Amarildo no go die!

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AMARILDO copy

Tudo que se quer – e não se quer – saber sobre o caso Amarildo

Já disse, já insisti, me esgoelei, várias pessoas já repetiram: É mais do que evidente que o governo do estado, a Secretaria de Segurança, a Polícia Militar, a Polícia Civil, todos os envolvidos no caso Amarildo estão tentando montar uma farsa canhestra que barre o desmoronamento – como um castelo de cartas – do projeto das UPPs e toda a política de segurança na qual ele está baseado, com sérias consequências para a estabilidade do governo Sergio Cabral.

Já que a polícia e a Secretaria de Segurança, de forma totalmente previsível e na maior cara de pau, inventaram esta versão estapafúrdia de manjada, inverossímil, totalmente fatasiosa sobre o desaparecimento do Amarildo (sem falar que é uma versão covarde e ofensiva para com memória do morto), posso agora, tranquilamente dar a minha versão sem passar por terrorista leviano.

Atentem para a meticulosidade dos detalhes assinalados. Nada invento. Minha versão, dividida em 15 itens quase cabais, está inteiramente baseada em fatos divulgados pela imprensa (quando interessada) e pelas mídias sociais:

1- Amarildo, segundo testemunhas anônimas, foi pego no quintal de casa limpando os peixes que conseguira numa pescaria. Foi visto por muita gente da favela neste momento.

2- Os PMs que o pegaram o conheciam bem, pois foi dito por várias testemunhas que um dos policiais, chamado Vital, tinha uma rixa antiga com o pedreiro. Logo, a desculpa de que havia uma operação e que Amarildo foi ‘confundido’ com um traficante procurado é inteiramente falsa.

Esta parece ser a primeira mentira OFICIALMENTE forjada pela PM (e demais autoridades e instituições envolvidas).

3- Amarildo, segundo testemunho de sua própria mãe extraído do relato de outras testemunhas, não foi levado diretamente para a UPP, mas sim para um local ermo da favela. Os PMs proibiram as pessoas de subir junto, uma prática recorrente em casos de tortura e/ou execução de desafetos por parte da PM.

O drama candente de familiares, geralmente mulheres, tentando seguir PMs assassinos para o alto de favelas, afim de impedir que os parentes, filhos ou maridos, morram, é rotina em favelas do Rio de Janeiro desde sempre.

4- Algumas testemunhas, muito vagamente alegam ter visto Amarildo entrando na UPP por um portão vermelho. Ninguém o vê sair no entanto. Ninguém sabe, sequer se ele chegou mesmo a descer vivo ou morto do alto da favela.

5- A partir daí o caso cai numa bruma pesada. Todas as informações passam a ser aquelas fornecidas pela polícia. Oficialmente o próprio comandante da UPP, num depoimento surpreendente, pois o incrimina diretamente no caso, alega que conversou com Amarildo e, pessoalmente o liberou, vendo-o saindo da UPP por uma rua.

Esta parece ser a segunda mentira OFICIALMENTE forjada pela PM (e demais autoridades e instituições envolvidas).

6 – Mais um fato estranho: Os quatro PMs envolvidos no sequestro de Amarildo, ao invés de serem detidos e afastados como suspeitos, foram transferidos para “funções administrativas”, ou seja, estão sendo, claramente PROTEGIDOS e retirados de circulação.

Os nomes deles não foram revelados e só se sabe o nome de um deles porque testemunhas disseram. No entanto, com toda certeza, várias pessoas da favela sabem o nome destes policiais e só não denunciam por medo de morrer.

7- Quando alguém alude a existência na favela de câmeras que teriam filmado a saída de Amarildo, a PM apresenta, muito prontamente um laudo da empresa de vigilância afirmando que as câmeras que poderiam filmar esta saída do pedreiro, por uma etranhíssima concidência, segundo a suspeitíssima alegação da PM estariam… “queimadas” neste dia e hora.

