentes civilizações, tanto do ponto de vista racial quanto econômico, com destaque para a conferência do sociólogo alemão Ferdinand Tönies sobre ciência, arte, literatura e raça. A quinta e a sexta sessões debateram a formação da “consciência moderna em relação à questão racial”, das quais participou João Baptista de Lacerda. As duas últimas sessões trataram das “sugestões positivas para a promoção da cordialidade inter-racial” (Spiller, 1911a).

Houve uma grande variedade de assuntos tratados e os debates mais polêmicos foram travados em torno da miscigenação racial, da fixidez das características raciais e do papel que o meio exercia na composição das diferentes populações. Estes foram os pontos mais enfatizados no próprio questionário que os organizadores encaminharam, ainda antes do congresso, para os delegados e secretários que participariam do evento.

O levantamento visou identificar se, na opinião dos participantes, era legítimo argumentar que as diferenças de características físicas correspondiam a diferenças mentais; se as características antropológicas observáveis em “raças particulares” eram permanentes ou poderiam sofrer modificações por força do meio ambiente, da educação, do sentimento público, das condições econômicas e sociais; e, ainda, se haveria “provas justas” que atestassem a existência de “raças substancialmente superiores” no que dizia respeito às capacidades inatas (Spiller, 1911a, p. XIV-XVI).

Para boa parte dos congressistas, não se poderia pensar as diferenças humanas sem levar em consideração a importância da educação, da economia, da política e da geografia na constituição dos grupos populacionais. Posições como estas foram fortemente defendidas por Spiller e Du Bois, que enfatizavam o pressuposto da igualdade moral e intelectual entre as diversas civilizações. Por esse motivo, entendiam também que não se poderia argumentar que diferenças nas características físicas correspondessem a diferenças mentais.

Spiller chegara a destacar, na conferência “The problem of race equality”, que a educação popular, o sentimento público, a higiene e as condições econômicas favoráveis poderiam transformar profundamente as características mentais em uma ou duas gerações, independentes da ‘raça’ ou do tipo físico a que pertencessem os indivíduos (Spiller, 1911b, p. 38). Em seu modo de ver, o estabelecimento de hierarquias entre os povos, e todas as formas de “preconceito” racial, social e religioso, era devido à falta de conhecimento, à rivalidade política e econômica, e, acima de tudo, à ausência de “simpatia” com aquilo que se apresentava como diferente ou distante de seus próprios costumes (Spiller, 1911b, p. 35).

Embora Franz Boas não estivesse presente, o texto que enviou para leitura e publicação nos anais do congresso foi, sem dúvida, um dos que mais chamou a atenção durante o evento. Numa época em que os estudos sobre eugenia ganhavam força e consolidavam o pressuposto acerca da estabilidade absoluta dos tipos físicos e sua imutável transmissão hereditária, Boas apresentava uma tese que questionava argumentos considerados irrefutáveis. Para ele, a estabilidade dos tipos físicos era uma falácia, uma vez que suas pesquisas com imigrantes europeus residentes nos Estados Unidos demonstravam um variado grau de plasticidade nas formas corporais, inclusive no formato do crânio, tido como paradigmático da noção de tipologia racial em antropologia física.

Sem necessariamente se apoiar em teses lamarckistas, Boas argumentava que, ao se deslocar de um meio geográfico para outro, os indivíduos podiam experimentar mudanças físicas, e até mesmo mentais, que posteriormente seriam herdadas também por gerações futuras (Boas, 1911, p. 101-102). Em sua compreensão, uma criança nascida na América, mesmo que poucos meses após a chegada da família imigrada da Europa, tenderia a ter as características craniométricas diferentes daquelas dos pais. A explicação residiria no fato de que o meio ambiente seria mais importante na constituição das características físicas que os determinantes raciais. Como corolário, concluía que “a antiga crença acerca da estabilidade absoluta dos tipos humanos deveria, portanto, evidentemente ser abandonada, e com ela a convicção da superioridade de certos tipos sobre outros” (Boas, 1911, p. 103)3.

