Arte Negra lavada: Relatório final e sumário do Titio


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Porta do MP

A saga do questionamento do Prêmio Funarte de Arte Negra, com a entrega ontem de uma representação ao Ministério Público, chegou a sua fase final.

Envolvido, pessoalmente, até os ossos, no embate contra os realizadores do concurso, ontem pude enfim descansar.

Foi uma das experiências mais incríveis e desgastantes da vida. Um embate formidável na linha limite entre o que é e o que não é ético, entre a razão e o ressentimento, entre o eu rebelado e o coletivo apático, as pessoas aferradas ao senso comum, forçando poderosamente a rebeldia para trás e para baixo, para o comodismo e a subserviência.

Para quem não acompanhou aqui vai uma resenha:

Ato 01- Em 2011, artistas negros protestaram contra o resultado de um edital na área do Minc-Funarte, no qual moças brancas foram agraciadas com o direito de gerir um teatro no qual o eixo das atividades, naquele ano seria a cultura negra. Hilton Cobra, líder de um grupo de artistas negros (da Cia de teatro dos Comuns) foi o protestante mais veemente, sugerindo a ocorrência de favorecimento ilegal e fraude nos resultados.

Ato 02- 2012. No bojo de um ambiente favorável á promoção de ações afirmativas para negros, o Minc, da recém empossada Martha Suplicy lança o Prêmio Funarte de Arte Negra, voltado e x c l u s i v a m e n t e para artistas e produtores autodeclarados negros. Hilton Cobra, o rebelde de 2011 é alçado a condição presidente da Fundação Cultural Palmares, orgão do MinC voltado, exatamente para a cultura negra do país. A gestão do concurso, contudo é partilhada pela Funarte, com sua reconhecida expertise em editais de cultura e a SEPPIR, espécie de ministério voltado para a promoção de políticas de igualdade racial. Tudo correto e promissor portanto.

Ato 03- Depois de várias peripécias, entre as quais o embargo, por parte de um juiz federal deste e outros editais do MinC conhecidos, grosso modo como “editais negros”, sob a acusação de que os ditos eram racistas e inconstitucionais, o PFAN foi enfim realizado, com a divulgação dos 33 agraciados em outubro de 2013.

Ato 04- A princípio ressentidos com o fato de não termos sido agraciados, promovemos uma investigação pente fino, na lista de premiados, encontrando, estranhamente trabalhos, em sua maioria inteiramente desconhecidos no meio artístico negro, descobrindo também inúmeros indícios de favorecimento e descumprimento do edital, entre os quais a incrível premiação de indivíduos brancos (que se declararam negros), relações pessoais explícitas entre premiados e jurados, além da ocorrência de um totalmente improvável empate entre 40 projetos, empate este transformado pela comissão avaliadora, num novo empate, agora entre 34 candidatos, em desacordo total com o edital que exigia, cabalmente a necessidade de se proceder, de forma irrecorrível o desempate, já que o concurso tinha o caráter classificatório.

Ato 05- Decidido a colocar em debate público as muitas evidências de fraude e favorecimento que foram se avolumando na investigação que fiz, utilizando o formidável recurso das redes sociais promovi então um amplo e intenso debate, no ensejo do qual, a manifestação de premiados e não premiados me ajudou a recolher mais e mais evidências, tantas que foi possível montar um detalhado dossiê com links, documentos oficiais, prints e fotos, que na medida do possível e na opinião da maioria dos debatedores, atestavam a necessidade de se sustar a premiação para se promover uma auditoria nos resultados.

Ato 06- De forma absolutamente transparente, e já a esta altura auxiliado e assessorado pelo advogado e jornalista Dojival Vieira e sua agência de notícias on line “AfroPress“, instamos os órgãos envolvidos diretamente (Funarte e SEPPIR) a se manifestarem, recebendo a princípio apenas uma nota da SEPPIR, reconhecendo, oficialmente a gravidade das evidências.

No detalhe o telefone do Ministério Público para consultas de qualquer um interessado e o número do protocolo.

No detalhe o telefone (a lápis) do Ministério Público para consultas de qualquer um interessado e o número do protocolo.

Ato 07- Logo após a publicação do primeiro dossiê, recebemos um telefonema privado do presidente da Fundação Palmares, negando, de sua parte qualquer irregularidade. Muitos dias mais tarde recebemos também telefonema pessoal do presidente da Funarte, sr. Gotschalk (Guti) Fraga, com o qual, efetivamente nos encontramos e, no dia seguinte, já acompanhado de uma comissão de 10 pessoas, participamos de uma reunião na sede desta Funarte com o procurador geral da instituição, sr. Miguel Lobato e um de seus diretores, sr. Alexandre Guimarães, ligado á realização do concurso.

Com exceção da SEPPIR, em todos os encontros, apesar das profusas evidências, estas autoridades (oficialmente, no caso da Funarte, em nota e respondendo a uma representação por nós encaminhada) negaram, peremptoriamente qualquer irregularidade e se recusaram a promover uma auditoria interna, nossa principal proposta.

Ato 08- Depois de todos estes episódios, findas todas as tentativas, procuramos enfim o Ministério Público Federal, afim de consultar sobre a pertinência de uma representação oficial. Aconselhados a representar sim, informados de ser este um direito inalienável de todo cidadão numa democracia, entregamos então ao MP todas as evidência recolhidas, solicitando uma investigação, caso as evidências sejam consideradas, juridicamente pertinentes.

(Coincidentemente, exatamente agora ficamos sabendo que a AGU conseguiu derrubar a liminar do juiz maranhense e o prêmio já pode ser pago aos agraciados)

Ah se eu fosse o Ministério Público…

Foi uma experiência inigualável, inesquecível, mas não contem comigo para repetí-la..pelo menos sozinho.

Como aprendi da alma brasileira neste incidente! A rigor estamos tão habituados com certos modos imorais de ser que naturalizamos práticas as mais condenáveis. Os poucos que se insubordinam são tratados como loucos ou mesmo imbecis. Ninguém, simplesmente acredita no óbvio ditado por evidências. Ou, melhor ainda, acreditam sim, mas acham que “é assim mesmo”, mesmo quando são os maiores prejudicados.

No caso aqui, vejam o me me apareceu, cavucando evidências apenas na rede:

O Prêmio Funarte de Arte Negra não é, absolutamente um caso isolado, ocasional. Na verdade as eventuais irregularidades ocorridas nada têm a ver com negros. Os possíveis favorecimentos para candidatos ligados ao movimento negro governista, se ocorreram foram residuais, marginais e subalternos.

O problema real, o mais evidente, nos remete a um esquema montado no MinC (a rigor como em outros ministérios) caracterizado por uma rede de compadrio e favorecimento, provavelmente articulada desde 2005 no âmbito do Programa Cultura Viva.

(Triste ter que reconhecer isto. O Cultura Viva era o que de melhor parecia haver na área cultural da chamada “Era Lula“. Nem o bom nome de Gilberto Gil livrou o Cultura Viva de ser melado pelas práticas comuns deste pessoal.)

São ongs e indivíduos articulados em redes, pontos de cultura, entidades de mídia livre, etc. geralmente ligados a instâncias do partido no governo (não por ideologia, mas por mafiosas intenções mesmo). Provavelmente, o nome de alguns destes premiados no Arte Negra, aparecem como premiados também em inúmeros outros editais na área da cultura institucional pelo Brasil afora, anos a fio.

Ao que tudo indica, o que se descobriu no caso do Arte Negra é apenas a ponta de um iceberg, o fio da meada de um enorme esquema sorvedor de verbas públicas.

Coisa de cachorros grandes.

Um balanço emocional em notas frias finais.