Esta parece ser a terceira mentira OFICIALMENTE forjada pela PM (e demais autoridades e instituições envolvidas).

8- A Delegacia de Homicídios é instada a cuidar do caso. Estranhamente o delegado escalado afirma em entrevista que recebeu “ordens superiores” para desvendar o caso. De quem seriam estas inusitadas ordens, nem porque seriam necessárias “ordens superiores” para a polícia, simplesmente cumprir a sua função, ninguém sabe.

Ninguém se dá conta também da contradição evidente das autoridades alegarem estar investigando um desaparecimento e, ao mesmo tempo elas mesmas admitirem que o caso é um homicídio, já que repassaram o caso para a delegacia especializada no assunto.

9 – Um corpo é encontrado num valão da favela, mas logo se descobre que não é Amarildo pois se trata de um corpo de mulher. Nenhuma autoridade – e nem a imprensa – demonstra espanto com o fato de haver um corpo desconhecido na favela. Ninguém se manifesta sobre isto.

10 – De novo, quando o próprio delegado indicado para investigar o caso alude a possibilidade de periciar os carros da PM onde, eventualmente Amarildo poderia ter sido transportado, encontra-se vestígios de sangue no carro, mas,de novo em tempo recorde – coisa de dois dias se muito – dizem ter feito um exame de DNA que descarta a possibilidade do sangue ser de Amarildo.

De quem seria o sangue? Novamente nenhuma autoridade – e nem a imprensa – demonstra espanto com o fato de haver sangue num carro da polícia. Ninguém se manifesta sobre isto.

11 – Já com a investigação da delegacia de Homicídios em franco curso – e nenhum resultado – o delegado divulga que vai periciar os aparelhos de Gps dos carros. Incrivelmente, de novo, a PM aparece imediatamente com outro laudo da empresa do GPs, informando que os aparelhos também estavam…”inoperantes” exatamente neste dia.

Esta parece ser a quarta mentira OFICIALMENTE forjada pela PM (e demais autoridades e instituições envolvidas).

12 – O fato de terem sido produzidos, em tempo recorde DOIS laudos de empresas de segurança de inviabilizando a busca de evidências, associado à celeridade também incrível dos DOIS laudos de DNA, sugere fortemente que pode estar existindo sim um conluio de alto nível, envolvendo TODAS as autoridades citadas, de modo a não permitir, de modo algum que se prove que Amarildo JAMAIS SAIU daquela UPP.

Importante se ressaltar que as além das cameras que não mostraram a saída do pedreiro por estarem, supostamente ‘queimadas’, não apareceram ainda registros filmados da entrada do pedreiro, o que é muito estranho.

Ou seja: não existem provas ainda de que Amarildo esteve mesmo no interior da UPP além do depoimento do comandante. Apesar do testemunho vago de uma ou outra testemunha, ele pode nunca ter estado no interior da UPP, o que desmascararia fragorosamente o comandante e todo o resto da farsa.

A extensão do conluio, praticamente atesta que Amarildo foi morto pela PM e que a Delegacia de Homicídios está sendo pressionada – ou compactuando, sabe-se lá – para criar um álibi que inocente a PM.

Não há outra linha de raciocínio lógico possível.

13 – Com efeito, aparentemente, como tentativa tosca de iludir a população, a polícia sugere que haveriam informações ligadas ao caso de Amarildo num celular “deixado cair” por um traficante em fuga. A tentativa de associar Amarildo à traficantes, de modo a atribuir à bandidos o seu assassinato vai aparecendo agora bem nítida, como o álibi ideal, apesar de ser uma mui conhecida tática para encobrir crimes da polícia desde sempre.

A história do tal celular, contudo desaparece das investigações tão estranhamente como havia surgido.

Esta parece ser a quinta mentira OFICIALMENTE forjada pela PM (e demais autoridades e instituições envolvidas).