Argumento muito semelhante foi desenvolvido por Charles Myers, que tinha grande interesse em compreender a constituição das diferenças mentais entre europeus e outros povos, na medida em que a psicologia experimental ganhava terreno entre os ingleses. Após realizar expedições ao Oriente, especialmente ao Egito e Sudão, Myers admitiu que as ditas “comunidades primitivas”, consideradas por muitos como intelectualmente inferiores, tinham a mesma “evolução mental” que a maioria dos camponeses europeus. A diferença entre elas, segundo Myers, seria resultado da variação individual ou do meio em que viviam, e não de determinantes raciais. Assim como Boas, entendia que a relação entre organismo e ambiente, considerado em seu mais amplo sentido, seria a causa final da variação corporal e mental (Myers, 1911, p. 73).

Por sua vez, Felix von Luschan, apesar de adepto das teses mendelianas – segundo as quais variações raciais ocorriam em função do cruzamento genético -, entendia que circunstâncias favoráveis, como um meio adequado, uma “boa posição geográfica” e melhores condições econômicas, eram os fatores que levavam alguns grupos a avançar mais do que outros. Não se poderia falar, porém, em “tipos superiores” ou “inferiores”, e nem mesmo em “raças puras”, uma vez que todas as civilizações se diferenciavam umas das outras pela intensidade da miscigenação. O autor lembraria, na conferência “Anthropological view of race”, “que uma certa mistura de sangue sempre foi de grande vantagem para uma nação” (Luschan, 1911, p. 21-22).

No entanto, a despeito dessas afirmações, o antropólogo da Universidade de Berlim via com pouca simpatia a abertura da Europa para a entrada de determinadas “raças estrangeiras”, como as africanas e asiáticas. Como, em sua compreensão, a antropologia pouco sabia sobre “a complicada psicologia de muitas das raças de cor”, defendia que fossem preservadas as “barreiras raciais” em todo o continente europeu. Segundo von Luschan, “a irmandade entre os homens é uma coisa boa, mas a luta pela vida é ainda melhor”, destacando que “Atenas nunca teria se tornado o que foi sem Esparta, sem a inveja e as diferenças nacionais”. Opondo-se à agenda pacifista proposta pelo congresso, ele não deixaria de concluir que sem a ambição nacional e racial não haveria progresso industrial, científico e militar (Luschan, 1911, p. 23).

O trabalho de João Baptista de Lacerda4 (Figura 5), intitulado “The Metis, or half-breeds, of Brazil”, foi apresentado na sexta sessão do congresso, uma das que proporcionou mais amplo diálogo entre os participantes, uma vez que reuniu antropólogos, sociólogos e ativistas da América Latina, América do Norte, África e Europa. Na mesma sessão, encontrava-se Du Bois, que apresentou o trabalho “The negro race in the United States of America” (Du Bois, 1911b), um minucioso estudo sobre as condições de vida dos negros nos Estados Unidos. Também fizeram parte dessa sessão o naturalista britânico e administrador colonial Harry Johnston, que discursou sobre “The World-Position of the negro and negroid”; o ativista político e escritor sul-africano John Tengo Jabavu, cuja conferência tratou das “raças nativas da África do Sul”; o nigeriano Mojola Agbebi, que apresentou um estudo sobre “o problema do negro no ocidente”; e o médico e escritor indígena norte-americano Charles Eastman, um ativo participante da política de ajuda aos nativos de seu país, que comentou sobre a situação dos indígenas norte-americanos. Outra presença destacada nessa sessão foi a da britânica Frances Elizabeth Hoggan, a primeira mulher inglesa a receber o título de doutora em medicina, que apresentou o trabalho “The negro problem in relation to white women”.

O texto apresentado por Lacerda tratou da miscigenação racial no Brasil e do processo de branqueamento da população mestiça. Logo no início de sua conferência, Lacerda chamou a atenção para o fato de que, tanto do ponto de vista social quanto antropológico, a questão dos mestiços teria “uma importância excepcional no Brasil”, uma vez que a miscigenação entre brancos e negros era livremente aceita no país5. Capturados no mercado africano e brutalmente escravizados no Brasil, segundo Lacerda, os negros não foram segregados pelos portugueses colonizadores, ao contrário do que teria ocorrido nos domínios coloniais anglo-saxões.

