Funarte, Arte Negra e a Mão da Limpeza – A resposta oficial


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A Funarte responde oficialmente.

Foram 23 dias exatos depois daquele em que compareci à sede da Funarte do Rio acompanhado por uma comissão de 10 aguerridas pessoas, afim  de protocolar uma representação pela não homologação do Prêmio Funarte de Arte Negra, por conta de inúmeras irregularidades constadas em sua realização.

Tempo demais para nós, mas talvez o tempo certo e normal para que instituições federais sempre carroças  lentas no trato de suas atribuições de rotina, possam se desembaraçar de suas saias justas e imbróglios mais incômodos. Foi também o tempo da controversa Feira do livro de Frankfurt, que deve ter ocupado bastante uma instituição como a Funarte, tão estratégica no contexto da cultura do país.

Mas está aí o doc. Uma inusitada resposta oficial de uma instituição às indagações de um pequeno grupo de cidadãos absolutamente comuns, por acaso motivados e obstinados.

FUNARTE DOC Epígrafe boa

Cala a boca já morreu.

Esta é uma lição e tanto para todos nós. Sabe-se agora, entre outras lições não menos importantes suscitadas pelo incidente, que qualquer cidadão incomodado ou que se sinta de algum modo burlado em seus direitos, pode sim interpelar formalmente,  por vias legítimas uma instituição pública, de qualquer porte ou relevância, que esta estará obrigada, do mesmo modo a lhe responder prontamente.

Fica evidente também que uma resposta formal, por escrito, dado o seu caráter de documento oficial irrevogável, se transforma num instrumento essencial para que sigam os procedimentos de questionamento deste prêmio – ou do que quer que seja – para que se investigue bem mais a fundo, e agora por meios legais – com a entrada do Ministério Público no caso, por exemplo – mais esta caixa preta de nossos suspeitíssimos meios de lidar com dinheiro público.

Chega! Basta! Podemos gritar sim, sem medo de sermos atropelados numa esquina.

Aquilo que pareciam meras ilações indignadas de um preterido ao prêmio em sua santa insatisfação, com a adesão cada vez maior de tanta gente animada com este avanço passo a passo sem esmorecimento, vai se se configurando numa ação cada vez mais concreta de cidadãos em busca do cumprimento de seus mínimos direitos.

Titio, de sua parte, comenta a resposta da Funarte em boxes, ponto a ponto.

Não posso deixar de ressaltar logo de saída que fiquei bastante surpreendido – e vocês, por certo também ficarão – com a maneira inusitada como instituição assume – quase confessa – oficialmente como corretas e lícitas, atitudes que estão sendo questionadas, exatamente por serem tão evidentemente suspeitas.

É como se estivessem mesmo se julgando acima do bem e do mal, dada a surpreendente displicência da resposta, cheia de incongruências tanto de verve quanto de sentido.

E isto sem falarmos nos questionamentos mais genéricos ou menos objetivos, evidências de favorecimento institucional ou político partidário, aqueles que, sugeridos por nós num dossiê recente, por certo apareceriam (ou aparecerão) numa investigação mais técnica e aprofundada e sobre os quais o documento, previsivelmente nada fala.

O fato é que cada vez vai ficando mais patente que a política de editais para o fomento de cultura no Brasil – toda a política e não apenas neste caso que não é de modo algum isolado – precisa ser implodida. Ela está como já disse aqui, contaminada por predadores vorazes. É o que se pode constatar apenas vendo a superfície deste pequeno véu que levantamos.

Todos podem comentar mais um pouco. Quem tiver saber jurídico para sugerir e apontar argumentos e caminhos esteja à vontade. Vamos dar um breve prazo, apenas o tempo de recolher estes últimos subsídios e logo a seguir partimos para o “vamos ver” do último passo de nossa missão:

Entregar uma nova e mais completa representação oficial às chamadas autoridades competentes.

O tempo transcorrido foi mais do que suficiente para que os envolvidos se manifestassem. O tempo foi  importante também para que recolhêssemos mais evidências, links, cópias de páginas de blogs e sites, bem como gravações e outras evidências enfim que podem atestar ou embasar minimamente as nossas suspeitas.

Neste aspecto foi possível constatar aliás que, vergonhosamente alguns dos citados promoveram verdadeiras ‘queimas de arquivos’ na rede, apagando páginas inteiras de blogs que, eventualmente os interligassem ou os incriminassem. Alguns chegaram mesmo a denunciar evidências postadas no facebook, afim de que fossem removidas alegando invasão de privacidade.

Por sorte tínhamos tudo salvo em print screens providenciais e vamos poder entregar todo este material ao MP, caso nos seja solicitado, sem maiores problemas.

Vamos ao doc. da Funarte então:

FUNARTE DOCitem 1 bom

 

Como se vê, com efeito, o documento já começa com vários equívocos iniciais:

1a-Oficialmente, segundo as regras estritas do edital, os promotores do concurso são, exclusivamente a Funarte e a SEPPIR-Brasília. Seriam ilegais, portanto, pelo menos oficialmente, indicações de quaisquer outras instituições, inclusive da Fundação Palmares.

Do mesmo modo são questionáveis então as não explicadas indicações do MinC que, embora não figurasse como promotor direto do concurso entrou, com, pelo menos 5 ou 6 jurados diretamente extraídos do corpo de representantes regionais nacionais do órgão, figuras que, convenhamos possuem um peso decisório desproporcional em relação aos demais membros da comissão de seleção, o que nos pareceu altamente suspeitoso.

Não atinamos ainda para a importância assim tão grande que haveria neste concurso para que a ampliação de um terço da banca fosse baseada na convocação de pessoas do mais alto escalão do Ministério.

Ou seja, a composição da banca com pessoas de outras instituições que não a Funarte e a SEPPIR, não seria ilegal se tivesse ocorrido de maneira indireta, mas ocorre que em seu presente documento a Funarte assume, explicitamente que o MinC e a Fundação Palmares (junto com a Seppir) se incumbiram da seleção DIRETAMENTE, o que não está autorizado, de modo algum pelo edital.

Cabe ressaltar aliás que, a julgar por esta surpreendente afirmação do documento apesar de ser sua função precípua e intransferível nos termos do edital,  a Funarte teria mesmo se eximido de indicar membros da comissão de seleção do Prêmio de arte negra que leva o seu nome, o que está, totalmente em desacordo com as regras estabelecidas pelo edital.

1b- Além disso, a estranhíssima questão das notas máximas aparece no documento com um caráter mais esdrúxulo ainda do que foi denunciada na representação que formulamos.