Foi muito desgastante manter a chama do protesto acesa, em meio a uma maioria de participantes preteridos que se mantiveram omissos uns e reacionários outros, num turbilhão de comentários desanimadores, do tipo “isto não vai dar em nada”, “denunciar não é ético”, “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, etc.

O que segurou a onda do Titio foi o razoável número de incentivadores, na rede e, principalmente os membros da comissão que me acompanhou na sede da Funarte (veja os nomes neste link do facebook)

Não sei, exatamente a que atribuir esta quase maciça omissão, este “coro dos contentes”. Resquícios do medo do tempo da ditadura, ainda residualmente existente, talvez a crença oportunista de que se manifestando a pessoa perderia o “direito” de ser favorecida em concursos posteriores, envolvimento e cumplicidade pessoal em projetos favorecidos, vínculos políticos partidários em redes de compadrio, etc.

Muitas razões moralmente questionáveis, enfim, um problema aliás muito proeminente no Brasil.

Ministério Público representaçãoNota decepcionada também para a Fundação Palmares (que soubemos pela Funarte ter estado mais envolvida no processo do concurso do que oficialmente se poderia perceber) e a SEPPIR, que apesar de ter respondido ás denúncias com uma corajosa nota, ambas se mantiveram, totalmente omissas e alheias à necessidade de um encontro direto com nossa comissão. Muitas coisas importantes tínhamos a dizer.

Aliás, muitos problemas ligados ás relações políticas internas entre estas duas instituições negras e seus pares ‘brancos’, Funarte e MinC, os bastidores da realização deste e de outros concursos, enfim, as entranhas de tudo ligado ás políticas públicas do setor, indicam problemas se anunciando por aí.

Apenas puxando um fio desta meada por exemplo, descobriu-se antigos e sólidos vínculos diretos (comerciais e pessoais) entre agentes, funcionários do MinC e o Coletivo Fora do Eixo, indigitado esquema de captação de verbas públicas meio que desmascarado em recentes e turbulentos incidentes e ainda se esgueirando pelos balcões, por aí.

Se eu fosse o MP…

Foi também muito decepcionante a participação, não menos omissa da imprensa nos incidentes.

Neste sentido enviamos, após consulta preliminar dados do dossiê que escrevemos para dois importantes jornais, entre os quais O Globo, (por meio dos jornalistas Flávia de Oliveira e Arnaldo Bloch, com quem havíamos colaborado prontamente em matéria anterior que polemizava, exatamente os chamados “editais negros“) e a Folha de São Paulo, com o repórter Guilherme Genestreti, muito interesssado após ler o material, nas que do nada sumiu.

Claro que as pautas eventuais teriam que ser decididas por um editor, mas a absoluta falta de feed back depois de receberem o material solicitado pode dar bem a medida do descaso da imprensa por assuntos de baixa relevância comercial.

No geral, neste particular ficou a impressão de que a grande imprensa tem pouco interesse por questões ligadas ao debate anti racista e a adoção de políticas de afirmação étnico racial. Há em geral pouco respeito pela opinião pública em assuntos que, embora sendo relevantes para muitos, não servem, diretamente para vender jornais.

Importante se ressaltar que neste caso, com uma taxa tão baixa de confiança da população na justiça brasileira, a repercussão na imprensa teria sido uma força considerável e fundamental no nosso caso.

Contudo, nestes finalmentes ficou mais relevante que tudo a lição de que o poder de questionar e se rebelar contra o que se considera injusto pode e deve ser exercido, cada vez mais, pois é o meio mais eficiente de se mover o mundo de lugar.

Dando no que der, decidindo o MP o que decidir, como disse antes por aí, só o fato de saber que há um fogo esquentando a mufa e a bunda desta gente, já é um sucesso e tanto.

Duvido se os editais futuros não vão mudar.

Cala boca já morreu! Fui tomar um ar.

Spirito Santo.
Dezembro 2013

Madiba, Mandela e a segunda morte do “negro insolente”


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Mandela, MadibaOs racistas pululam no Brasil.

Temos agora até racista de esquerda (os petistas do bem que me perdoem, mas os “do mal”, estão queimando todo o filme de vocês).

Vestem quase todos – os racistas aos quais me refiro – camisetas vermelhas, alguns com estrelas também rubras. Rotos e ao mesmo tempo esfarrapados eles são esquerdistas enfáticos. Adoram aparecer. É o que estamos descobrindo agora nestes tempos pós mensalão.

_”De onde menos se espera, daí é que não vem nada mesmo”_ bem dizia o Barão de Itararé, cujo título-piada vem daquela batalha da Guerra do Paraguai que nunca aconteceu.

Deu num tal de blog da convergência  que tem como subtítulo “socialismo em movimento” (hum…só se for movimento para trás e para baixo) Talvez seja um destes blogs da tropa de choque petistas & assemelhados, estes que andam defendendo mensaleiros por aí.)

O autor da “pérola” jornalística é um tal de Rui Braga. Quem me manda o artigo, solicitando opinião é o amigo de facebook  Betto Della Santa .

Por mais estranho que possa parecer o que lerão abaixo é o pensamento mais recorrente daqueles grupelhos que, desgraçadamente ainda chamamos de esquerda no Brasil. “Socialistas“, se dizem. Com esquerdistas como estes – porca miseria! – quem precisa de direitistas?

É impressionante como vão caindo no descrédito mais constrangedor estes aí, isolando-se em posições dogmáticas ultrapassadas, muito mais por cinismo e pretensa esperteza do que por ignorância, assumindo bandeiras de plástico amarfanhadas, que desmoralizam os mais caros princípios daquilo que se convencionou chamar de socialismo, mostrando uma cara, surpreendentemente conservadora e imoral, sem pudor algum diante do espelho da História.

Só para se ter uma ideia do baixo nível a que chegaram, os mensaleiros condenados que eles defendem como quixotes sujos, exibiram na cadeia, logo que chegaram tanta arrogância e empáfia de poderosos, exigindo mordomias e trato diferenciado, quase como aristocratas da revolução francesa, que agora a Vara de Execuções Penais de Brasília se vê às voltas com uma ameaça de rebelião dos outros presos, os comuns.

Perderam a noção do perigo.

Estão se aboletando na trincheira das mais imundas que a nossa política já presenciou, afundando na lama com os punhos cerrados e as mãos sujas, fechadas, escondendo sabe lá o que. Quem vê graça agora no gesto que eternizava, simbolizava a resistência e a rebeldia dos que lutam pelo bem comum? Desmoralizaram até o gesto da causa mais cara de muitos de nós.

Já perderam a compostura atacando o negro Joaquim Barbosa, transformado em “ditador” do STF, um tribunal com cerca de mais 10 juízes…brancos. Agora, atacam Nelson Mandela, cujo brilho moral inquestionável lança luzes sobre a baixeza moral deles.

Uma esquerda racista. Onde já se viu? E que ainda cita Walter Benjamim

Vão lendo aí:

                  “Mandela: um legado contraditório

Rui Braga

“O grande símbolo da resistência ao apartheid racial morreu no dia 5 de dezembro passado. Quando penso em Nelson Mandela logo me vem à mente a icônica imagem do dia de sua libertação. Após 27 anos de encarceramento, emergiu um sorridente herói do povo, cumprimentando com seu punho direito erguido a massa que o acolheu como o incontestável guardião dos sonhos de sua emancipação.

É difícil descrever a sensação que tive quando assisti pela TV esta cena. Foi um momento glorioso daquilo que Walter Benjamin chamou de “tradição dos oprimidos”: subitamente, o caudaloso fluxo da dominação detem-se por um instante, deixando antever a ainda nebulosa fisionomia da liberdade vindoura.”

