A Maldição do “Brasil Grande”

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” Pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são”

O País Empresa da Carochinha ou, nem toda esquerda capitalista é da linha chinesa

Os melhores especialistas – e até os leigos mais atentos – cansam de dizer (avisar a gente avisa, não é?) mas a ficha demora a cair porque é quase impensável que isto esteja ocorrendo. Difícil entender autoridades públicas, eleitas, reconhecidas como progressistas, algumas identificadas até como sendo de esquerda, num ambiente supostamente de plena democracia, envolvidas num plano tão descaradamente capitalista e solerte, de natureza política tão arraigadamente fascista.

Mas é assim em 2013 e o no Brasil de 2014, com certeza será bem pior.

A mazela em sua cara mais aparente é, no Rio de Janeiro e em todas as maiores metrópoles do país, o conceito Cidade-Empresa, tornado ideologia de estado que se substancia e justifica na sanha desenvolvimentista destes governos, em todos os níveis da administrarão pública nacional, refletido num modelo de gestão muito semelhante àquele posto em prática pela ditadura militar: O “Milagre Brasileiro”, o “Brasil Grande”, o que dá lucro.

“Este é um país que vai pra frente, uôu, uôu, uôu, uôu, uôu!”, lembram?

Você vai entender isto facilmente lendo abaixo a entrevista de Carlos Veiner, um grande especialista no assunto, mas por favor, vá logo associando as coisas, juntando os pontinhos. uma Cidade Empresa (e o conceito não é de modo algum uma novidade na história humana) pressupõe cidadãos e hóspedes consumidores, ou seja, habitantes e visitantes turistas, com razoável poder aquisitivo para que a roda da fortuna metropolitana possa rodar.

O que fazer então quando a maioria esmagadora dos habitantes de uma cidade é gente mais que desvalida, favelada, desprovida de tudo? A gentrificação, processo diretamente ligado à implantação de cidades empresas, e que consiste na remoção da população indesejável para as periferias, funciona até uma margem bem limitada. Não se pode escorraçar, expulsar todo mundo, esvaziar uma cidade porque cidades fantasmas não dão lucro.

Expulsar multidões para as periferias é loucura, uma distorção explosiva do conceito Cidade Empresa, porque envolverá um esforço quase insustentável de articuladas ações de segurança pública (o que é, na verdade, o projeto das UPPs) processo que, rapidamente se transforma em esforço militar de alto risco, criando um grau de instabilidade e insegurança urbana que pode – e com certeza vai – tornar a cidade cada vez mais violenta, socialmente conflagrada e, portanto, cultural, turística e comercialmente inviável.

A opção brasileira pelo desenvolvimentismo desbragado e oportunista, sem planejamento e investimentos reais em inclusão social (educação, saúde, moradia, emprego) nos levará, inexoravelmente para o caos urbano, a desordem, a desobediência civil, a repressão e, por fim (e com todos os infelizmentes possíveis)…à Ditadura.

É o primado do oportunismo político institucional irmanado, rebaixado às raias da estupidez. Estamos sendo governados – a nível federal, estadual e municipal – por predadores vorazes, implacáveis como gafanhotos, a serviço dos mais baixos e torpes patrões e interesses. Logo o negrume e a fumaça nas ruas não será só dos garotos black blocs. Podemos ter que virar todos mascarados vândalos por mera necessidade de sobrevivência.

Tem mais jeito não: Vamos ter que nos livrar deles, por bem ou por mal.

Spirito Santo
Outubro 2013

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http://www.ifcs.ufrj.br/~lemetro/o_globo_paulo_thiago.pdf

(Entrevista concedida a Guilherme Freitas, para o Caderno Prosa e Verso de O Globo de 5 de Agosto de 2011)

“Desde os anos 1990, as sucessivas candidaturas do Rio a sede das Olimpíadas são justificadas com alusões ao caso de Barcelona, que promoveu um amplo processo de revitalização urbana por ocasião dos Jogos de 1992. Apoiadas por consultores catalães, autoridades cariocas investiram pesado na concorrência global para receber o megaevento, até atingirem o objetivo. Em entrevista ao GLOBO por telefone, o urbanista Carlos Vainer, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ, argumenta que o desejo de “vender” a imagem do Rio nesse mercado simbólico faz a cidade operar como uma empresa, onde a publicidade mascara as contradições sociais e o debate é silenciado pela necessidade de aproveitar a “oportunidade de negócios” trazida pelo megaevento.

O caso das Olimpíadas de Barcelona (1992) costuma ser citado como exemplo do uso de um megaevento para alavancar a recuperação de uma cidade. Que condições permitiram o sucesso do projeto na época?

CARLOS VAINER: Quando se transforma uma experiência específica em modelo, é preciso ter cuidado para não desenraizá-la das condições históricas em que aconteceu. Na época em que o projeto de Barcelona foi feito, a Espanha estava entrando na União Europeia e recebeu dotações milionárias que respaldaram aquele processo na cidade. Além disso, era o momento de redemocratização da Espanha, a nova Constituição reconhecia a autonomia de províncias como a Catalunha, e estava no poder em Barcelona um partido socialista que tinha compromisso com os movimentos sociais locais.

