A cronica torpe do bairro em pânico.

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Picape copy

Morto à tiros na porta da igreja

Foi agora, há poucas horas atrás. Tão alto que parecia que era no pátio do meu condomínio, coisa muito perto, a uns poucos metros do meu portão. Tiros de fuzis automáticos, muitos, três ou quatro rajadas perceptíveis. Tentei olhar para ver do que se tratava ajoelhado no chão, mesmo morando no terceiro andar.

Os moradores que chegavam no fim da tarde e os transeuntes se atirando no chão e se esgueirando pelos cantos dos blocos de apartamento com crianças no colo.  A rua, logo a seguir deserta e silenciosa como a de uma cidade fantasma. Imediatamente, logo após os tiros e o anoitecer, a luz desta parte do bairro, sem razão sabida foi desligada. Nenhum raio, nenhum sinal de temporal, apenas um apagão a mais, que ninguém sabia se era mesmo o apagão recorrente de todo dia.

Além da proximidade assustadora do som dos tiros, não há novidade alguma no incidente. Anda assim o bairro da Praça Seca desde antes do Carnaval. Tiroteios de armas automáticas a qualquer hora ou lugar e sem motivo sabido. Os milicianos que faziam a segurança compulsória para os comerciantes locais, desapareceram das esquinas. Não houve carnaval no bairro neste ano, por força da proibição não se sabe bem de quem.

Difícil entender o contexto dos  incidentes. Os relatos são vagos ou cifrados, nada sai nos jornais ou na televisão. São apenas desacontecimentos desimportantes, distantes demais da zona sul para merecerem a pauta da imprensa servil aos consumidores cidadãos, os que realmente contam, aqueles que têm dinheiro e direitos adquiridos ou subtraídos de nós, os outros.

Tensas, olhando para os lados, as pessoas todas ficam cochichando, ressabiadas pelas esquinas, no interior ou na porta dos supermercados, uns olhando para os lados temendo o jeitão dos estranhos ao lugar (garotos pretos de moto, que não estejam com coletes de moto táxi ou mochilas quadradas de entregadores de pizza são os mais temidos)

O bairro é tradicional e modesto. Abrigava antes, pouco tempo atrás uma população pacata, de classe média baixa, de grande presença negra por conta, diz a história oral daqui, dos lotes apossados, desmembrados de terras cedidas aos escravos pelo Barão da Taquara, antigo proprietário de uma ou mais fazendas de café na região, quando da abolição da escravatura.

A maior parte desta população negra, contudo, habitava mesmo era a mais antiga favela local, a do Morro São José Operário, imensa colina pedregosa com uma faixa razoável de mata atlântica encimando tudo.

Dizem numa biografia, que Clementina de Jesus, a grande voz ancestral de nossa música negra mais profunda (com quem tive a sorte de cantar e trabalhar um dia) passou a infância dela ali pelas fraldas deste mesmo morro, cantando lapinhas no pastoril de uns parentes que criavam cavalos e vacas por ali.

Como toda favela do Rio, a do São José Operário tinha o seu ‘movimento‘ de traficantes, gente dali mesmo, muito jovem ainda, entrada no crime pela mesma porta pela qual entram todos os jovens traficantes do Brasil. Nunca soube a qual facção o grupo da Praça Seca pertencia. Só sei que ficaram célebres os tiroteios da madrugada, as balas traçantes das guerras entre facções cortando os 180 graus do céu da minha janela, assim que o problema do tráfico de drogas no Rio atingiu proporções de guerrilha urbana.

Este ar de roça suburbana pacata, embora violenta nas horas mortas, começa mudar na Praça Seca na virada da década de 1990 para o início da de 2000. É neste momento que a migração de nordestinos num fluxo de avalanche desmedida e invisível (para as vistas grossas das autoridades) começa chegar por aqui.

Alguém há de explicar um dia este fenômeno sócio econômico estranho que levou tantos nordestinos a migrarem da miséria de suas terras, para a miséria do Rio de Janeiro, nesta época que coincide, exatamente com a posse no governo federal do PT e seu líder nordestino.Vivem, em sua esmagadora maioria de rendas do Bolsa família. O sertão não virou mar, mas o mar sim, virou sertão.

O fato é que depois de se insinuar pelas favelas da Rocinha e do Vidigal na zona sul, já tomadas por gente do nordeste nas décadas anteriores, este novo pessoal, em levas organizadas por agenciadores (como ‘coyotes’ mexicanos) passou a ocupar a zona oeste da cidade do Rio, nas imensidões luxuriantes da baixada de Jacarépaguá, mais ou menos como sub-urbes parasitárias do luxo da ‘maiâmicaBarra da Tijuca, que é o que com toda certeza as favelas são: cânceres que brotam na casca grossa dos refúgios paradisíacos dos endinheirados do país.