…”O fluxo da dominação detêm-se por um instante…“. Hum…Niilista de fancaria. Este fatalismo, este atavismo improvável assim insinuado, esta sugestão de que a dominação colonialista é um mal infindável e irreparável soa muito conformista para um intelectual de esquerda. Soa estranho, sobretudo porque é a descrença assumida no sucesso de toda e qualquer revolução.)

“Fora da prisão, Mandela liderou a negociação estabelecida com o Estado fascista que sepultou o apartheid racial. “

Besteira e distorção: Nunca se “estabeleceu” na África do Sul – o articulista quase insinua que o regime racista foi quem o fez – uma negociação, simplesmente. Já está escrito e sacramentado nos anais da História que não. Ora, todos sabemos que não foi o estado nazista dos Afrikaners quem, espontaneamente sepultou o apartheid. O sepultamento do apartheid foi uma exigência irrecorrível, uma condição sine qua non do ANC e de Mandela (enquanto pivô da crise) para que se começasse a negociar. Curiosa a afirmação do articulista que, evidentemente sabe muito bem deste detalhe que omite, sabe-se lá porque)

“O empenho pacificador demonstrado durante a transição democrática garantiu-lhe o prêmio Nobel da Paz de 1993. Por isso, pode parecer fácil escrever sobre ele. “

Curiosa também a expressão “empenho pacificador“. Há um mal disfarçado sarcasmo na afirmação quando se observa que numa negociação tornada imperativa por um impasse tão absoluto, o “empenho pacificador” vem, forçosamente de ambas as partes. A transição democrática na África do Sul foi, na verdade um amplo processo de negociação entre partes antes em cruento conflito, ambas cientes de que uma parte não venceria sem que se destruísse irremediavelmente a outra ou – o que seria pior – a nação.

É curioso também o quanto estas afirmações solertes, forçam a personificação da política sul africana na figura de Mandela, fazendo recair tudo de bom ou de mal, sobre a sua figura, responsabilizando-o por uma saga política complexa e de de longo curso, empreendida, na verdade por um partido, do qual ele era apenas o líder mais proeminente ou célebre.

É claramente o paradigma racista que diz que o negro é, tem que ser: “o primeiro a chegar, o último a sair e o responsável por tudo que sumir”.

Ora, todo mundo sabe que Mandela esteve longe de ser um caudilho vaidoso, centralizador e autoritário (e nós do Brasil sabemos muito bem reconhecer um). Os erros e acertos da transição democrática na África do Sul devem ser, corretamente atribuídos ao ANC (e as representações partidárias brancas também, claro) já que Mandela sempre se submeteu às  decisões majoritárias do partido e a opção do regime liderado por ele foi a via democrática convencional (“um homem, um voto”, foi a sua condição, lembram?)

E segue a anta, vermelhinha de raiva:

“…Bastaria, por exemplo, elogiar sua sublime disposição de perdoar os opressores brancos. Aliás, é exatamente isso que tem feito toda a imprensa mundial. No entanto, gostaria de destacar um outro ângulo, ou seja, o projeto político que, ao sair da prisão, ele afiançou.

No final dos anos 1980, tão logo o Partido Nacional, com o domínio dos africânderes no governo, percebeu que iria ser derrotado pela resistência mais ou menos inorgânica de toda a sociedade civil sul-africana, iniciou-se um processo de negociação entre os fascistas e o maior partido anti-apartheid, isto é, o Congresso Nacional Africano (ANC). Ao longo dalguns poucos anos, o pacto social que deu origem à nova África do Sul foi urdido.

Conforme os termos do acordo, as tradicionais classes dominantes brancas manteriam o domínio e a propriedade de todos os setores econômicos estratégicos, transferindo progressivamente para o ANC o controle do aparelho de Estado.

Enquanto os ativos financeiros das principais empresas do país migravam para Londres em um avassalador movimento de fuga de capitais que acentuou a dominação econômica branca, o Partido Comunista Sul-Africano (SACP), o Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos (Cosatu) e o ANC formavam a coalizão conhecida como “Aliança Tripartite” que se transformou em uma poderosa máquina eleitoral, criando as condições para o estabelecimento de uma durável hegemonia alicerçada na “fusão” das principais forças anti-apartheid com o aparelho estatal.”

O nível da análise baixa ainda mais e fica ao rés do chão. “Negociação entre os fascistas e o ANC“? Como assim? É incorreta e até ofensiva esta afirmação. Caluniosa mesmo. Leiam de novo. O que o articulista afirma – baseado-se sabe-se lá em que, pois não cita suas fontes – é que o governo branco, afrikaner  (o partido Nacional, no poder) se aliou ao ANC num pacto para viabilizar uma “Nova Africa do Sul” (para “garantir a governabilidade“, como se diz aqui) com o ANC virando a casaca, agindo a revelia de seus princípios programáticos.

Os racistas brancos teriam “cedido os anéis para não perder os dedos”, entendem? Ou seja, pela visão distorcida do articulista, Mandela e o ANC “fizeram  o jogo”, urdiram um acordo com o inimigo em detrimento dos anseios populares e de suas convicções duramente mantidas por tantos anos.

E aqui outro paradigma racista, sacam? Aquele do “negro de alma branca”.

(E mais uma vez aqui, aí sim, a comparação com um certo partido governista brasileiro aflora, candente carapuça.)

De modo mais que transverso (ando enxergando muitos psicologismos quase psiquiatrismos nos “data vênias” destes advogados de porta de xadrez do PT de hoje em dia) parece que se tenta aqui justificar, de viés, a “carta aos brasileiros” governo-petista, esta sim uma abertura de pernas ampla, geral e irrestrita desta constrangedora “esquerda” do Brasil.

E observem: O articulista, de passagem chama a reação ao apartheid, liderada como sabemos por Nelson Mandela e o ANC de “mais ou menos inorgânica“, ou seja, “desorganizada“, quase espontânea, desqualificando por tabela um processo revolucionário histórico e exemplar.

Fico pasmo com a arguta sutileza desta gente.

Ora, quem não sabe? Mandela, pessoalmente jamais perdoou os opressores brancos, vistos por ele não como brancos, mas como, simplesmente, opressores. Mandela, simplesmente os dobrou, isto sim. A afirmação do articulista é totalmente irresponsável quando se avalia o que foi a Comissão de Verdade e Reconciliação promovida pelo ANC, com a liderança do Bispo Desmond Tutu e o que seria da África do Sul se este processo de purgamento e reconciliação nacional, de pragmatismo político doído, quase compulsório, incontornável, não tivesse sido posto a efeito.

Todos se lembram, só como exemplo, do que ocorreu com Angola pós libertação. O fatricício mais insano, estimulado pelos colonialistas, bancado à força de muito mercenarismo (inclusive do próprio governo branco da África do Sul pré apartheid) É quase estúpido – não fosse maldoso – enfim, sugerir méritos a uma não pacificação dos espíritos depois de uma luta de libertação nacional.

(É que não é com o rabo deles, deve ser.)

Me surpreende muito que trânsfugas contumazes como alguns destes adeptos deste petismo mais cínico, partam para desqualificar a revolução dos outros assim, com tanta desfaçatez.

“…Assim, sedimentou-se, em 1996, um modelo de (sub-)desenvolvimento capaz de combinar uma agenda neoliberal conhecida como “Growth, Employment and Redistribution” (GEAR) com algumas reformas pontuais cujo produto mais saliente foi a exacerbação das desigualdades de raça, de gênero e de classe social.

A partir de então, privatizações, cortes de gastos estatais e moderação salarial, combinaram-se com, por exemplo, a incorporação dos negros ao sistema público de saúde… O apartheid racial foi substituído por um apartheid social alimentado pela exploração da maioria dos trabalhadores negros. “

(Aqui, acima, o articulista me confunde. Não estaria ele falando do Brasil?)