Cita-se agora, oficialmente e sem nenhuma justificativa plausível, a ocorrência do inusitado empate (precisamente, segundo as palavras do assessor da Funarte Sr. Alexandre Guimarães, cerca de 40 concorrentes teriam empatado com a nota máxima de 100 pontos)

Contudo nada se explica sobre a absoluta impossibilidade matemática deste empate ocorrer e o que é pior, segundo o assessor citado (em depoimento gravado) o empate teria ocorrido ainda uma segunda vez, quando tentaram promover – ou simular – o desempate.

Sendo totalmente inaceitáveis as alegações, por uma questão de lógica até, se pode concluir claramente por elas que a cláusula de desempate pode ter sido, expressa e deliberadamente ignorada por razões que precisam ser melhor  investigadas.

A este mesmo propósito, as regras do edital aparecem flagrantemente mal descritas neste item, de modo talvez a se adequarem ao equivocado procedimento da comissão. Ora, o edital, de forma muito clara, PROÍBE terminantemente o empate entre dois ou mais candidatos. Como se sabe, em flagrante oposição às regras ditadas, mesmo assim o resultado foi proclamado com a manutenção de um empate entre, nada mais nada menos que… 34 concorrentes (um dos quais inclusive não foi agraciado, já que os prêmios eram só 33) Como se pode observar claramente no doc. oficial entre os 40 projetos que obtiveram as mágicas notas 100, 7 foram, simplesmente REBAIXADOS sob critérios absolutamente subjetivos e arbitrários.

A proibição constante no edital se baseava no fato óbvio e inequívoco de que o concurso tinha caráter CLASSIFICATÓRIO, pelo qual numa espécie de cláusula pétrea (praxe em concursos do tipo) se visava estabelecer um juízo de valor no qual se definiria quem seriam os premiados por ordem das notas obtidas, classificando-os em primeiro, segundo, terceiro lugares, etc. até o limite dos prêmios disponíveis.

A classificação rigorosa permitiria também resolver questões relacionadas à desistência ou desclassificação eventual de agraciados, de modo a se premiar o classificado em posição imediatamente posterior a do excluído.

É incrível, portanto que a instituição explique este fato de forma tão canhestra.

Soa quase como uma confissão, já que pelo que o presente documento nos dá a entender (considerando-se a total impossibilidade matemática do empate entre 40 concorrentes ter ocorrido naturalmente) este empate pode ter sido sim um ato deliberado, com a finalidade exatamente de inviabilizar qualquer tentativa de desempatar os concorrentes (o que, na prática, ocorreu), representando assim – ainda pela dedução óbvia sugerida pelo próprio texto do documento – um procedimento que burlou uma cláusula fundamental do edital ao torná-la, virtualmente inaplicável.

A este respeito acrescente-se que esta prática do empate, eventualmente deliberado, tem sido informada por concorrentes de outros concursos da Funarte como sendo de uso recorrente nos demais concursos da instituição.

Um caso, portanto que precisa ser investigado em todas as suas implicações.

 FUNARTE DOC item 2 bom

As alegações todas são meramente protocolares e discutíveis. Quem alega que as pessoas convocadas são “especialistas” são as instituições promotoras. Não lhes caberia dizer nada diferente.

É meramente protocolar mais ainda a afirmação de que a comissão se baseou em “critérios previamente estabelecidos” pelos promotores, mas cabe ressaltar que estes critérios, na verdade só poderiam ter sido determinados pelo edital, não tendo ambas as instituições nenhum direito de tomar – como tomaram – decisões que extrapolassem, subvertessem os termos deste mesmo edital, muito menos após as inscrições terem sido encerradas. Intencionalmente ou não estas intervenções se configuraram em fraude evidente.

É exatamente este o ponto central da questão.

Funarte item 3 bom

Esta talvez seja a mais grave e candente  – embora judicialmente inquestionável – afirmação da presidência da Funarte. Por ela a conclusão a que se chega é que a questão, o ensejo, a intenção crucial do Prêmio Funarte de Arte Negra – uma ação afirmativa voltada, direta e exclusivamente para a inclusão no mercado de artistas e produtores reconhecidamente negros – nunca passou mesmo na verdade de letra morta. Propaganda enganosa, portanto.

Isto chega a ser constrangedor ou vexatório para as instituições oficiais do Movimento Negro envolvidas, direta ou indiretamente no concurso, nomeadamente a  SEPPIR e Fundação Cultural Palmares.

Sim porque, o que a presidência da Funarte está afirmando com todas as letras, é que não se responsabiliza – nem pode ser responsabilizada – não só pela seleção dos premiados (já que alega não ter participado da arregimentação da banca de jurados) como também não se responsabiliza pela própria condição de afrodescendentes dos concorrentes premiados, condição esta, ao contrário, exigida de forma radical e inegociável no ato da inscrição no concurso, por meio de uma declaração assinada por cada um dos proponentes e principais participantes.

Óbvio que, pelo fato de ser signatária DO PRÊMIO junto com a SEPPIR, a Funarte não poderá se eximir de seus deveres e responsabilidades determinadas pelo edital, mas esta sua tentativa sutil de transferir para as demais instituições a culpa pelos eventuais erros e mal feitos apontados é significativa, pois ajuda a levantar muitas outras suspeitas.

Desmoralizante, esta nova constatação pode – e deveria instigar o ajuizamento de milhares de ações por parte dos milhares de concorrentes afrodescendentes inscritos no prêmio, por terem sido induzidos ao erro de acreditar nos termos e intenções do edital que, não só teria sido fraudado em seus próprios termos, como teria tido os seus supostos efeitos como política pública, admitidos agora por um de seus organizadores como sendo totalmente falsos e irrealizáveis.

Nestas ações de reparação e desagravo por direitos vilipendiados pela propaganda enganosa que representou este concurso, a questão da má-fé pública tanto dos organizadores do prêmio quanto dos concorrentes que, também em atitudes de franca má-fé se fizeram passar por negros, se aproveitando desta brecha da lei, deveria ser atestada e punida com máximo rigor, sob pena de se desmoralizar de vez toda a política de promoção da igualdade racial no Brasil.

Na representação que faremos ao Ministério Público, em nome da comissão de, por enquanto, 10 pessoas que representamos, esta questão da inviabilidade de uma política pública, implementada por meio de um concurso cujos termos seriam em si mesmos inaplicáveis, com certeza terá um peso considerável.

Chocante uma instituição pública da importância da Funarte colocar questão tão grave em termos tão descuidados. Mais chocante ainda instituições voltadas, diretamente para políticas de superação do insidioso racismo brasileiro se omitirem de maneira tão flagrante, como está ocorrendo com a SEPPIR e a Fundação Palmares (esta indevidamente imiscuída numa ação que, formalmente não lhe dizia respeito, mas perante a qual tem sim responsabilidades de monta).

