Ao Molho Pardo


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Brasil 1950

Ao Molho Pardo

Conto

(Por Spírito Santo)

Me chamo Brasil. Sério. Justino Amaral do Amoroso Brasil, ao seu dispor.
Saí de casa hoje agoniado, com aquela sanha de matar uns dois ou três. Sem brutalidade, claro, que isto, podem crer, não é comigo. Matar sim mas, sem sadismo. Matar simplesmente, como minha mãe matava as galinhas de domingo. Uma torcida rápida no pescoço e, babáu!

As vezes uma boa faca, bem amolada também resolvia bem a situação.
Aliás, esta minha ojeriza a sadismo deve ter vindo daí, do dia em que a velha, assoberbada com a salada de maionese, me pediu para fazer o serviço com a galinha. Servicinho, pensei.

Nem pestanejei. Era só pegar a bicha, forçar a cabeça dela na tábua de cortar carne e zás! Cortar. De um golpe só. Mas fiz com piedade, me disse a Velha, e piedade não se pode ter na hora de matar uma galinha. Um amigo meu, da vigésima DP, que é legista, me ensinou:

_”A galinha está na base de nossa cadeia alimentar, meu chapa. Fazer o quê? Temos que viver, ora bolas! Vai desprezar a delícia que é uma moela ensopada, uma asa assada, uma coxa empanada?”

Mas fiz com remorso. Fiz sim. Eu sei. Um remorso prévio, mal disfarçado, que, não sei como, a pobrezinha sentiu, anteviu.

Foi de dar vertigem. O maior terror que eu já passei na minha vida.
O corpo da galinha tombou para um lado, tombou para o outro e logo começou a se debater, de pé. Quase, não sei como, conseguiu ficar em pé. Como explicar? Fiquei embasbacado pensando como é que um corpo sem cabeça pode entender o que é ficar em pé?

Foi aí que, para o meu alívio, o corpo dela caiu de novo, na tábua de carne, ficando só com aqueles tremeliques, aqueles espasmos de penosa moribunda. Me aliviei.

Mas qual o quê. Foi aí que a coisa ficou ainda mais apavorante: Na cabeça dela, os olhos piscavam como a procurar alguma coisa que eu tive certeza que era eu, o assassino. A bicha abria e fechava o bico, como a querer exprimir algo, algum cacarejo acusatório, quem sabe alguma severa condenação. Ai! Aquele bico apontado para mim, inquisidor.

Fiquei num desespero tão sem tamanho, que cheguei até a pensar em juntar de novo as partes, como fez aquele tal de Doutor Frankenstein.

Tarde demais. O sangue da bicha já se esvaía e eu lembrei ali, naquele mesmo instante, que tinha que recolher todo aquele caldo escuro e viscoso num copo, senão, a velha me matava e me esfolava. Como a galinha.

O certo é que, talvez, esta minha sanha assassina tenha nascido ali mesmo, nos preparativos daquele rotineiro almoço de Domingo, no tempo em que eu ainda só bebia guaraná.

Foi por isso que saí assim, com aquela mesma sede de sangue que se apossava de mim nos bons tempos, sempre que uma diligência era marcada rumo ao covil de algumas destas bandidagens que infestam a nossa cidade.

No noticiário da rádio Mayrink Veiga, ontem mesmo, estava dando uma notícia dessas que me arrepiam todo e fazem o meu sangue ferver.

O indivíduo bateu na mulher com o cabo da enxada até deixar ela desfalecida. Saiu, tomou umas três doses de ‘Pitú’ no botequim da esquina e voltou. Pegou a enxada propriamente dita, encaixou o cabo e decepou o braço da coitada. Saiu de novo. Deixou a pobre se esvaindo em sangue e foi, de novo, para o botequim, acabar de encher a cara.