Mandela foi o grande fiador desta “revolução passiva”. Apenas um negro educado vivendo em um país dominado por brancos, um príncipe xhosa vivendo em um país de maioria zulu, um líder mundialmente admirado vivendo em um país carente de aceitação internacional, poderia dirigir este processo.”

Putz! Quanto veneno racista! Quanto ódio ressentido contra um negro de alto nível intelectual. Queria o que? Um pai de santo de candomblé semi alfabeto, vestindo um roupão estampado ou uma tanga de juta? Ai como é esclarecedor ver escorrer nos cantos da escrita de Raul Braga este visgoso veneno que explica tudo. Não é o ANC que ele ataca, o agente que ele não admite. É a persona de Mandela, o negro insolente!

Chega até a explicar, com sutilezas sórdidas um suposto pragmatismo dos brancos fascistas, racistas, nazistas do Partido Nacional (os cães afrikaners por suposto) mas não perdoa o negro. Mandela é o alvo, o negro insubmisso que não! Não! Não! Não pode ser tolerado jamais.

E olhem só que doido é o racismo do articulista sem noção: Mandela já morreu, Gente! O homem acabou de morrer! Que morra mil vezes, o insolente, devem desejar.

“Após a transição para a democracia parlamentar, o ANC lançou, no início dos anos 2000, o Black Economic Empowerment, programa conhecido como “BEE”. Tratava-se de um programa para diminuir as disparidades sócio-econômicas existentes entre os diferentes grupos raciais por meio da incorporação de negros e de não brancos ao staff administrativo das empresas sul-africanas.”

Uma política de ações afirmativas, a gente manja bem isto,mas, perceberam como sutilmente o “socialistaRui Braga é contra? Se valeu de um jeito covarde de dizer, usando o outro como desculpa.

Com essa política, o país testemunhou o surgimento de uma afluente elite econômica negra, conhecida como “Black Diamonds”, que acumulou imenso poder e riqueza devido à intimidade com o governo. Assim, ex-militantes sindicais comunistas tornaram-se sócios de empresas de mineração e ex-lideranças do ANC transformaram-se em mega-investidores financeiros. Dispensável dizer que escândalos de corrupção envolvendo altos executivos e políticos tornaram-se usuais.

Uma expressão curiosa surgiu para descrever a atual estrutura classista da África do Sul: “sociedade cappuccino”. Trata-se de uma menção à existência de uma larga base negra sobre a qual repousa uma “espuma” branca encimada por uma finíssima camada de chocolate em pó. O resultado? Da 90º posição no ranking da desigualdade, em 1994, ano da eleição presidencial de Mandela, a África do Sul ocupa atualmente a 121º posição. Não admira que neste tipo de sociedade tensões étnicas e sociais descambem rapidamente para a violência xenofóbica: a taxa de criminalidade do país está entre as 15 piores do mundo e a expectativa de vida da população é de apenas 53 anos.”

Gente de Deus! Vocês leram isto? A peçonhenta pessoa articulista – nem sei mais como classificar esta tosca figura – diz, simplesmente, assim, na nossa cara, que a ascensão de negros à classe média, a postos de mando industrial, financeiro, etc. é a explicação mais clara para a eclosão da corrupção na África do Sul. Negros no poder, para esta figura canhestra é sinônimo de corrupção. “Todo negro é ladrão”, entendem? Simples assim…

(E sintomaticamente não fala nem de longe do perfil fenotípico ou genético dos corruptos e dos políticos ladrões do Brasil)

“Ano passado, ao trocar alguns dólares no aeroporto de Johannesburgo percebi que a efígie de Mandela estampava as novas cédulas de rands. O “Pai da Pátria” aparecia sorrindo discretamente em todas as notas, não importando o valor. “A revolução passiva sul-africana está concluída”, pensei…”

_”Que pessoa sangue ruim! Santo Deus!” _Pensei ao ler estas torpes linhas. “Revolução…pacífica”? O que quer dizer com isto? Que toda revolução tem que ser sangrenta? E a da África do Sul por acaso não foi o suficiente sangrenta para ele? O que este pulha pensa que é uma revolução? O que ele quer dizer com isto? Tem despeito por Mandela? Porque não se rasga todo? Talvez até relaxe, encontre o nirvana – ùia! – e fique feliz.)

” No caminho para o hotel, fui informado que 36 mineiros haviam sido barbaramente assassinados há pouco pela polícia no acampamento de Marikana, nas cercanias de Rustemburgo, durante uma greve. Também soube que, em uníssono, a Aliança Tripartite estava improvisando argumentos a fim de justificar o massacre. Separadas por apenas 180 km, a distância entre Marikana e Sharpeville não poderia ser maior…

Tudo isso faz parte da herança deixada pelo maior símbolo da resistência ao apartheid racial. Como decifrá-la? Em 1963, ao ser condenado à morte no Julgamento de Rivonia, Mandela era um homem disposto a arriscar a própria vida pela libertação de seu povo. Por ser o comandante em chefe da ala armada de seu partido ele ficou quase três décadas encarcerado e merece nosso mais profundo respeito.

No entanto, é necessário reconhecer que, na atual luta contra o apartheid social, os trabalhadores negros sul-africanos enfrentam sozinhos uma hegemonia deletéria que Mandela não economizou esforços para fortalecer. Para muito além da santificação do grande líder, algum dia, uma África do Sul emancipada saberá reconhecer e superar os limites deste legado contraditório.”

Ah, se ele fosse olhar o próprio rabo do legado sujo que a “esquerda” governista que ele defende deixará para nós todos…Ah, o despeito dos enjeitados…

Uma escrota tentativa de desconstrução da memória de Nelson Mandela. É isto que me pareceu o artigo. E Madiba não é o único alvo. Temos muitos alvos deste ódio racista por aqui. No Brasil do “doa a quem doer” está penando isto mesmo um certo Joaquim, que não me deixa mentir. É um fenômeno sórdido de nosso tempo brasileiro.

A cada cabeça de negro que aparece, uma foice racista passa zunindo.

É a bílis racista de uma esquerda branca cujas máscaras, como jacas, caem de maduras.

Este artigo lido assim, em suas entrelinhas, é um exemplo mais do que candente do quanto temos que avançar ainda para matar o monstro do racismo que habita a alma brasileira, insidioso monstro, doentio, solerte, covarde que faz uma pessoa como este articulista, supostamente um intelectual de esquerda, tecer considerações tão estúpidas e desprovidas de sentido (e de fundamentos), com o fim precípuo de desqualificar um indivíduo considerado um símbolo moral inquestionável de nossa mais completa humanidade, só porque este indivíduo é…um negro africano, líder de um país que mudou para melhor e que está dando certo.

São negros todos os bodes que eles querem mandar para o deserto, carregando todas as suas culpas e pecados.

Aqui, ó!

Falta-lhes compostura. Vão cair tarde e jamais serão enterrados com glórias em Qnu.

(Sério mesmo: Me envergonho de pertencer a raça humana nestas horas.)

Spirito Santo
Dezembro 2013

A memória africana bebe Cuba Libre


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Cuba Serra leoa 2O incrível regresso de cubanos à África

http://adiama.com/ancestralconnections/

Quem não se emocionaria? De algum modo eu mesmo vivo tendo experiências parecidas, mas nunca a  ponto de realizá-las assim, tão cabalmente, assim de poder pegar com as mãos.

Afinal, morando no Brasil estes encontros transatlânticos com a África deviam ser até bem mais comuns.

