A Guerra, a Academia e a “impureza” nagô

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1939/41. Salvador, Bahia. Foto de Lorenzo Turner

O “Culto aos Orixáscomo construção acadêmica e outras futricas transatlânticas.

Daria um filme hollywoodiano, em preto & branco, claro, um “film noir”, digamos assim. O argumento eu vou revelando logo a seguir, o roteiro, aos poucos. Para início de conversa, vou logo dizendo, o trailer é emocionante, sensacional:

(O argumento do filme do Titio)

1941. Como fruto do “II Congresso Afro Brasileiro” em Salvador Bahia, realizado em 1937, organizado por Edison Carneiro e Arthur Ramos, ambos espécie de antropólogos ou etnólogos leigos (não existia, praticamente antropologia no Brasil) um grupo bem heterogêno de acadêmicos norte americanos desembarca nesse início dos anos 1940 no Brasil.

O contexto geopolítico da época era chapa quente, com a segunda guerra mundial já comendo solta na Europa. Aqui, o fascismo do Estado Novo getulista, instalado em 1935 vivia firme e forte, tendendo para a ambiguidade entre apoiar os nazistas ou os aliados.

O Brasil ao lado de Hitler, significava, simplesmente o nazismo ocupando a costa atlântica, a América latina e cercando os EUA numa chave de pernas fatal. Um xeque mate trágico para a democracia ocidental.

Nem pensar.

Este risco estratégico terrível obrigou o Departamento de Estado dos EUA a promover intensos esforços de aproximação com o governo brasileiro, esforços estes, principalmente ocorridos no campo cultural.

Foi a chamada “Política da boa vizinhança”, uma ação diplomática estrangeira que, em vários aspectos se mostrou decisiva para a cultura brasileira, impactando, forte e notadamente o campo de nossa racista academia e os estudos gerais do “problema do negro” brasileiro, como veremos a seguir.

(Rolam os créditos iniciais. Música ritual de Candomblé, um ponto de Xangô recorrente, algo assim, só que tocado pela orquestra de Xavier Cugat). No roll, os nossos buliçosos personagens:)

Americanos:

E. Franklin Frazier (negro, sociólogo, interessado no tema da mobilidade social da família negra norte americana, engajado num movimento por direitos civs na América que começava a ser esboçado, exatamente naquela ocasião)

Melville Jean Herskovits (judeu, branco, renomado antropólogo da linha “culturalista”, interessado nos processos de desenvolvimento da cultura negra na Diáspora)

Lorenzo Dow Turner (negro, linguísta dedicado à pesquisa sobre a expansão da cultura negra no mundo da Diáspora sob o ponto de vista da linguagem, estudando,música,filologia, etc .

Ruth Landes (norte americana, branca, antropóloga de beleza invulgar. Seu trabalho, enfocando aspectos radicalmente opostos aos de seus pares, foi objeto de críticas ácidas da parte destes.)

Brasileiros:

Arthur Ramos (médico legista, branco, seguidor fiel das ideias de Nina Rodrigues e principal interlocutor dos acadêmicos estadunidenses por aqui. É considerado o pai da antropologia brasileira)

Edison Carneiro (negro, etnólogo leigo, filho do grande e desconhecido precursor de estudos da cultura negra do Brasil Antonio Joaquim de Souza Carneiro. Edison, um mero “folclorista” para muitos acadêmicos, se torna o mais importante estudioso da cultura negra do Brasil, nos limites estritos da pesquisa folclórica, sua área principal de estudos.

Martiniano Eliseu do Bonfim, negro, descendente de escravos nigerianos, informante de todos os pesquisadores envolvidos, foi o verdadeiro mentor da invenção do Candomblé baiano, estudando de forma autodidata ritos e aspectos gerais da cultura yoruba numa longa estada em Lagos, Nigéria.

                          (Casting by Titio)

E o filme começa assim:

Bem sei o quanto irrito alguns com a insistência neste tema, tornando-o tão fundamental aos meus estudos leigos sobre a cultura negra do Brasil. Mas entendam: Este tema é sim – cada vez mais me dou conta disto – o evento fundador de um mito etnológico construído com intenções políticas, não sei se deliberadas, que paralisam a busca pelo fim do racismo no Brasil:

O Mito da Supremacia Nagô revelado

Um nó político ideológico, se bem me entendem, que tem servido, de forma bastante eficiente para manter o status quo da questão racial no Brasil, qual seja, “manter o negro no seu devido lugar”.

Para mim, a construção longa e meticulosa deste mito, ora baseado em equívocos metodológicos rasos, displicentes, cometidos por acadêmicos de ponta, ora deliberadamente estimulados pela ideologia racista que ainda predomina em nossas ciências sociais, são também – e esta é a parte mais espinhosa da questão – manipulados por interesses de uma elite negra, sempre emergente, muito hábil na busca e na manutenção de algumas vantagens sociais que o sistema pode oferecer a minorias cooptáveis: O assimilacionismo, aliás, um componente político caro à dominação cultural de populações subjugadas, ao colonialismo de maneira geral, desde sempre.

Com efeito, como vocês poderão constatar facilmente a seguir, desde o início, a invenção do mito da supremacia nagô esteve assentado sim em interesses assimilacionistas de uma aristocracia negra criada ainda nos tempos da escravidão, uma classe de ricos comerciantes, principalmente nagô, estabelecidos em Lagos e em Salvador (cala-te boca…muitos inclusive enriquecidos à custa do tráfico de escravos do Benguela para o Brasil), momento no qual esta aristocracia – quase uma burguesia negra – era bastante influente, inclusive politicamente, nos rumos e na manutenção da sociedade escravista da Bahia e, por conseguinte, do Brasil.