O guarda civil encontrou ele emborcado na sarjeta. Já entrou na rádio patrulha tomando umas porradas. Na delegacia apanhou mais do que boi ladrão. No início, anestesiado pelo goró glorioso que tomara, chegou a rir das bofetadas, ás gargalhadas, como um imbecil masoquista. Depois sossegou. A dor foi chegando e, enfim, confessou.

Tinha sido despedido da firma. Servente de pedreiro que era, sem eira nem beira em que se segurar, surtou mas, na surpresa do fracasso, se calou. Só foi descontar a raiva que sentia, a humilhação que o patrão o submetera, na pobre da ‘patroa’.

Pode viver um ‘cabôco’ desses? Se pudesse, se estivesse ao alcance de minhas mãos, vocês podem crer que eu não batia só não. Eu matava.

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Me chamo Brasil. Duvidam? Justino Amaral do Amoroso Brasil. Vivo repetindo a toda hora.

Mês passado tirei serviço no Maracanã. Nem era meu plantão mas o delegado insistiu, quase me intimou. Não queria ir. Foi aquele dia famigerado da final da Copa da maior vergonha deste Mundo. Bola pra lá, Barbosa pra cá. Gooool! Goool! Gol de Gigghia!

Barbosa, crioulo miserável, filho da puta. Frango de macumba. Um frango engolindo outro. Que horror.

Fiquem sabendo: O rádio do qual eu falava é novo porque o outro, no mesmo dia do jogo eu quebrei, matei ele, deixei mudo, para sempre. E olha que nem foi por causa da derrota do Brasil. Foi aquela notícia da terrível mancada que eu dei. Um crime idiota, tresloucado, na porta do Maracanã. Vergonha desgraçada. Foi assim:

Jogo acabado, os dois ‘Cosme-Damião’ vinham vindo, espantando o povo com os seus cavalos. Era comoção geral, naquele desespero miserável, alguém bem que poderia cometer um desatino. Por isto eles vinham vindo. No trote. De repente um tiro. Fui eu. Um dos cavalos tropeçou nas próprias pernas e caiu, babando, se estrebuchando.

Eu tinha saído do estádio como qualquer um daqueles milhares de arrasados na praça, que éramos todos nós, naquela hora. Ouvi de longe a conversa. Alguém falava para outra pessoa:

_” Bem feito! Ficaram cantando vitória antes da hora, agora é essa choradeira. È sempre assim nesta merda de Brasil!”

“Merda de Brasil!” Peguei no ar. Nem parei para pensar. Achei que era comigo. Puxei o revólver e apontei. Foi aí que vi a cara do soldado, não sei se o “Cosme” ou se o “Damião”. Foi Deus que abaixou a minha mão quando, naquele impulso maldito, atirei. Pou! Pou! Pegou no cavalo. Foi pior do que se eu tivesse matado um dos “Cosme-e-Damião”

Perdi meu emprego ali, naquele instante do tiro. O delegado prontamente me enquadrou no xilindró e me despachou daquela boa vida que eu levava, na hora:

_”Exonerado, desgraçado! Tá exonerado a bem do serviço público! Onde já se viu? Que destempero, atirar num colega?” _

Eu era polícia civil. 25 anos de serviço. Burro que sou acabei onde estou: Há 5 meses sou capanga de bicheiro. Matador.

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Saí de casa hoje pensando em matar uns dois ou três. Saí sim. Mas jurei para a minha patroa que vou tomar prumo. 1950 é o ano em que saio desta rotina cachorra. Ela sempre me disse que esta vida de matador é coisa de gente abilolada, recalcada, sorumbática, psicopática, sei lá como se diz.

Os dois ou três da lista eu já sei quem são e onde estão. Um é gerente de um dos pontos de bicho do doutor Claudionor. Tá roubando o chefe. Vai morrer. Os outros são cupinchas dele. Vão para o buraco também, sem perdão. Faço o serviço na sexta à noite, quase madrugada. No Sábado durmo. No Domingo vou á feira, tomo umas cervejas e pego aquele almoço especial da minha dona patroa.

