De olho no Valongo. Os ossos falam, gritam o que ninguém quer ouvir

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Pirâmide de ossos 2

(Da série do facebook do mesmo nome)

A pequena pirâmide de vidro aí da foto junto com outra mais ou menos do mesmo tamanho dá, pelo menos para mim que sou um iconoclasta assumido, a dimensão constrangedora de nossa incúria e ignorancia histórica, a escravidão ainda turvando a nossa alma nunca fôrra.

Isto aí, estas vitrines tímidas (como o perdão dos crentes nelas, tão contritos em suas orações)  é tudo o que as autoridades responsáveis, a Prefeitura, o Museu Nacional, o Iphan, o MinC, sei lá mais quem,  fizeram em mais de 13 anos por um sítio arqueológico de grandes dimensões ainda desconhecidas, talvez o maior e mais importante sítio arqueológico da escravidão nas américas, o chamado ‘Cemitério dos Pretos Novos” e suas adjacências.

Com quase toda certeza – pois, existem documentos históricos cabais atestando isto – todo o espaço em torno destas ‘janelas de vidro’, toda a área da casa onde os ossos foram achados fortuitamente numa obra doméstica, a rua em frente e as contíguas, e um número ainda impreciso de outros imóveis, o quarteirão quase inteiro da Rua Pedro Ernesto (antigo ‘Caminho do Cemitério’) talvez, tenha sido um depósito de corpos de escravos mortos durante a quarentena pós desembarque no cais do Valongo, depositados em armazéns espalhados por ali, ou mesmo de cadáveres de escravos mortos em bairros ou paróquias vizinhas, todos lançados em pântanos e alagadiços formados pelas antigas lagoas que haviam ali, como lixo.

Um documento da época, já citado várias vezes nesta série de posts que escrevi sobre o assunto, descreve um destes lúgubres locais, na área entre  os fundos dos armazéns de depósito e guarda de escravos para a venda e  atual Colégio Pedro Segundo (Rua Mal. Floriano), uma  vasta área pantanosa com partes de corpos aparecendo na superfície, apodrecendo ao sol.

Bem, já cansei de contar esta história e seus detalhes sórdidos.

O que ressalto agora é que a dimensão minúscula das pirâmidezinhas representam muito bem o descaso que cobre, soterra a memória não só da escravidão de nós todos, mas de todo o nosso passado colonial que, ainda hoje, ‘presente colonial‘ que é,  parece que não acaba nunca. Qualquer vitrine de lanchonete de subúrbio é maior e mais cara do que aquilo. É como bica de vereador de favela de antigamente: não é para festejar. É para se envergonhar.

Exala da foto também uma não menos constrangedora aura de ingenuidade dos participantes, do que é uma cerimônia religiosa improvisada para homenagear aqueles parcos ossos mortos, deliberadamente dilacerados. Me sobe o sangue notando o ar de humildade ‘sim sinhô- sim senhora‘  da cena. A submisão e a complacência ingênua, quase escrava que se espalha por ali. É tudo ínfimo aí na foto, reparem. É tudo perto do medíocre, não por culpa de quem cuida e mantém aquele museuzinho vivo, mas pela displicência criminosa das autoridades citadas com seu seu mesquinho cinismo, a sua iniquidade enfim.

A redução de uma questão cultural tão ampla á dimensão vaga e imprecisa de uma religião (o candomblé) que, a rigor nada tem, mesmo religiosamente, a ver com as pessoas descarnadas daqueles ossos e lançadas ali, também transcende um menosprezo total para quem não tem nariz de vidro e entende mínimamente do assunto.

O que há, enfim, pelo sim pelo não, mesmo de mínimo no local, tudo muito digno por sinal – atentem! – partiu do esforço quase solitário da dona da casa, a branca Ana Merced, que desde 1996, depois de se deparar com a presença aterradora de ossos no piso de sua própria casa, batalha para que alguma, mesmo pouca arqueologia seja feita e que alguém de direito assuma aquele patrimônio pela a enorme importancia arqueológica que ele tem.

Porque, meu Deus se aceita tão cordadatamente, tão subalternamente esta simulação de apreço e importancia, este teatro folclórico nitidamente um ‘pano quente’ para deixar os tratores passarem em paz? Porque se aceita assim tão humildemente este mimo ínfimo como uma esmola, este presente de grego que a Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro deu para o Museu dos Pretos Novos e suas  adjacências?

Porque não olham em torno – militantes negros e simpatizantes brancos, gente de bem em geral que sabe pensar o valor que tem o passado de todos nós –  e entendem que milhões e milhões de dólares estão sendo lançados no solo daquela região agora mesmo, com o propósito evidente – e me corrijo dizendo ‘talvez‘ porque sou ainda um esperançoso – de soterrar de vez tudo que haja de passado, de história colonial por ali.