Rio das Pedras‘, ‘Terreirão‘ no Recreio dos Bandeirantes, ‘Gardênia Azul’ (um bairro loteado que favelizou-se), ‘Cesar Maia‘, diversas favelas nordestinas foram suburbanizando as áreas secas e até os manguezais da região, que foram aterrados, daí até chegarem como num tsunami de refugiados de uma seca bíblica, na remota Praça Seca, bairrozinho outrora pacato onde moro.

Vi no mapa: São 13 – eu disse 13 – pequenas favelas circundando o pequeno bairro da Praça Seca. Com elas, junto com os modos favelados de ser, vieram muitos hábitos nordestinos estranhos a velha cultura suburbana do Rio de Janeiro, hábitos bons, pitorescos e hábitos ruins, entre eles o mais execrável que, como se fosse uma herança dos jagunços dos ‘coronéis’ do sertão, fez surgirem e vicejaram com o beneplácito de governadores e prefeitos, as sórdidas Milícias.

(Não culpo os que nunca ouviram falar disto. São ‘não fatos’ que no mundo real das notícias nunca aconteceram ou acontecerão.)

Os boatos soltados por entre os dentes dos meus vizinhos me contaram que um pouco antes do carnaval um bando de traficantes egressos da complexo de favelas do Lins de Vasconcelos, da facção Comando Vermelho, acossados pelos planos das autoridades de lá instalar Unidades de Polícia ‘Pacificadora’ (UPPs), invadiu numa grande operação o Morro São José Operário.e algumas favelas contíguas.

Acastelados lá no alto, recuando para a pequena mata quando a polícia junto com remanescentes milicianos tenta escorraçá-los, um pequeno exército de crianças pretas (os chefes adultos nunca aparecem na linha de fogo) com fuzis automáticos de última geração expulsaram do local os milicianos que ali se encontravam.

Diz-se que alguns milicianos foram mortos ali mesmo. Nos dias que se seguiram notícias de assassinatos pontuais correram pelo bairro. Mototaxistas foram mortos (de um , empalado com um cabo de vassoura, arrancaram o pênis que foi enfiado em sua boca), pontos de vans mudaram de lugar, os milicianos segurança de lojas e supermercados se escafederam da parte baixa do bairro também. Toda e qualquer pessoa identificada como miliciano ou colaboradora da milícia está sendo identificada e morta.

Daí, já que já contei tudo, posso desvendar então o segredo dos tiros da minha rua:

Soube logo, poucas horas depois que o que ocorreu foi uma execução sumária. Homens que ninguém sabe ninguém viu, emboscaram quase em frente ao meu prédio e descarregaram armas automáticas num jovem numa picape. A vítima ainda tentou entrar no portão de carros dos fundos da igreja, mas foi fuzilada ali mesmo.

Assim que parei de tremer de medo fui ver o corpo tombado no banco da picape. O comércio todo fechou em pânico. Depois de um tempo o bairro inteiro acorreu para a minha rua para ver o incidente, estarrecido. Na rua escura ainda pelo misterioso apagão, os faróis traseiros do carro metralhado ainda piscavam. Numa incontrolável sensação de medo e completa insegurança, conferindo onde estava minha mulher àquela hora, vaguei pela rua indo e vindo do carro metralhado ao portão do condomínio, aturdido.

Assisti à chegada das polícias militar e civil uma meia hora depois do ocorrido. Vieram uns sete carros piscando luzes vermelhas, com policiais truculentos com fuzis enormes. Havia, curiosamente uma policial loura como uma dondoca do BBB com uma arma idêntica a dos homens, gritando rispidamente para a multidão se afastar. Incrível como as louras dondocas parece que dão para estas coisas de truculência.

As primeiras notícias explicando o que ocorreu são dantescas. Não sei mesmo o que pensar senão pegar minhas tralhas e me mudar daqui. O jovem cidadão executado é nada mais nada menos do que o irmão do chefe de uma das milícias da área (que se encontra preso)

Ele foi emboscado na porta do meu condomínio quando ia malhar na academia da rua como qualquer garotáo. Foi parado a tiros no portão da igreja e metralhado como um cão. Está mesmo configurado, portanto que há um guerra entre traficantes e milicianos pela posse e o controle do meu bairro, com combates à 50 metros da minha porta ou da porta de qualquer um. O que vocês acham que eu devo ou posso fazer? Não dormir hoje é a única coisa que tenho certeza que farei. Temo a verdade contida nos pesadelos.

O que mais me apavora é que tudo que eu contei como verdade, na verdade, ‘não aconteceu’. É que a versão que eu conto, provavelmente não sairá, pelo menos como eu a presenciei, em nenhum jornal ou canal de televisão desta cidade sem lei nem rei.

Gostaria mesmo de ter inventado tudo isto como um falastrão de facebook. O jeito é você fazer feito eu: não curta.

Spírito Santo
Fevereiro de 2013

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~ por Spirito Santo em 26/02/2013.

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