14 – No decorrer desta tentativa de montar a farsa, aparece desta vez a informação de que os traficantes teriam obrigado um motorista de caminhão da Comlurb a transportar um cadáver para o lixão do Caju de onde teria sido levado para um aterro sanitário em Seropédica. O cadáver poderia ser de Amarildo. O lado mal amarrado da história, contudo é que quem informa a novidade é um policial PM da própria UPP, de quem o motorista seria tio.

As contradições de novo são flagrantes: Se um corpo foi lançado em algum local da favela e lá ficou por 14 dias (segundo o relato do PM) como ninguém se deu conta disto? Ninguém viu ou ouviu o caminhão da Comlurb recolhendo o corpo? Porque o tal PM do tio motorista, lotado nesta mesma UPP não informou este fato antes aos seus superiores, mesmo sabendo do aspecto rumoroso do caso?

15 – Além disto, não há nenhuma prova de que o corpo eventualmente desovado no Caju ou em Seropédica seja mesmo o de Amarildo. Como no caso anterior, pode ser de qualquer um. É necessário se entender também que um cadáver humano não desaparece assim, tão facilmente, mesmo num aterro sanitário de um município remoto.

Esta parece ser a sexta mentira OFICIALMENTE forjada pela PM (e demais autoridades e instituições envolvidas).

Assim, por todos estes incríveis e macabros eventos, podemos concluir finalmente que:

A – Amarildo foi, por alguma razão sequestrado diante de várias testemunhas por um grupo de quatro policiais militares da UPP (entre eles um chamado Vital) e levado para o alto da favela onde sofreu tortura e, provavelmente morreu. Seu corpo foi transportado num dos carros da PM – provavelmente o que não foi periciado, pois, dois carros são citados – para destino não sabido (daí o suspeito ‘desaparecimento’ das gravações dos GPs)

B – A atuação deletéria dos PMs da UPP na comunidade parece ser a de um grupo de bandidos fardados organizados numa quadrilha inteiramente à margem do comando oficial e, provavelmente mancomunada com traficantes que permaneceriam atuando livremente no local.

(A propósito, convenhamos que só mancomunação entre UPPs e traficantes justificaria o fato do movimento de distribuição e venda de drogas na cidade do Rio de Janeiro não ter sofrido, rigorosamente nenhuma interrupção em seu fluxo. Recente matéria na imprensa reportou a existência hoje de várias bocas de fumo espalhadas só na favela da Rocinha.)

A prática já reportada em outras UPPs, parece ser recorrente. Tudo indica que em muitos, senão em todos os casos, as UPPs envolvem acordos de convivência pacífica e comercial entre policias e traficantes (o que desmoraliza de vez toda a pertinência da política de pacificação implantada pelo governo.

C- A gravidade do ocorrido foi informada imediatamente ao comandante da UPP que, consultando superiores iniciou procedimentos de encobertamento do caso, a princípio montando uma cena na qual Amarildo teria sido detido, levado para a UPP e retirado livre, por intervenção PESSOAL do próprio comandante, na que foi, entre todas a mentira mais perna curta.

D – O fato do caso envolver PMs da UPP ao que tudo indica mobilizou, portanto uma operação de encobertamento que envolve toda a cadeia de comando do estado do Rio de Janeiro, começando pelo comandante da UPP, passando pelo comandante geral da PM, pelo Secretário de Segurança Beltrame e pelo governador Sergio Cabral, principal prejudicado político em todo o incidente.

E – O corpo de Amarildo, evidentemente dada a importância que o caso adquiriu, não foi abandonado no local no alto da favela e teria sido levado para local desconhecido que pode ter sido a UPP ou não. É mais provável que não, que o corpo já tenha sido inclusive incinerado, de modo a jamais aparecer, faltando apenas às autoridades envolvidas no conluio, montar o álibi ideal, que sirva para aplacar os protestos da população.

