Samba, Choro e Samba Choro – Aula animada para alunos do ensino médio

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Titio e Musikfabrik no Projeto ‘Escola vai ao Teatro’

Espaço Cultural Escola Sesc – Projeto A Escola vai ao Teatro (Rio de Janeiro) 12 de Abril 2013.

Rolou dia desses, coisa de uma semana atrás. Titio vai fazer uma série destas animadas aulas-palestras para 80 jovens do ensino médio de cada vez (duas turmas), uma semana antes de shows respectivos, cada um voltado para um gênero musical lá destes, entre tantos por aí (vai ter até um de música eletroacústica) ou para a carreira de algum artista convidado.

O texto a seguir foi o conteúdo base para o que pretendi que fosse a uma exposição do tema “Choro” com a participação dinâmica e ativa dos alunos de duas escolas do Rio de janeiro que, na semana seguinte assistiriam no Teatro da Escola Sesc de EnsinoMédio a um show de um grupo, exatamente de Choro composto por jovens da cidade de Cordeiro, RJ,  denominado “Os Matutos“.

 

 Os textos assinalados são questões chave que podiam ser aprofundadas ou ressaltadas, provocadas, suscitadas ou não pelos alunos.

 

As aulas, proferidas de improviso (o texto era só uma base para os alunos utilizarem no futuro) foram ilustradas com vídeos de Choro selecionados (links em anexo) e imagens afins, por meio de exemplos musicais ao vivo, ilustrados por voz, cavaquinho e violão (o próprio irmão do Titio na fita).

Foi bacana pra caramba.

 1-O que é Choro?

Choro é o nome que se dá a um gênero de música popular, tipicamente brasileiro ou seja, um gênero de música inventado por brasileiros.

Falando mais profundamente, contudo o Choro não é exatamente um gênero musical. Isto acontece muito na música popular do mundo inteiro. Alguém, um grupo de músicos inventa uma maneira diferente de tocar os gêneros da moda e aquele jeito de tocar, acaba ganhando um nome e passa a ser tratado como um gênero. Rock’n Roll é um exemplo. Jazz outro. Funk também. Pensando bem, ocorreu o mesmo com Samba. É uma maneira peculiar da música popular evoluir, se desenvolver.

Logo o Choro não é um fenômeno isolado na música popular universal. Na época em que o Choro surge, início do século 20, nascem uma infinidade de ‘gêneros’ de música parecidos, no mundo inteiro. É preciso recorrer à História para se entender isto.

A época, recorrendo à História, era de muita efervescência cultural porque as cidades se tornavam centros de muita concentração populacional, principalmente aquelas cidades que eram capitais de países ou grandes centros comerciais, cidades portuárias, etc. esta explosão populacional tinha várias razões, a principal delas no nosso caso, talvez tenha sido o fim da Escravidão.

Este fenômeno social, de grandes proporções ocorre então, principalmente nos lugares onde a maioria da população era descendente de escravos africanos. Estes lugares eram as Américas, principalmente o Brasil, países do Caribe como Cuba e Jamaica e os EUA. Ocorre também o mesmo fenômeno, embora em menor proporção, nas capitais das metrópoles europeias mais ligadas à escravidão como Portugal e Inglaterra, por exemplo.

As pessoas que antes eram escravas acorrem em massa para os grandes centros em busca de trabalho. Embora em menor número, acorre também para grandes metrópoles da Europa gente ex-escrava e pessoas em geral em busca das oportunidades geradas por este período de grande desenvolvimento industrial e comercial.

É nestes lugares que gêneros como o nosso Choro (e o Samba) aparecem, como grandes modismos musicais. Estes modismos se baseiam, como era natural, na maneira peculiar como os músicos de cada lugar tocavam a música europeia, ou seja, não se tocava música africana, propriamente,pelo menos ainda. Se tocava música europeia de uma maneira, de um jeito africano.