E quantos não estão, de um lado e do outro, tirando partido pessoal e financeiro desta arqueológica tragédia? Até onde vai a rede de cumplicidades que dá suporte a este provável engôdo? É que fazem ‘desarqueologia‘ ali os espertinhos, suspeito eu, aqui vociferando sozinho.

Soube nestes últimos dias lendo docs. oficiais da prefeitura que há muito dinheiro – muito mesmo – sendo empregado  em pesquisas arqueológicas naqueles sítios. Quem paga os serviços arqueológicos da empresa paulista contratada (Documento Ecologia e Cultura S.A), por força de regras ditadas pelo modêlo ‘arqueologia de contrato’, são as próprias empreiteiras envolvidas na grande obra do Porto Maravilha, cabendo ao Iphan fiscalizar se a raposa, em vez de tomar conta do galinheiro, não está comendo as galinhas e deixando os ossinhos delas por lá.

A mesma empresa em questão está envolvida em arqueologia do canteiro de obras, simplesmente do estádio do Corínthias (bancada pela Oldebrecht). Ela está também na área do trecho da Transcarioca Penha-Aeroporto Tom Jobim (bancado pelo Consórcio Transcarioca) que, provavelmente banca também a ‘arqueologia‘ da área do Valongo.

São obras e interesses financeiros gigantescos, ligados diretamente – por serem estratégicos – aos interesses corporativos voltados para os eventos turístico-esportivos de nosso breve futuro. Não há, pelo menos não achei, sinal algum da participação direta de órgãos públicos envolvidos na preservação ou fiscalização dos sítios, depois que foi afastada a arqueóloga Tania Andrade Lima do Museu Nacional das escavações do Cais do Valongo.

A pulga…ah esta pulga na minha orelha!

Alô, Iphan! Cadê a transparencia legal exigida nestes casos? A comunidade da área está sendo informada, mobilizada ou está sendo engambelada com representações teatrais, legitimadas com reuniões e engambelações mais formais, como a inauguração das pirâmides aí de cima?

Os ossos incomodam, não é mesmo? A deflagração de uma campanha que exija do Iphan a abertura desta caixa preta prestes a ser soterrada como os ossos, o resguardo do patrimônio de toda esta vasta área histórica (que não se resume, absolutamente apenas aos ossos), patrimônio que é público por suposto, é tudo que as empreiteiras ligadas à prefeitura não querem.

Bem, as razões são muitas e complexas como jogo de sinuca quando fica ‘de bico’. Por enquanto ainda estou animado para chafurdar nesta lama, mas não vou aqui ficar eternamente chorando sozinho por uma inês que já é morta.  E daí? Vão ficar também vocês todos, leitores, esperando uma campanha de facebook mais charmosa e fashion do que a luta por ossos de escravos?

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Publiquei no facebook há pouco um relatório da empresa Documento Ecologia e Cultura de setembro de 2012, onde em vários pontos aparecem sugeridos o que parecem ser  intenções de minimizar a importância arqueológica do local. Ao que me pareceu a empresa só há poucos dias entrou na área referente ao ‘cemitério dos Pretos Novos’. Os bons entendedores do assunto, arqueólogos, antropólogos, pesquisadores, etc, bem que poderiam traduzir tudo deste arqueologês para nos ajudar a entender o que está realmente rolando no Valongo.

Hora da verdade.

Leia a íntegra do relatório da Documento Ecologia e Cultura neste link:

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Pois é. É duro ser estátua. Para entenderem como é  pesado o drama daqueles que querem ‘desafinar o côro dos contentes‘, fiquem com o comentário recente – e impertinente –  de um amigo, lá no post da série, anterior a este.

Ah…Ninguém merece.

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Fulano:

“…Bem, sem querer discordar, mas já meio discordando. Como haver raríssimo e precioso material arqueológico em área dentro do perímetro urbano da capital do Império, sem que haja nenhum documento de época narrando ou descrevendo o dito cujo.

“…Que material tão importante históricamente poderia existir num cemitério de escravos, fora os próprios ossos dos infelizes, já que eles não possuíam bens materiais? Por que as Irmandades Negras e mesmo os militantes do Abolicionismo nunca se referiram à importância do local? Seriam vassalos da diabólica hegemonia branca?

São perguntas que não me querem calar. Vejo um certo exagero, talvez. Pensar racialmente pode levar a um complexo persecutório que só vai ser prejududicial no presente, deformando a visão das coisas.

O preconceito existe, mas não chega a esse ponto, neste caso, a meu ver. Mas posso estar errado. O que farão as entidades de defesa da cultura negra, a fundação Palmares, por exemplo? Para que servem?”