Vai ser galinha ao molho pardo. Posso até apostar. A danada cuida de tudo, escolhe uma bela penosa, rechonchuda, lá no aviário. A bicha já vem depenada na água fervente, limpinha, prontinha para a panela. Dona patroa confere todos os procedimentos.

Eu não. Não posso. Tenho trauma de matar galinha, vocês já sabem.
Mas neste ano, já disse, me aposento. Aí, quem sabe, eu me destraumatizo e ainda destrincho umas gostosas penosas por aí?

É como diz meu amigo legista: _”Quem viver, verá”.

Spírito Santo
29 de Abril 2007

Amarildo no go die!


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AMARILDO copy

Tudo que se quer – e não se quer – saber sobre o caso Amarildo

Já disse, já insisti, me esgoelei, várias pessoas já repetiram: É mais do que evidente que o governo do estado, a Secretaria de Segurança, a Polícia Militar, a Polícia Civil, todos os envolvidos no caso Amarildo estão tentando montar uma farsa canhestra que barre o desmoronamento – como um castelo de cartas – do projeto das UPPs e toda a política de segurança na qual ele está baseado, com sérias consequências para a estabilidade do governo Sergio Cabral.

Já que a polícia e a Secretaria de Segurança, de forma totalmente previsível e na maior cara de pau, inventaram esta versão estapafúrdia de manjada, inverossímil, totalmente fatasiosa sobre o desaparecimento do Amarildo (sem falar que é uma versão covarde e ofensiva para com memória do morto), posso agora, tranquilamente dar a minha versão sem passar por terrorista leviano.

Atentem para a meticulosidade dos detalhes assinalados. Nada invento. Minha versão, dividida em 15 itens quase cabais, está inteiramente baseada em fatos divulgados pela imprensa (quando interessada) e pelas mídias sociais:

1- Amarildo, segundo testemunhas anônimas, foi pego no quintal de casa limpando os peixes que conseguira numa pescaria. Foi visto por muita gente da favela neste momento.

2- Os PMs que o pegaram o conheciam bem, pois foi dito por várias testemunhas que um dos policiais, chamado Vital, tinha uma rixa antiga com o pedreiro. Logo, a desculpa de que havia uma operação e que Amarildo foi ‘confundido’ com um traficante procurado é inteiramente falsa.

Esta parece ser a primeira mentira OFICIALMENTE forjada pela PM (e demais autoridades e instituições envolvidas).

3- Amarildo, segundo testemunho de sua própria mãe extraído do relato de outras testemunhas, não foi levado diretamente para a UPP, mas sim para um local ermo da favela. Os PMs proibiram as pessoas de subir junto, uma prática recorrente em casos de tortura e/ou execução de desafetos por parte da PM.

O drama candente de familiares, geralmente mulheres, tentando seguir PMs assassinos para o alto de favelas, afim de impedir que os parentes, filhos ou maridos, morram, é rotina em favelas do Rio de Janeiro desde sempre.

4- Algumas testemunhas, muito vagamente alegam ter visto Amarildo entrando na UPP por um portão vermelho. Ninguém o vê sair no entanto. Ninguém sabe, sequer se ele chegou mesmo a descer vivo ou morto do alto da favela.

5- A partir daí o caso cai numa bruma pesada. Todas as informações passam a ser aquelas fornecidas pela polícia. Oficialmente o próprio comandante da UPP, num depoimento surpreendente, pois o incrimina diretamente no caso, alega que conversou com Amarildo e, pessoalmente o liberou, vendo-o saindo da UPP por uma rua.

Esta parece ser a segunda mentira OFICIALMENTE forjada pela PM (e demais autoridades e instituições envolvidas).

6 – Mais um fato estranho: Os quatro PMs envolvidos no sequestro de Amarildo, ao invés de serem detidos e afastados como suspeitos, foram transferidos para “funções administrativas”, ou seja, estão sendo, claramente PROTEGIDOS e retirados de circulação.