Sim (perdoem-me os desafetos nagoistas). É isto mesmo. Ao que tudo indica, encontrei as pistas do momento e das circunstâncias exatas em que o chamado mito da supremacia nagô foi construído na academia brasileira. Por sorte para quem estuda o assunto, esta construção ocorreu num espaço bem restrito de tempo, com todos os personagens juntos num mesmo local (a cidade de Salvador, Bahia) todos pesquisando o mesmo pequeno espaço sócio religioso (o terreiro do Gantois e seu entorno) entre os anos 1935 e 1941.

No processo, marcado por idiossincrasias e divergências importantes entre os intelectuais norte americanos envolvidos, estes scholars entrevistam, se relacionam, exatamente com as mesmas pessoas, entre informantes “populares“, envolvidos com o espaço sócio ritual do candomblé (como as “mães de santo” Menininha do Gantois e Aninha do Axé do Opó Afonjá) assistentes ou informantes cultos, a maioria pertencente à ‘classe média’ negra de Salvador (como Martiniano Eliseu do Bonfim) assim como uma maioria de intelectuais brancos nativos, envolvidos em pesquisas no mesmo contexto aqui no Brasil como os citados Edison Carneiro e Arthur Ramos, além de intelectuais mais ou menos periféricos.

Estes intelectuais brasileiros são então, fortemente influenciados a partir daí pelas ideias e metodologias dos colegas americanos, eles mesmos com inúmeros interesses na relação com os “negrólogos” daqui, no ensejo de firmarem suas carreiras acadêmicas como africanistas nos EUA, criando-se neste contexto aculturado, as bases da própria antropologia do negro brasileiro, que é fundada, neste mesmo momento, por estes mesmos personagens.

…A história da relação entre Melville Herskovits e Arthur Ramos pode ser dividida em três fases: uma primeira correspondência trocada entre 1935 e 1941; uma convivência de dois meses em 1941, na Northwestern Universisity, onde Ramos acompanha o seminário de aculturação de Herskovits; e, uma última, que começa com o trabalho de campo de Herskovits no Brasil, em final de 1941 e vai até a morte de Ramos, em 1949.”

(Antonio Sérgio Alfredo Guimarães Departamento de Sociologia da USP)

As intrincadas relações deste jogo de interesses, estabelecido entre estes dois grupos de acadêmicos, intermediado pela elite negra de Salvador, Bahia, marca fortemente os rumos que a antropologia do negro tomaria a partir daí, com a fundação do mito da supremacia nagô representando a parte mais aparente, o leit motiv do processo.

Na verdade, com as linhas das pesquisas de campo deste grupo de acadêmicos norte americanos, isoladamente ou em associação com acadêmicos franceses como Alfred Metràux (um especialista em vudu) se estendendo para o Haiti e o Suriname, pode-se afirmar com alguma certeza que todo o arcabouço dos estudos “superiores” sobre o negro africano na diáspora se forma aí, neste curto espaço de tempo e de lugar.

” Em resposta a sua carta de 17 de outubro sobre o Dr. Ramos (Arhur) quero lhe transmitir uma informação confidencial. Quando examinei a sua situação financeira na primavera passada, descobri que ele iria receber US$ 4,000.00 da L.S.U. por suas aulas, o que é um pagamento alto para professores neste país, segundo qualquer padrão, tendo em vista o brevidade do tempo que ele dedicaria. Pareceu-me claro que com o estipêndio da L.S.U. ele não necessitaria de ajuda financeira suplementar para passar um par de meses extras com você. ”

(Henry Allen Moe, secretário da Guggenheim, a Herskovits em 22 de outubro de 1940, negando ajuda de custo suplementar solicitada por Arthur Ramos)

(Livio Sansone, Estados Unidos e Brasil no Gantois: O poder e a origem transnacional dos estudos afro-brasileiros)

A primeira coisa que salta aos olhos, para a afirmação de que esta suposta hegemonia nagô, acreditada pela academia brasileira desde aí, nasceu de um equívoco metodológico (ou de uma série deles) crasso, é o fato de um estudo tão restrito no tempo e no espaço ter sido o modelo recorrente de todos os estudos posteriores sobre a negro no Brasil.

…”Para tornar as coisas ainda mais complicadas, ambos (Herskovits e Frazier. Nota do Titio) baseavam seus argumentos em trabalhos de campo realizados com os mesmos informantes: o povo de santo do mesmo terreiro de candomblé em Salvador, o prestigiado e “tradicional” terreiro do Gantois, de nação queto-iorubá…”

(Livio Sansone, Estados Unidos e Brasil no Gantois: O poder e a origem transnacional dos estudos afro-brasileiros)

Suponho que qualquer etnólogo ou antropólogo, ou mesmo sociólogo, já naquela época devia entender que a análise de um microcosmo social é um método por demais precário para se compreender um problema tão complexo quanto era em 1930/1940 – e é hoje, mais ainda – a diáspora negra no Brasil.

O terreiro do Gantois, obviamente não representava a cidade de Salvador, tão marcada pela diversidade cultural afro-negra, com centenas de terreiros, de diversas linhas e ortodoxias. Neste mesmo sentido Salvador não representava a Bahia, de cultura negra mais diversificada ainda, notadamente as áreas do Recôncavo, contíguas à Salvador e tão fortemente marcadas pela imigração de mão de obra escrava de origem bantu (Angola) . Isto sem dizer que, sobretudo a Bahia jamais representou o Brasil. Como se sabe, a esmagadora maioria dos africanos trazidos para o Brasil foi instalada na região sudeste, nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, principalmente.

