De olho no Valongo. Os ossos falam, gritam o que ninguém quer ouvir


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Pirâmide de ossos 2

(Da série do facebook do mesmo nome)

A pequena pirâmide de vidro aí da foto junto com outra mais ou menos do mesmo tamanho dá, pelo menos para mim que sou um iconoclasta assumido, a dimensão constrangedora de nossa incúria e ignorancia histórica, a escravidão ainda turvando a nossa alma nunca fôrra.

Isto aí, estas vitrines tímidas (como o perdão dos crentes nelas, tão contritos em suas orações)  é tudo o que as autoridades responsáveis, a Prefeitura, o Museu Nacional, o Iphan, o MinC, sei lá mais quem,  fizeram em mais de 13 anos por um sítio arqueológico de grandes dimensões ainda desconhecidas, talvez o maior e mais importante sítio arqueológico da escravidão nas américas, o chamado ‘Cemitério dos Pretos Novos” e suas adjacências.

Com quase toda certeza – pois, existem documentos históricos cabais atestando isto – todo o espaço em torno destas ‘janelas de vidro’, toda a área da casa onde os ossos foram achados fortuitamente numa obra doméstica, a rua em frente e as contíguas, e um número ainda impreciso de outros imóveis, o quarteirão quase inteiro da Rua Pedro Ernesto (antigo ‘Caminho do Cemitério’) talvez, tenha sido um depósito de corpos de escravos mortos durante a quarentena pós desembarque no cais do Valongo, depositados em armazéns espalhados por ali, ou mesmo de cadáveres de escravos mortos em bairros ou paróquias vizinhas, todos lançados em pântanos e alagadiços formados pelas antigas lagoas que haviam ali, como lixo.

Um documento da época, já citado várias vezes nesta série de posts que escrevi sobre o assunto, descreve um destes lúgubres locais, na área entre  os fundos dos armazéns de depósito e guarda de escravos para a venda e  atual Colégio Pedro Segundo (Rua Mal. Floriano), uma  vasta área pantanosa com partes de corpos aparecendo na superfície, apodrecendo ao sol.

Bem, já cansei de contar esta história e seus detalhes sórdidos.

O que ressalto agora é que a dimensão minúscula das pirâmidezinhas representam muito bem o descaso que cobre, soterra a memória não só da escravidão de nós todos, mas de todo o nosso passado colonial que, ainda hoje, ‘presente colonial‘ que é,  parece que não acaba nunca. Qualquer vitrine de lanchonete de subúrbio é maior e mais cara do que aquilo. É como bica de vereador de favela de antigamente: não é para festejar. É para se envergonhar.

Exala da foto também uma não menos constrangedora aura de ingenuidade dos participantes, do que é uma cerimônia religiosa improvisada para homenagear aqueles parcos ossos mortos, deliberadamente dilacerados. Me sobe o sangue notando o ar de humildade ‘sim sinhô- sim senhora‘  da cena. A submisão e a complacência ingênua, quase escrava que se espalha por ali. É tudo ínfimo aí na foto, reparem. É tudo perto do medíocre, não por culpa de quem cuida e mantém aquele museuzinho vivo, mas pela displicência criminosa das autoridades citadas com seu seu mesquinho cinismo, a sua iniquidade enfim.

A redução de uma questão cultural tão ampla á dimensão vaga e imprecisa de uma religião (o candomblé) que, a rigor nada tem, mesmo religiosamente, a ver com as pessoas descarnadas daqueles ossos e lançadas ali, também transcende um menosprezo total para quem não tem nariz de vidro e entende mínimamente do assunto.

O que há, enfim, pelo sim pelo não, mesmo de mínimo no local, tudo muito digno por sinal – atentem! – partiu do esforço quase solitário da dona da casa, a branca Ana Merced, que desde 1996, depois de se deparar com a presença aterradora de ossos no piso de sua própria casa, batalha para que alguma, mesmo pouca arqueologia seja feita e que alguém de direito assuma aquele patrimônio pela a enorme importancia arqueológica que ele tem.

Porque, meu Deus se aceita tão cordadatamente, tão subalternamente esta simulação de apreço e importancia, este teatro folclórico nitidamente um ‘pano quente’ para deixar os tratores passarem em paz? Porque se aceita assim tão humildemente este mimo ínfimo como uma esmola, este presente de grego que a Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro deu para o Museu dos Pretos Novos e suas  adjacências?

Porque não olham em torno – militantes negros e simpatizantes brancos, gente de bem em geral que sabe pensar o valor que tem o passado de todos nós –  e entendem que milhões e milhões de dólares estão sendo lançados no solo daquela região agora mesmo, com o propósito evidente – e me corrijo dizendo ‘talvez‘ porque sou ainda um esperançoso – de soterrar de vez tudo que haja de passado, de história colonial por ali.

E quantos não estão, de um lado e do outro, tirando partido pessoal e financeiro desta arqueológica tragédia? Até onde vai a rede de cumplicidades que dá suporte a este provável engôdo? É que fazem ‘desarqueologia‘ ali os espertinhos, suspeito eu, aqui vociferando sozinho.

Soube nestes últimos dias lendo docs. oficiais da prefeitura que há muito dinheiro – muito mesmo – sendo empregado  em pesquisas arqueológicas naqueles sítios. Quem paga os serviços arqueológicos da empresa paulista contratada (Documento Ecologia e Cultura S.A), por força de regras ditadas pelo modêlo ‘arqueologia de contrato’, são as próprias empreiteiras envolvidas na grande obra do Porto Maravilha, cabendo ao Iphan fiscalizar se a raposa, em vez de tomar conta do galinheiro, não está comendo as galinhas e deixando os ossinhos delas por lá.

A mesma empresa em questão está envolvida em arqueologia do canteiro de obras, simplesmente do estádio do Corínthias (bancada pela Oldebrecht). Ela está também na área do trecho da Transcarioca Penha-Aeroporto Tom Jobim (bancado pelo Consórcio Transcarioca) que, provavelmente banca também a ‘arqueologia‘ da área do Valongo.

