A “Dança Afro” do Brasil é afro mesmo?

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Uma questão que dança solta no ar

Em breve iniciaremos na UERJ, no âmbito do projeto Musikfabrik um ciclo de debates sobre arte e cultura brasileira, com ênfase nos elementos ditos de inspiração africana. Sem conversa fiada, lugares comuns ou ramerrões conformistas, a ideia é debater amplamente cada tema em todas as suas nuances, inclusive as mais polêmicas.

Vamos começar com o tema “Dança Afro”, os programas da série serão filmados para serem compartilhados na rede e você pode estar entre os convidados. Daí, meu bicho carpinteiro – que será o moderador dos debates – já danou de provocar e especular sobre o assunto:

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Breve nota sobre “Dança Afro” no Brasil. o “fluxo e refluxo” da costa oeste africana para Salvador (e não para o Brasil, como muitos confundem) abordados por Verger num livro clássico, flagra a construção da seita do candomblé como um todo.

Segundo Luiz Eugenio Parès faziam verdadeiros workshops, trazendo especialistas de Lagos para cá já a partir do início do século 20, processo que se reproduz até hoje.

Houve também uma reconstrução estética das danças do candomblé no início do século 20, mas quero me referir aqui, em particular à sistematização da chamada “dança afro” nos anos 50, realizada por Mercedes Batista, segundo se pode apreender numa rápida análise do processo, com elementos do ballet europeu e influência de bailarinas da Europa e dos EUA, inclusive (em épocas diversas, como Katherine Dunhan e Isadora Duncan, por exemplo) na esteira de um movimento de popularização da dança contemporânea no ocidente inteiro.

O pouco falado babalorixá Joãozinho da Goméia é quem traz estes fragmentos de danças supostamente nigerianas, citados por Verger da Bahia para o Rio, ajudando Mercedes Batista a inventar a chamada “dança afro”. Isto tudo estaria relacionado a um grande movimento de impulsão da cultura negra rumo à uma modernidade artística possível, surgida no final dos anos 1940, em torno do Teatro Experimental do Negro, de Abdias Do Nascimento, Aguinaldo Camargo, Haroldo Costa e outros, movimento que gerou diversas dissidências e correntes, como Cia. de danças Folclóricas “Brasiliana” de Haroldo Costa, o grupo de danças populares de Solano Trindade, e a cia. de danças de Mercedes Batista.

O “lugar do negro” enquanto um espaço ou gueto meramente primitivista e “inculto” na cultura do país, estava sendo fortemente questionado na época. Nos anos 70 isto tudo regrediu para um folclorismo fake-rastaquera, no rumo de um movimento negro mais interessado em vender a ideia de uma cultura negra “pura” e autêntica, não só elitista quanto absolutamente improvável, baseada inteiramente nos ritos já em si artificialmente construídos do candomblé, a despeito de todo o resto, a diversidade imensa de elementos efetivamente africanos – embora de outras matrizes – que a cultura negra do Brasil tem. Spirito Santo Setembro 2013 (Colaborando na instigação deste post-papo, o amigo João Carlos Rodrigues)

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~ por Spirito Santo em 30/09/2013.

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