Tratava-se ali, portanto, no âmbito destes estudos seminais, de analisar uma ilha cultural (o Gantois) um tanto composta de vagas reminiscências yoruba e jêje, quanto de outras recriações e adaptações culturais impostas pelo meio, inclusive aquelas trazidas pelos próprios scholars americanos, aos quais os depoimentos dos informantes, num jogo de interesses muitas vezes oculto, ardiloso, fatalmente se adequavam.

(Jéje, aliás, vem de “àjèjì“, palavra yoruba para “estrangeiro“, no caso gente de etnia fon, do Reino do Dahomey, hoje Benin. A observação é preciosa, pois sugere que na África, os Fons eram considerados “gente estrangeira” pelos yoruba, sendo a relativa simbiose ocorrida entre as duas culturas no âmbito do Candomblé dito “jéje-nagô”, um processo ocorrido, provavelmente apenas no Brasil. Um aspecto relevante e discutível do nosso assunto, portanto)

Há que se considerar também os interesses desta “classe média” (outrora ‘quase‘ burguesia) negro nagô, já algo empobrecida, mas com presença política ainda forte em Salvador e, por razões de classe, imiscuída no contexto cultural pesquisado, na qualidade de integrantes de uma mesma comunidade negra, o que reduz mais ainda os limites das pesquisas, isolando-as no âmbito de uma espécie de “colônia estrangeira”, de gueto, de modo algum representante da comunidade negra de Salvador daquela ocasião como um todo.

Considerando o exposto, infelizmente as informações obtidas naquelas pesquisas de campo talvez tenham sido, irremediavelmente contaminadas pelos interesses muitas vezes divergentes destas partes, como aliás ocorre de maneira geral nestes casos, quando se superestima a importância de um microcosmo social, muitas vezes fake, suposto, montado para “agradar as visitas” como, de algum modo parece ter sido o caso.

O caráter “fake” que sempre atribuo à configuração do Candomblé convencional baiano, no âmbito das demais religiões negras (afirmação sempre rebatida pelos opositores desta minha tese, com o rebarbativo argumento hobsbawmiano de que “todas as religiões são inventadas”) se refere a um aspecto óbvio do assunto: As religiões em geral são inventadas sim, mas num longo período de maturação e simbiose com o meio, muitas vezes num processo que dura séculos. As religiões ‘fake“, ao contrário são forjadas por um pequeno grupo de interessados, unidos por um espírito de corpos qualquer, em poucos anos, com intenções bem determinadas, geralmente muito mais políticas do que, propriamente religiosas.

(Observe-se aliás que, sintomaticamente a prática eminentemente político-ideológica de se criar seitas esotéricas e sociedades secretas em meados ao fim do século 19 foi muito recorrente)

Este é, claramente o caso do Candomblé, como se pode observar a seguir:

O caso de Ruth Landes, a este respeito é bastante significativo. Interessada no protagonismo feminino nos cultos religiosos afro brasileiros Ruth foi desqualificada e marginalizada por alguns de seus colegas (principalmente Herskovits e Arhur Ramos) por conta das linhas, segundo eles “equivocadas” de suas pesquisas, entre estas a observação de que era bem relevante a presença de homossexuais no culto e na liderança de alguns terreiros.

 “…Arthur Ramos, então professor catedrático de antropologia na Universidade do Brasil, e Melville Herskovits, da Northwestern University, trocaram correspondência compartilhando o desprezo pelo trabalho da autora, que, visto como mero relato de viagem, foi rejeitado por eles como não científico.”

Landes recusou-se a produzir um retrato etnográfico do candomblé e da cultura afro-brasileira como homogêneos, integrados e estáticos, conforme o padrão da antropologia de seus pares, e descreveu os conflitos internos, diálogos e contestações do significado do candomblé em um contexto de mudança e fluidez, situando historicamente a cultura afro-brasileira.

Com uma percepção fina e sensível, ela foi capaz de apontar algumas singularidades do candomblé baiano, como a tendência ao aumento gradual do poder feminino e do número de mães-de-santo, nos candomblés mais tradicionais, e do de “homossexuais passivos”, nos candomblés de caboclo.”

(Resenha de Regina Abreu/UFRJ, para o livro “A Cidade das Mulheres”, de Ruth Landes sobre sua experiência no Brasil)

Esta abordagem pouco ortodoxa, politicamente incorreta de Landes atrapalharia as intenções de Arthur Ramos e de Edison Carneiro, entre outros, de manter um perfil moralmente “decente” para o Candomblé, já a esta altura oficializado e sacramentado pelo governo baiano de Juracy Magalhães como uma religião “pura” e “autenticamente” africana.

“…Ruth Landes…também escolheu Salvador para sua pesquisa de pós-doutorado, originalmente concebida para tratar da matriarcalidade no candomblé. Landes… aceitou a ajuda de Pierson (Donald, um doutorando na ocasião. Nota do Titio) para fazer contatos e receber orientações para sua pesquisa na Bahia.

Ela não dependeu do apoio do famoso antropólogo baiano Arthur Ramos, a principal pessoa de contato indicada pela diretora do Museu Nacional no Rio de Janeiro, Heloísa Torres. “Dona Heloísa”, como era conhecida, era a guardiã quintessencial da antropologia brasileira

…Aparentemente, essa foi uma das três razões que rendeu a Landes a inimizade tanto de Arthur Ramos como de Melville Herskovits ao fim de sua pesquisa.