Observe-se a este respeito, que o presente documento a nós enviado como resposta à nossa representação, infelizmente não envolve, em nenhum dos seus termos, qualquer informação ou justificativa da parte da SEPPIR, parceira da Funarte no concurso e a qual a representação por nós enviada estava, também devidamente endereçada.

Funarte item 4 bom

Esta afirmação, do mesmo modo que todas as outras, tem aspectos extemporâneos. Existem inúmeros questionamentos ao Prêmio Funarte de Arte Negra relacionados a projetos que, à luz do edital não preenchiam requisitos mínimos para a habilitação. São particularmente graves as evidências de projetos que não só foram habilitados sem preencherem todas as exigências, como foram mesmo assim, surpreendentemente premiados.

A questão da má-fé em auto declarações de afro descendência, apesar de todo o seu caráter judicial ambíguo deve ser objeto de muita atenção do Ministério Público também neste aspecto.

Ressalte-se que o prêmio está ainda sub judice, exatamente por, supostamente pretender atender, exclusivamente a afrodescendentes, o que foi considerado inconstitucional por um juiz federal para se mostrar agora, ironicamente – e mesmo assim – uma proposta de todo modo irrealizável.

Funarte item 5 bom 

Esta alegação é a desculpa mais esfarrapada de todas. Ressalte-se fortemente que as regras do edital, indiscutíveis em todos os casos, continuaram a vigorar após as inscrições terem sido encerradas.

Contudo, nenhuma alteração nos termos deste edital teria valor se fosse implementada DEPOIS das inscrições terem sido encerradas. É por demais evidente que os milhares de candidatos ao Prêmio Funarte de Arte Negra se submeteram ao edital tal qual ele estava publicado até o dia 25 de Março de 2013, data do encerramento das inscrições.

Quaisquer medidas, atos, portarias, etc. Com o fim de modificar os termos deste edital – como ocorreu com a  comissão de avaliação, alterada de 12 membros para 18 – eram, rigorosamente ILEGAIS, pois, os candidatos não foram devidamente informados no decorrer das inscrições destas intempestivas alterações.

No caso, se pode observar, claramente que a comissão foi alterada em 14 de agosto de 2013, quase cinco meses depois do encerramento das inscrições. Ressalte-se também que o número surpreendente de candidatos já era um dado, perfeitamente sabido pelos promotores, antes ainda das inscrições se encerrarem, havendo prazo suficiente para a referida alteração ser detectada como necessária e, efetivamente implementada.

A informação sobre o aumento do número de membros e a composição da comissão só aparece, portanto no diário oficial de 14 de agosto e na página do prêmio em 16 de Agosto, estranhamente assinada em 14 de agosto por aquele que era ainda o futuro presidente da Funarte, Gorschalk-Guti-Fraga que, só se tomaria posse do cargo em 28 de agosto, 14dias DEPOIS de assinar a tal portaria que, também neste caso nos parece também, claramente ilegal.

Funarte item 7 bom2

E aqui, por fim, a Funarte reafirma sua lisura protocolar com o resultado já publicado desde 01 de Outubro de 2013, exatamente um dia antes da visita de nossa comissão.

Como utilizam a expressão “confirmando o resultado”, entendemos que a efetiva homologação do prêmio ainda não se deu. Julgamos assim que a representação que enviaremos em breve para o Ministério Público, afim de que se investiguem –  desde que acatadas – as nossas alegações, será ainda nos termos de solicitar não a impugnação, mas a NÃO HOMOLOGAÇÃO do prêmio (o qual, aliás, como afirmamos, continua ainda com o pagamento dos premiados sub judice, por conta de outras controvertidas pendências judiciais).

A decisão visa resguardar a realização eventual de um novo concurso, agora em bases justas corretas como mandava o edital original.

De resto, agradecemos, sinceramente o esforço e a gentileza da Funarte, em nome de seu procurador sr. Miguel Lobato em responder, pelo menos em parte as nossas – agora oficialmente – pertinentes indagações.

Estamos e permanecemos juntos

Spirito Santo
Outubro 2013

“CULTURA P&B” estreia na UERJ discutindo “Dança Afro”


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Mercedes

A partir do mês de Novembro o Musikfabrik do Titio e o Centro Cultural da Uerj iniciam o ciclo de programas off\on line CULTURA P&B. O tema de estréia será “A dança afro e a desconstrução da modernidade” do qual a genial Mercedes Batista será o eixo ou paradigma principalmente debatido.

O mote ou ensejo do debate será a pergunta: “A dança Afro brasileira é puramente Afro mesmo?

Existiria mesmo uma dança africana, de natureza religiosa, de inspiração nigeriana, ancestral, secular, pura, original e autêntica ou este conceito estético teria sido construído nos anos 50, com intenções muito mais artísticas do que religiosas, a partir de um misto de recriação do balé convencional, branco mais a estilização de danças africanas em geral, inclusive com a inspiração da dança negra moderna norte americana dos anos 50 (Katherine Dunham), com forte influência de danças afro caribenhas?

 O excelente documentário “BALÉ PÉ NO CHÃO – A HISTÓRIA DE MERCEDES BAPTISTA ” conta a trajetória surpreendente de Mercedes Baptista, criadora no Brasil do primeiro balé clássico negro na década de 1950, academizadora e catalizadora deste movimento que,  por esta linha de raciocínio proposta pelo Titio, num fenômeno surpreendente de refolclorização acabou se refugiando nos terreiros de Candomblé, confundindo e iludindo hoje, tanto o pensamento antropológico mais convencional, quanto os adeptos mais fervorosos da religião do Candomblé,  que cuidam da preservação deste mito da suposta pureza etnológica da “Dança Afro” nagô-yorubana, com fervor quase cívico.

Aos convidados debatedores e aos interessados em geral um documento essencial.

http://www.emdialogo.uff.br/content/bale-de-pe-no-chao-danca-afro-de-mercedes-baptista

Spirito Santo

Outubro 2013

A Maldição do “Brasil Grande”


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” Pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são”

O País Empresa da Carochinha ou, nem toda esquerda capitalista é da linha chinesa

Os melhores especialistas – e até os leigos mais atentos – cansam de dizer (avisar a gente avisa, não é?) mas a ficha demora a cair porque é quase impensável que isto esteja ocorrendo. Difícil entender autoridades públicas, eleitas, reconhecidas como progressistas, algumas identificadas até como sendo de esquerda, num ambiente supostamente de plena democracia, envolvidas num plano tão descaradamente capitalista e solerte, de natureza política tão arraigadamente fascista.

Mas é assim em 2013 e o no Brasil de 2014, com certeza será bem pior.