E aí seria o caso de se perguntar porque havia esta africanidade e porque só se tocava música europeia. A resposta a estas perguntas ajudam a explicar muita coisa. Vejam aqui, por exemplo, uma explicação para o nome  ‘Choro’, dado a esta forma de música:

 

“…Entre os escravos, quando se lhe permitiam folguedos, por São João ou um acontecimento notável na fazenda, como um batizado ou um casório, à noite, em torno das sanzalas, apreciava-se o gruparem-se em cantorias ao som de instrumentos de corda, ultimamente os herdados ao branco, o violão e o cavaquinho. A isto chamava-se ‘Xôlo’, palavra que, por confusão com uma parônima portuguesa, passou-se a dizer ‘Xôro’, quando chegou a cidade, onde quem sabia escrever, preferia grafar ‘Chôro’, com ch.
 
Deixando as senzalas, na cidade confundiu-se com a serenata e a seresta,e depois com o ‘assustado ‘e o ‘arrasta pé’, o bailareco improvisado. O costume entre escravos era genuinamente africano e a designação, cremos ser originária da Contra Costa; entre as tribos cafrenses faz-se festança idêntica, espécie de concerto vocal com danças, a que chamam
Xolo (Ch.Petmam, Africanos,)1 “
 
…”Aparecimento na primeira década do séc.20 de pequenos grupos de música popular ‘de câmara’, cuja figura mais representativa foi Pixinguinha e seus ‘Oito Batutas’, com muitos instrumentos de harmonia, principalmente de cordas e sopro, além de discreta percussão, estrutura desenvolvida em salões de baile e salas de cinema mudo, e por isto mesmo um pouco aparentada ao Ragtime afro-americano e, de maneira geral, conhecida no Brasil como “Conjunto de Choro”2
 
(Trechos extraídos de “O Samba e o Funk do Jorjão” de Spírito Santo)

 A explicação para se tocar, no início apenas música europeia é bastante simples. É que o ‘“Choro” clássico, este que conhecemos hoje, não era praticado por músicos escravos. Era coisa de músicos negros sim, em sua grande maioria, mas músicos profissionais, que trabalhavam em casas de shows e bailes da época, gente que tocava os gêneros de música da moda,  vindos da Europa em partituras, principalmente os chamados Valsa (Áustria, Alemanha), A Mazzurca e a Polka ou ‘polonesa’, “Polks” (que era música alemã, mas como o nome indica vinha da Polônia além do Schotisches (que pegou no nordeste brasileiro e deu o que conhecemos como ‘Xóte”).

(Como curiosidade, na aula ilustrei o ‘Schotiisches’ com vídeos, chamando a atenção das meninas para o fato de que ‘schotisches’ era a música do filme e dos pobres irlandeses naufragados com o Titanic)

O que acontecia, tanto aqui como em outros lugares das Américas, é que os músicos acabavam tocando estas músicas europeias de um jeito africano, como eu disse, misturando os ritmos e, a partir daí, criando um ‘gênero’ novo. Antes de se chamar “Choro”, portanto este ‘jeito brasileiro’ de tocar música europeia teve outros nomes como o “Maxixe”, uma espécie de mistura de Samba com Polka.

E porque eram negros a maioria dos músicos nestas casas de espetáculo? Bem isto tem uma explicação sim, embora ela seja bem estranha para os dias de hoje. É que música em geral era considerada por aqui, e nos demais

países onde havia escravidão, ‘coisa de escravos’. Nos últimos anos da escravidão muitos fazendeiros mandavam vir instrumentos da Europa e contratavam maestros para formar bandas e até orquestras compostas exclusivamente por escravos.

Isto fez com que negros se especializassem como músicos profissionais, fenômeno muito fácil de se perceber aqui no Brasil daquela época e, até hoje, além daqui, na música popular dos EUA, no Jazz, principalmente, e na cena musical norte americana em geral (‘black music”), até hoje marcada pela predominância de músicos negros.