As outras duas foram o fato de ela ter supostamente descrito de forma exagerada a importância dos homossexuais no candomblé (algo que deveria ter sido evitado em uma época em que os antropólogos brasileiros tentavam convencer o governo federal a aceitar o candomblé como uma religião “decente”) e seu envolvimento romântico com o bem conhecido Édison Carneiro.

Esse relacionamento infringiu dois tabus na Bahia, um do consulado norte-americano (ter um caso com um homem negro) e outro da elite baiana (ter um caso com um simpatizante do comunismo)…”

(Livio Sansone, Estados Unidos e Brasil no Gantois: O poder e a origem transnacional dos estudos afro-brasileiros)

(Como muitos sabem, já que foi dito aqui mesmo neste blog, esta oficialização do Candomblé baiano, ocorreu, portanto, exatamente em 1937, no ensejo deste II Congresso Afro Brasileiro, cuja principal decisão foi a criação da União das Seitas Afro Brasileiras/USAB, liderada por Edison Carneiro, desautorizando – na verdade expurgando – todas as manifestações religiosas negras que não se enquadrassem no padrão formatado para o Candomblé Jêje-nagô)

…Pierson (Donald, doutorando norte americano) como já foi dito, participou da reunião e, como pesquisador, registrou suas impressões. Ele observou como um dos objetivos implícitos da Liga das Seitas Africanas era a eliminação das práticas religiosas não ortodoxas.

Como naquele tempoeram muitos, senão maioria, os candomblés que se distanciavam cada vez mais de um modelo puramente africano, isto se constituiu em um dos principais impasses para a criação e legitimidade da associação.

E é o próprio Donald Pierson quem afirma: “Na primeira sessão a animosidade entre as seitas mais ortodoxas e as de caboclo era tão grande que qualquer acordo substancial parecia bastante difícil”.”

(Vinicius Clay –  “O negro em ‘O estado da Bahia’ . De 09 de maio de 1936 a 25 de janeiro de 1938″)

O que estou sugerindo, enfaticamente (e parafraseando Pierson) é que o componente ‘classe social’ aparece como sendo muito mais determinante na construção acadêmica deste mito da supremacia nagô, que surge aí pelo fim da década de 1930, início da de 1940 por impulsão – involuntária talvez – deste grupo de pesquisadores norte americanos.

Neste mesmo sentido, tanto suponho quanto acredito que as intenções destes estudiosos estrangeiros não era, exatamente generalizar o exemplo do Gantois como um modêlo válido para se entender o Brasil negro. Como se pode ver lendo os seus estudos, eles tinham como foco, muito mais o contexto da sociedade norte americana, entender como a família negra se estruturava numa sociedade altamente racista como aquela.

Estes estudos seriam – como, efetivamente foram – confrontados com pesquisas posteriores, em outros pontos da diáspora negra, como Haiti, Cuba e Suriname, assim como na costa oeste dos EUA. Não tinham, portanto, nenhuma pretensão de explicar a sociedade negra do Brasil com este pequeno recorte etnológico.

Pelo que se pode supor a esta altura, a partir desta abordagem bem preliminar da questão, quem aguçou, exacerbou, radicalizou a criação do mito da supremacia nagô (e com interesses bem complexos, que não cabem serem aprofundados ainda nas modestas intenções deste artigo) foram os estudiosos brasileiros. São eles que se aliam aos interesses desta referida ‘classe média’ negra de predominância nagô, interessados todos na afirmação do mito.

…Revelando extrema má vontade com os negros bantos, Edison Carneiro publicaria, em O Estado da Bahia, em 26 de outubro de 1936, um artigo intitulado “Culto da natureza entre os negros bantos”, que seria editado no ano seguinte no livro Negros Bantos, com o título “O culto da natureza”. Logo no início do texto, Edison Carneiro demonstra sua opinião sobre a formação cultural dos negros bantos:

“Os negros bantos eram, e são ainda, atrasadíssimos em cultura. Daí a sua dificuldade de generalizar.”

…Na verdade, Carneiro foi um dos primeiros estudiosos a estabelecer uma espécie de aliança com os candomblés de Ketu, também por considerar os negros bantos “muitíssimo mais atrasados do que os negros de acima do equador”.”

(Vinicius Clay –  “O negro em O estado da Bahia. De 09 de maio de 1936 a 25 de janeiro de 1938)

Pelo que se pode deduzir, esta elite negra a partir daí passa a associar o seu evidente projeto de ascensão social à uma ideologia na qual a supremacia religiosa (cultural no caso), mesmo que falsa ou suposta, passa a ser uma importante plataforma de legitimação, de garantia de privilégios semelhantes aos que esta mesma elite gozava nos tempos da escravidão.

São estas enfim, me parecem as intenções políticas e/ou ideológicas da afirmação desta suposta “pureza” nagô (sem se falar nas sutis características eugenistas do conceito “pureza” em se tratando de seres humanos.). Esta proposta sutilmente eugenista do mito da supremacia nagô, aliás dá muitos panos pra mangas.