Os nomes deles não foram revelados e só se sabe o nome de um deles porque testemunhas disseram. No entanto, com toda certeza, várias pessoas da favela sabem o nome destes policiais e só não denunciam por medo de morrer.

7- Quando alguém alude a existência na favela de câmeras que teriam filmado a saída de Amarildo, a PM apresenta, muito prontamente um laudo da empresa de vigilância afirmando que as câmeras que poderiam filmar esta saída do pedreiro, por uma etranhíssima concidência, segundo a suspeitíssima alegação da PM estariam… “queimadas” neste dia e hora.

Esta parece ser a terceira mentira OFICIALMENTE forjada pela PM (e demais autoridades e instituições envolvidas).

8- A Delegacia de Homicídios é instada a cuidar do caso. Estranhamente o delegado escalado afirma em entrevista que recebeu “ordens superiores” para desvendar o caso. De quem seriam estas inusitadas ordens, nem porque seriam necessárias “ordens superiores” para a polícia, simplesmente cumprir a sua função, ninguém sabe.

Ninguém se dá conta também da contradição evidente das autoridades alegarem estar investigando um desaparecimento e, ao mesmo tempo elas mesmas admitirem que o caso é um homicídio, já que repassaram o caso para a delegacia especializada no assunto.

9 – Um corpo é encontrado num valão da favela, mas logo se descobre que não é Amarildo pois se trata de um corpo de mulher. Nenhuma autoridade – e nem a imprensa – demonstra espanto com o fato de haver um corpo desconhecido na favela. Ninguém se manifesta sobre isto.

10 – De novo, quando o próprio delegado indicado para investigar o caso alude a possibilidade de periciar os carros da PM onde, eventualmente Amarildo poderia ter sido transportado, encontra-se vestígios de sangue no carro, mas,de novo em tempo recorde – coisa de dois dias se muito – dizem ter feito um exame de DNA que descarta a possibilidade do sangue ser de Amarildo.

De quem seria o sangue? Novamente nenhuma autoridade – e nem a imprensa – demonstra espanto com o fato de haver sangue num carro da polícia. Ninguém se manifesta sobre isto.

11 – Já com a investigação da delegacia de Homicídios em franco curso – e nenhum resultado – o delegado divulga que vai periciar os aparelhos de Gps dos carros. Incrivelmente, de novo, a PM aparece imediatamente com outro laudo da empresa do GPs, informando que os aparelhos também estavam…”inoperantes” exatamente neste dia.

Esta parece ser a quarta mentira OFICIALMENTE forjada pela PM (e demais autoridades e instituições envolvidas).

12 – O fato de terem sido produzidos, em tempo recorde DOIS laudos de empresas de segurança de inviabilizando a busca de evidências, associado à celeridade também incrível dos DOIS laudos de DNA, sugere fortemente que pode estar existindo sim um conluio de alto nível, envolvendo TODAS as autoridades citadas, de modo a não permitir, de modo algum que se prove que Amarildo JAMAIS SAIU daquela UPP.

Importante se ressaltar que as além das cameras que não mostraram a saída do pedreiro por estarem, supostamente ‘queimadas’, não apareceram ainda registros filmados da entrada do pedreiro, o que é muito estranho.

Ou seja: não existem provas ainda de que Amarildo esteve mesmo no interior da UPP além do depoimento do comandante. Apesar do testemunho vago de uma ou outra testemunha, ele pode nunca ter estado no interior da UPP, o que desmascararia fragorosamente o comandante e todo o resto da farsa.

A extensão do conluio, praticamente atesta que Amarildo foi morto pela PM e que a Delegacia de Homicídios está sendo pressionada – ou compactuando, sabe-se lá – para criar um álibi que inocente a PM.

Não há outra linha de raciocínio lógico possível.

13 – Com efeito, aparentemente, como tentativa tosca de iludir a população, a polícia sugere que haveriam informações ligadas ao caso de Amarildo num celular “deixado cair” por um traficante em fuga. A tentativa de associar Amarildo à traficantes, de modo a atribuir à bandidos o seu assassinato vai aparecendo agora bem nítida, como o álibi ideal, apesar de ser uma mui conhecida tática para encobrir crimes da polícia desde sempre.