Tudo isso favoreceu a recuperação da cidade, inclusive do ponto de vista dos recursos financeiros. Mas hoje Barcelona também é objeto de críticas. Há uma grande desigualdade social na cidade, embora ela tenha agora uma área nobre que virou cartão-postal, como o Rio tem a Zona Sul. Há uma controvérsia na academia e nos movimentos sociais catalães sobre as consequências da hegemonia desse modelo competitivo adotado por Barcelona.

Como esse modelo pode ser definido?

É a transposição para a esfera pública de modelos de gestão e competição empresariais. A cidade passa a ser vista como uma empresa, que compete com outras cidades-empresa no mercado internacional. A cidade é reduzida a uma das suas dimensões, a econômica, e mesmo assim a apenas uma das faces dessa dimensão econômica, que é a empresarial. E a partir do momento em que se pensa a cidade como empresa, ela também passa a ser vista como mercadoria: como eu posso “vender” minha cidade para o mundo? É desse pressuposto que se desenvolve o marketing urbano, e Barcelona tem hoje o melhor do mundo, adotado como modelo pelo Rio. Porém, esse, como qualquer marketing, opera com uma perspectiva redutora da realidade: se você quer “vender” o Rio no exterior, não vai mostrar favelas, pobreza nem desigualdade. O marketing torna invisível tudo que não é uma virtude da mercadoria.

Como a mobilização em torno do megaevento influencia a identidade de uma cidade?

O megaevento age como um catalisador desse modelo, porque concentra toda a cidade num único símbolo. Segundo a sociologia urbana, a cidade se define por três aspectos: tamanho, densidade e diversidade. Isso é uma cidade: um lugar onde há muita gente, junta e diversa. Reduzir a cidade a uma única dimensão, seja a mulher bonita de Ipanema ou uma paisagem da Zona Sul, é esconder a diversidade, é a negação da cidade.

A cidade-empresa torna invisíveis as diferenças, porque ela vende não o que ela é, e sim o que quer parecer. É um processo simbólico que tem consequências concretas, como no caso das remoções no Rio. Cria-se a utopia de uma cidade sem pobres, mas os pobres existem nesta cidade. O que fazer? A solução encontrada é: mandar para longe esse elemento que corrompe o ideário da cidade perfeita. Só que esse ideário é irreal no Rio, porque a cidade está fundada sobre uma sociedade profundamente injusta.

Como a construção dessa imagem para consumo externo influencia a imagem que a cidade tem de si mesma?

Assim como há um marketing para fora, há um marketing para dentro. Produz-se uma autoimagem que também silencia parte da cidade. Numa cidade-empresa, é necessária a união de todos em torno de um objetivo comum, o que acaba eliminando a diversidade e o debate. O suposto consenso em torno desse objetivo comum restringe a discussão sobre o futuro da cidade. Quando alguém pergunta se devemos gastar tanto dinheiro com as Olimpíadas em vez de resolver o saneamento de uma cidade onde 40% dos domicílios não tem esgoto, ou por que fazer transporte público para a Barra da Tijuca, que não representa nem 20% das viagens diárias do Rio, em vez de para a Baixada e Niterói, que respondem por quase 80% das viagens, isso é tratado como traição ao objetivo comum. O megaevento é visto como uma oportunidade de negócios, e não se dá espaço para discussão, porque é preciso aproveitar a oportunidade.

Quais podem ser a consequências de se encarar o megaevento sobretudo como “oportunidade de negócios”?

A criação do que eu chamo de “cidade de exceção”. O megaevento gera toda uma legislação ad hoc, específica e casuísta, para aproveitar a oportunidade de negócios. A regra coletiva, pública, sucumbe diante de uma sucessão interminável de exceções: regime diferenciado de contratação, isenção tributária para hotéis, isenção fiscal e alfandegária para parceiros do COI.

Uma das leis aprovadas permite que os municípios se endividem com obras para a Copa acima da Lei de Responsabilidade Fiscal. Ou seja, não se pode superar o orçamento para fazer um hospital ou uma escola, mas para fazer um estádio, sim. Os municípios estão se endividando, e não se discute o que isso vai provocar nos próximos 10 ou 15 anos em termos de orçamento público. Nesse quadro, o que pode ser feito para que os megaeventos dessa década deixem, de fato, um legado positivo para o Rio?

A informação tem que circular. A sociedade precisa saber quais são os projetos, quanto custam e que impacto terão sobre o orçamento público hoje e amanhã. Precisa haver um controle social dos gastos. A maior parte dos investimentos para esses eventos é dinheiro público entregue a instituições privadas. Que retorno esse investimento terá? Cita-se muito o exemplo de Barcelona, mas outras Olimpíadas, como a de Atenas (2004), foram catástrofes.

Montreal até hoje paga dívidas das Olimpíadas de 1976. Também precisamos debater o planejamento da cidade. Por que parte da população tem que ser removida para a periferia? O argumento principal do governo é de que os terrenos no Centro são caros, mas temos a área portuária, onde cerca de 80% da terra é pública. Por que não aproveitar esse espaço para habitações de interesse social, em vez de entregá-los à iniciativa privada?

A imprensa sempre criticou a “cidade partida”, mas estamos aprofundando esse problema com as remoções, e isso é silenciado. Se a cidade é o lugar da diversidade, é necessário que coexistam, próximos uns aos outros, diferentes grupos sociais. Temos que impedir que se construam guetos, tanto dos pobres, com as remoções, quanto dos ricos, nos condomínios de luxo.”

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~ por Spirito Santo em 18/10/2013.

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