Tocando ainda de leve nos tais “interesses complexos” ligados ás controversas intenções imiscuídas na invenção do mito da supremacia yoruba (de novo o lado espinhoso da questão) cabe ressalvar que estas ideias disseminadas pelos mesmos estudiosos (Herskovits e Arthur Ramos, entre outros) responsáveis pela invenção deste reducionismo nagô (como vimos muito conveniente aos seus respectivos interesses) serviram de base para a formulação de uma espécie de reciclagem das ideias racistas deste prelúdio da segunda guerra mundial, contidas nas sórdidas teorias conhecidas como “Democracia racial” e “Elogio à mestiçagem“.

…A visão do negro banto como detentor de um universo cultural limitado marca outras observações do autor (Edison Carneiro) e é objeto de sua análise em outro artigo publicado por ele em O Estado da Bahia…

Dessa forma, aponta o antropólogo Renato da Silveira, Edison Carneiro redireciona para os bantos a discriminação característica aos negros em geral fundamentada pelo racismo científico herdado do século XIX.

(Vinicius Clay –  “O negro em O estado da Bahia. De 09 de maio de 1936 a 25 de janeiro de 1938)

Não é mais difícil do que fazer um “o” com um copo: Junte o “reducionismo nagô” (os interesses de uma elite negra) com “elogio à mestiçagem” (os interesses neo racistas de uma elite branca) e enxergue uma estratégia ardilosa, solerte de manutenção do racismo no Brasil.

A parte mais cuidadosamente oculta ou omitida desta questão é que nunca houve uma linha evolutiva “pura” e direta entre as tradições africanas yoruba, jêje ou lá o que seja e o Candomblé do Brasil. Á época das pesquisas de Nina Rodrigues (início do século 20) já estavam bastante (e naturalmente) diluídas por aqui as sobrevivências culturais africanas, entre estas aquelas oriundas da costa ocidental africana.

“…O professor Júlio Braga analisa como esse processo de re-africanização da religião afro-brasileira na Bahia termina por reforçar o conceito de “pureza nagô” e alimentar o prestígio dos candomblés do povo de ketu, da nação iorubá. “O redescobrimento da África acontece inicialmente com Martiniano Eliseu do Bonfim que vai em direção aos yorubas da Nigéria, com quem conviveu…”

(Vinicius Clay –  “O negro em O estado da Bahia. De 09 de maio de 1936 a 25 de janeiro de 1938)

A Ala da “nagocracia”

O mito da “pureza” étnica, genética é um ‘mico’, ideia de macaco. Viram só, o diabo para quem trabalha?

Pelo que se pode concluir, cabalmente, Martiniano Eliseu do Bonfim, na verdade realizou verdadeira pesquisa de campo em Lagos, Nigéria onde, como vimos, residiu por muito tempo, trazendo para serem aplicados na Bahia, em verdadeiros workshops, aspectos rituais da cultura yoruba há muito desaparecidos por aqui, dando então um certo verniz (falso) de “pureza religiosa” para uma aristocrática elite negra, que já existia, poderosa, na Bahia desde os tempos da escravidão.

“…Tendo por volta dos 14 anos de idade (aproximadamente em 1875), Martiniano do Bonfim faz uma viagem com o pai à África e aí aperfeiçoa seu yoruba e inglês, que aprende numa escola de missionários ingleses. Quando volta ao Brasil, 11 anos depois, Martiniano já é um Babalawo.

As pesquisas literárias de Martiniano em Lagos sobre as tradições yorubas, além de vasto corpo de tradição oral, que sem dúvida se familiarizara, é que lhe permitiram recriar os títulos de Obá de Xangô”…”

(“O Candomblé da Bahia na década de 30“- Vivaldo da Costa Lima)

 (É importante se ressaltar inclusive, que Martiniano Bonfim foi a principal fonte para as pesquisa seminais de Nina Rodrigues ainda no fim do século 19, o que suscita questionamentos graves sobre as conclusões de Nina acerca das “sobrevivências” africanas na cultura negra do Brasil.)

“…Esse “moço negro, de pais africanos” era Martiniano. Teria, pelo tempo em que Nina o conheceu, cerca de trinta anos, pois nascera em 1859. Há quem diga que em 1860 ou mesmo 1861, sem muita certeza.

Dessa colaboração de Martiniano com Nina, falaria o próprio babalaô, muitos anos mais tarde, em 1938, à antropóloga Ruth Landes: “Todo o mundo pensa que eu tenho muito dinheiro mas desde que o Dr. Nina Rodrigues morreu, não tive mais um emprego regular”.

Teria sido, pois, Martiniano, um informante remunerado de Nina Rodrigues, sem que se saiba se com algum “vínculo empregatício” como hoje se diz, fosse através da Faculdade de Medicina do Terreiro do Jesus ou a serviço do próprio Nina.”

(Vinicius Clay –  “O negro em O estado da Bahia. De 09 de maio de 1936 a 25 de janeiro de 1938)

E podemos por fim deduzir, com muita chance de acerto que, havendo sido estas tradições supostamente “puras” contidas no Candomblé baiano, na verdade artificialmente importadas numa “pesquisa de campo” de Martiniano Eliseu do Bonfim em sua longa residência em Lagos no século 19, para serem implantadas em Salvador, todas as conclusões de Nina Rodrigues, bem como a de seus sucessores nas décadas de 1930/40, têm muito mais relação com recriações artísticas da cultura yoruba, do que com a cultura do negro brasileiro real.

(Tudo “caô caô”, com o perdão do chiste.)