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Titio:

Na base da réplica, recomentando então, pacientemente:

“Fulano, de Deus! “

Bola fora, meu caro (e ato falho também). Em nenhum momento me referi apenas ao cemitério de escravos. Eu disse ‘vestígios arqueológicos’. Observe o mapa com mais atenção. Ele abrange uma área bem mais ampla do que a do antigo pântano aterrado onde se localiza o depósito (e não cemitério) de ossos.

Não sei se você se deu conta do que disse, mas veja, vestígios arqueológicos são sempre supostos já que a existência deles só pode ser atestada com escavações. As evidências são históricas. Quando afirmo que há um grande depósito de ossos de escravos muito maior do que as duas fossas de poucos metros quadrados descobertas ali, acidentalmente (cerca de 1,5 M2 cada uma) estou me baseando em documentos históricos.

Estranho muito o seu descaso, vindo de um estudioso de nossa cultura, porque não é nem preciso ser pesquisador para entender a enorme importância histórica e cultural do achamento de vestígios coloniais, sejam eles o que forem, já que marcam a ocupação de uma área de tal importância para a formação do Brasil.

A importância das muitas informações relevantes soterradas ali, nos daria conta de como viviam e morriam as pessoas que ali habitavam, no caso dos escravos e negros que circulavam por ali (que não são os únicos, pois a área tinha intensa atividade comercial de gente de toda cor) temos ainda dados relevantes sobre os modos africanos de ser das pessoas.

“…Que material tão importante históricamente poderia existir num cemitério de escravos,” – pergunta você de forma desdenhosa. Os ossos falam, meu caro. Canso de dizer.

“Por que as Irmandades Negras e mesmo os militantes do Abolicionismo nunca se referiram à importância do local?” –

Claro que se referiram, Fulano.Você precisa ler mais sobre o tema. Está cobrando das pessoas erradas. Todo mundo sabe da importância arqueológica do local. O que existe, provavelmente, como se faz com tudo relacionado aos africanos no Brasil, é uma estratégia de apagamento dos vestígios, ‘queima de arquivo’, digamos assim.

E isto não tem nada a ver com racismo como você, forçando a barra dá a entender. Há, tudo leva a crer, uma batalha feroz por lucros sendo travada ali naquela área. Empreiteiras vorazes estão atuando na área demolindo o passado para levantar imóveis lucrativos sobre o nosso passado colonial. Grana, a “Cidade empresa” atropelando a história a britadeira e trator.

Ter sítios arqueológicos a serem preservados ali (temos leis neste sentido, sabia?) é tudo que os empresários não querem. O que isto tem a ver com racialismo? Pergunto eu. Você não está entendendo. Lamento que você faça parte deste coro de desimportancia que tenta desqualificar a questão.

“O que farão as entidades de defesa da cultura negra, a fundação Palmares, por exemplo? Para que servem?”- pergunta você, finalmente, com o mesmo desdém (o problema não é seu, certo. Não tem importância.)

Errado. Você devia perguntar isto a si mesmo. O que você fará para impedir que o nosso passado histórico seja soterrado de vez? Ou vai ficar aí se passando por branco que tem birra com negros?

O assunto nada tem a ver com racismo. Chifre em cabeça de cavalo. É por isto mesmo que estranho esta sua cisma recorrente, sempre contra as lutas pela igualdade racial no Brasil.

Eu, heim! O que é isto, companheiro?

Spirito Santo

Fevereiro 2013

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~ por Spirito Santo em 28/02/2013.

5 Respostas to “De olho no Valongo. Os ossos falam, gritam o que ninguém quer ouvir”

  1. Correto. deve ter sido isto, mas fica a ressalva: Eckhout fazia retratos com modelos vivos, pelo que parece considerando a sua técnica verista.

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  2. talvez a pintura feita por Eckhout seja baseada em relatos feitos por emissarios holandeses que visitaram o rei Garcia em 1642.

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  3. Que beleza! Dei logo de cara com o rei do Congo D. Garcia. Já tinha uma versão desta imagem. Não havia a referencia ao autor, mas eu estava certo que era do Eckhout. O curioso é pensar que não se tem registro dele,Eckhout, ter ido ao Congo. Seu retratos brasileiros são todos feitos em Recife. Será que Dom Garcia estava na viagem com a embaixada de Dom Miguel de Castro, enviada para negociar com Nassau? Muito instigante o mistério.

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  4. Beleza! Vou correndo ver.

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  5. Fala Spirito santo, encontrei mais material iconografico para sua fantastica coleção!! :http://www.atlantedellarteitaliana.it/artwork-5497.html
    http://www.britishmuseum.org/research/search_the_collection_database/search_object_image.aspx

    http://diasporicroots.tumblr.com/post/40299449998/portrait-of-the-king-of-kongo-dom-garcia-ii-ca

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