Desde cedo, os portugueses teriam feito de suas escravas as suas concubinas, permitindo que o “intercurso sexual” entre brancos e negros se tornasse natural no Brasil e, em consequência, que a população mestiça crescesse rapidamente (Lacerda, 1911a, p. 377-378). De acordo com Lacerda, o cruzamento entre negros e brancos, ao contrário da opinião de muitos escritores, não teria gerado um mestiço de qualidade inferior no Brasil. Embora fossem descritos como moralmente voluptuosos e pouco afeitos ao trabalho braçal, Lacerda entendia que os mestiços do Brasil eram “intensamente inteligentes” e teriam “disposição para as letras, para a ciência e para a política”. Muitos deles teriam, inclusive, gerado descendentes que se tornaram proeminentes políticos, poetas, pintores, escultores, músicos, advogados, médicos e engenheiros, com reconhecido domínio técnico e habilidade profissional (Lacerda, 1911a, p. 380-381).

No final da apresentação, Lacerda enunciaria sua principal tese acerca do resultado da miscigenação no Brasil. Segundo ele, o cruzamento racial tenderia a fazer com que negros e mestiços desaparecessem do território brasileiro em menos de um século, ou seja, antes mesmo do final do século XX, possibilitando o branqueamento da população (Figura 6)6. Em sua compreensão, esse processo deveria ocorrer por três motivos principais. Em primeiro lugar, devido à “seleção sexual”, os mulatos procurariam sempre encontrar parceiros que pudessem “trazer de volta seus descendentes para o tipo branco puro”, removendo os aspectos característicos da “raça negra”, inclusive o atavismo.

Além disso, a crescente entrada de imigrantes europeus no país, somada aos problemas sociais, e o abandono que os negros foram obrigados a enfrentar desde a abolição, traziam a perspectiva futura de uma nação inteiramente branca. E num tom comemorativo, concluía que o Brasil caminhava para ser “um dos principais centros da civilização do mundo”. Em poucas décadas, continuava ele, o país seria “o grande mercado de riquezas da América, explorando todas as indústrias, empregando todas as facilidades de transportes para o comércio estrangeiro e intracontinental, com uma ampla e ativa população empreendedora, que ocupará as grandes cidades da costa e se estenderá pelo interior e pelos longos rios da América do Sul” (Lacerda, 1911a, p. 382).

Como se pode perceber, os argumentos defendidos por Lacerda estavam em íntima sintonia com as estratégias do governo brasileiro de promover o país na Europa. O esforço da política internacional brasileira no início do século XX consistia em ‘vender’ uma imagem positiva sobre o país, visando atrair imigrantes e investimentos estrangeiros para modernizar o comércio e expandir a economia nacional. Não por coincidência, o jornal “Le Brésil”, publicado em Paris, veiculou em suas colunas a íntegra do trabalho apresentado pelo diretor do Museu Nacional (Lacerda, 1912b, p. 86). Vale ressaltar que a viagem de Lacerda e Roquette-Pinto foi financiada pelo governo de Hermes da Fonseca, justamente com o intuito de ampliar a propaganda cultural e científica do Brasil na Europa. Em telegrama enviado do Brasil a Roquette-Pinto, que já se encontrava hospedado na capital inglesa, o ministro da Agricultura Pedro de Toledo informava que a “delegacia de Londres” estaria autorizada a pagar “um conto de ouro” aos dois representantes brasileiros, “a fim de fazerdes pelo meio que julgar mais acertado a propaganda do nosso país”7.

Um ano depois do evento, em 1912, Lacerda publicou um texto em português no qual não somente apresentou detalhes sobre a viagem à Europa e o congresso em si, como também buscou rebater as críticas que sua memória havia despertado no Brasil (Lacerda, 1912b). Apesar de a memória ter tido o propósito de imprimir uma imagem otimista sobre o futuro do Brasil, haveria entre os seus compatriotas, de acordo com o próprio autor, quem visse como demasiadamente longo o prazo que estabelecera para a concretização do branqueamento da nação.

Além do mais, teriam visto como uma atitude antipatriótica a apresentação de dados estatísticos que supostamente apontavam a população brasileira atual como sendo formada, em sua maioria, por negros e mestiços, fato que “rebaixava perante o estrangeiro os créditos do país” (Lacerda, 1912b, p. 93). Sem mencionar os nomes de seus críticos, fez questão de destacar a injustiça e a parcialidade dos arguidores, uma vez que as opiniões que apresentara em Londres foram “fundamentadas na observação e na ciência sem cuidar absolutamente se elas podiam ou não agradar aos que ouviam” a exposição de suas ideias (Lacerda, 1912b, p. 87).