F – Não é de todo impossível que nesta cadeia de acobertamentos esteja envolvido, de algum modo, até mesmo o governo federal, já que o caso está tendo ampla repercussão internacional num momento assaz crítico para o estado brasileiro em geral.

Nitroglicerina pura, o caso tem potencial para derrubar governos, notadamente o de Sergio Cabral Filho.

Se assemelha demais aos desparecimentos do tempo da ditadura militar, caracterizados pela montagem de farsas policiais grosseiras, voltadas para mascarar o caráter assassino do conceito de seguranção pública – no caso “segurança nacional”- predominante no Brasil de então.

Acho impressionante como – neste aspecto pelo menos – a ditadura militar se tornou perene para a população brasileira mais carente, apoiada pela indiferença da classe média, até então beneficiária do caráter seletivo e pontual desta opressão quase colonial.

O caso Amarildo é paradigmático por tudo isto.

É promissor – mas ao mesmo tempo inquietante – que a bárbara opressão sofrida pelos negros e s pobres do Brasil desde sempre, desde antes de 1964 inclusive, desde a escravidão até, só agora, tantas dezenas de anos depois, comece a atrair à rejeição e a solidariedade da sociedade em geral.

(Como já escrevi aqui em diversos posts, existe uma linha de tempo contínua explicando estes fatos recentes no Rio de Janeiro. Ela começa bem longe, lá no distante século 18 e no pecado original de termos crescido, logo após a fuga de D.João VI e sua Corte portuguesa para cá, como uma opressiva cidade composta por uma população imensa e esmagadoramente formada por escravos africanos, trabalhando como gado e tendo que ser contida à força militar, de modo a manter protegida de todo mal uma ínfima minoria de gente branca rica, remediada ou mesmo pobre às vezes, porém sempre indolente.)

Este modelo de cidade excludente e antidemocrática, jamais se alterou e estamos assistindo agora os seus talvez últimos estertores. Pode explodir, como sempre repito, num México de horrores.

Sempre relevante recordar que o projeto das UPPs, a despeito das advertências de alguns poucos críticos – como este Titio aqui, por exemplo em seus furibundos textos – sempre recebeu entusiástico apoio da classe média, inclusive a de esquerda e, principalmente da imprensa. Exatamente como fez no período colonial a nossa ‘aristocracia’.

A ocorrência frequente de casos como este do Amarildo não é de modo algum desconhecida de ninguém. As pessoas até pouco mais de um mês, fingiam que não viam, mantinham-se indiferentes porque se sentiam protegidas e obtinham vantagens com o modelo.

Hoje mesmo o jornal ao Globo já começa a empurrar o caso de Amarildo para os porões escuros de suas pautas indesejáveis: Apenas uma notinha de pé de página no miolo do jornal, na qual se repete tudo que a polícia afirmou, oficialmente sobre o caso sem se dar ao trabalho de analisar os estranhíssimos e incoerentes dados das investigações, como uma imprensa decente faria.

Nem uma alusão sequer à repercussão – inclusive internacional – do caso nas ruas e nas redes sociais. A imprensa mais burguesa, como sempre, já cumprindo o seu papel de cúmplice do que nossa sociedade tem de pior: A exclusão social continuada.

Espero, sinceramente que este pacto indigno entre a classe média e este conceito de segurança pública, como disse, colonial no qual se oprime a maior parte da população cercando-a em guetos militarizados, esteja prestes a acabar no Brasil

Pode ser um leve sintoma de que estamos nos tornando – embora ainda bem devagar devagarinho – uma sociedade civilizada enfim.

ABAIXO A DITADURA MILITAR SELETIVA!
#vemprarua

Spirito Santo
Agosto de 2013
#anodobrasilcomvergonhanacara

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~ por Spirito Santo em 04/08/2013.

2 Respostas to “Amarildo no go die!”

  1. MUITO BOM!!!!

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  2. Bom! Bomba! Bombeiros! #ogiganteacordou

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