É como virar uma curva da selva úmida e escura de um passado cheio de hiatos, sem referencias sobre nós mesmos e, de repente vislumbrar o Shangrilá ensolarado das memórias de nossos parentes, do nada se acendendo. É como ultrapassar um umbral de uma porta com o vão aceso, a frente de nós, brilhante, deixando para trás o sórdido apagão da memória, antes dissolvida no mar que nos trouxe os parentes.

Também de se lamentar termos estes vínculos com nosso passado africano assim tão vivos, mas vivermos aferrados a esta vergonha estranha, este recalque cultural inexplicável que nos faz antes de iluminar, apagar a África linda que habita em nós.

É fraca a nossa etnologia, a nossa antropologia sobre África. Elas são realizadas ainda por uma maioria de doutores brancos de alma – não por serem brancos de pele, mas por serem ignorantes de si mesmos, já que somos todos seres iguais – É que mal se entende a esquizofrenia deles, cultores e autores que são deste nosso apagão cultural que, mais do que nunca, doutores que são, deviam acender.

Até se imaginam, institucionalmente beneméritos da preservação de nossa memória, mas o fazem usando métodos equivocados, invasivos e deletérios, “distanciados e objetivos”, como dizem. Mas já vai ficando claro que falam do que mal conhecem – posto que abominam – a força estranha da memória cultural, da oralidade e da tradição africanas sendo exercidas, a força humanizante inquebrantável daqueles que, lhes são estranhos apenas porque ainda são tratados como se fossem os “outros“.

Vã antropologia.

Então eis aqui, diante de vocês uma história exemplar do quanto de mal nos tem feito esta cultura do desconhecimento e da ignorância, talvez deliberada e ainda recorrente de nossos doutos.

Para vocês – os mais dispostos a refletir – uma aula de como se pode estimular a cultura de nós todos, rumo ao shangrilá de nossa identidade nacional íntegra, sem invadi-la com regras estatizantes, simplesmente promovendo encontros entre os que detêm o saber.

Spirito Santo

Dezembro 2013

Cuba Serra Leoa

“Havana Times

“Há muito poucas histórias felizes baseadas no tráfico transatlântico de escravos, mas há uma bem recente em Serra Leoa.

Cerca de 180 anos depois de seus antepassados desembarcarem de um navio negreiro, quatro cubanos, Humberto Casanova, Alfredo Duquesne, Elvira Fumero Ani e Yandrys Izquierdo visitaram um lugar que eles chamaram de “lar”.

Suas raízes ancestrais foram rastreadas pela Dr. Emma Christopher, da Universidade de Sydney, na Austrália, usando uma coleção de canções e danças que este pequeno grupo de cubanos manteve vivas, passadas de geração à geração.

Após vários anos de investigação em toda a Libéria e em Serra Leoa, a origem das canções foi atribuída a uma comunidade bantu de Serra Leoa, onde várias canções dos cubanos e uma das suas danças foram identificados como parte do ritual de iniciação da extinta sociedade secreta “Menda”.

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Ninguém em Serra Leoa ou Cuba fala fluentemente esta língua bantu, pois a linguagem original se perdeu, mas incrivelmente as pessoas de ambos os lados do Oceano Atlântico ainda cantavam as músicas na velha língua.

Foi o suficiente para as pessoas dali reconhecessem as músicas dos cubanos e passassem a reconhecê-los como gente da família. “_Eles são nossos!”_ disse um homem chamado Salomão Musa, enquanto observava imagens da cultura dos cubanos que a Dra. Christopher havia levado numa visita anterior a aldeia.

Outras pessoas da localidade contaram antigas histórias de seus antepassados ​​e de pessoas capturadas como escravas, inclusive a história de um grupo de iniciação inteiro da sociedade Menda que foi levado pelos escravagistas logo depois que seus ritos de iniciação se encerraram.

Se os antepassados dos cubanos foram deste grupo escravizado é impossível provar, mas para algumas pessoas mais velhas do lugar os visitantes são sim descendentes de seus antepassados, de gente daquelas histórias de sequestrados para a escravidão.

Desde a primeira vez que eles viram as imagens das práticas culturais do grupo de cubanos, não pararam de perguntar se eles poderiam visitá-los um dia, para que todos pudessem estar “juntos como irmãos e irmãs”.

Demorou alguns anos para que isso acontecesse, porque era difícil para os cubanos obter permissão do governo para viajar. Com as recentes mudanças na lei, no entanto, quatro de seus membros puderam, finalmente retornar à sua pátria ancestral junto com Dra.Christopher numa emocionante visita á aldeia.

Cuba Serra Leoa 4

O calor das boas-vindas fez, certamente valer a pena esperar. O primeiro a se apresentar foi o chefe principal da aldeia, Tommy Jombla, cantando na língua local, junto com um coro puxado pela bela voz de Christianne Jombla, sua neta. Em seguida, os cubanos, batucaram, cantaram e dançaram num dia de pura alegria para a comunidade.

A  chefe dos cantores cubanos, Elvira Fumero Ani, foi dominada pela emoção e deixou as lágrimas escorrerem no rosto. “Eu nunca me senti tão aceita”, disse ela, falando da importância de conhecer as suas origens. Até mesmo o chefe Jombla entrou na dança.

Depois de visitar a sede da aldeia o grupo foi para a aldeia de Mokepie, onde Mama Lucy Amara, a última chefe da Sociedade Menda, os cumprimentou. Ela lhes mostrou o templo-sede que pertencia à sociedade, e que foi parcialmente destruído na guerra civil na década de 1990. Expressando o seu desejo de ver sociedade refundada. Mama Lucy ficou encantada em saber que algumas tradições Menda ainda são realizados em Cuba. Ela e Elvira cozinharam juntas,  construindo uma afeição genuína, independentemente da diferença de idioma.

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O ponto culminante da viagem foi uma semana de estada na antiga vila de Mokpangumba. Acompanhados de Mama Lucy os cubanos caminharam em direção à vila (que não tem acesso rodoviário) ao som de tambores e cantando. Nada menos que quatro “demônios” mascarados da sociedade secreta e praticamente toda a aldeia celebraram sua chegada.

Houve gritos de prazer de cubanos e serra-leonenses, que se viam num filme reconhecendo-se uns aos outros, abraçando-se e cumprimentando-se com abraços calorosos e gargalhadas. Foi o início de um encontro que seria para muitos dos envolvidos uma verdadeira mudança de vida.

Os visitantes estavam determinados a não ser apenas turistas. Eles foram claros sobre o desejo de experimentar a vida na aldeia como ela é agora. Um dos visitantes, entalhador e artista Alfredo Duquesne, visitou a fazenda de Baggie Kpanabum e aprendeu a subir palmeiras, recolher frutos em seguida, processá-lo em óleo de palma.

A sra. Kpanabum ficou muito surpresa, dizendo que até mesmo algumas pessoas da aldeia não sabem fazer este trabalho e que não tinha idéia que um dia alguém viria do exterior para aprender.

Os cubanos também ensinaram a juventude local a desempenhar o seu esporte nacional: baseball. Mas a derrota do time local no campo de beisebol logo foi vingado quando os serraleonenses puderam mostrar o seu próprio esporte nacional.

Uma equipe formada por visitantes cubanos e gente de Serra Leoa, além de membros da tripulação, fez um documentário sobre a visita (o fotógrafo e produtor de campo cubano Sergio LeyvaSeiglie, cineasta cubano Javier Labrador Deulofeu e Barmmy Boy Mansaray de Serra Leoa), bem como alguns moradores recrutados para auxiliar. Na disputa no jogo de Serra Leoa, o lado ‘visitantes” foi derrotado por 1-0 pelos moradores experientes, apesar de seus anfitriões generosos terem jogado suavemente.