São obras e interesses financeiros gigantescos, ligados diretamente – por serem estratégicos – aos interesses corporativos voltados para os eventos turístico-esportivos de nosso breve futuro. Não há, pelo menos não achei, sinal algum da participação direta de órgãos públicos envolvidos na preservação ou fiscalização dos sítios, depois que foi afastada a arqueóloga Tania Andrade Lima do Museu Nacional das escavações do Cais do Valongo.

A pulga…ah esta pulga na minha orelha!

Alô, Iphan! Cadê a transparencia legal exigida nestes casos? A comunidade da área está sendo informada, mobilizada ou está sendo engambelada com representações teatrais, legitimadas com reuniões e engambelações mais formais, como a inauguração das pirâmides aí de cima?

Os ossos incomodam, não é mesmo? A deflagração de uma campanha que exija do Iphan a abertura desta caixa preta prestes a ser soterrada como os ossos, o resguardo do patrimônio de toda esta vasta área histórica (que não se resume, absolutamente apenas aos ossos), patrimônio que é público por suposto, é tudo que as empreiteiras ligadas à prefeitura não querem.

Bem, as razões são muitas e complexas como jogo de sinuca quando fica ‘de bico’. Por enquanto ainda estou animado para chafurdar nesta lama, mas não vou aqui ficar eternamente chorando sozinho por uma inês que já é morta.  E daí? Vão ficar também vocês todos, leitores, esperando uma campanha de facebook mais charmosa e fashion do que a luta por ossos de escravos?

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Publiquei no facebook há pouco um relatório da empresa Documento Ecologia e Cultura de setembro de 2012, onde em vários pontos aparecem sugeridos o que parecem ser  intenções de minimizar a importância arqueológica do local. Ao que me pareceu a empresa só há poucos dias entrou na área referente ao ‘cemitério dos Pretos Novos’. Os bons entendedores do assunto, arqueólogos, antropólogos, pesquisadores, etc, bem que poderiam traduzir tudo deste arqueologês para nos ajudar a entender o que está realmente rolando no Valongo.

Hora da verdade.

Leia a íntegra do relatório da Documento Ecologia e Cultura neste link:

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Pois é. É duro ser estátua. Para entenderem como é  pesado o drama daqueles que querem ‘desafinar o côro dos contentes‘, fiquem com o comentário recente – e impertinente –  de um amigo, lá no post da série, anterior a este.

Ah…Ninguém merece.

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Fulano:

“…Bem, sem querer discordar, mas já meio discordando. Como haver raríssimo e precioso material arqueológico em área dentro do perímetro urbano da capital do Império, sem que haja nenhum documento de época narrando ou descrevendo o dito cujo.

“…Que material tão importante históricamente poderia existir num cemitério de escravos, fora os próprios ossos dos infelizes, já que eles não possuíam bens materiais? Por que as Irmandades Negras e mesmo os militantes do Abolicionismo nunca se referiram à importância do local? Seriam vassalos da diabólica hegemonia branca?

São perguntas que não me querem calar. Vejo um certo exagero, talvez. Pensar racialmente pode levar a um complexo persecutório que só vai ser prejududicial no presente, deformando a visão das coisas.

O preconceito existe, mas não chega a esse ponto, neste caso, a meu ver. Mas posso estar errado. O que farão as entidades de defesa da cultura negra, a fundação Palmares, por exemplo? Para que servem?”

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Titio:

Na base da réplica, recomentando então, pacientemente:

“Fulano, de Deus! “

Bola fora, meu caro (e ato falho também). Em nenhum momento me referi apenas ao cemitério de escravos. Eu disse ‘vestígios arqueológicos’. Observe o mapa com mais atenção. Ele abrange uma área bem mais ampla do que a do antigo pântano aterrado onde se localiza o depósito (e não cemitério) de ossos.

Não sei se você se deu conta do que disse, mas veja, vestígios arqueológicos são sempre supostos já que a existência deles só pode ser atestada com escavações. As evidências são históricas. Quando afirmo que há um grande depósito de ossos de escravos muito maior do que as duas fossas de poucos metros quadrados descobertas ali, acidentalmente (cerca de 1,5 M2 cada uma) estou me baseando em documentos históricos.

Estranho muito o seu descaso, vindo de um estudioso de nossa cultura, porque não é nem preciso ser pesquisador para entender a enorme importância histórica e cultural do achamento de vestígios coloniais, sejam eles o que forem, já que marcam a ocupação de uma área de tal importância para a formação do Brasil.

A importância das muitas informações relevantes soterradas ali, nos daria conta de como viviam e morriam as pessoas que ali habitavam, no caso dos escravos e negros que circulavam por ali (que não são os únicos, pois a área tinha intensa atividade comercial de gente de toda cor) temos ainda dados relevantes sobre os modos africanos de ser das pessoas.

“…Que material tão importante históricamente poderia existir num cemitério de escravos,” – pergunta você de forma desdenhosa. Os ossos falam, meu caro. Canso de dizer.

“Por que as Irmandades Negras e mesmo os militantes do Abolicionismo nunca se referiram à importância do local?” –

Claro que se referiram, Fulano.Você precisa ler mais sobre o tema. Está cobrando das pessoas erradas. Todo mundo sabe da importância arqueológica do local. O que existe, provavelmente, como se faz com tudo relacionado aos africanos no Brasil, é uma estratégia de apagamento dos vestígios, ‘queima de arquivo’, digamos assim.

E isto não tem nada a ver com racismo como você, forçando a barra dá a entender. Há, tudo leva a crer, uma batalha feroz por lucros sendo travada ali naquela área. Empreiteiras vorazes estão atuando na área demolindo o passado para levantar imóveis lucrativos sobre o nosso passado colonial. Grana, a “Cidade empresa” atropelando a história a britadeira e trator.

