Vissungos d’Angola ou do Brasil?


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Na foto, Alessília, mulher de Pedro Lucindo ("Pedro de Alessília") com gesto significativo indica para o pesquisador (o Titio, com uma equipe de cinema) o que fazer para que Pedro cantasse vissungos e desse uma entrevista: Só dando "um dinheirinho"  A verdadeira "corrida do ouro" de estudiosos acadêmicos, principalmente da UFMG á região de Diamantina, á cata de faladores ou cantadores de " língua benguela", provocou um interessante e deletério fenômeno antropológico: A corrupção das fontes.

Na foto, Alexina mulher de Pedro Lucindo (“Pedro de Alexina”) com gesto significativo indica para o pesquisador (o Titio, com uma equipe de cinema) o que fazer para que Pedro cantasse vissungos e desse uma entrevista: “Só dando um dinheirinho”, disse.

A verdadeira “corrida do ouro” de estudiosos acadêmicos, principalmente da UFMG á região de Diamantina, á cata de faladores ou cantadores de ” língua benguela”, provocou um interessante e deletério fenômeno antropológico: A corrupção das fontes.

Ter um pezinho na cozinha não explica tudo, mas ajuda muito ao pesquisador.

O mote deste post é um comentário do Titio replicado pelo amigo historiador Rafael Galante com “provocações” instigantes e interessantíssimas. Você entenderá, perfeitamente o contexto do debate lendo apenas este post aqui, mais é altamente recomendável ler o post original.

A explicação para elaborar uma tréplica tão gigantesca é simples: Este tema  – “Vissungos” – é a mãe de todas as pesquisas do Titio: A música dos escravos angolanos ditos “benguela” em Minas Gerais e no Brasil

_”Padi Nosso cum Ave Maria! Auê, Nzambi!”

Rafael Galante (e demais convivas)

(Ressalvo que adoro estes questionamentos porque me instigam a aprofundar minhas reflexões, mesmo nas limitações de um post de facebook)

Vamos lá:

São ambas, a minha e a de Rafael Galante traduções possíveis de um ponto de Vissungo. Foi exatamente o que quis ressaltar em minha resposta, apontando o caráter provisório e questionável destas tentativas de se entender o texto de uma canção tradicional numa língua estrangeira.

Não compreendo, contudo como se pode discordar do fato – para mim óbvio – de que uma cultura, reconhecidamente estrangeira não pode ser, devidamente compreendida sem um estudo comparativo de seus aspectos originais, ancestrais, ainda mais quando o eixo do estudo é linguístico, semiológico (elementos de cultura oral, no caso)

Como traduzir textos de tal origem sem uma compreensão ampla e abrangente da história e da cultura remota destes povos, tão mais antigos quanto diferentes de nós? De onde sai esta presunção acadêmica brasileira de que se pode desvendar enigmas tão antigos da cultura da África partindo apenas de elementos, esparsamente recolhidos no Brasil?

Não lhes parece – e principalmente a você, Rafael Galante, um historiador – uma ideia simplificadora acerca da cultura alheia?

Sempre me pergunto porque este valor metodológico basilar é tratado de forma tão diferente quando se trata do estudo da cultura indígena brasileira, por exemplo, na qual elementos mais intrinsecamente ligados à ancestralidade cultural – os mais remotos como a herança pré colombiana, por exemplo são tão – quase super – valorizados.

Porque será que se trata a cultura dos africanos no Brasil de maneira tão displicente e simplificadora, subestimando-a, criando esta dicotomia tão improvável entre os aspectos originais africanos e sua extensão no ambiente escravista, no Brasil?

Esta renitente recusa, aliás, típica da historiografia brasileira tem, me parece fundamentos ideológicos bem estranhos. É como se pudesse admitir a ocorrência de um hiato, uma amnésia, um mal de Alzheimer paralisante que fizesse todo negro apagar de sua memória o passado africano, assim que cruzasse o “umbral do kalunga“, reduzindo sua cultura anterior à “sobrevivências” esparsas, meras “reminiscências“.