Todo o tempo da estadia foi de muito canto, dança e percussão. As poucas músicas ainda conhecidos por ambos os grupos foram as mais apreciadas, muitas vezes, com discussões detalhadas sobre as diferentes formas com que as palavras agora são pronunciadas.

Cuba Serra Leoa 3

Houve também o intercâmbio de músicas que não sobreviveram em Cuba e o ensino de novas canções que o grupo cubano tinha composto mais recentemente.

Joe Allie, um homem idoso em Mokpangumba que olhava maravilhado quando ouviu pela primeira vez a gravação dos cubanos cantando uma música que já tinha sido a favorita de seu avô, dançou pela primeira vez em vinte anos. Ele até tentou prontamente dançar algumas danças cubanas mais recentes, incluindo o cha-cha-cha e rumba.

O carinho da aldeia para com os visitantes foi surpreendente. Todos os dias as pessoas apareciam com presentes, e sua tolerância para com aqueles com os quais já não compartilham mais a língua e a cultura – além das poucas e velhas canções e danças lembradas- fez daquela viagem uma experiência inesquecível.

A despedida da vila foi animada, com “irmãos”, como Alfredo Duquesne e Baggie Kpanabum trocando roupas e fotografias, determinados a manter contato.

O desafio agora para todos os envolvidos será construir pontes a partir deste começo. Reconstruir os laços de uma comunidade há muito tempo quebrados pela escravatura transatlântica é um projeto inédito, mas muito digno.

Talvez, apenas talvez, através da formação destes novos laços, melhores dias podem amanhecer tanto para Mokpangumba, que precisa de algumas melhorias em sua vida,  e para os cubanos, que há muito se sentiam desenraizados e isolados.

É uma grande empreitada. A melhor forma de fazer isso é algo que só se descobrirá pela discussão e pensando em ambos os lados. Mas, certamente, juntos é melhor do que separados, depois de quase dois séculos de separação.

“_Precisamos ajudar uns aos outros”_ disse Duquesne, “isso é o que as famílias fazem.”

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Veja facebook.com / theyarewethemovie para mais informações e fotografias. Um documentário sobre todo o projeto, chamado de “Eles são nós ‘será lançado ainda em 2013.”

(Tradução by Titio)

Black Blow Up. Nós na câmera da escravidão obscura.


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Partida para a colheita de café com carro de boi- Vale do Paraíba do Sul – 1885.
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Esquadrinhando uma foto de Marc Ferrez

Em meados dos anos 1970, ainda desenhista de arquitetura dos Correios e Telégrafos, mas já escalavrando sítios culturais por aí, saindo de uma inspeção numa agência da empresa em obras na Rua da Quitanda, no Rio de Janeiro, me vi lá pelas tantas diante de uma curiosa loja antiga, do século 19, com ares de um sebo literário, algo assim.

Casa Marc Ferrez”, estava escrito num letreiro.

Uma luz branca piscou na minha cabeça de negro. Um flash. Foto em Preto&branco. Havia acabado de enveredar pela pesquisa de fotos sobre a escravidão, coisa raríssima de se encontrar na época, restrita a algumas poucas coleções particulares, inacessíveis ou a uns poucos livros enormes, de capa dura, editados em edições limitadíssimas, mais inacessíveis ainda aos vis e duros mortais feito eu.

Havia visto já em algum lugar umas fotos desta época eletrizante, os primórdios da fotografia, assinadas por um dos mais famosos fotógrafos de então: Marc Ferrez. Liguei na hora os fatos: Casa Marc Ferrez, um estabelecimento remanescente de um outro do século 19 só podia ser a velha loja e laboratório do grande Marc Ferrez, sobrinho do outro Marc Ferrez vindo com a chamada Missão Francesa (na verdade um grupo de exilados bonapartistas) para o Brasil em 1816.

E era.

Entrei emocionado. Bem jovem ainda, jamais poderia imaginar que o passado pudesse ficar preservado assim, por tanto tempo. Foi ali que soube da existência de negativos de vidro, daguerreótipos, carte de visites e outros suportes fotográficos antes do papel.

Logo abordado por um velho e atencioso senhor chamado Gilberto Ferrez, tão emocionado quanto eu, ouvi rápidas histórias sobre o legado de seu  avô. Confirmei ali que Marc fizera sim muitas fotos da escravidão, mas elas não estavam disponíveis em nenhuma publicação ainda.

Foi aí que o vírus de investigador e esquadrinhador de imagens foi inoculado em mim. Comecei a encontrar fotos de Marc por todo canto, mas sempre quase nada de suas imagens sobre escravidão.

Este hiato imperdoável, fruto evidente de nosso racismo residual, mas também motivado por fatores muito mais complexos, tais como o nível ainda excessivamente aculturado de nossa historiografia, aferrada demais à metodologias canônicas, que subestimam ainda a importância da iconografia (e da História Oral) como elementos de análise historiológica válidos, este hiato renitente enfim, está começando a ser preenchido.

Só agora, com a caixa de Pandora da internet arreganhada é que estas imagens começaram a afluir. Titio tem publicado na rede, entusiasticamente tudo que descobre neste campo. Me empolga demais quebrar estas vidraças egoístas. Vejam só por exemplo:

(O Museu de Arte Contemporânea da USP, em parceria com o IMS, abriu no dia 28 de outubro, a exposição Emancipação, inclusão e exclusão. Desafios do Passado e do Presente – fotografias do acervo Instituto Moreira Salles, com  fotografias de Marc Ferrez, Victor Frond e George Leuzinger, entre outros. A curadoria é de Lilia Schwarcz, Maria Helena Machado e Sergio Burgi.

A mostra com 74 imagens, inclusive originais de época, analisa o registro fotográfico feito sobre negros – livres, escravizados ou libertos – no Brasil, em um período em que vários fotógrafos estrangeiros atuavam no país com trabalhos com forte elaboração estética e formal. )

“…A fotografia de escravos e ex-escravos no Brasil tem uma particularidade: de um lado, a fotografia entrou cedo no país contando, já nos finais dos anos 1860, com clientela certa, que dentre outros incluía o imperador d. Pedro II; ele próprio um fotógrafo.

De outro lado, a escravidão tardou demais a acabar, guardando o Brasil a triste marca de ser o último país do Ocidente a admitir tal tipo de sistema. Dessa confluência resultou um registro amplo e variado desse sistema de trabalho e de seus trabalhadores.

 As crianças e os adolescentes, poupados da caminhada eram transportados na carroça, talvez para não atrasar a viagem. O garoto da extrema esquerda, já quase adulto, tem sinais de ter problemas renais. O da extrema direita está morto de sono. Todas as crianças olham para a câmera com certo ar de enfado, talvez já acostumados com poses para fotografia.

As crianças e os adolescentes, poupados da caminhada eram transportados na carroça, talvez para não atrasar a viagem. O garoto da extrema esquerda, já quase adulto, tem sinais de problemas renais. O da extrema direita está morto de sono. Todas as crianças olham para a câmera com certo ar de enfado, talvez já acostumados com poses para fotografia.

Por vezes tomados ao acaso, por vezes figurando como modelos exóticos ou tipos para a análise da ciência; ora como parte do cenário, ora como figuras principais, escravizados foram flagradas nas mais diversas situações. “

…”Mas se a operação de converter os indígenas em “objeto de estúdio” fazia parte dos cânones românticos de época, mais difícil era captar o dia a dia da escravidão e do trabalho forçado. Grande contradição do Império brasileiro, o sistema escravista foi abordado por diversos fotógrafos, autônomos ou apoiados pela Coroa.