A mazela em sua cara mais aparente é, no Rio de Janeiro e em todas as maiores metrópoles do país, o conceito Cidade-Empresa, tornado ideologia de estado que se substancia e justifica na sanha desenvolvimentista destes governos, em todos os níveis da administrarão pública nacional, refletido num modelo de gestão muito semelhante àquele posto em prática pela ditadura militar: O “Milagre Brasileiro”, o “Brasil Grande”, o que dá lucro.

“Este é um país que vai pra frente, uôu, uôu, uôu, uôu, uôu!”, lembram?

Você vai entender isto facilmente lendo abaixo a entrevista de Carlos Veiner, um grande especialista no assunto, mas por favor, vá logo associando as coisas, juntando os pontinhos. uma Cidade Empresa (e o conceito não é de modo algum uma novidade na história humana) pressupõe cidadãos e hóspedes consumidores, ou seja, habitantes e visitantes turistas, com razoável poder aquisitivo para que a roda da fortuna metropolitana possa rodar.

O que fazer então quando a maioria esmagadora dos habitantes de uma cidade é gente mais que desvalida, favelada, desprovida de tudo? A gentrificação, processo diretamente ligado à implantação de cidades empresas, e que consiste na remoção da população indesejável para as periferias, funciona até uma margem bem limitada. Não se pode escorraçar, expulsar todo mundo, esvaziar uma cidade porque cidades fantasmas não dão lucro.

Expulsar multidões para as periferias é loucura, uma distorção explosiva do conceito Cidade Empresa, porque envolverá um esforço quase insustentável de articuladas ações de segurança pública (o que é, na verdade, o projeto das UPPs) processo que, rapidamente se transforma em esforço militar de alto risco, criando um grau de instabilidade e insegurança urbana que pode – e com certeza vai – tornar a cidade cada vez mais violenta, socialmente conflagrada e, portanto, cultural, turística e comercialmente inviável.

A opção brasileira pelo desenvolvimentismo desbragado e oportunista, sem planejamento e investimentos reais em inclusão social (educação, saúde, moradia, emprego) nos levará, inexoravelmente para o caos urbano, a desordem, a desobediência civil, a repressão e, por fim (e com todos os infelizmentes possíveis)…à Ditadura.

É o primado do oportunismo político institucional irmanado, rebaixado às raias da estupidez. Estamos sendo governados – a nível federal, estadual e municipal – por predadores vorazes, implacáveis como gafanhotos, a serviço dos mais baixos e torpes patrões e interesses. Logo o negrume e a fumaça nas ruas não será só dos garotos black blocs. Podemos ter que virar todos mascarados vândalos por mera necessidade de sobrevivência.

Tem mais jeito não: Vamos ter que nos livrar deles, por bem ou por mal.

Spirito Santo
Outubro 2013

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http://www.ifcs.ufrj.br/~lemetro/o_globo_paulo_thiago.pdf

(Entrevista concedida a Guilherme Freitas, para o Caderno Prosa e Verso de O Globo de 5 de Agosto de 2011)

“Desde os anos 1990, as sucessivas candidaturas do Rio a sede das Olimpíadas são justificadas com alusões ao caso de Barcelona, que promoveu um amplo processo de revitalização urbana por ocasião dos Jogos de 1992. Apoiadas por consultores catalães, autoridades cariocas investiram pesado na concorrência global para receber o megaevento, até atingirem o objetivo. Em entrevista ao GLOBO por telefone, o urbanista Carlos Vainer, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ, argumenta que o desejo de “vender” a imagem do Rio nesse mercado simbólico faz a cidade operar como uma empresa, onde a publicidade mascara as contradições sociais e o debate é silenciado pela necessidade de aproveitar a “oportunidade de negócios” trazida pelo megaevento.

O caso das Olimpíadas de Barcelona (1992) costuma ser citado como exemplo do uso de um megaevento para alavancar a recuperação de uma cidade. Que condições permitiram o sucesso do projeto na época?

CARLOS VAINER: Quando se transforma uma experiência específica em modelo, é preciso ter cuidado para não desenraizá-la das condições históricas em que aconteceu. Na época em que o projeto de Barcelona foi feito, a Espanha estava entrando na União Europeia e recebeu dotações milionárias que respaldaram aquele processo na cidade. Além disso, era o momento de redemocratização da Espanha, a nova Constituição reconhecia a autonomia de províncias como a Catalunha, e estava no poder em Barcelona um partido socialista que tinha compromisso com os movimentos sociais locais.

Tudo isso favoreceu a recuperação da cidade, inclusive do ponto de vista dos recursos financeiros. Mas hoje Barcelona também é objeto de críticas. Há uma grande desigualdade social na cidade, embora ela tenha agora uma área nobre que virou cartão-postal, como o Rio tem a Zona Sul. Há uma controvérsia na academia e nos movimentos sociais catalães sobre as consequências da hegemonia desse modelo competitivo adotado por Barcelona.

Como esse modelo pode ser definido?

É a transposição para a esfera pública de modelos de gestão e competição empresariais. A cidade passa a ser vista como uma empresa, que compete com outras cidades-empresa no mercado internacional. A cidade é reduzida a uma das suas dimensões, a econômica, e mesmo assim a apenas uma das faces dessa dimensão econômica, que é a empresarial. E a partir do momento em que se pensa a cidade como empresa, ela também passa a ser vista como mercadoria: como eu posso “vender” minha cidade para o mundo? É desse pressuposto que se desenvolve o marketing urbano, e Barcelona tem hoje o melhor do mundo, adotado como modelo pelo Rio. Porém, esse, como qualquer marketing, opera com uma perspectiva redutora da realidade: se você quer “vender” o Rio no exterior, não vai mostrar favelas, pobreza nem desigualdade. O marketing torna invisível tudo que não é uma virtude da mercadoria.

Como a mobilização em torno do megaevento influencia a identidade de uma cidade?

O megaevento age como um catalisador desse modelo, porque concentra toda a cidade num único símbolo. Segundo a sociologia urbana, a cidade se define por três aspectos: tamanho, densidade e diversidade. Isso é uma cidade: um lugar onde há muita gente, junta e diversa. Reduzir a cidade a uma única dimensão, seja a mulher bonita de Ipanema ou uma paisagem da Zona Sul, é esconder a diversidade, é a negação da cidade.

A cidade-empresa torna invisíveis as diferenças, porque ela vende não o que ela é, e sim o que quer parecer. É um processo simbólico que tem consequências concretas, como no caso das remoções no Rio. Cria-se a utopia de uma cidade sem pobres, mas os pobres existem nesta cidade. O que fazer? A solução encontrada é: mandar para longe esse elemento que corrompe o ideário da cidade perfeita. Só que esse ideário é irreal no Rio, porque a cidade está fundada sobre uma sociedade profundamente injusta.