Mas é ainda pior a coisa:

“Inspirando-se fartamente nas ideias que Gilberto Freyre (1938) expressara nas suas conferências da Europa (em Lisboa e Londres) sobre a “democracia social” brasileira e a matriz cultural lusitana, transformando a mestiçagem em um mecanismo de integração e mobilidade social dos povos colonizados, o Dr. Ramos (Arthur) passará a ser o principal intelectual brasileiro a divulgar o Brasil como uma “democracia racial” e um “laboratório de civilização”.

Trata-se portanto – vivo insistindo – do seguinte: Os fundamentos dos estudos sobre a cultura negra no Brasil estão assentados num mito, numa farsa etnológica intencional, reproduzida ad infinintum por acadêmicos brasileiros. Uma antropologia comprometida ideologicamente com a manutenção do status quo, reacionária, interesseira, se me permitem o termo.

Não tem sido por mal, imagino que tenha dado para entender melhor, por fim. Titio não é um leviano polemista a inventar conflitos estéreis e intrigas divisionistas, nem muito menos um crioulo doido.

Leiam de novo as referências sobejamente explanadas nos links deste post e concluam por si mesmos como o buraco do sistema de racismo à brasileira é uma construção ideológica meticulosa, com um único buraco, bem mais embaixo do que este ramerrão pregado pelo senso comum.

(E o buraco – é bom que todos saibam logo – é a nossa própria alienação)

Não tente, portanto assassinar o mensageiro da má notícia. Será sempre um tiro no pé. Trata-se daquele velho impasse: “Se correr o bicho pega. Se ficar o bicho come.

Mate a cobra (o bicho) e mostre o pau.

Spirito Santo

Janeiro 2014

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~ por Spirito Santo em 20/01/2014.

9 Respostas to “A Guerra, a Academia e a “impureza” nagô”

  1. Yérsia,

    Sim, não conheço esta disseraçcão da Beatriz, mas peguei muitas referências de um outro texto dela, se não me engano, sobre as idiossincrasias da bibliografia sobre Palmares.
    Agradeço muito o seu entusiasmo.

    Abs

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  2. Li o texto , gostei demais, me lembrou fortemente os argumentos da professora Beatriz Gois Dantas na sua dissertação da década de 80 intitulada ‘Vovó Nagô, Papai Branco: usos e abusos da África no Brasil, muito do que você diz aqui a professora discute na dissertação dela, caso não conheça, o texto ta disponível no repositório [site] da Unicamp. Parabéns pelo blog, um achado no mundo virtual.

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  3. Mateus,

    Infelizmente no momento não posso te responder com profundidade, mas acho que não existe saída dentro do âmbito proselitista e dogmático das religiões.

    Todas elas – inclusive o candomblé – se valem do canibalismo da ortodoxia das outras e são instituições reacionárìas em si mesmas e trazem prejuízos para os fiéis das outras.

    Você mesmo demonstra isto quando compara, negativamente o catolicismo com o candomblé (que você pretende “purificar” e “salvar”)

    Como não tenho crença religiosa alguma, sou muito cético quanto a isto.

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  4. Caro,

    Agradeço imensamente as alentadas respostas que você forneceu. De fato, meu olhar para toda a questão mudou, o que atesta a fecundidade do debate.

    A questão, aliás bastante pessoal, que gostaria de lançar é se você julga possível, a partir da estrutura (e no seu interior) que temos hoje do chamado “Candomblé”, modificar esse quadro originário que provocou a exclusão de um sem-número de outras vertentes, para usar sua perspicaz expressão, de “inspiração africana” — haveria uma forma de desconstruir essa teia de normativização (responsável pela errônea noção de “pureza cultural”, ou seja, “pureza de culto”) mesmo participando dela?

    Para mim, o problema é candente. O candomblé forneceu para nós, pessoas negras, um espaço de expressão e um direito a superar as pechas de “feitiçaria” e de “seita” ao construir um “cosmo” de referência legítimo frente a outros. Dizer-se “de candomblé” hoje parece colocar-me em posição de franca luta contra duas tendências racistas determinantes pra construção da sociedade brasileira: uma, a proselitista cristã, que com sua visão de mundo pautada no absolutismo dos valores, relega qualquer crença e qualquer universo simbóico que divirja do seu à condição de “idolatria”, de “coisa do demônio”; outra, a tendência cientificista e higienista a desvalorizar por “primitivo”, “supersticioso” e “atrasado” tudo quanto é manifestação espiritual e cultural que não se encontre sob o manto salvífico da história e do modo-de-viver do europeu. Não obstante, saber que esse espaço foi galgado a preço alto (qual seja, a clandestinização de tantas outras expressões, igualmente legítimas) devolve-nos à dilacerante posição de tributários desse racismo que desejamos tanto ver superado.

    Talvez eu esteja pedindo demais, mas se até aqui contei com sua atenção simpática, vale arriscar: é possível divisar alguma boa saída nesse “labirinto histórico”?

    Reitero os agradecimentos e já anoto o interesse (se você conhecer boas fontes) em conhecer o Vodu haitiano.

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  5. Mateus,

    Agora vamos as suas questões:

    …”você compreende então (ou eu deliro) que não há permanências (isto é, tradições trazidas d’Áfricas que permaneceram ilesas através dos séculos de escravidão) no Candomblé?”

    Não. Você não delira. As tradições, trazidas da África ou de qualquer outro lugar, não permanecem, de modo algum ilesas (melhor dizer estáticas). A razão é simples: seres humanos iguais a todos os outros, os negros manifestam-se também em suas tradições segundo circunstancias as mais diversas, condicionadas pela dinâmica do tempo e do espaço histórico.