A história do tal celular, contudo desaparece das investigações tão estranhamente como havia surgido.

Esta parece ser a quinta mentira OFICIALMENTE forjada pela PM (e demais autoridades e instituições envolvidas).

14 – No decorrer desta tentativa de montar a farsa, aparece desta vez a informação de que os traficantes teriam obrigado um motorista de caminhão da Comlurb a transportar um cadáver para o lixão do Caju de onde teria sido levado para um aterro sanitário em Seropédica. O cadáver poderia ser de Amarildo. O lado mal amarrado da história, contudo é que quem informa a novidade é um policial PM da própria UPP, de quem o motorista seria tio.

As contradições de novo são flagrantes: Se um corpo foi lançado em algum local da favela e lá ficou por 14 dias (segundo o relato do PM) como ninguém se deu conta disto? Ninguém viu ou ouviu o caminhão da Comlurb recolhendo o corpo? Porque o tal PM do tio motorista, lotado nesta mesma UPP não informou este fato antes aos seus superiores, mesmo sabendo do aspecto rumoroso do caso?

15 – Além disto, não há nenhuma prova de que o corpo eventualmente desovado no Caju ou em Seropédica seja mesmo o de Amarildo. Como no caso anterior, pode ser de qualquer um. É necessário se entender também que um cadáver humano não desaparece assim, tão facilmente, mesmo num aterro sanitário de um município remoto.

Esta parece ser a sexta mentira OFICIALMENTE forjada pela PM (e demais autoridades e instituições envolvidas).

Assim, por todos estes incríveis e macabros eventos, podemos concluir finalmente que:

A – Amarildo foi, por alguma razão sequestrado diante de várias testemunhas por um grupo de quatro policiais militares da UPP (entre eles um chamado Vital) e levado para o alto da favela onde sofreu tortura e, provavelmente morreu. Seu corpo foi transportado num dos carros da PM – provavelmente o que não foi periciado, pois, dois carros são citados – para destino não sabido (daí o suspeito ‘desaparecimento’ das gravações dos GPs)

B – A atuação deletéria dos PMs da UPP na comunidade parece ser a de um grupo de bandidos fardados organizados numa quadrilha inteiramente à margem do comando oficial e, provavelmente mancomunada com traficantes que permaneceriam atuando livremente no local.

(A propósito, convenhamos que só mancomunação entre UPPs e traficantes justificaria o fato do movimento de distribuição e venda de drogas na cidade do Rio de Janeiro não ter sofrido, rigorosamente nenhuma interrupção em seu fluxo. Recente matéria na imprensa reportou a existência hoje de várias bocas de fumo espalhadas só na favela da Rocinha.)

A prática já reportada em outras UPPs, parece ser recorrente. Tudo indica que em muitos, senão em todos os casos, as UPPs envolvem acordos de convivência pacífica e comercial entre policias e traficantes (o que desmoraliza de vez toda a pertinência da política de pacificação implantada pelo governo.

C- A gravidade do ocorrido foi informada imediatamente ao comandante da UPP que, consultando superiores iniciou procedimentos de encobertamento do caso, a princípio montando uma cena na qual Amarildo teria sido detido, levado para a UPP e retirado livre, por intervenção PESSOAL do próprio comandante, na que foi, entre todas a mentira mais perna curta.

D – O fato do caso envolver PMs da UPP ao que tudo indica mobilizou, portanto uma operação de encobertamento que envolve toda a cadeia de comando do estado do Rio de Janeiro, começando pelo comandante da UPP, passando pelo comandante geral da PM, pelo Secretário de Segurança Beltrame e pelo governador Sergio Cabral, principal prejudicado político em todo o incidente.