Como a construção dessa imagem para consumo externo influencia a imagem que a cidade tem de si mesma?

Assim como há um marketing para fora, há um marketing para dentro. Produz-se uma autoimagem que também silencia parte da cidade. Numa cidade-empresa, é necessária a união de todos em torno de um objetivo comum, o que acaba eliminando a diversidade e o debate. O suposto consenso em torno desse objetivo comum restringe a discussão sobre o futuro da cidade. Quando alguém pergunta se devemos gastar tanto dinheiro com as Olimpíadas em vez de resolver o saneamento de uma cidade onde 40% dos domicílios não tem esgoto, ou por que fazer transporte público para a Barra da Tijuca, que não representa nem 20% das viagens diárias do Rio, em vez de para a Baixada e Niterói, que respondem por quase 80% das viagens, isso é tratado como traição ao objetivo comum. O megaevento é visto como uma oportunidade de negócios, e não se dá espaço para discussão, porque é preciso aproveitar a oportunidade.

Quais podem ser a consequências de se encarar o megaevento sobretudo como “oportunidade de negócios”?

A criação do que eu chamo de “cidade de exceção”. O megaevento gera toda uma legislação ad hoc, específica e casuísta, para aproveitar a oportunidade de negócios. A regra coletiva, pública, sucumbe diante de uma sucessão interminável de exceções: regime diferenciado de contratação, isenção tributária para hotéis, isenção fiscal e alfandegária para parceiros do COI.

Uma das leis aprovadas permite que os municípios se endividem com obras para a Copa acima da Lei de Responsabilidade Fiscal. Ou seja, não se pode superar o orçamento para fazer um hospital ou uma escola, mas para fazer um estádio, sim. Os municípios estão se endividando, e não se discute o que isso vai provocar nos próximos 10 ou 15 anos em termos de orçamento público. Nesse quadro, o que pode ser feito para que os megaeventos dessa década deixem, de fato, um legado positivo para o Rio?

A informação tem que circular. A sociedade precisa saber quais são os projetos, quanto custam e que impacto terão sobre o orçamento público hoje e amanhã. Precisa haver um controle social dos gastos. A maior parte dos investimentos para esses eventos é dinheiro público entregue a instituições privadas. Que retorno esse investimento terá? Cita-se muito o exemplo de Barcelona, mas outras Olimpíadas, como a de Atenas (2004), foram catástrofes.

Montreal até hoje paga dívidas das Olimpíadas de 1976. Também precisamos debater o planejamento da cidade. Por que parte da população tem que ser removida para a periferia? O argumento principal do governo é de que os terrenos no Centro são caros, mas temos a área portuária, onde cerca de 80% da terra é pública. Por que não aproveitar esse espaço para habitações de interesse social, em vez de entregá-los à iniciativa privada?

A imprensa sempre criticou a “cidade partida”, mas estamos aprofundando esse problema com as remoções, e isso é silenciado. Se a cidade é o lugar da diversidade, é necessário que coexistam, próximos uns aos outros, diferentes grupos sociais. Temos que impedir que se construam guetos, tanto dos pobres, com as remoções, quanto dos ricos, nos condomínios de luxo.”

O pé na porta: Uma representação solicitando a reavaliação dos resultados do Prêmio Funarte de Arte Negra


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Agora é oficial. REPRESENTAÇÃO À FUNARTE -Texto oficial

Já sabem, certo? O doc. foi entregue à Funarte-SEPPIR no dia 02 de Outubro pelo Titio numa comissão de 10 pessoas (nomes da tropa santa no post anterior)

Eu sei. Ninguém aguenta mais este assunto, mas é de lei que se insista porque a regra neste tipo de questão é a recorrente Lei do Abafa, com quem está com o seu na seringa contando com o tempo para esmaceacer os furos  e as queixas, o esquecimento toldando tudo e lançando os malfeitos na bruma do “ah…deixa pra lá”.

Além disto, tem aquelas coisas de questão de ordem. Quem apoiou precisa, merece ler, tim tim por tim tim o que está valendo por que foi escrito. Outras demandas virão em seguida a esta. Não adianta meter o pé só numa porta porque há sempre outra porta e mais outra e mais outra até que nos respeitem como gente normal que a gente está cansado de a gritar que é.

Eles não perdem por esperar.

Portanto, venha cá e leia. espalhe por aí que sim, que não é preciso se acomodar não, se submeter não, abaixar a cabeça para quem ou o o que quer que seja não.

Manda quem cobra, e ao ser cobrado, esclarece e obedece quem tem juízo

Cala a boca já morreu!

(Vão lendo aí:)

———————–

ILMO. SR. GOTSCHALK FRAGA

DD. PRESIDENTE DA FUNARTE

ILMA. SRa. LUIZA HELENA DE BAIRROS

DD.PRESIDENTE SEPPIR

Antônio José do Espírito Santo, brasileiro, casado, domiciliado à Rua Florianópolis, 1415, bloco 01 apt 303, Praça Seca Rio de Janeiro, RG número 11383 796 7, CPF número 252 846147 04, vem, mui respeitosamente à presença de V. Sa. expor para, ao final, requerer a não homologação dos resultados do Prêmio Funarte de Arte Negra 2012, pelos motivos e razões que passa a elencar:

PRELIMINARMENTE

A falta de transparência dos critérios de julgamento contaminaram de forma irreversível os resultados até aqui anunciados e publicados no Diário Oficial do último dia 03 de setembro próximo passado, comprometendo o prestígio do Prêmio e das instituições que o promovem;

Entre os fatos que provocaram forte suspeita entre os mais de 3 mil projetos concorrentes estão:

 

1 – Os 33 projetos premiados tiveram todos a mesma nota máxima, vale dizer – 100 pontos; Para que se chegasse a esse resultado há indícios fortíssimos de que os resultados teriam sido previamente combinados, uma vez que em condições normais é absolutamente impossível que projetos diferentes de áreas distintas como a dança, música, teatro, literatura e circo, tivessem a mesma pontuação.

2 – Pelo menos quatro dos premiados tem ligações estreitas ou presumíveis com representantes do Ministério da Cultura (MinC), o que contamina de forma explícita o resultado da premiação.

Que a Funarte e a SEPPIR, indiquem ou designem membros à Comissão Julgadora do Prêmio é uma coisa. Outra é a participação direta de altos representantes deste Ministério na definição dos projetos a serem premiados.

 

3 – Descumprimento explícito da cláusula do edital que estabelece que “os

proponentes devem comprovar em seu currículo experiência no desenvolvimento de atividades artísticas que conservam elementos das culturas de matriz africana e/ou realização de trabalhos com temas ligados à experiência social e política da população negra”.