3- A Forma como Estilo e Tradição

Uma última característica importante desta música chamada “Choro” é um aspecto assim mais para folclórico do que propriamente musical que é o fato de, para se chamar Choro ou Chorinho, a formação do conjunto deve  respeitar o uso de instrumentos específicos, exatamente aqueles usados na música popular de antigamente, início do século 20, a maioria instrumentos europeus (os de cordas de tradição claramente ibérica).

 
“Os chorões muitas vezes se reúnem em grupos, geralmente rodas de choro ou conjuntos regionais. O nome regional provavelmente surgiu na década de 1920, a partir de grupos que se dedicavam à música regional.
 
O conjunto regional é geralmente formado por um ou mais instrumentos melódicos, como flauta, bandolim e cavaquinho, que executam a melodia; o cavaquinho tem um importante papel rítmico e também assume parte da harmonia; um ou mais violões e o violão de 7 cordas formam a base harmônica do conjunto e o pandeiro atua
na marcação do ritmo base.”
 
(Extraído de Wikipedia)

Muitos músicos já tentaram modernizar este aspecto do Choro, mas, a rigor, não se costuma chamar de Choro música tocada com instrumentos que não sejam os seguintes:

1-Seção de cordas:

Violão de 6 cordas (comum) , Violão de 7 cordas, Bandolim, Cavaquinho

2- Seção de sopros

Clarinete, Flauta, Saxofone, Trombone.

3- Percussão

Pandeiro (exclusivamente)

4- O que é samba Choro?

Samba é algo muito complexo de se explicar em poucas palavras. Eu mesmo escrevi um livro inteiro nesta tentativa de explicar o quase inexplicável. É que Samba (do mesmo modo que o Choro, nascido na mesma época) foi formado por uma série de outros gêneros africanos que foram sendo a ele incorporados no decorrer do tempo.

Existem, portanto, gêneros similares ao Samba, diferentes na rítmica, em outras partes do mundo, principalmente a Salsa Cubana (antes chamada de ‘habanera’) e o Funk-Soul dos EUA (que quase nada tem a ver com que chamamos de Funk’ hoje em dia no Brasil).

Uma coisa, porém é certa. O Samba (a música e não a dança) é uma mistura criada no Brasil de gêneros musicais exclusivamente africanos, vindos de variadas partes da África, mais precisamente de Angola, já que foi desta região da África que veio a maioria dos escravos para o Brasil.

Como vimos que o ‘Choro’ é uma música popular que mistura música europeia com música africana, e como acabamos de ver também que Samba é o nome que se dá a uma mistura de gêneros de música africanos, ao final de todo o processo, “Choro” acabou se tornando mesmo uma forma antiga, tradicional, de se tocar música popular brasileira, inclusive Samba.

(O mestre Nei Lopes alega que ‘chorinho’ tewria sido uma maneira ‘malandra’ – um tanto depreciativa,para mim – para se referir ao Samba tocado à moda ou ao estilo do Choro)

Com a decadência natural, a queda no gosto popular de gêneros europeus mais tradicionais na origem do “Choro”, como o caso da Valsa e da Polka, O Samba acabou predominado como gênero preferencial dos compositores, conjuntos e intérpretes, gerando o gênero “Samba-Choro”.

Abriu-se aqui para perguntas e considerações finais com as turmas que ficaram estimuladíssmas com o assunto, principalmente por conta dos exemplos gerais de Choro que levei em vídeos que foram animadamente comentados durante as aulas. Abra você também os vídeos e entenda melhor do que trata o Choro.

Spirito Santo

Abril 2013

—————-

Exemplos gerais de Choro em vídeos a serem comentados durante a aula:

Choro n 1 (Villa Lobos) Turíbio Santos

Chorinho pra você (Severino Araújo)

‘Gostosinho’ de Jacob do bandolin com Hamilton de hollanda

Época de Ouro no Jô Soares

Assanhado com Jacob do bandolin

Lamentos Jacob

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~ por Spirito Santo em 23/04/2013.

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