    As tradições são representações simbólicas de regras gerais, geralmente culturais (sociais) e morais, inventadas por uma comunidade, mas transformadas alteradas no processo, adaptadas à novas circunstancias, segundo alterações do meio, do espaço enfim. É o natural.

    É como a evolução normal de uma pessoa, que tem um traço individual, genético identitário, mas se adapta ao meio, se transformando, se socializando enfim.

    ———–

    …”Seria ele (o candomblé) uma religião toda constituída pela importação, do final do século XIX pra cá, de conhecimentos e costumes adquiridos, como você apontou, da Nigéria? Uma religião “fake”, pra utilizar seu linguajar?”

    Sim. Mas a expressão “fake” não é usada aqui de forma assim tão leviana e tem aí um sentido muito mais abrangente. Não me refiro apenas a, como você diz”, “…conhecimentos e costumes adquiridos…da Nigéria”. O erro que constatei no caso do Candomblé oficial, convencional foi exatamente este.

    Muitas das “tradições” mais aparentes e representativas deste candomblé, são falsas mesmo, na acepção da palavra, nada tendo a ver com a cultura yoruba original. É que, como tive a oportunidade de constatar, elas foram artificialmente criadas por um grupo de poder (e não uma comunidade) grupo este não exatamente negro ou africano (composto como assinalei até por intelectuais brancos, estrangeiros) e preservadas sempre artificialmente, com intenções políticas bem medidas, no caso estudado com a função de legitimar um acordo de uma auto intitulada elite negra com a aristocracia branca, no topo do poder.

    (Há nesta construção da ortodoxia deste candomblé – pasme – elementos diversos do islamismo e até do catolicismo)

    Ocorre que no caso que estudei, esta elite negra do fim do século 19, era formada, majoritariamente por ricos aristocratas baianos de ascendência “nagô”, gente yoruba por suposto.

    O principal artifício político desta elite negra foi, com efeito vender e manter uma ideia de “pureza” étnica muito discutível, vagamente baseada em aspectos superficiais, meramente estéticos (teatrais) tirados de uma ideia de cultura yoruba vaga e imprecisa.

    Este status de discutível “pureza étnica” (de conteúdo sutilmente racista, diga-se) assumido pelo candomblé oficial, está em voga até hoje, impregnado profundamente em nossas relações sócio raciais, na minha opinião, infelizmente operando como um fator de perenização da exclusão social e do racismo, já que nos enfraquece culturalmente.

    —————–

    “…O que, dentro de todas as expressões religiosas negras no Brasil, não padeceria do mesmo vício?”

    O eixo desta sua pergunta reside numa contradição fundamental da luta do negro brasileiro contra o racismo. É aí que se encontra o germe de toda a questão. O que você chama de “vício” (e eu concordo), com efeito não ocorre com as demais religiões de inspiração africana. Elas não são afetadas por esta burocrática sistematização do candomblé.

    Em compensação as elites do movimento negro e as instituições culturais negras oficiais em geral, não consideram estas religiões diversas do candomblé “legítimas” ou “puras”.

    Logo, em condições normais, esta herança africana no Brasil sofreria, naturalmente transformações induzidas pelo meio (no tempo e no espaço). Com efeito o processo destas adaptações das religiões africanas, já com o concurso de outras culturas negras além da dos nagô, estava em franca efervescência no final da década de 1930, por ocasião do II Congresso Afro Brasileiro de Salvador.

    Foi quando o grupo de intelectuais ao qual me referi promoveu a ingerência formal, oficial, nas estruturas de culto das religiões vigentes, colocando todas as linhas negro religiosas não-yoruba-jêje, ‘fora da lei’.

    (No geral, estas linhas postas ‘fora da lei’ foram denominadas genericamente de “umbanda”.
    A este respeito leia se quiser um post que escrevi aqui sobre Joãozinho da Goméia, pai de santo originalmente de Umbanda, personagem central destes incidentes de 1937)

    As intenções deste grupo (espero ter ficado claro no texto original), não era outra senão convencer o governo da Bahia a conceder privilégios sociais a um grupo determinado de negros (uma elite), providencialmente aqueles ligados a ortodoxia nagô, ou seja, descendentes daquela mesma aristocracia yorubana dos tempos finais da escravidão.

    ———–

    “… Sempre conheci por “Candomblé” uma grande variedade de tradições, com o destaque de certas vertentes ligadas à etnia de que provêm (um candomblé yorubano, assim como um candomblé bantu, um candomblé fon etc.). Para você, isso não seria Candomblé?”

    “Candomblé” é uma palavra de sentido fugidio. A raiz é a palavra angolana “Ka-ndombe”, para alguns querendo dizer, vagamente, “coisa de negros”. O termo, como se viu foi apropriado por esta corrente Yoruba-Jêje (ou a ela atribuído) na década de 1940, num esforço de “oficializar” uma única corrente religiosa africana.

    Ocorre que estas categorias de “candomblés”, se formos aprofundar o debate, não representam, de modo algum o universo maravilhosamente diverso das religiões negras do Brasil. Com efeito esta categorização é fruto, exatamente deste enquadramento purista ao qual me referi, ocorrido após o Congresso Afro Brasileiro de 1937.

    As lideranças de algumas correntes afro religiosas, sem alternativa política, tiveram, portanto, que enquadrar suas ortodoxias no modelo Yoruba-jêje, já identificado como “candomblé autêntico”, gerando estas sub-
    categorias as quais você se refere, para escaparem do estigma de “religião impura”, “ilegítima”, como disse acima.