Ter sítios arqueológicos a serem preservados ali (temos leis neste sentido, sabia?) é tudo que os empresários não querem. O que isto tem a ver com racialismo? Pergunto eu. Você não está entendendo. Lamento que você faça parte deste coro de desimportancia que tenta desqualificar a questão.

“O que farão as entidades de defesa da cultura negra, a fundação Palmares, por exemplo? Para que servem?”- pergunta você, finalmente, com o mesmo desdém (o problema não é seu, certo. Não tem importância.)

Errado. Você devia perguntar isto a si mesmo. O que você fará para impedir que o nosso passado histórico seja soterrado de vez? Ou vai ficar aí se passando por branco que tem birra com negros?

O assunto nada tem a ver com racismo. Chifre em cabeça de cavalo. É por isto mesmo que estranho esta sua cisma recorrente, sempre contra as lutas pela igualdade racial no Brasil.

Eu, heim! O que é isto, companheiro?

Spirito Santo

Fevereiro 2013

A cronica torpe do bairro em pânico.


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Picape copy

Morto à tiros na porta da igreja

Foi agora, há poucas horas atrás. Tão alto que parecia que era no pátio do meu condomínio, coisa muito perto, a uns poucos metros do meu portão. Tiros de fuzis automáticos, muitos, três ou quatro rajadas perceptíveis. Tentei olhar para ver do que se tratava ajoelhado no chão, mesmo morando no terceiro andar.

Os moradores que chegavam no fim da tarde e os transeuntes se atirando no chão e se esgueirando pelos cantos dos blocos de apartamento com crianças no colo.  A rua, logo a seguir deserta e silenciosa como a de uma cidade fantasma. Imediatamente, logo após os tiros e o anoitecer, a luz desta parte do bairro, sem razão sabida foi desligada. Nenhum raio, nenhum sinal de temporal, apenas um apagão a mais, que ninguém sabia se era mesmo o apagão recorrente de todo dia.

Além da proximidade assustadora do som dos tiros, não há novidade alguma no incidente. Anda assim o bairro da Praça Seca desde antes do Carnaval. Tiroteios de armas automáticas a qualquer hora ou lugar e sem motivo sabido. Os milicianos que faziam a segurança compulsória para os comerciantes locais, desapareceram das esquinas. Não houve carnaval no bairro neste ano, por força da proibição não se sabe bem de quem.

Difícil entender o contexto dos  incidentes. Os relatos são vagos ou cifrados, nada sai nos jornais ou na televisão. São apenas desacontecimentos desimportantes, distantes demais da zona sul para merecerem a pauta da imprensa servil aos consumidores cidadãos, os que realmente contam, aqueles que têm dinheiro e direitos adquiridos ou subtraídos de nós, os outros.

Tensas, olhando para os lados, as pessoas todas ficam cochichando, ressabiadas pelas esquinas, no interior ou na porta dos supermercados, uns olhando para os lados temendo o jeitão dos estranhos ao lugar (garotos pretos de moto, que não estejam com coletes de moto táxi ou mochilas quadradas de entregadores de pizza são os mais temidos)

O bairro é tradicional e modesto. Abrigava antes, pouco tempo atrás uma população pacata, de classe média baixa, de grande presença negra por conta, diz a história oral daqui, dos lotes apossados, desmembrados de terras cedidas aos escravos pelo Barão da Taquara, antigo proprietário de uma ou mais fazendas de café na região, quando da abolição da escravatura.

A maior parte desta população negra, contudo, habitava mesmo era a mais antiga favela local, a do Morro São José Operário, imensa colina pedregosa com uma faixa razoável de mata atlântica encimando tudo.

Dizem numa biografia, que Clementina de Jesus, a grande voz ancestral de nossa música negra mais profunda (com quem tive a sorte de cantar e trabalhar um dia) passou a infância dela ali pelas fraldas deste mesmo morro, cantando lapinhas no pastoril de uns parentes que criavam cavalos e vacas por ali.

Como toda favela do Rio, a do São José Operário tinha o seu ‘movimento‘ de traficantes, gente dali mesmo, muito jovem ainda, entrada no crime pela mesma porta pela qual entram todos os jovens traficantes do Brasil. Nunca soube a qual facção o grupo da Praça Seca pertencia. Só sei que ficaram célebres os tiroteios da madrugada, as balas traçantes das guerras entre facções cortando os 180 graus do céu da minha janela, assim que o problema do tráfico de drogas no Rio atingiu proporções de guerrilha urbana.

Este ar de roça suburbana pacata, embora violenta nas horas mortas, começa mudar na Praça Seca na virada da década de 1990 para o início da de 2000. É neste momento que a migração de nordestinos num fluxo de avalanche desmedida e invisível (para as vistas grossas das autoridades) começa chegar por aqui.

Alguém há de explicar um dia este fenômeno sócio econômico estranho que levou tantos nordestinos a migrarem da miséria de suas terras, para a miséria do Rio de Janeiro, nesta época que coincide, exatamente com a posse no governo federal do PT e seu líder nordestino.Vivem, em sua esmagadora maioria de rendas do Bolsa família. O sertão não virou mar, mas o mar sim, virou sertão.

O fato é que depois de se insinuar pelas favelas da Rocinha e do Vidigal na zona sul, já tomadas por gente do nordeste nas décadas anteriores, este novo pessoal, em levas organizadas por agenciadores (como ‘coyotes’ mexicanos) passou a ocupar a zona oeste da cidade do Rio, nas imensidões luxuriantes da baixada de Jacarépaguá, mais ou menos como sub-urbes parasitárias do luxo da ‘maiâmicaBarra da Tijuca, que é o que com toda certeza as favelas são: cânceres que brotam na casca grossa dos refúgios paradisíacos dos endinheirados do país.

