“Memória do esquecimento”. Do ‘Bota Abaixo” ao upgrade do mal

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Vista do alto do Morro da Providencia

Vista do alto do Morro da Providencia

Do caos viestes ao caos voltarás

Acho incríveis estas coincidências de insights, estas sacações correlatas que a gente nunca sabe bem de onde vêm.

O tema motivo anda rolando direto nos meus posts no Facebook (‘De olho no Valongo. Os ossos falam“) e, garanto que não são tão recorrentes lá porque sou um chato. É que eles me pegam aqui, assim pelo pé, numa curva qualquer, no meio de um pensamento vadio idêntico, como um inquietante dėja vu.

‘Transmimento de pensação’ .

Diz a amiga Bete Sg que a psicanálise explica isto (não a do Freud, mas a do Yung). Agnóstico sou, mas creio, embora seja mais de achar que são os insights que desexplicam e refutam a psicanálise. Teoria do Caos, sei lá, uma coisa de “que se dane de onde vem” só sei que vem, está aí e pronto.

Cheguei a esta coincidência recorrente agora mesmo, abrindo um site bem bacana do Museu Afro digital da Uerj repassado pela amiga Claudia Rangel. Nada a ver, mas numa simples passeada pelo site logo me deparei com uma matéria-tese sobre o Projeto Porto Maravilha (porto do Valongo para os íntimos). Ipsis leteris o que eu havia tanto escrito por aí.

No texto chamado ‘Memória do esquecimento‘, do jovem doutor da universidade de Berlin André Cicalo, que encontrei inteiramente por acaso conta tudo. Está tudo ali, as minhas diatribes contra isto tudo que está instalado aí e que ninguém ousava denunciar por inteiro estão lá na mesma relação de causa e efeito, Nem está mais aqui sozinho quem falou.

(André Cicalo atualmente realiza seu pós-doutorado no Instituto de Estudos Latinoamericanos da Freie Universität de Berlim. Possui doutorado em Antropologia Social pela Universidade de Manchester, Inglaterra, onde realizou uma pesquisa sobre ações afirmativas e desigualdades raciais no Brasil, particularmente no Rio de Janeiro, com uma etnografia focada na implementação do sistema de cotas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ UERJ.)

No que parece ser um resumo ou uma parte de sua tese de doutorado, André Cicalo denuncia tudo, tim tim por tim tim como o titio, a iniquidade racista e elitista que é o projeto ‘Porto Maravilha’ este empreendimento totalmente colonial da Prefeitura do Rio e suas implicações todas.

(O antropólogo André Cicalo, investigador da Universidade Livre de Berlim,  mostra no documentário “Memórias do Esquecimento” uma verdade paradoxal: o Rio de Janeiro, cidade que foi o maior porto negreiro do mundo até parte do século XIX, não apresenta atualmente traços significativos do seu passado escravo. Empurrada para a periferia, a população pobre afro-brasileira é comodamente silenciada em nome de uma “democracia racial” que enaltece o mito de uma mestiçagem supostamente conseguida no Brasil. O antigo lugar das fossas comuns dos escravos mortos antes da venda (o Cemitério dos Pretos Novos) na região portuária está totalmente coberto de casas e é fortemente  ignorado pelo Estado, que tem escasso interesse em resgatar a história escrava da região.)

Os velhos antecedentes do ‘Bota Abaixo‘ do Pereira Passos, a invisibilização, o apagão perpetrado em nossa história para esconder a memória de nossa escravidão, tudo, tudo, tim tim por tintim como aqui, está lá.

Caramba! Será que o cara me leu? Ou será que eu li o cara e esqueci? Ou será que a teoria do caos nos leu os dois, a todos, inclusive as amigas de facebook que amarram sem querer estas pontas todas?

Antena ‘parabólica camará‘, deve ser.

Mais caramba ainda para a constatação, esta constrangedora, de que os nossos doutores quase todos por aqui, ou são fracos de doutorado ou são em cima do muro demais, cúmplices demais deste apagão todo. Senão como explicar que até mesmo um jovem estrangeiro é capaz de enxergar e pegar as pontas soltas todas desta questão que está diante do nariz de qualquer um?

Em terra de cego que não quer ver, o melhor mesmo é apostar no caos.

Spírito Santo

Março 2013

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~ por Spirito Santo em 06/03/2013.

3 Respostas to ““Memória do esquecimento”. Do ‘Bota Abaixo” ao upgrade do mal”

  1. Romão,

    Isto! “Gentrificação”, na colonizada tradução da palavra gringa “gentrification”, a maldita e canalha técnica de reforma urbana dos adeptos de Pereira Passos e seu século 19 pré nazista, das carroças de entulho das demolições das moradias populares no centro do Rio, para a construção do boulevard parisiense da Av Central aos tratores e caminhões da demolição atual, os pobres dali sendo mandados para os quintos dos infernos.

    Ainda podem ser parados, mas se prosseguirem, mesmo assim haverão de pagar pela transfiguração da cidade. Os ossos falarão o preço da perfídia.

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  2. onde eu escrevi mulatie leia-se mulatice, se bem que depois de corrigir vi que em um ato falho pensei no mulatos de black-tie.

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  3. Spírito, o que o rapaz viu chama-se londonização ou gentrificatio–a expulsão das “plebes” da cidade em nome de um euge-higienização do meio-ambiente urbano,
    No caso brasileiro com seu componente racial prepoderando, É a mulatice intelectual com seus doutorandos que as justificam ou melhor escondem em troca de postos de engorda nos arquivos nacionais, Você não está vendo fantasmas ou ossos, como seus detratores o clamam, nem está sózinho. A brutal eugenização racista que acontece no momento na cidade do Rio de Janeiro, Ficará, um dia se o Rio acordar, na memória da história como um dos maiores crimes perpetrados contra a memória da humanidade, Aquele pó de cimento a lá eikecavendish que puseram no Cais do Valongo é o tapume furado a mostrar a bunda do Rei de Calças Rasgadas e Suburbano Renegado que governa a sua cidade, Tem mais gente vendo Santo Spirito. A plebe ignara o sabe.

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