Carecem de lógica ou relevância, portanto, pelo menos para mim estudos que subestimam a pesquisa da cultura negra do Brasil também nas pontas de suas origens. Trata-se de um nó transatlântico como disse, o mesmo que caracteriza o estudo da cultura das colônias alemãs do sul do Brasil, por exemplo.

Por outro lado, o que você, Rafael chama de “benguela“, na verdade, como imagino que já saiba, é basicamente um idioma chamado “Mbundo“, falado na parte sul de Angola. O termo “benguela“, aliás, se refere, com efeito ao porto de onde estes africanos embarcaram para cá, oriundos de vários grupos étnicos vizinhos (e nem sempre “indígenas“, “selvagens“, como se costuma imaginar), ressaltando-se que a própria língua benguela trazida para cá é por sua vez um conjunto de outras línguas irmãs ou vizinhas.

A língua falada por estas pessoas, estou completamente convencido, veio para a região de Diamantina e Serro Frio, íntegra e diversos fatores que não cabem aqui neste comentário a mantiveram perene até, pelo menos 1928, quando da pesquisa de Aires da Matta Machado Filho, ou mesmo 1942, quando das gravações de Luiz Heitor Correa de Azevedo para a biblioteca do congresso norte americano. E digo “perene” com a ressalva de que em 1928 já haviam poucos falantes sobreviventes.

Pode-se por esta razão supor que o Umbundo-kimbundo, com pequenas variações dialetais, foi língua fluente na região. Enquadro o estudo de todos os pontos de vissungo em umbundo e kimbundo (pelo menos) por esta simples razão metodológica, no contexto de “música africana“, “angolana“, mais precisamente. As razões musicológicas para esta minha constatação, além das etimológicas, a estrutura das escalas, a rítmica , etc. são mais evidentes ainda.

(Não é o que se faz, estranhamente com os pontos de candomblé, tratados todos como música africana, nigeriana por suposto?)

Sobre o “benguela” ser falado também em outros contextos, isto é óbvio. Era a língua daquelas pessoas em todos os aspectos de sua vida. Não era, evidentemente um “dialeto” de garimpeiros. Neste sentido mais interessante seria se constatar a forma curiosa como o repertório de cantos específicos, “de trabalho” como se diz, assim que as razões técnicas de seu uso se extinguiram, migraram para manifestações religiosas ou recreativas como os catupés em toda a região (na verdade em todas as Minas Gerais)

Outra obviedade é que veio gente oriunda do Porto de Benguela para o Brasil (aportavam no Cais do Valongo) de forma maciça no século 19 inteiro, quando o Porto do Benguela se transformou no maior exportador de escravos para o Brasil.

Por esta razão já cheguei a deduzir que há semelhanças morfológicas muito intensas entre a cultura de negros do garimpo de Minas Gerais e negros das fazendas de café do Rio de Janeiro. A semelhanças entre a prosódia do Jongo e das “cantigas de mofa ou insulto” recolhidas por Aires da Mata em São João da Chapada são candentes. Ambos os grupos de escravos falavam – fácil se constatar – o mesmo idioma Umbundo-kimbundo.

Maria Miúda e Pedro "de Miúda" relatam sua vida de descendentes de angolanos do Benguela

Maria Miúda e Pedro “de Miúda” relatam sua vida de descendentes de angolanos do Benguela (foto: Spirito Santo)

Outro esclarecimento é sobre os repetidores de vissungo citados, Ivo Silvério e Pedro de Alexina. Ora, não se trata absolutamente de desqualificá-los, mas ao contrário qualificá-los mais precisamente. Conheço bem os dois e pude avaliar, facilmente que suas habilidades, digamos linguísticas têm sido por demais superestimadas, de forma irresponsável até por pesquisadores que começaram a se dirigir ao local em verdadeira “corrida do ouro” a partir do ano 2000, por aí.