Rio das Pedras‘, ‘Terreirão‘ no Recreio dos Bandeirantes, ‘Gardênia Azul’ (um bairro loteado que favelizou-se), ‘Cesar Maia‘, diversas favelas nordestinas foram suburbanizando as áreas secas e até os manguezais da região, que foram aterrados, daí até chegarem como num tsunami de refugiados de uma seca bíblica, na remota Praça Seca, bairrozinho outrora pacato onde moro.

Vi no mapa: São 13 – eu disse 13 – pequenas favelas circundando o pequeno bairro da Praça Seca. Com elas, junto com os modos favelados de ser, vieram muitos hábitos nordestinos estranhos a velha cultura suburbana do Rio de Janeiro, hábitos bons, pitorescos e hábitos ruins, entre eles o mais execrável que, como se fosse uma herança dos jagunços dos ‘coronéis’ do sertão, fez surgirem e vicejaram com o beneplácito de governadores e prefeitos, as sórdidas Milícias.

(Não culpo os que nunca ouviram falar disto. São ‘não fatos’ que no mundo real das notícias nunca aconteceram ou acontecerão.)

Os boatos soltados por entre os dentes dos meus vizinhos me contaram que um pouco antes do carnaval um bando de traficantes egressos da complexo de favelas do Lins de Vasconcelos, da facção Comando Vermelho, acossados pelos planos das autoridades de lá instalar Unidades de Polícia ‘Pacificadora’ (UPPs), invadiu numa grande operação o Morro São José Operário.e algumas favelas contíguas.

Acastelados lá no alto, recuando para a pequena mata quando a polícia junto com remanescentes milicianos tenta escorraçá-los, um pequeno exército de crianças pretas (os chefes adultos nunca aparecem na linha de fogo) com fuzis automáticos de última geração expulsaram do local os milicianos que ali se encontravam.

Diz-se que alguns milicianos foram mortos ali mesmo. Nos dias que se seguiram notícias de assassinatos pontuais correram pelo bairro. Mototaxistas foram mortos (de um , empalado com um cabo de vassoura, arrancaram o pênis que foi enfiado em sua boca), pontos de vans mudaram de lugar, os milicianos segurança de lojas e supermercados se escafederam da parte baixa do bairro também. Toda e qualquer pessoa identificada como miliciano ou colaboradora da milícia está sendo identificada e morta.

Daí, já que já contei tudo, posso desvendar então o segredo dos tiros da minha rua:

Soube logo, poucas horas depois que o que ocorreu foi uma execução sumária. Homens que ninguém sabe ninguém viu, emboscaram quase em frente ao meu prédio e descarregaram armas automáticas num jovem numa picape. A vítima ainda tentou entrar no portão de carros dos fundos da igreja, mas foi fuzilada ali mesmo.

Assim que parei de tremer de medo fui ver o corpo tombado no banco da picape. O comércio todo fechou em pânico. Depois de um tempo o bairro inteiro acorreu para a minha rua para ver o incidente, estarrecido. Na rua escura ainda pelo misterioso apagão, os faróis traseiros do carro metralhado ainda piscavam. Numa incontrolável sensação de medo e completa insegurança, conferindo onde estava minha mulher àquela hora, vaguei pela rua indo e vindo do carro metralhado ao portão do condomínio, aturdido.

Assisti à chegada das polícias militar e civil uma meia hora depois do ocorrido. Vieram uns sete carros piscando luzes vermelhas, com policiais truculentos com fuzis enormes. Havia, curiosamente uma policial loura como uma dondoca do BBB com uma arma idêntica a dos homens, gritando rispidamente para a multidão se afastar. Incrível como as louras dondocas parece que dão para estas coisas de truculência.

As primeiras notícias explicando o que ocorreu são dantescas. Não sei mesmo o que pensar senão pegar minhas tralhas e me mudar daqui. O jovem cidadão executado é nada mais nada menos do que o irmão do chefe de uma das milícias da área (que se encontra preso)

Ele foi emboscado na porta do meu condomínio quando ia malhar na academia da rua como qualquer garotáo. Foi parado a tiros no portão da igreja e metralhado como um cão. Está mesmo configurado, portanto que há um guerra entre traficantes e milicianos pela posse e o controle do meu bairro, com combates à 50 metros da minha porta ou da porta de qualquer um. O que vocês acham que eu devo ou posso fazer? Não dormir hoje é a única coisa que tenho certeza que farei. Temo a verdade contida nos pesadelos.

O que mais me apavora é que tudo que eu contei como verdade, na verdade, ‘não aconteceu’. É que a versão que eu conto, provavelmente não sairá, pelo menos como eu a presenciei, em nenhum jornal ou canal de televisão desta cidade sem lei nem rei.

Gostaria mesmo de ter inventado tudo isto como um falastrão de facebook. O jeito é você fazer feito eu: não curta.

Spírito Santo
Fevereiro de 2013

A mestiça artimanha do Atlântico impuro


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Capa do livro 'Thrall' da poetisa Natasha Trethewey. Casal misto nos EUA do século 18 - Cortesia Daniel Jorge

Capa do livro ‘Thrall’ da poetisa Natasha Trethewey. Casal misto nos EUA do século 18 – Cortesia Daniel Jorge

Abobrinhas eugenistas e outras mestiças crioulices em voga

(Revendo, relendo e indo mais fundo do que se foi no Facebook)

Lendo avidamente há dias, conceitos caros a nós todos, parceiros de aventura crítica, de teses ligadas à ‘mestiçagem‘ e a ‘crioulidade, essas teorias bolorentas que gente como o Hermano Vianna e outros tantos andam espalhando por aqui.

