Kitabu da África falada e escrita: Prêmio Camões no Brasil e a velhusca literatura pós colonial

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Manuel Reis Ventura (1910-1988)foi um dos escritores que integrou aquela que se pode classificar como a segunda fase da literatura colonial portuguesa de inspiração africana, no século XX.   http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/183294.html

Manuel Reis Ventura (1910-1988) – marcado com uma cruz – foi um dos escritores que integrou aquela que se pode classificar como a segunda fase da literatura colonial portuguesa de inspiração africana, no século XX.

A Literatura negra sem negros e a literatice das panelas

“Cruzando pontos de vista na retoma dos critérios do Prémio Camões (abra o link)… aqui vai o pensamento do crítico literário brasileiro e estudioso da escrita cá de África, Ricardo Riso”.

O amigo de Lobito, Angola Gociante Patissa – citando o crítico literário Ricardo Riso – sugere o debate e o Titio endossa:

“Pois é, pois é…(escreve Riso) Mia Couto, o escritor de um romance e que conseguiu a proeza de ser o representante único da literatura de seu país, assim como das atenções dos ditos pesquisadores de literaturas africanas de língua portuguesa aqui no Brasil.”

E digo eu :

Tudo isto é muito pertinente, líquido e certo. A preterição de autores africanos – e autores negros do Brasil, como bem sei por experiência pessoal – por parte de editores e críticos brasileiros é recorrente e revoltante. O racismo sistêmico que nos governa aqui, como um tanto lá em África é onipresente, mais ainda no campo da cultura, território crucial de toda luta por democracia.

Nestas horas me lembro sempre da emocionada e orgulhosa sensação de liberdade de, após só conhecer de ler o solitário Lima Barreto, ler avidamente o angolano Unhenga Xitu de “Manana“. Negra literatura sem mestiçagens de “pai joão” existia, porque demoramos tanto a ouvir falar dela?

Se negros existem no mundo, óbvio que negros possuem – sempre possuíram – tanto quanto os brancos, uma literatura. Nunca foi ou será necessário ou aceitável que africanos negros necessitem de autores brancos para falar sobre si e por si.

São muitas as linhas tortas e mal contadas nesta história do intercâmbio do mercado editorial brasileiro com a África.

Racismo literário mais que todos os outros é uma atitude covarde e execrável. Para quê? É como cobrir um espelho para impedir as pessoas de se reconhecerem (ou para impedir os demônios da expiação de saírem destes espelhos)

Mas que o obscurantismo deste mercadinho literário de convescotes e panelinhas racistas, literatura real sempre será luz ampla e irrestrita sobre todas as realidades, todas as histórias contadas por todos os contadores.

Kitabu.

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E Ricardo Riso , citado mais acima, prossegue, acerca da premiação de Mia Couto:

“…A redundância de sua obra é gritante, não enxergo todo esse encantamento que suscita. Muito longe da genialidade e da inventividade com a linguagem de Guimarães Rosa; suas brincriações são sofríveis em sua maioria, logo, recorro a Manoel de Barros para certificar-me que o neologismo pode ser criativo.

As passagens filosóficas atendem a um leitor médio, pouco acima do apaixonado por Paulo Coelho. Vejo como óbvia a escolha de Mia para este prêmio, é um best-seller, atende ao desejo de Portugal e Brasil por uma África com o toque de exotismo necessário e com pitadas de conflitos contemporâneos para o gosto do leitor branco.

Desta feita, o Prêmio Camões não considerou a excelência de uma trajetória literária, caso de outros africanos como José Craveirinha (Moçambique), Pepetela (Angola) e Arménio Vieira (Cabo Verde).

Entristece-me nesta história é saber que uns prosadores moçambicanos como Ungulani Ba Kha Khosa, Aurélio Manuel Furdela e Lucilio Manjate continuam ignorados. Por uma estranha coincidência, todos negros.

Ainda assim, parabenizo os moçambicanos Eduardo Costley-white, Mbate Pedro Amosse Mucavele Eduardo Quive pela evidência e a visibilidade que o Prêmio Camões pode trazer para a Moçambique.

Ainda que esses nomes permaneçam encobertos por um resistente véu branco. Aproveito o momento e parabenizo Eduardo White pelo Prêmio Glória de Santanna! Mais que merecido! Aguardemos o Camões para José Eduardo Agualusa“.

————-

ki.ta.bu= Livro. Substantivo da língua Swahile* do ramo Bantu

Locuções e expressões onde a palavra aparece:

Kitabu hiki ni ya kuvutia sana (este livro é bem interessante).

kitabu anwani: agenda de endereços (logo ‘anwani é ‘endereço’kitabu cha picha: álbum de fotografias (logo “cha picha’ é imagem)

kitabu cha ramani: atlas (logo “cha ramani” é atlas ou mapa)

kitabu cha simu: lista telefônica (logo “cha simu” é algo como telefone)

(Curioso também notar que ‘cha‘ é parecido com um prefixo diminutivo do kimbundo (Ka), língua da área dos Bakongo (Angola por suposto). Pois não é exatamente deste kimbundo que nos vêm o homônimo Kitabu, significando “Cântaro” ou “jarra”, ou seja “receptáculo?

KITABU= Livro, receptáculo de ideias escritas ou memorizadas, registradas enfim.

*(O suaíli ou suaíle (Kiswahili), também chamado de swahili ou kiswahili, é o idioma banto com o número maior de falantes. É uma das línguas oficiais do Quénia, da Tanzânia e de Uganda, embora os seus falantes nativos, os povos suaílis, sejam originários apenas das regiões costeiras do Oceano Índico.

É uma das línguas de trabalho da União Africana.

Essa língua africana pertence ao subgrupo sabaki das línguas banto. É falada por cinquenta milhões de pessoas no mundo, incluindo, além dos países que a têm como língua oficial, Uganda e a República Democrática do Congo, como uma Língua franca. É também falado com alguma frequência nas áreas urbanas do Burundi e de Ruanda, no sul da Somália até ao norte de Moçambique (ao longo do litoral de África oriental), na Zâmbia e no sul da Etiópia.

Existem também algumas comunidades de falantes de suaíli em Madagascar e nas ilhas Comores. Contudo, a maior parte dos seus falantes não a usa como língua materna. De fato, crê-se que apenas dois a três milhões, dos cinquenta milhões estão nesta situação, o que significa que a grande maioria fala como língua materna algum outro idioma níger-congolês (por exemplo, banto) ou cuchítico (somali, por exemplo).

(Fonte Wikipedia)

Por aí.

Spírito Santo

Maio 2013

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~ por Spirito Santo em 29/05/2013.

Uma resposta to “Kitabu da África falada e escrita: Prêmio Camões no Brasil e a velhusca literatura pós colonial”

  1. Valeu a reflexão, companheiro.
    Aquele abraço de Angola

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