Para rebater seus algozes, Lacerda fez questão de lembrar que seu trabalho foi exaltado pelos participantes do congresso e pela imprensa europeia. Segundo ele, o “Morning Post”, jornal londrino, teria salientado que a memória apresentada pelo antropólogo brasileiro fora uma das “mais práticas e mais úteis contribuições prestadas ao congresso” (Lacerda, 1912b, p. 86). De fato, o trabalho de Lacerda teve um impacto importante entre os congressistas, especialmente por reafirmar a ideia de que a miscigenação entre negros e brancos não gerava tipos inferiores, sendo o mestiço brasileiro o melhor exemplo eugênico desse cruzamento. Em texto publicado após o congresso, Du Bois destacou a importância dos argumentos de Lacerda sobre a participação dos mestiços na vida política e literária do país, contribuindo para reafirmar o benefício que a “mistura de raças” poderia ter na formação dos povos (Du Bois, 1911a, p. 206). O sociólogo Gilberto Freyre (1966, p. 30), um dos principais críticos do racismo científico, lembraria anos mais tarde que o ensaio apresentado por Lacerda teve uma considerável influência internacional, especialmente no período imediatamente posterior à realização do congresso de Londres.

Boa parte dos dados apresentados por Lacerda para comprovar a tese do branqueamento, conforme ele próprio argumentara no texto publicado em 1912, foi reunida por Roquette-Pinto (Figura 7). Como assistente da cadeira de Antropologia, Arqueologia e Etnografia do Museu Nacional, o jovem antropólogo vinha reunindo, pelo menos desde 1906, informações, estatísticas e dados sobre a formação social do Brasil, sobretudo no que dizia respeito à ‘evolução’ e às características raciais. Sua pesquisa apontava que a população brasileira branca cresceu progressivamente, em ritmo acelerado, entre 1870 e 1910, enquanto os dados referentes à população negra e mestiça seguiam em sentido diametralmente oposto (Souza, 2011, p. 90-92). Baseado, então, na sequência progressiva dessa estatística, não fora difícil para Lacerda concluir que, em 2012, a “raça branca” representaria 80% da população brasileira, os indígenas, 17% e os mestiços, 3%, sendo que a “raça negra” tendia a desaparecer de vez do território nacional (Lacerda, 1912b, p. 101).

Roquette-Pinto compartilhava, naquele momento, de muitas das teses defendidas por Lacerda, especialmente a que apontava para o branqueamento da nação brasileira. Em texto produzido antes do congresso de raças, Roquette-Pinto apresentou um estudo sobre o desenvolvimento social e etnográfico da população brasileira, desde o período da colonização até o início do século XX, no qual destacou o progressivo aumento da população branca no país8. Seu estudo seria publicado anos depois e faria parte de um luxuoso volume de mais de mil páginas, editado em português e inglês, e distribuído em alguns países do exterior (Roquette-Pinto, 1913). A obra, que recebera o título “Impressões do Brasil no século XX”, tinha por intenção fazer a propaganda sobre o povo e as riquezas do território brasileiro, procurando atrair a atenção de investidores financeiros e de imigrantes europeus interessados em dirigir-se ao continente americano (Lloyd, 1913).

Lançando mão de informações extraídas de relatos de viajantes estrangeiros, etnógrafos, historiadores e dos dados oficiais da Diretoria Geral de Estatísticas, Roquette-Pinto analisou as características dos principais ‘grupos raciais’ e, ao mesmo tempo, como vinha se processando a composição racial brasileira a partir da miscigenação, especialmente entre as ‘três raças formadoras’. O autor se preocupara em apresentar uma série de dados e tabelas que pudessem dar um panorama sobre a evolução numérica da população indígena, dos colonizadores portugueses, dos africanos e da massa de imigrantes europeus que passara a aportar no país a partir do século XIX. De acordo com seus números, até 1850, “a massa branca que chegava ao Brasil era praticamente anulada pela onda negra que os portugueses vinham movendo da África havia mais de 300 anos” (Roquette-Pinto, 1913, p. 53).