    Observe que este “enquadramento” político ideológico de caráter elitista, corporativista que atribuo ao candomblé convencional
    baiano, entre as culturas africanas na Diáspora, só ocorreu no Brasil. Nas demais culturas – notadamente as do Caribe como o Palo Mayombe – a evolução natural, orgânica que reclamo ter sido desconstruida no Brasil, ocorreu normalmente.

    Olhe bem, com estes novos olhos o Vudu haitiano, impressionantemente parecido com a expurgada Umbanda do Brasil e me diga se não tenho razão?

    Obrigado pelo instigamento das perguntas.Volte sempre.

    Grande abraço

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  6. Mateus,

    Maravilhosas as suas perguntas porque instigantes. Vou responder devagar, amanhã.
    Obrigado.

    Grande abraço!

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  7. De início, o elogio ao artigo e ao articulista. Aprendi em um dia mais que em toda uma vida: parabéns pelo trabalho executado.

    Agora, a pergunta: com base em sua pesquisa, você compreende então (ou eu deliro) que não há permanências (isto é, tradições trazidas d’Áfricas que permaneceram ilesas através dos séculos de escravidão) no Candomblé? Seria ele uma religião toda constituída pela importação, do final do século XIX pra cá, de conhecimentos e costumes adquiridos, como você apontou, da Nigéria? Uma religião “fake”, pra utilizar seu linguajar?

    Se sim, o que, dentro de todas as expressões religiosas negras no Brasil, não padeceria do mesmo vício? Sempre conheci por “Candomblé” uma grande variedade de tradições, com o destaque de certas vertentes ligadas à etnia de que provêm (um candomblé yorubano, assim como um candomblé bantu, um candomblé fon etc.). Para você, isso não seria Candomblé?

    Perdoe se as perguntas são, por vez, rasas. Interessa-me o assunto.

    Um forte abraço!

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  8. Pois é, Deivison,

    Achar estes papers foi o que facilitou tudo. Como se vê as evidências sempre estiveram na nossa cara, mas alguém tinha que juntá-las para lhes dar este sentido cabal.

    Sobre a contraditória relação entre “pureza nagô” e “elogio à mestiçagem”, você tocou no ponto mais nevrálgico do problema, o mais difícil de explicar,exatamente porque são pontos ambíguos, para mim faces de uma mesma moeda.

    Da “pureza” vista aqui como um conceito étnico é fácil falar: como se vê lendo um dos trechos da Ruth Landes, era um paradigma da antropologia da época, muito marcada pelo tal racismo “científico”, aquela merda toda do Lombroso e do Nina Rodrigues. O ponto chave aí é que na cabeça deles, esta “pureza” étnica (cultural), acabava representando um valor genético, “racial”, portanto (uns negros seriam “superiores” aos outros negros)

    No caso da “mestiçagem”, que parece contraditório, pois, a “mistura” seria um valor negativo por esta mesma antropologia, é mais difícil teorizar, mas observe que é uma “evolução” do mesmo princípio da hierarquização genética, eugenista, no caso. O “mulato”, ao fim de tudo, seria “superior” ao, “melhor” que o negro. Observemos que eles nunca falam que seria “melhor” que o branco, já que este seria topo da pirâmide genética,

    O que a teoria do Freire e do Arthur Ramos coloca, grosso modo é que a miscigenação seria positiva para a sociedade brasileira porque diluiria as diferenças raciais que ensejavam o racismo. Esta é a questão: trata-se de uma falácia. O “elogio à mestiçagem” na prática, tenta anular o negro como elemento de uma equação social cujo resultado, com o negro ativo, é o conflito, o confronto.

    Assim, estrategicamente a luta contra o racismo entra num impasse de difícil solução. Aparentemente, para se afirmar como pólo deste confronto sempre eminente, caímos na armadilha de exaltar a “pureza” étnico racial, ficando tão anacronicamente racistas quanto eles (e o status quo, para a alegria deles) não muda.

    Por outro lado, não podemos escapar (na verdade podemos sim!) da armadilha negando o caráter racista da “pureza”, pois eles nos convenceram que a miscigenação nos dilui, nos faz desaparecer. Puro maquiavel. Mentira. Se formos partir para a genética de Darwin, a ” evolução das espécies”, provavelmente ELES é que desaparecerão.

    O nó é portanto IDEOLÓGICO. Precisamos entender que o conceito miscigenação, com este conteúdo eugenista que ele carrega, é uma farsa, pois cientificamente, raças não se “misturam”, já que raças não existem. Logo, o conceito “mulato”, do ponto de vista do racismo, não existe também porque, para o racismo, TODOS que não são brancos, serão tratados, precisam ser tratados, como negros.

    Então, finalizando, a nossa luta mais importante hoje, seria abandonar correndo o mito da “pureza”, que nos divide e, por ser racista, privilegia a manutenção do racismo, já que é um fator paralisante que estimula a criação de uma elite negra assimilada pelo sistema e, evidentemente reacionária.

    Temos um exemplo candente de que esta estratégia é a correta: Crescemos muito, politicamente quando o conceito “negro” passou a juntar “pretos” e “pardos”.

    Todo este papo sobre “pureza” nagô, para mim, encerra enfim este paradigma racista que nos paralisa e que precisa ser quebrado.

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  9. Para ser mais didático, só desenhando rsrs. Só acho que um ponto mereceria explicação mais detida… essa relação entre pureza nago e o elogio à mistura.
    No mais, uma grande contribuição para entender a origem dos estudos sobre a cultura negra no Brasil.

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