DOS FATOS E DAS EVIDÊNCIAS

Há pelo menos dois projetos premiados – o de Michele Zgiet e de Samir Raoni –, este último do Coletivo Fora do Eixo do Pará, que se encaixam no afirmado no item 3 supra. A primeira, proponente citada na lista dos ganhadores do Prêmio, apresentou projeto com o nome “Casa Grande”, o que poderia soar como ironia, dada a referência ao clássico de Gilberto Freire que

consagra o “mito da democracia racial” justificador da modalidade de racismo vigente entre nós, não fosse a postura que passou a adotar tão logo viu seu projeto agraciado.

Inconformada com os questionamentos legítimos à falta de transparência e as suspeitas fundadas quanto aos resultados, tornados públicos nas redes sociais, a proponente do projeto “Casa Grande” Sra Michele Zgiet desencadeou uma campanha de rua em Porto Alegre, inclusive com coleta de assinaturas e enquetes, para desqualificar e desmoralizar as exigências quanto ao preenchimento do quesito raça/cor exigido pelo edital do Prêmio.

É sabido que o Edital do Prêmio – a verdadeira “lei” a regê-lo – estabelece como objetivo do certame:

 

“Dar aos produtores e artistas negros oportunidade de acesso a condições e meios deprodução artística” em conformidade com:

a)o Plano Nacional de Cultura (Lei 12.343/2010), especialmente no que se refere aos programas de reconhecimento, preservação, fomento e difusão do patrimônio e da expressão cultural dos e para os grupos sujeitos à discriminação e marginalização;

b)o Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010), que estabelece em seu artigo 4º, incisos IV e VI, a promoção de ajustes normativos para aperfeiçoar o combate à discriminação e às desigualdades étnicas e a implementação de incentivos e critérios de condicionamento e prioridade no acesso aos recursos públicos.

Não bastasse isso, os ítens a, b e c da cláusula 4.1 do Edital, rezam:

“Estão aptas a participar deste Edital, na condição de proponentes, pessoas físicas (artistas e produtores culturais) ou jurídicas (instituições privadas, com  ou sem finslucrativos, de natureza artística e/ou cultural) que atendam às seguintes condições:

a) Pessoas físicas – artistas ou produtores culturais que, no ato da inscrição, se

autodeclarem negros (pretos e pardos, de acordo com o instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE)

b) Pessoas jurídicas – instituições privadas cujo representante legal, no ato da

inscrição, se autodeclare negro (preto e pardo, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE).

c) Os proponentes, pessoa física ou jurídica, devem comprovar em seu currículo experiência no desenvolvimento de atividades artísticas que conservam elementos das culturas de matriz africana e/ou realização de trabalhos com temas ligados à experiência social e política da população negra dentro e fora do Brasil”.

Como considerar que alguém que publicamente desdenha da sua condição racial a ponto de promover campanha pública com larga alcance e repercussão nas redes sociais, possa preenchê-los?

SUSPEITAS FUNDADAS

É evidente o sentimento de fraude, de burla, de “malfeito”, que assalta a todos os que pretenderam se adequar as exigências propostas e investiram dias de trabalho na elaboração de projetos ao Prêmio Funarte de Arte Negra 2012.

Na avaliação deste quesito se verificou também que em muitos dos projetos agraciados, todos com nota máxima, pesquisando-se tanto o nome dos proponentes como o dos projetos, não foi encontrada NENHUMA referencia ou citação disponível. Alguns não possuem sequer perfil em uma rede social.

Presumindo-se que nos tempos atuais todo artista ou produtor com mínima relevância ou projeção pública em seu âmbito – condição sine qua non para o sucesso de sua atividade – não possa prescindir de manter atualizadas informações sobre o seu trabalho, os candidatos ao prêmio que não possuem currículos avaliáveis publicamente, de acordo com a regra expressamente ditada pelo edital, deveriam ter sido, simplesmente inabilitados para este item dada a insuficiência de comprovação de sua relevância em relação aos demais.

Mesmo que a inabilitação não fosse realizada, ainda assim, em nenhuma hipótese estes candidatos poderiam obter nota máxima e conquistar o prêmio, o que torna a sua seleção, obviamente questionável.

É por demais evidente, a não ser que tenham currículos excepcionais, mantidos em sigilo por razões explicáveis, que estes candidatos não poderiam ser tão bem classificados, o que justifica plenamente a reavaliação dos resultados neste aspecto.

Não aconteceu nem uma coisa nem outra: nem foram inabilitados como seria de esperar. E pior: foram anunciados até aqui como vencedores do Prêmio, que envolve recursos na ordem de R$ 4,3 milhões do orçamento público.

DAS ETAPAS DA AVALIAÇÃO

A cláusula 7.1, item b, do Edital diz que:

 “Os projetos inscritos e os respectivos proponentes serão avaliados em 3 (três)

etapas:

b)Etapa 2 – Da avaliação da Comissão de Seleção – avaliação de todos os projetos habilitados na etapa 1, de caráter classificatório, segundo os critérios previstos neste Edital;”

Chama neste caso a atenção para a atribuição inexplicável de 34 notas máximas pela comissão julgadora, englobando os 33 premiados mais um.

Ora, se a seleção determinada pelo edital era de caráter classificatório, ou seja, determinaria quem são os 33 melhores classificados o quesito desempate, expressamente previsto no Edital teria que ser, obrigatoriamente observado. Como é possível que tenha sido solenemente ignorado, sem maiores explicações. Melhor dizendo: sem explicação alguma.

Por outro lado, a suspeita de resultados combinados salta aos olhos na medida que só por uma probabilidade matemática desconhecida, se poderia admitir que 34 propostas pudessem empatar com a nota máxima, exata, de 100 pontos.

COMISSÃO JULGADORA AMPLIADA?

Também é fora de dúvida o desacordo entre o número de membros da Comissão de seleção (12, dos quais seis indicados pela Funarte e seis indicados pela SEPPIR), previsto na cláusula 9.1 do edital do Prêmio e a comissão que efetivamente atuou na seleção. Leia-se:

 

“A avaliação será realizada por uma Comissão de Seleção composta por 12

membros, dos quais 6 serão indicados pela Funarte (sendo um para cada linguagem relacionada no item 1.2) e 6 indicados pela Secretaria de Políticas de Promoção da igualdade Racial.

Como se vê o edital fala de 12 membros da comissão avaliadora, mas na verdade a seleção foi realizada por 18. Quem seriam os seis membros suplementares? Por quem foram indicados? Onde está a previsão no edital destas indicações?

As respostas a tais perguntas pertinentes e urgentes continuam encobertas por um véu de mistério que só faz aumentar as suspeitas fundadas que até aqui pairam sobre a fabricação de resultados que maculam o prestígio do Prêmio e da instituição que o promoveu.