Em relação à população indígena, embora tenha sido fundamental para constituir com o português “o mestiço original da nova terra”, seria ela progressivamente anulada com a chegada maciça de negros e brancos, sendo obrigada a espalhar-se pelo interior do Brasil. De todo modo, a união dessas três ‘raças’ teria, em sua opinião, formado uma variada população mestiça (mulato, caboclo, cafuzo), que tenderia sempre à reversão ao tipo branco, impulsionada pela seleção natural e pelo aumento constante de novos imigrantes vindos do continente europeu (Roquette-Pinto, 1913, p. 53-54).

A participação de Roquette-Pinto no congresso de Londres foi bastante discreta, tendo apresentado um pequeno opúsculo intitulado “Note sur la situation sociale des indiens du Brésil”, que não chegou a ser incluído nos anais9. Nesse trabalho, o autor narrou os conhecimentos mais recentes sobre as condições de vida das populações indígenas. Não deixou de mencionar o esforço que alguns brasileiros vinham fazendo, desde o século XIX, na proteção e assistência aos povos indígenas, destacando o papel exercido por José Bonifácio, Couto de Magalhães, Teixeira Mendes, Inglês de Souza, Rodolfo Miranda e o tenente-coronel Cândido Rondon (Souza, 2011, p. 92).

Em relação à dedicação de Rondon aos indígenas do Brasil, Roquette-Pinto não deixou de lembrar a importância do contato que este vinha realizando junto à população do interior, possibilitando a coleta de materiais etnográficos e o conhecimento de diferentes grupos indígenas. O restante do texto reiterava argumentos defendidos em trabalhos anteriores, como em sua tese de medicina (Roquette-Pinto, 1906) e no relatório que apresentara durante o Quarto Congresso Médico Latino-Americano, realizado na capital federal (Roquette-Pinto, 1909).

Como jovem antropólogo, o propósito de Roquette-Pinto ao participar do Congresso Universal de Raças era, em primeiro lugar, aprimorar o seu “conhecimento técnico e científico”, uma vez que o evento reuniu algumas das principais autoridades do campo da antropologia física. Foi o caso do alemão Félix von Luschan, com quem Roquette-Pinto realizou, semanas depois do congresso, um curso de antropologia física e de etnologia em Berlim. A importância e a atualidade das discussões travadas durante o congresso marcariam de maneira destacada sua formação intelectual, conforme se percebe em trabalhos posteriores, como “Rondônia: anthropologia-ethnographia” (1917), resultado de sua expedição pelo interior do Brasil, realizada em 1912 (Figura 8).

Nos três meses que se seguiram ao encerramento do congresso, Roquette-Pinto permaneceu na Europa com os objetivos de continuar seus estudos antropológicos e de visitar museus e outras instituições científicas, acompanhado em vários momentos por Lacerda. Além do curso realizado com Félix von Luschan, Roquette-Pinto também assistiria aulas com o antropólogo René Verneau, com o parasitologista Alexander Emile Brumpt, com o renomado fisiologista Charles Richet e com o naturalista Henry Perrier, todos ligados à Faculdade de Medicina de Paris (Souza, 2011).

O Congresso Universal de Raças, portanto, deve ser visto como um contexto privilegiado para analisar tanto o debate internacional sobre as discussões raciais quanto a própria inserção do Brasil e de intelectuais e cientistas brasileiros neste contexto. Como já destacamos, por meio do congresso é possível explorar aspectos variados da história política, cultural e científica do início do século XX.

Temas como a questão racial e os estudos antropológicos, a ligação entre ciência e política, o imperialismo e anti-imperialismo, as relações entre Ocidente e Oriente, os conflitos e a construção da paz entre as nações são apenas alguns dos assuntos que mobilizaram os participantes do evento. De outro lado, ainda sabemos muito pouco sobre a atuação de outros personagens latino-americanos durante o congresso, ou mesmo das visões e concepções de intelectuais e ativistas políticos africanos e asiáticos sobre o Ocidente, especialmente no que tange ao imperialismo e ao processo de colonização.