Particularmente nos anos 1870 e 1880 proliferaram as fotos de escravizados, revelando, por sua regularidade, de que maneira o sistema andava naturalizado entre nós e disperso por todo país. Negros figurariam em cartes de visites, mas também nos documentos científicos.

Estariam também presentes nas fotografias de paisagem e na documentação do trabalho nas fazendas de café realizadas tanto por Victor Frond nos anos de 1859 e 1860, como por George Leuzinger por volta de 1860, e Marc Ferrez na década de 1880.  Em todos esses casos vemos a montagem da representação naturalizada da escravidão: tudo em seu lugar.”

“…Contando… com clientela certa”.

A afirmação expressa no texto da curadoria soa contraditória aos mais argutos quando entendida como um ensejo para “um registro amplo” de nossa escravidão. Ora, é por demais evidente que havia uma diferença enorme entre os interesses desta “clientela certa” (e dos fotógrafos a serviço dela) gente esnobe e escravista e os interesses dos escravos. Isto só poderia gerar uma iconografia travada, velada, de modo algum uma ‘variada visão’ do sistema de trabalho e de seus trabalhadores”

É onde peca, claudica a nossa historiografia mais convencional, sempre parcimoniosamente crítica, quase conivente. Uma simples comparação com a iconografia norte americana do mesmo período já nos dá a justa medida do quanto fomos -e somos- excludentes e seletivos (racistas, por suposto) também em nossa fotografia, nas imagens subalternas e comedidas que os nossos fotógrafos de antigamente (a maioria estrangeiros, diga-se) fizeram de nossa realidade escravista.

É pouco ainda. Observem que são apenas 74 imagens reveladas agora por esta exposição (algumas na verdade nem tão inéditas). Eu próprio já conhecia algumas há tempos, de ver aqui mesmo no internet, pesquisando para o meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“.)

Nestas fotos nenhuma reportagem, nenhuma violência flagrada, nenhuma vítima acorrentada ou manietada num pelourinho, nem mesmo ferida, aleijada, nenhuma máscara de flandres no rosto de uma escrava, nenhum tronco, nenhum instrumento de tortura sequer insinuado num canto de cena, algemas, correntes, nada.

As expressões de todos os homens demonstram desagrado de estarem ali posando. Em alguns, os mais velhos (como este um pouco mais à frente) e o da extrema direita, o olhar é quase de ódio contido. Observem que o da extrema esquerda não esconde a expressão de uma raiva sarcástica. O homem ao centro (como o adolescente do corte 01) também tem no inchaço do rosto, sinais de ter problemas renais.

As expressões de todos os homens demonstram desagrado de estarem ali posando. Em alguns, os mais velhos (como este um pouco mais à frente) e o da extrema direita, o olhar é quase de ódio contido. Observem que o da extrema esquerda não esconde a expressão de uma raiva sarcástica. O homem ao centro (como o adolescente do corte 01) também tem no inchaço do rosto, sinais de problemas renais. As roupas são, obviamente velhas, reutilizadas dos brancos.

Isto tudo aí, anti ícones a serem escondidos está mal flagrado em gravuras, como se esta parte fosse uma iconografia do século 18, quando nem havia fotografia ainda. É que gravuras e desenhos não são dados “sérios“, exatamente críveis, qualquer um pode afirmar que aquilo ali descrito nunca existiu.

As imagens que legaram estes retratistas do século 19 foram sim, cuidadosamente controladas e censuradas, de modo algum representando, como dizem com ênfase equivocada nesta resenha, a tal visão “ampla e variada” de nossa escravidão.

É particularmente inquietante o fato de todas as imagens serem rigorosamente posadas, cenograficamente montadas, grande parte com figurino cuidadosamente produzido, muito mais do que flagrantes instantâneos da realidade, vocação precípua da arte fotográfica, uma espécie de arranjo congelado – e não refiro a baixa velocidade dos filmes da época – frames armados de uma ópera em slow motion, com os pobres atores imobilizados, amarrados por correntes invisíveis.

Nem mesmo as pitorescas cenas de rua, com escravos dançando ou amontoados em grupos de “negros de ganho”, tão comuns na obra de artistas como Rugendas e Debret, aparecem nestas fotografias, dando-nos a pertinente impressão de que uma meticulosa censura se não ocorreu na fonte, na captação destas imagens, ocorreu no controle dos proprietários dos acervos resultantes, ciosos de manter ocultas imagens mais constrangedoras e incômodas de nossa escravidão.

É prematuro, contudo se atribuir esta censura imagética a uma suposta conivência ou subordinação dos fotógrafos aos ditames de sua ‘clientela‘.

Observemos que a maioria esmagadora destes registros aparecidos, são oriundos de acervos privados, ou seja quase nada foi ainda liberado para acervos públicos, livremente acessíveis à pesquisadores, que têm que se conformar com acervos privados, gradativamente tornados públicos por beneméritos como a família do banqueiro Walter Moreira Salles.

“…Mais uma vez, a forma precisa e estetizada se fazia presente nos cestos bem montados, nas vendeiras dispostas de maneira equilibrada e com panos das costas detalhadamente expostos, nos carregadores de liteiras bem postados. Aí estava novamente o espetáculo de uma escravidão pacífica e sem contestação. No entanto, essas fotos urbanas denunciam igualmente precariedade, indisciplina e certa ausência de controle do trabalho escravo nas cidades.”

Pode existir também – forçoso colocar – algum cuidado ou mal estar dos historiadores atuais de trazer a público imagens mais chocantes de nossa escravidão, que porventura lhes chegue as mãos, num momento em que a maioria dos historiadores ainda é gente branca, de algum modo marcada ainda por algum racismo ou preconceito – ou mesmo remorso – residuais.

Não se têm por isto mesmo – e isto é um dado crucial nesta questão – a mais vaga ideia do volume de negativos ainda resguardados dos olhos de nós todos, objetos de heranças, aguardando o interesse de compradores ou simplesmente perdidos, esquecidos em gavetas familiares por aí.

É bastante provável por tudo isto, do mesmo modo como ocorreu com a iconografia sobre o negro dos EUA depois das lutas pelos direitos civis, que cenas mais realistas, jornalísticas de nossa escravidão comecem a aparecer na medida em que as cotas nas universidades aumentem o contingente de historiadores negros, interessados em revolver de vez estes inestimáveis dados de nosso passado e as bancas de mestrado e doutorado se tornem mais especializadas no assunto a ponto de ensejar pesquisas menos evasivas ou superficiais.

“… Entretanto, é a partir de uma atenção aos detalhes que os negativos fotográficos registraram, que podemos vislumbrar muitos momentos e ângulos de autonomia e de vontade própria por parte dos fotografados, possibilitando uma leitura a contrapelo ao sentido geral das imagens.

O fato é que a possibilidade atual de ampliar os negativos permitiu que trouxéssemos à tona o registro de detalhes de primeiro e de segundo planos. Hoje, com as novas técnicas é possível buscar ângulos recônditos das fotografias, muitas vezes desconhecidos pelo próprio artista que registrou a cena.

Embora o fotógrafo do XIX não pudesse revelar suas fotos em proporção mais ampliada, o negativo que ele nos legou permite, e é esse o convite que fazemos nessa exposição. A partir de recortes das imagens, vemos gestos e olhares que conferem singularidade aos indivíduos fotografados, fossem eles escravizados, libertandos ou libertos.”

É assim, seguindo as possibilidades instigantes deste novo caminho (na verdade e sem falsa modéstia devo reafirmar aqui que o Titio pode ser considerado um dos precursores mais animados desta abordagem iconográfica que sigo esquadrinhando minúcias e blowups desta foto, descobrindo até, como faço aqui, agora, esfuziante como uma criança, detalhes que pouca gente ou ninguém viu.