FAVORECIMENTOS?

A suspeita de favorecimentos se evidencia com a explicita violação da cláusula 9.2 que diz:

 

‘Os membros da Comissão de Seleção ficam impedidos de apreciar as propostas:a) nas quais tenham interesse direto ou indireto;’

O caso mais evidente a violar a norma editalícia é o de Samir Raoni, membro da Rede Juvenil de Pontões de Cultura do MinC, notoriamente ligado ao programa Cultura Viva. As ligações do proponente ganhador também são diretas e notórias com o membro da banca de jurados, Sr. Alderban da Silva Batista , representante técnico e subchefe da representação regional do MinC

Norte, sediada em Belém do Pará.

Também é notória a ligação do referido ganhador com o titular da representação do MinC em Belém, Delson Cruz, além de ser conhecido líder da secção regional do Coletivo Fora do Eixo, com o qual o Ministério da Cultura em Belém, mantém – ou manteve- sólidos e públicos vínculos.

Outro aspecto a ensejar questionamentos legítimos e estranheza é fato de que apesar de Samir Raoni e seus projetos estarem notoriamente implantados e sediados em Belém do Pará, o projeto foi inscrito como sendo de São Paulo, onde segundo consta o referido premiado reside hoje.

As mesmas suspeitas de favorecimento pairam sobre outros proponentes-ganhadores do Prêmio, como é o caso de Elen Linth Marques que concorreu estranhamente pelo Estado do Amazonas (onde nasceu) embora saiba-se que suas ligações profissionais e relações institucionais estão localizadas no eixo Brasília – Salvador – Rio de Janeiro.

São dignas de nota as relações em algum momento estreitas de Elen Linth com o Conselho Nacional da Juventude (Conjuve) da qual foi presidente duas vezes e exerce ou exerceu a função de membro. Ressalte-se que o Conjuve é um órgão da Secretaria geral da Secretaria Geral da Presidência da República.

A este respeito ressalte-se também fato de também integrar o Conjuve (de cuja presidência foi até candidato) o chefe da representação regional do MinC de São Paulo, senhor Valerio Bemfica.

Chame-se a atenção neste mesmo sentido para o fato do nome de Elen Linth figurar em listas de editais de financiamento estatal (cinema) entre eles um da Fundação Cultural da Bahia, junto com o sr. Luiz Henrique Santos Oliveira Sena, chefe da regional do MinC do Estado da Bahia e, também jurado do prêmio aqui abordado.

São do mesmo modo suspeitos os vínculos estreitos e antigos de Estevão Haeser, marido da proponente premiada Michele Zgiet – e verdadeiro autor intelectual e coordenador do projeto “Casa Grande”– com a cúpula da Bienal do Mercosul – vale dizer do Programa Cultura Viva – integrando uma coordenação pedagógica da Bienal.

Estabelecido um padrão pela ocorrência de, pelo menos quatro nomes relacionados a membros do júri, pode-se deduzir que haja outros casos de favorecimento eventual, o que já é suficiente para lançar graves e importantes suspeitas sobre o resultado geral.

O aspecto mais preocupante destes eventuais vínculos entre premiados e jurados, ressalte-se, é o fato deles, eventualmente terem ocorrido (se é que ocorreram), com os jurados indicados pelo MinC/ Funarte, a maioria composta por representantes regionais do MinC em áreas específicas e estratégicas do país (com exceção de Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo).

Causa estranheza, sobretudo a escalação de figuras de tão alto escalão no âmbito do ministério para a função de jurados nesta banca.

Mesmo que esta coincidência na convocação destes jurados tenha se dado por conta de recorrentes dispositivos protocolares internos, a relação entre a banca de jurados e premiados, mais ou menos evidente pelo menos nos casos citados, fere diretamente esta regra do edital e indica como regra de bom senso a necessidade da não homologação do resultado, antes que haja solicitação de investigação ao Ministério Público.

Em face do exposto diante das suspeitas fundadas que pairam sobre os resultados do Prêmio, e para que se preserve o bom nome dos concorrentes e das instituições públicas envolvidas, na condição de artista negro e de cidadão, o signatário requer de V. Sa. sejam adotadas e tornadas públicas as seguintes providências:

 

1 – a não homologação dos resultados do Prêmio Funarte 2012, já encerrada a fase de julgamento de recursos, até que essas e outras suspeitas sejam esclarecidas à opinião pública brasileira;

 

2 – a designação de uma Comissão de Alto nível, com independência para promover, no prazo de 30 dias, uma auditoria dos projetos anunciados como ganhadores, reavaliá-los do ponto de vista de sua adequação com as condições exigidas no edital;

 

3 – a referida Comissão terá poderes para: a) confirmar os resultados, após

reavaliar os ganhadores; b) apontar as irregularidades que detectar na avaliação dos projetos anunciados como vencedores, indicando o seu cancelamento por vícios e inadequação aos requisitos do edital; c) sugerir a realização de nova apreciação dos projetos com a designação de nova comissão julgadora para apreciar os projetos e anunciar os novos vencedores no prazo de 60 dias.

N. Termos

P. Deferimento

Rio de Janeiro, 02 de Outubro de.2013

Antonio José do Espírito Santo

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Notas suplementares (após reunião com presidente e assessores da Funarte:

A -Com referência ao ítem 1, um detalhe surpreendente revelado pelo assessor da Funarte Sr. Oswaldo Guimarães, trouxe mais complicações ainda para os organizadores.

Inquirido sobre incrível ocorrência de 34 empates no resultado, fato expressamente proibido pelo edital que determina que se proceda o desempate se houver “empate entre dois ou mais projetos”, Oswaldo Guimarães acentua que, na verdade o empate originalmente se deu entre…40 projetos (!).

Diante da absoluta estupefação da comissão, o Sr. Oswaldo insistiu que realmente o incrível empate teria se dado. Ora, não é nem preciso convocar o matemático Oswald de Souza para se atestar que a probabilidade de 40 projetos, numa banca de 18 jurados empatarem com a nota máxima, é praticamente ZERO.

Mas não é só isto. Lembrado da regra do edital que exigia o desempate, informou que este teria se dado sim e o edital foi seguido, mas no ato do desempate ocorreu NOVO (!) empate, o que teria obrigado a comissão a decidir a lista de contemplados de forma canhestra, pois decidiu-se  então REBAIXAR  a nota de sete projetos segundo critérios que o assessor não explicou bem.

Ou seja, não só não se seguiu a regra do edital de proceder o desempate, como se rebaixou, sem nenhum amparo no edital a nota real de sete projetos, contaminando assim, de forma irreversível todo o resultado, tornado absolutamente ilegítimo.