Caramba, quanto mas leio mais confirmo o pé atrás que tenho com estas teorias gêmeas, o quanto elas tem de Freire e Nina Rodrigues (como aponto no meu livro e os angolanos todos que li depois, confirmam), o quanto estas teses têm de eugenismo reciclado, luso tropicalismo deslavado como disse Victor Kajibanga (veja no link) mestre doutor em sociologia de Luanda:

“…A história dos movimentos proto-nacionalistas nos países africanos de língua oficial portuguesa, o surgimento da literatura de cariz negritudinista (que teve como alguns dos seus melhores representantes mestiços e brancos) e a ativa participação dos mestiços na luta anti-colonial desses países, encarregaram-se de abalar a ideologia da chamada “fenomenologia cultural portuguesa”, assente no princípio da criação do mestiço como condição da perenidade cultural portuguesa nesses países.

Com ligeiras adaptações, a antropossociologia da crioulidade, ao insistir na consciência de raça dos mestiços, parece tentar perpetuar uma das falácias da portugalidade e pautar pela marginalização dos mestiços e da sua condição de angolanos.

Pessoalmente, não acredito que o lugar dos mestiços na atual sociedade angolana e o papel que desempenham na construção da nação angolana se deva à sua consciência de raça.”

(Crise da racionalidade lusotropicalista e do paradigma da ‘crioulidade’ – O caso da antropossociologia de Angola- Víctor Kajibanga)

Não sei se é cisma minha, mas os problemas dessas teorias são muito evidentes. Um deles, me ocorreu lendo resenhas sobre o Paul Gilroy ontem. Outro me bateu hoje, lendo mais uma vez as pontas africanas do mesmo conceito traduzido para a África pós colonial, em Cabo Verde, em Angola e na literatura de Agualusa (o nome diz tudo) em especial.

“…A inserção dos intelectuais negros no mundo moderno é vista como ambivalente, marcada por uma tensão entre ser produto da civilização ocidental e possuir uma identidade racial, profundamente condicionada e organicamente gerada por essa civilização.

Para Gilroy é preciso atentar para o fato de que as críticas dos intelectuais negros à modernidade também podem ser, em alguns sentidos, importantes à afirmação dessa mesma modernidade.

A compreensão desse quadro é prejudicada, quase sempre, por posturas que insistem em separar as formas culturais particulares a ambos grupos em alguma tipologia étnica, perdendo a oportunidade de discutir o seu complexo entrelaçamento.”

(Eufrázia Cristina Menezes Santos – Professora da Universidade Federal de Sergipe e doutoranda do Departamento de Antropologia, USP, resenhando – ou falando por – Paul Gilroy)

Atentaram para a sutileza? A ‘tipologia étnica’ (ou melhor dizendo, a afirmação de alguma etnicidade) seria o ‘problema‘. Nele, a ‘civilização ocidental’ se oporia, frontalmente à ‘identidade racial‘, sugerindo a superioridade de uma (dita ‘civilizada‘, ‘aétnica‘ per si e a qual, não sendo ‘negra‘ só poderia ser ‘branca‘) de outra dita ‘racializada‘ e por suposto, ‘atrasada‘, ‘primitiva’. Assim, ter  certa afinidade com algum perfil ‘étnico‘ identitário, seria um comportamento ‘atrasado‘ e ‘contraditório‘ (‘ambivalente‘, diz ela) da parte do intelectual negro.

E reparem só que aqui se enfatiza apenas o ‘intelectual negro’, condenado a se transformar num solitário ser travestido naquela ‘black skins, white masks’ de um ‘black man with white soul’ (uso o inglês assim por sarcasmo mesmo) de braços dados com a dona moça branca da ‘modernidade‘. Pois sim!

Ai meu São Fanon! Dai-nos paciência como o Jesus, quiçá mulato, deu à  .

Para quem sabe ler, um pingo é letra. Enfadonho ir lá em Paul Gilroy conferir se no original ele realmente quis dizer isto que entendemos, mas convenhamos: é tortuoso demais nestas teses o esforço em confundir ‘Raça‘ (‘negro‘, ‘branco‘) com Etnia (uma instância do âmbito da cultura) ou mesmo ‘cultura tradicional, étnica‘ (africana, bantu, europeia, lusitana) com grau de civilização.

E vejam, bem mais atentamente ainda, que a evocação de seu passado africano por parte dos intelectuais negros do movimento da ‘négritude‘, por exemplo, talvez jamais tenha querido significar, exatamente uma evocação a valores ‘raciais‘.

Quando muito se referia à valores ligados à ‘nacionalidade‘, no campo da luta anticolonialista, sem dizer ainda que este ufanismo continental pan africanista dos anos 10 aos 60 do século 20, ocorrendo em toda à diáspora atlântica e nas sobreviventes colônias europeias no continente africano, foi o combustível essencial para tantas e bem sucedidas guerras de independência nos anos 70)

Quem impregnou de racialismo e carimbou o discurso simbolista e literário dos ‘intelectuais africanos’ de racista, desde sempre foram os intelectuais ‘brancos‘, ora pois.

Mestiçagem‘, ‘Crioulidade‘. Virgem! Este troço está se tornando, rapidamente um modismo acadêmico da hora!

É que elas, essas teses toscas no meu leigo entender, entre outros problemas conceituais mais ambíguos, partem da premissa equivocada – sabe-se lá de quais intenções motivada – de que o tráfico de escravos no Atlântico transferia africanos aleatoriamente, como num saco de gatos étnico sem pé nem cabeça.

“…Para Mintz e Price (cita o português Miguel Vale de Almeida), as origens específicas das populações afro-americanas não eram relevantes (grifo meu) , pois os escravos chegavam em massa, mais como “multidões” do que como grupos. Aquilo que partilhavam à partida era a sua escravatura. Tudo o resto tinha que ser criado por eles.”

Ou, ainda Miguel Valle de Almeida citando:

“…Para Mintz e Price o conceito de “crioulização” surgiu como um útil substituto de “aculturação” e “assimilação”, pois descreve uma expressão sincrética que leva ao surgimento de novas formas culturais, tal como no passado aconteceu na Europa.