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Autor para correspondência:
Vanderlei Sebastião de Souza
Av. Leopoldo Bulhões, 1480
Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CEP 21041-210
(vanderleidesouza@yahoo.com.br)

Recebido em 11/11/2011
Aprovado em 07/05/2012

1 Embora não tenhamos encontrado mais informações sobre a presença de outros brasileiros no congresso, também constam na lista do Comitê Geral Honorário do evento os nomes de Jacques Huber, Diretor do Museu Goeldi de História Natural e Etnografia, e da escritora Amélia de Freitas Bevilaqua (Spiller, 1911a, p. XXIX).
2 Na perspectiva do antropólogo João Baptista de Lacerda, que ocupava o cargo de diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, e que foi a Londres na função de “Delegado Oficial do Brasil”, o congresso foi de tal modo importante no contexto internacional que acabou atraindo a atenção de todos os continentes do mundo, especialmente por seu “espírito conciliador e universal”. Pela primeira vez, explicou Lacerda, haviam se reunido numa mesma assembleia o europeu, o africano, o asiático, o americano, o persa, o chinês, o turco, o egípcio, o hindu, o japonês, o mulato e o negro, “figurando tipos diferentes de raça, exprimindo-se com desembaraço nos idiomas francês e inglês, trocando com admirável critério ideias e opiniões e mostrando-se inteiramente na altura da missão que eles vinham desempenhar, por delegação dos seus compatriotas, em um dos centros mais civilizados do mundo” (Lacerda, 1912a, p. III).
3 Esse trabalho de Boas se tornou um dos mais influentes de sua carreira, a ponto de, nos dias de hoje, seus dados e argumentos serem debatidos por antropólogos físicos (Gravlee et al., 2003; Jantz e Logan, 2010).
4 Vale destacar que Lacerda iniciou seus estudos antropológicos ainda na década de 1870, quando realizou pesquisas no Museu Nacional sobre as origens do homem americano e, a partir de uma perspectiva marcadamente racial-tipológica, as características morfoanatômicas de grupos indígenas do Brasil, em especial dos Botocudos. Em boa parte desses estudos, empregou a análise craniométrica, técnica antropológica difundida pela escola francesa de Paul Broca. Formado em medicina, Lacerda também publicou trabalhos nos campos da fisiologia, patologia, moléstias tropicais, profilaxia, veterinária, bem como trabalhos relativos ao Museu Nacional, instituição na qual atuou até 1915 (Santos, 2002).
5 Sobre o trabalho que João Baptista de Lacerda apresentou em Londres, ver também Skidmore (1976), Seyferth (1985) e Schwarcz (2011).
6 Em um volume avulso, publicado em francês, Lacerda reproduziu o trabalho apresentado no Congresso (Lacerda, 1911b) e uma tela de Modesto Brocos y Gómes (1852-1936). Formado pela Academia Imperial de Belas Artes em 1875, e radicado definitivamente no Brasil desde 1890, o pintor espanhol representou uma síntese do que os teóricos do branqueamento projetavam para o futuro do país. No quadro, o artista retratou três gerações de uma família brasileira: a avó negra, sua filha mulata, que trazia ao colo uma criança branca, e o pai de seu neto, um imigrante branco, possivelmente um português. O quadro foi reproduzido por Lacerda com a seguinte legenda: “O negro passando a branco, na terceira geração, por efeito do cruzamento de raças” (Lacerda, 1911b). Para uma análise detalhada acerca do uso do quadro no trabalho de Lacerda, ver Seyferth (1985). Schwarcz (2011) apresenta uma versão traduzida em português da memória de Lacerda.
7 Telegrama do Ministro Pedro de Toledo a Edgard Roquette-Pinto, Rio de Janeiro, 17/07/1911. Arquivo Pessoal Roquette-Pinto. Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro (RJ).
8 ROQUETTE-PINTO, Edgard. Notas antropológicas sobre as populações do Brasil. Rio de Janeiro, 1910. Texto manuscrito. Arquivo Pessoal Roquette-Pinto. Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro (RJ).
9 O texto foi publicado muito posteriormente, nos anos 1950, pelo Conselho Nacional de Proteção aos Índios (Roquette-Pinto, 1955).

  MCT/Museu Paraense Emílio Goeldi

Av. Magalhães Barata, 376 – São Braz
66040-170 – Belém – PA
Tel/Fax: (55 91) 3249-6373

boletim.humanas@museu-goeldi.br

~ por Spirito Santo em 28/01/2013.

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