Incrível! Acredite quem quiser (adeptos de São Tomé vão entender.)

Ai Jesus! Escravos brancos europeus?! Como assim.

As mulheres e seus bebês não são de modo algum aliviadas. Na verdade são mais prejudicadas que os homens na caminhada porque caminharão a pé com o peso da crianças e as bacias, nas quais, provavelmente carregam víveres e providenciais guarda chuvas. Calma! Já vi. É disto que estou falado: Tem um gajo inteiramente portuga ali no meio da negrada.

As mulheres e seus bebês não são de modo algum aliviadas. Na verdade são mais prejudicadas que os homens na caminhada porque caminharão a pé com o peso da crianças e as bacias, nas quais, provavelmente carregam víveres e providenciais guarda chuvas. Calma! Já vi. É disto que estou falado: Tem um gajo inteiramente portuga ali no meio da negrada.

Calma. Posso explicar tudo e exulto já de antemão diante da surpresa de vocês. Fiz um esquadrinhamento meticuloso desta maravilhosa foto de Marc Ferrez e posso, praticamente provar uma tese minha, antiga que sempre irrita os militantes negros mais xiitas: a de que o sistema de trabalho escravo não se confundia, exatamente com o sistema racista implantado e aperfeiçoado logo após a abolição.

Sim, sim! Escravos brancos, europeus! Uma descoberta surpreendente esta que eu – e sei lá mais quem – acabo de fazer.

Ninguém – nunca ouvi falar até hoje – viu o que vi porque…sei lá, talvez seja porque, normalmente olhamos numa fila de escravos, apenas negros africanos, uma massa amorfa de gente preta e nem ligamos para a humanidade ou a individualidade de cada uma das pessoas ali flagradas, nunca as olhamos nos olhos. E daí perdemos a parte melhor do filme.

Eu não. Cåo perdigueiro com o “faro” nos olhos, amo os detalhes e as minúcias de paixão.

Quero entrar naquele tempo, ser uma daquelas pessoas, viver a história delas, mesmo que vá doer. Fiz assim alguma investigação para embasar o melhor possível esta minha mui inusitada afirmação.

Aconselho, portanto a todos que afirmam que o Titio “viaja”, guardar o ceticismo para depois. Senão vejamos:

…Os imigrantes portugueses figuravam no estrato mais baixo da sociedade do Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, ao lado de negros e mulatos. Os portugueses e os negros habitavam o mesmo espaço geográfico, frequentemente dividindo o mesmo cortiço e compartilhavam da vivência na cidade…

…No caso da imigração portuguesa para o Rio de Janeiro, ela se intensificou quando o tráfico negreiro ainda estava em pleno funcionamento. Tratava-se, sobretudo, de uma imigração de jovens açorianos com idade entre 13 e 17 anos (a mesma média de idade dos escravos trazidos da África (grifos nossos).

Na época, havia denúncias de que os navios negreiros também eram usados para trazer esses jovens portugueses para o Brasil, que eram chamados de engajados.

Os jovens assinavam um contrato com o capitão do navio no qual, em troca da passagem de navio, se comprometiam a trabalhar para algum senhor no Brasil. O capitão do navio vendia o passe desses portugueses para o senhor, no valor da passagem e, ao pagar, o último adquiria esse trabalhador.

Os engajados tinham que pagar a soma do valor da passagem através de trabalho gratuito, cujo tempo era estipulado pelo próprio senhor, muitas vezes chegando a três ou cinco anos.

Os imigrantes que se evadissem das terras antes do término do contrato eram tidos como “fugidos”. Todas essas características aproximavam os imigrantes portugueses da condição social dos escravos no Brasil.

As péssimas condições a que eram submetidos esses imigrantes portugueses no Brasil se refletiam nas estatísticas. Entre 1850 e 1872, a maioria dos adolescentes portugueses que desembarcavam no Rio de Janeiro morriam três anos após a chegada ao Brasil, vítimas de febre amarela, das más condições de moradia e das jornadas exaustivas de trabalho.

Era a denominada “escravidão branca”, denunciada pela imprensa da época.

A maioria dos imigrantes portugueses na cidade era de adolescentes e jovens do sexo masculino, analfabetos, oriundos de zonas rurais de Portugal, completamente despreparados para enfrentar a vida numa metrópole do porte do Rio de Janeiro.

Fonte: “Dos fadistas e galegos. Os portugueses na capoeira” /Carlos Eugênio Líbano Soares:

Viram só? Quem diria? Como nunca nos apercebemos deste fato tão candente? Digo assim, de vê-lo fotografado, tão cabalmente demonstrando a tese de Líbano Soares.

Alguém aí, algum outro historiador mais do ramo sabia disto, dos portugueses na foto de Ferrez? Se há algum bidu antes do Titio me responda: Porque diabos este flagrante andava escondido de nós, o pá?

Já cansei de dizer: Não tenho a menor pretensão de desmontar o estabelecido. Ocorrem comigo naturalmente estas coisas. Tirocínio de futucador, de bicho carpinteiro, faro, intuição, mero acaso, sei lá. Fazer o quê? Afinal era só olhar para ver.

No ensejo, abro para todos vocês o meu detetivesco e leigo método de esquadrinhamento de imagens antigas, que muito tem adiantado a minha vida de pesquisador, fatiando a foto em sub-fotos, micromilimetrando minúcias, desvendando em blowups os detalhes mais invisíveis aos olhos distraídos, supondo com insights e palpites para depois sair catando as provas por aí.

E aqui…Ai, Jesus! Outro escravo portuga! São dois os portugas!

E o portuga com cara de revoltado? Como seria a vida destes gajos ali no meio de gente tão diferente, pagando a aventura de emigrante com a servidão, melhor que os outros, já que tinha a alforria programada (mal sabia ele que apenas três anos depois a abolição para todos viria, de qualquer jeito.)

E o portuga com cara de revoltado? Como seria a vida destes gajos ali no meio de gente tão diferente, pagando a aventura de emigrante com a servidão, melhor que os outros, já que tinha a alforria programada (mal sabia ele que apenas três anos depois a abolição para todos viria, de qualquer jeito.)

Ah…Como viram, não resisti também de comentar corte a corte, instigado em poder partilhar com vocês o olhar das pessoas da imagem, tateando a alma delas, agora liberadas para nos repassar suas mensagens cifradas naquele instante da foto, deixando de ser meros avatares de um sistema para serem de novo gente comum, como eu ou vocês, assim, num ampliador reveladas para o futuro, alforriadas.

Deixe então tudo de besta que traz dentro de si, a empáfia o ceticismo vazio e a arrogância, largue tudo na antessala deste senso comum embolorado.

Entre vazio de certezas neste portal de forevers. Convido-os a cair dentro desta câmera obscura, para nos reconhecermos brilhando dentro dos olhos destas pessoas, quase a abraçá-las.

 E por fim...Ela, a mais nova e mais bela, a insolente e abusada. Entre todos a única pessoa que desafia a câmera. Que rebeldias terá feito na vida? E o portuga? Como seria a vida destes gajos ali no meio de gente tão diferente, pagando a aventura de emigrante com a servidão, melhor que os outros, já que tinha a alforria programada (mal sabia ele que apenas três anos depois a abolição para todos viria, de qualquer jeito.)

E por fim…Ela, a mais nova e mais bela, a insolente e abusada. Entre todos a única pessoa que desafia a câmera. Que rebeldias terá feito na vida?

E qual terá sido o final deste filme emocionante? De que importa? Blow Up não tem fim, como naquele filme do Antonioni, estão lembrados?

Spirito Santo

Dezembro 2013