E – O corpo de Amarildo, evidentemente dada a importância que o caso adquiriu, não foi abandonado no local no alto da favela e teria sido levado para local desconhecido que pode ter sido a UPP ou não. É mais provável que não, que o corpo já tenha sido inclusive incinerado, de modo a jamais aparecer, faltando apenas às autoridades envolvidas no conluio, montar o álibi ideal, que sirva para aplacar os protestos da população.

F – Não é de todo impossível que nesta cadeia de acobertamentos esteja envolvido, de algum modo, até mesmo o governo federal, já que o caso está tendo ampla repercussão internacional num momento assaz crítico para o estado brasileiro em geral.

Nitroglicerina pura, o caso tem potencial para derrubar governos, notadamente o de Sergio Cabral Filho.

Se assemelha demais aos desparecimentos do tempo da ditadura militar, caracterizados pela montagem de farsas policiais grosseiras, voltadas para mascarar o caráter assassino do conceito de seguranção pública – no caso “segurança nacional”- predominante no Brasil de então.

Acho impressionante como – neste aspecto pelo menos – a ditadura militar se tornou perene para a população brasileira mais carente, apoiada pela indiferença da classe média, até então beneficiária do caráter seletivo e pontual desta opressão quase colonial.

O caso Amarildo é paradigmático por tudo isto.

É promissor – mas ao mesmo tempo inquietante – que a bárbara opressão sofrida pelos negros e s pobres do Brasil desde sempre, desde antes de 1964 inclusive, desde a escravidão até, só agora, tantas dezenas de anos depois, comece a atrair à rejeição e a solidariedade da sociedade em geral.

(Como já escrevi aqui em diversos posts, existe uma linha de tempo contínua explicando estes fatos recentes no Rio de Janeiro. Ela começa bem longe, lá no distante século 18 e no pecado original de termos crescido, logo após a fuga de D.João VI e sua Corte portuguesa para cá, como uma opressiva cidade composta por uma população imensa e esmagadoramente formada por escravos africanos, trabalhando como gado e tendo que ser contida à força militar, de modo a manter protegida de todo mal uma ínfima minoria de gente branca rica, remediada ou mesmo pobre às vezes, porém sempre indolente.)

Este modelo de cidade excludente e antidemocrática, jamais se alterou e estamos assistindo agora os seus talvez últimos estertores. Pode explodir, como sempre repito, num México de horrores.

Sempre relevante recordar que o projeto das UPPs, a despeito das advertências de alguns poucos críticos – como este Titio aqui, por exemplo em seus furibundos textos – sempre recebeu entusiástico apoio da classe média, inclusive a de esquerda e, principalmente da imprensa. Exatamente como fez no período colonial a nossa ‘aristocracia’.

A ocorrência frequente de casos como este do Amarildo não é de modo algum desconhecida de ninguém. As pessoas até pouco mais de um mês, fingiam que não viam, mantinham-se indiferentes porque se sentiam protegidas e obtinham vantagens com o modelo.

Hoje mesmo o jornal ao Globo já começa a empurrar o caso de Amarildo para os porões escuros de suas pautas indesejáveis: Apenas uma notinha de pé de página no miolo do jornal, na qual se repete tudo que a polícia afirmou, oficialmente sobre o caso sem se dar ao trabalho de analisar os estranhíssimos e incoerentes dados das investigações, como uma imprensa decente faria.

Nem uma alusão sequer à repercussão – inclusive internacional – do caso nas ruas e nas redes sociais. A imprensa mais burguesa, como sempre, já cumprindo o seu papel de cúmplice do que nossa sociedade tem de pior: A exclusão social continuada.

Espero, sinceramente que este pacto indigno entre a classe média e este conceito de segurança pública, como disse, colonial no qual se oprime a maior parte da população cercando-a em guetos militarizados, esteja prestes a acabar no Brasil

Pode ser um leve sintoma de que estamos nos tornando – embora ainda bem devagar devagarinho – uma sociedade civilizada enfim.

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Spirito Santo
Agosto de 2013
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