Seria o caso dos sete classificados que tiveram as suas notas rebaixadas exigirem em juízo a devolução de suas notas reais, originais e a recontagem de TODAS as notas do concurso, já que, como se disse é inadmissível sob qualquer lógica que o empate entre 40 propostas se desse e que, o que é pior, que se proclamasse o resultado sem desempatar os 34 que aparecem com nota igual e máxima.

B- Com relação à banca de jurados que no edital constava como sendo 12 e que na realidade passou a ser composta por 18 membros, os assessores alegaram que as razões foram de natureza técnica, pois o número de candidatos estava aquém da capacidade de uma banca de 12. Contudo, defrontado com o fato de que esta alteração do número de jurados não havia sido comunicada na página do edital a qual os candidatos tiveram acesso, declararam, primeiro que a portaria estava acessível no Diário Oficial, o que evidentemente não bastaria para legitimá-la e depois, já no dia seguinte, passaram a afirmar que ela constava sim da página do edital.

Ocorre que na pesquisa que fizemos logo depois da proclamação do resultado, efetivamente a portaria não constava. Não voltamos para conferir agora, mas se constar agora, a assessoria teria inserido a portaria a posteriori, cometendo um grave erro de má fé, facilmente detectável em pesquisa das postagens do site

O mais grave nesta questão contudo é que os seis jurados acrescentados à lista, estranhamente eram todos da cúpula do MinC, entre os quais encontramos em nossa pesquisa alguns com vínculos diretos com premiados, o que é também expressamente proibido pelo edital. Inquiridos sobre quem indicou jurados do MinC, o assessor Oswaldo Guimarães aventou a possibilidade de ter sido a Fundação Cultural Palmares que, a propósito, nem direito de indicar jurados teria, já que o concurso é gerido pela Funarte e pela SEPPIR.

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Enfim, sabemos que a cúpula do Ministério da Cultura se encontra em viagem à Alemanha, mas  aguardamos ansiosamente respostas para tão claras evidências de favorecimentos e descumprimento das regras do edital do Prêmio Funarte de Arte Negra.

#cansadodeserenganado

Spírito Santo

Outubro 2013

AfroPress e Prêmio Funarte de Arte Negra. Mídia convencional nota zero


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Uma necessária ressalva:

A agencia de notícias on line AfroPress do aguerrido Dojival Vieira, foi o único órgão de imprensa a cobrir esta nossa ação – agora coletiva – contra os suspeitíssimos resultados do Prêmio Funarte de Arte negra, até aqui. O silêncio omisso da imprensa convencional diante do tema, contudo é bem condenável.

Há não muito tempo atrás aceitei de bom grado participar de uma pauta de O Globo. Era sobre o embargo na justiça, por parte de um juiz maranhense do que o Jornal chamou de “Editais Raciais”. Outras quatro pessoas deram depoimentos, Cacá Diegues, João Carlos Rodrigues, Lázaro Ramos e Joel Zito.

Todos sabem das renitentes posições de O Globo contra ações afirmativas. Interessante e positivo, portanto o jornal ter se mostrado disposto a promover um debate sobre isto.

Agora, desta feita acessei o jornalista responsável pela outra matéria com a sugestão de que o debate atual sobre os resultados do prêmio arte negra poderia ser de interesse público, já que era um desdobramento do tema levantado pela matéria da outra ocasião.

Existe, aliás agora um ponto muito controverso imiscuído no assunto que são as idiossincrasias da auto declaração, cláusula crucial do concurso citado, com pessoas aparentemente brancas, usando de má fé para usufruir de ações afirmativas expressamente voltadas para a população negra, etc.

Tudo bem que a editoria do jornalão tivesse considerado a pauta irrelevante, mas custava pelo menos ao jornalista retornar os emails com alguma resposta ou posição? Um não protocolar, uma opinião, custava?

Ao que fica parecendo, interessam-se por um tema segundo os seus próprios interesses (o interesse do editor chefe, do patrão, dos empresários, do governo).

Ora, toda imprensa, por menos independente que seja, precisa ter algo a ver com interesse público. Responder á sugestões de pauta é uma regra básica nas relações dos jornalistas com o público leitor.

Resultado: Não escrevo cartas de leitor para O Globo há anos, desde que percebi que censuram críticas e temas que não interessam ao editor chefe todo poderoso. Agora está decidido: não lhes sugiro mais nada. Já pouco leio o jornal. Lerei menos.

Como a ação que empreendemos foi muito bem difundida e bem sucedida até aqui por meio, unicamente do bom uso dos mui práticos recursos da internet, os jornalistas convencionais, estes do padrão O Globo, em suas torres de marfim, vão se tornando irrelevantes.

Vão se indispondo com seus leitores com esta pose de donos da verdade, submetendo-se aos interesses de governos impopulares, omitindo demandas justas da população. O que podemos esperar deles?

A desinformação, logo…que se danem.

http://www.afropress.com/post.asp?id=15542#.Uk9ohh5iHYc.facebook

Prêmio Funarte de Arte negra questionado na Funarte do Rio de Janeiro


Encontro Funarte15Titio e as valorosas pessoas

O fato já é notório: Entregamos em comissão no dia 02 último, na sede da Funarte no centro do Rio uma representação à Funarte-SEPPIR\Brasília solicitando uma averiguação sobre as eventuais irregularidades ocorridas na seleção do Prêmio Funarte de Arte Negra.

Na ocasião diversas pessoas da comissão (veja álbum do facebook aqui) puderam questionar pontos controversos das seleção com um dos coordenadores da banca de julgadores, Sr. Alexandre Guimarães, que se fez acompanhar por um advogado da instituição, Sr. Miguel Lobato.

A expectativa para com a aceitação de nossa solicitação é, evidentemente mínima. Ninguém está nesta de ingênuo. A negação desta, contudo pode ser a senha para que se encaminhe um pedido de investigação ao Ministério Público.

Leia aqui os diversos posts que o Titio postou sobre a pendenga, tire suas próprias conclusões e, se for o caso manifeste a sua concordância ou discordância. Vamos abrir um grupo no facebook e espalhar cópias de um abaixo assinado para que os interessados possam expressar o seu apoio e reforçar este nosso empenho.

A convocação foi feita num evento de facebook. Cerca de 40 pessoas confirmaram. 10 compareceram. A valorosa comissão que topou esta empreitada histórica de exercer o direito de questionar uma instituição pública federal de frente e cara a cara, foi formada pelas seguintes pessoas, aqui retratadas:

Spirito Santo
Iléa Ferraz
Lula Espírito Santo
Aristóteles Kandimba
Thomas Harres
Paulinho Sacramento
Julinho Barroso
Naira Fernandes
Lula Matos
Tata Mwana Pwo

Não se omita porque esta é uma questão de honra e cidadania.