Não havendo uma coerência, uma ‘essência‘ (Ai! Olha aí o conceito tão odiado por eles) etnológica na origem destes grupos de africanos que aqui chegavam, supõe estas vãs teorias que, no contato com a – segundo eles – ‘coerente e sistematizada’ cultura europeia aqui instalada (outra falácia, pois esta ‘essencialidade’ – rs rs rs! – branca-europeia, tanto quanto a negro-africana jamais existiu, nem mesmo na Europa) aos africanos e seus descendentes não restaria outra opção senão assimilar a cultura, por esta hipótese, dominante, dando origem então a uma cultura sucedânea, a qual eles chamam ‘mestiça‘, ‘mulata‘ ou ‘crioula‘, uma coisa assim…‘meio barro meio tijolo‘, ‘cor de burro quando foge’,homoantropológica, ‘híbrida‘ enfim, se é que me entendem.

Ora, este equívoco é crasso. Uma atividade comercial de tal porte como foi o tráfico transatlântico de africanos, jamais seria tão bem sucedida se não estivesse assentada num senso de estratégia e numa logística pertinentes. Óbvio que existiu uma lógica étnica, cultural – e não exatamente racial – transatlântica enfim, relacionada a esta logística geocomercial do sistema de trabalho escravo.

Traziam seletas cargas de escravos de determinados grupos étnicos, obviamente de cultura similar ou afim por questões geográficas, gente específica, pois, e a traziam para um local do mesmo modo determinado, onde esta gente ficava confinada, segundo a logística do negócio e a natureza de seus trabalhos forçados. Escravos mais ou menos especializados em mineração nos ciclos do ouro e no do diamante ou em agricultura cafeeira no ciclo seguinte e assim por diante.

Básico isto. Em outras palavras, traziam escravos de lugares de origem sabida e com destino definido, aspectos determinados pela natureza de suas funções como mão de obra em atividade prevista, quase sempre especializada, aqui nas américas, a origem definida também pela ordem econômica e militar do colonialismo em África, que impunha limites rígidos de acesso a esta mão de obra para cada metrópole, segundo as fronteiras ‘legais‘ de seus domínios.

Tal foi em linhas bem gerais, a geologística da distribuição de africanos na diáspora atlântica, mais precisamente uma lógica geopolítica (mais ou menos como se dá no mercado de petróleo hoje em dia).

Não eram, portanto – nunca foram – culturas pulverizadas pela captura na África nem tampouco foram pulverizadas aqui (nem lá, em África) como certo pragmatismo colonial almejou, mas não realizou por razões, basicamente econômicas. No caso brasileiro então esta hipótese é quase indiscutível. Crioulice apostar no contrário.

Este é um dos poucos pilares destas teses. Como ele é falso, as teses desmoronam já por aí.

Outro furo conceitual raso: Híbrido diz respeito a entidades diversas que, exatamente por isto, NÃO se misturam. Vale para cultura, como disseram o argentino  Néstor Canclini e outros (constatando uma lei óbvia da natureza) mas nada a ver com gente. A um ser humano biotipicamente ‘mestiço‘ (ora, que redundância! Todo ser humano é, sempre foi um ser ‘mestiço’) não corresponde, necessariamente uma cultura…’híbrida‘, ‘misturada‘ respectiva.

“…Ao argumentar contra o excessivo peso do tradicional no estudo das culturas populares, usamos o maior número de páginas para demonstrar o que não há de tradicional, autêntico, nem autogerado nos grupos populares.”

(Néstor Canclini, traduzido do original, meio que flagrando distorções mal intencionadas de sua tese)

O “Junto” nunca quis dizer, exatamente “Misturado

“…O real significado de híbrido é a palavra grega ὕβριδης, que é o fruto de uma hýbris (com o sufixo de patronímico grego δη), ou seja, “o filho de uma desmedida”, pois o cruzamento entre seres que não “deveriam” cruzar é um afronta, um ultraje.

Em latim, “hibrida” é usado tanto para designar o resultado do cruzamento de espécies diferentes, como a égua com o jumento, como também o filho de um romano com uma estrangeira, ou de um homem livre com uma escrava.”

(William Keeton. Norton & Company in 1967)

(E repararam – claro que sim, tanto que nem ia citar – como essas teses supostamente moderninhas se valem da biologia (‘hibridismo‘, ‘mestiçagem‘, ‘mistura‘, ‘amálgama‘, etc), um cacoete clássico e ultrapassado dos primórdios da antropologia, aquela fase mais eugenista, do século 19?)

É o mofo, o fungo delas se espalhando.

‘Na natureza nada se cria, tudo se copia!’

No intuito evidente de negar uma…essência (olha aí, de novo, a palavrinha odiada por eles!), uma lógica africana (‘negra‘) na cultura dos povos das Américas (ou mesmo na das ex colônias africanas de sua origem) estas teses contrapartem para a contraditória proposição da existência de valores superiores e …’essenciais‘ na cultura européia, por pressuposto, valores que moldariam, ‘lapidariam‘ esta cultura sucedânea, subalterna, ‘mestiça‘ , ‘crioula‘, como cavalos espanhóis considerados impuros só por terem nascido nas Américas’, os tais cavalos  ‘criollos‘ etimologicamente originais.

(E não é que foram estes, exatamente o conteúdo e as intenções do conceito Lusotropicalismo proposto por Gilberto Freire a Salazar para a gestão e o controle das populações das colônias portuguesas em África?)

Neolusotropicalismo? Seria esta a ideia? Neo-neo colonialismo, Neofascismo, algo assim?

Tarados! Mestiçagem e hibridismo, mistura de gente assim com gente afim, dando gente assada, são conceitos caquéticos, quase do tempo em que o Mendel miscigenava suas ervilhas, inventando a engenharia genética (para a alegria insana dos doutores Galton e Mengele que acharam que a novidade daria certo com gente e deu no melê que deu)

Doutores silvanas com bolor, é o que são.

Bem…Vão lendo os links aí.

Spirito Santo

Janeiro 2013

A mestiça artimanha do Atlântico impuro


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Capa do livro 'Thrall' da poetisa Natasha Trethewey mostrando um casal misto nos EUA do século 18

Abobrinhas eugenistas e outras mestiças crioulices em voga

Lendo avidamente há dias, conceitos caros a nós todos, parceiros de aventura crítica, de teses ligadas à ‘mestiçagem‘ e a ‘crioulidade, essas teorias bolorentas que gente como o Hermano Vianna e outros tantos andam espalhando por aqui.

Caramba, quanto mas leio mais confirmo o pé atrás que tenho com estas teorias gêmeas, o quanto elas tem de Freire e Nina Rodrigues (como aponto no meu livro e os angolanos todos que li depois, confirmam), o quanto estas teses têm de eugenismo reciclado, luso tropicalismo deslavado como disse Victor Kajibanga (veja no link) mestre doutor em sociologia de Luanda.

“…A história dos movimentos proto-nacionalistas nos países africanos de língua oficial portuguesa, o surgimento da literatura de cariz negritudinista (que teve como alguns dos seus melhores representantes mestiços e brancos) e a ativa participação dos mestiços na luta anti-colonial desses países, encarregaram-se de abalar a ideologia da chamada “fenomenologia cultural portuguesa”, assente no princípio da criação do mestiço como condição da perenidade cultural portuguesa nesses países.

Com ligeiras adaptações, a antropossociologia da crioulidade, ao insistir na consciência de raça dos mestiços, parece tentar perpetuar uma das falácias da portugalidade e pautar pela marginalização dos mestiços e da sua condição de angolanos.

Pessoalmente, não acredito que o lugar dos mestiços na atual sociedade angolana e o papel que desempenham na construção da nação angolana se deva à sua consciência de raça.”

(Crise da racionalidade lusotropicalista e do paradigma da ‘crioulidade’ – O caso da antropossociologia de Angola- Víctor Kajibanga)

Não sei se é cisma minha, mas os problemas dessas teorias são muito evidentes. Um deles, me ocorreu lendo resenhas sobre o Paul Gilroy ontem. Outro me bateu hoje, lendo mais uma vez as pontas africanas do mesmo conceito traduzido para a África pós colonial, em Cabo Verde, em Angola e na literatura de Agualusa (o nome diz tudo) em especial.

“…A inserção dos intelectuais negros no mundo moderno é vista como ambivalente, marcada por uma tensão entre ser produto da civilização ocidental e possuir uma identidade racial, profundamente condicionada e organicamente gerada por essa civilização.

Para Gilroy é preciso atentar para o fato de que as críticas dos intelectuais negros à modernidade também podem ser, em alguns sentidos, importantes à afirmação dessa mesma modernidade.

A compreensão desse quadro é prejudicada, quase sempre, por posturas que insistem em separar as formas culturais particulares a ambos grupos em alguma tipologia étnica, perdendo a oportunidade de discutir o seu complexo entrelaçamento.”

(Eufrázia Cristina Menezes Santos – Professora da Universidade Federal de Sergipe e doutoranda do Departamento de Antropologia, USP, resenhando – ou falando por – Paul Gilroy)

Atentaram para a sutileza? A ‘tipologia étnica’ (ou melhor dizendo, a afirmação de alguma etnicidade) seria o ‘problema‘. Nele, a ‘civilização ocidental’ se oporia, frontalmente à ‘identidade racial‘, sugerindo a superioridade de uma (dita ‘civilizada‘, ‘aétnica‘ per si e a qual, não sendo ‘negra‘ só poderia ser ‘branca‘) de outra dita ‘racializada‘ e por suposto, ‘atrasada‘, ‘primitiva’. Assim, ter uma ‘identidade’ com algum perfil ‘étnico‘ identitário, seria um comportamento ‘atrasado‘ e ‘contraditório‘ (‘ambivalente‘, diz ela) da parte do  intelectual negro.

E reparem só que aqui se enfatiza apenas o ‘intelectual negro’ condenado a se transformar num solitário ser travestido naquela ‘black skins, white masks’  de um ‘black man with white soul’ (uso o inglês assim por sarcasmo mesmo) de braços dados com a dona moça branca da ‘modernidade‘).Pois sim!

Ai meu São Fanon! Dai-nos paciência como o Jesus, quiçá mulato, deu à .

Para quem sabe ler, um pingo é letra. Enfadonho ir lá  em Paul Gilroy conferir se no original ele realmente quis dizer isto que entendemos, mas convenhamos: é tortuoso demais nestas teses o esforço em confundir ‘Raça‘ (‘negro‘, ‘branco‘) com Etnia (uma instancia do âmbito da cultura) ou mesmo ‘cultura tradicional, étnica‘ (africana, bantu, europeia, lusitana) com grau de civilização.

E vejam, bem mais atentatamente ainda, que a evocação de seu passado africano por parte dos intelectuais negros do movimento da ‘négritude‘, por exemplo, talvez jamais tenha querido significar, exatamente, a evocação a valores ‘raciais‘.

Quando muito se referiu à valores ligados à ‘nacionalidade‘, no campo da luta anticolonialista, sem dizer  ainda que este ufanismo continental pan africanista dos anos 10 aos 60 do século 20, ocorrendo em toda à diáspora atlântica e nas sobreviventes colonias europeias no continente africano, foi o combustível essencial para tantas e bem sucedidas guerras de independência nos anos 70)

Quem impregnou de racialismo e carimbou o discurso simbolista e literário dos ‘intelectuais africanos’ de racista, desde sempre foram os intelectuais ‘brancos‘, ora pois.

Mestiçagem‘, ‘Crioulidade‘. Virgem! Este troço está se tornando, rapidamente um modismo acadêmico da hora!

É  que elas, essas teses toscas no meu leigo entender, entre outros problemas conceituais mais ambíguos, partem da premissa equivocada – sabe-se lá de quais intenções motivada – de que o tráfico de escravos no Atlântico transferia africanos aleatoriamente, como num saco de gatos étnico sem pé nem cabeça.

“…Para Mintz e Price, as origens específicas das populações afro-americanas não eram relevantes, pois os escravos chegavam em massa, mais como “multidões” do que como grupos. Aquilo que partilhavam à partida era a sua escravatura. Tudo o resto tinha que ser criado por eles.”

Ou ainda, Miguel Valle de Almeida citando:

“…Para Mintz e Price (cita o português Miguel Valle de Almeida), o conceito de “crioulização” surgiu como um útil substituto de “aculturação” e “assimilação”, pois descreve uma expressão sincrética que leva ao surgimento de novas formas culturais, tal como no passado aconteceu na Europa.

Não havendo uma coerência, uma ‘essência‘ (ai, o conceito tão odiado por eles) etnológica na origem destes  grupos de africanos que aqui chegavam, supôe estas vãs teorias, no contato com a, segundo eles, ‘coerente e sistematizada’ cultura europeia aqui instalada (outra falácia, pois esta identidade européia, tanto quanto a africana jamais existiu, nem mesmo na Europa) aos africanos não restaria outra opção senão assimilar a cultura, por esta hipótese, dominante, dando origem então a uma cultura sucedânea, a qual eles chamam ‘mestiça‘, ‘mulata‘ ou ‘crioula‘, uma coisa…‘meio barro meio tijolo‘, ‘cor de burro quando foge’,homoantropológica, ‘híbrida‘ enfim, se é que e entendem.

Ora, este equívoco é crasso. Uma atividade comercial de tal porte como foi o tráfico transatlântico de africanos, jamais seria tão bem sucedida se não estivesse assentada num senso de estratégia e numa logística pertinentes. Óbvio que existiu uma lógica étnica, cultural – e não exatamente racial – transatlântica enfim, relacionada a esta logística geocomercial do sistema de trabalho escravo.

Traziam determinadas cargas de escravos de determinados grupos étnicos, obviamente de cultura similar ou afim por questões geográficas, gente específica, pois, e a traziam para um local do mesmo modo determinado, onde esta gente ficava confinada, segundo a logística do negócio e a natureza de seus trabalhos forçados. Escravos mais ou menos especializados em mineração nos ciclos do ouro e no do diamante ou em agricultura cafeeira no ciclo seguinte.

Básico isto. Em outras palavras, traziam escravos de lugares determinados pela origem e pelo destino, aspectos definidos pela natureza de suas funções como mão de obra, quase sempre especializada, aqui nas américas, a origem determinada também pela ordem econômica e militar do colonialismo em África, que impunha limites rígidos de acesso a esta mão de obra para cada metrópole, segundo as fronteiras ‘legais’ de seus domínios. Tal foi em linhas bem gerais, a geológica da distribuição de africanos na diáspora atlântica, mais precisamente uma lógica geopolítica.

Não eram, portanto – nunca foram – culturas pulverizadas pela captura na África nem tampouco foram pulverizadas aqui (nem lá, em África) como certo pragmatismo colonial almejou, mas não realizou por razões, basicamente econômicas. No caso brasileiro então esta hipótese e quase indiscutível, crioulice apostar no contrário.

Este é um dos poucos pilares destas teses. Como ele é falso, as teses desmoronam já por aí.

Outro furo conceitual raso: Híbrido diz respeito a entidades diversas que, exatamente por isto, NÃO se misturam. Vale para cultura, como disseram Canclini e outros (constatando uma lei óbvia da natureza) mas nada a ver com gente. A um ser humano  biotipicamente ‘mestiço’ (ora, que redundância! Todo ser humano é, sempre foi um ser ‘mestiço) não corresponde, necessariamente uma cultura…’híbrida‘, ‘misturada‘ respectiva.

“…O real significado de hibrido é a palavra grega ὕβριδης, que é o fruto de uma hýbris (com o sufixo de patronímico grego δη), ou seja, “o filho de uma desmedida”, pois o cruzamento entre seres que não “deveriam” cruzar é um afronta, um ultraje. Em latim, “hibrida” é usado tanto para designar o resultado do cruzamento de espécies diferentes, como a égua com o jumento, como também o filho de um romano com uma estrangeira, ou de um homem livre com uma escrava.

(E repararam – claro que sim, nem ia citar – como essas teses supostamente moderninhas se valem da biologia (hibridismo, ‘mestiçagem‘, ‘mistura‘, etc), um cacoete clássico e ultrapassado dos primórdios da antropologia, aquela fase mais eugenista, do século 19?)

Ai que nojo!

‘Na natureza nada se cria, tudo se copia!’

No intuito evidente de negar uma…essência (ô, palavrinha odiada por eles!), uma lógica africana (‘negra‘) na cultura dos povos das Américas (ou mesmo das ex colônias africanas de sua origem) estas teses contrapartem para a ambígua proposição da existência de valores…’essenciais‘  na cultura européia, por pressuposto, valores que moldariam, ‘lapidariam‘ esta cultura sucedânea, subalterna, ‘mestiça‘ , ‘crioula‘, como cavalos espanhóis impuros só por terem nascido nas Américas’.

(E não é que foram estes, exatamente o conteúdo e as intenções do conceito Lusotropicalismo proposto por Gilberto Freire a Salazar para a gestão e o controle das populações das colônias portuguesas em África?)

Neolusotropicalismo? Seria esta a ideia? Neo-neo colonialismo, Neofascismo, algo assim?

Tarados! Mestiçagem e hibridismo, mistura de gente assim com gente afim, dando gente assada, são conceitos caquéticos,  quase do tempo em que o Mendel miscigenava suas ervilhas, inventando a engenharia genética (para a alegria insana dos doutores Galton e Mengele que acharam que a novidade daria certo com gente e deu no melê que deu)

Doutores silvanas com bolor, é o que são.

Bem…Vão lendo aí:

Spirito Santo

Janeiro 2013