Há muito romantismo e, infelizmente, muito oportunismo acadêmico envolvendo as pesquisas na região. Foi o que pude constatar em minha última viagem.

Ivo e Pedro são informantes importantes sobre as práticas culturais locais, mas não são, absolutamente “falantes do idioma benguela“. Mantêm por perspicácia (e pela indução esperta dos pesquisadores), a mística de “faladores do idioma“, mas repetem apenas a fonética portuguesa aproximada de certos vocábulos, tentando e sugerindo traduções, como disse, estapafúrdias e sem sentido que vão aparecendo numa ou noutra tese doutoral, criando o tal “cipoal de equívocos” que aludi num comentário anterior.

Mesmo Crispim Viríssimo, já falecido e para mim o último verdadeiro vissungueiro (talvez tenha sido o professor de Ivo), já não dominava o idioma com total fluência, embora fosse um rigoroso cultor da pertinência linguística (tive acesso a um caderno-vocabulário que ele finalizava)

O fato é que não ocorreu em São João da Chapada, Milho Verde e adjacências, pelo menos de forma perceptível, uma “crioulização” do idioma “benguela” o que, obviamente impossibilita o estudo dos textos de Vissungo apenas no Brasil. A língua original, por falta de falantes, se diluiu no português, irremediavelmente.

Sobre dicionários e fontes escritas, claro que elas existem. São dezenas de dicionários, centenas de teses, livros, etc. (a maioria, ressalte-se de fora do país). Mas o tema é muito complexo. A exata tradução de um texto, um vocábulo que seja, exige o cruzamento de verbetes de vários dicionários e vocabulários, de variadas épocas.

Isto sem se falar nas complicações oriundas do fato de serem línguas morfologicamente bastante diferentes do português e dos textos serem muitas vezes metafóricos, com a semântica atrelada, de forma direta a um contexto geográfico ou histórico muito específico, muitas vezes intangível.

Ora, línguas são estruturas vivas, dinâmicas. O que se está fazendo com estas traduções supostas,

por todas as razões técnicas que mencionei, não passam muito de rasas suposições.

Sobre o parágrafo que Rafael Galante assinala, aludindo ao meu suposto “kongocentrismo”, desculpe mas não procede a crítica, chega a ser leviana até e vou tomá-la como uma simpática provocação.

Como bem sabemos o debate está restrito à questões ligadas exclusivamente ao contexto do Kongo, certo? Não sei porque reduzir o conteúdo da conversa a esta crítica tão fora de propósito. Estamos falando de que afinal? Não é da cultura Kongo-Angola? Fica parecendo uma defesa impertinente deste nagocentrismo recorrente e já meio fora de moda, tão renitentemente defendido pela academia branca ou preta sem noção.

Nas mesmo assim, pacientemente explico “de onde tirei” esta afirmação assinalada:

Tirei de pesquisas, meus caros, de aspectos históricos da formação do Reino do Kongo com ênfase na formação da língua local (o Ki-Kongo). Não sei se vocês sabem, mas a língua do povo que ocupou esta região denominada Kongo, começou a se formar no século 12, ou antes até. Uma parte destas pessoas originais veio do Camarões, se fixando nas margens do Rio Zaire (Nzadi, no original kikongo) onde outro povo já se encontrava.

Num processo que também pode ser entendido ou medido por meios historiológicos, por volta do século 17, a língua surgida da junção das duas culturas irmanadas no que chamamos de Kongo, foi sistematizada. Sim: Sistematizada!

Num fato pouco sabido ou estudado por nossa historiologia por razões que já sugeri acima, uma elite intelectual congolesa foi formada por jesuítas (num colégio instalado em Mbanza Kongo, capital do Reino). Foi um intelectual desta elite local quem criou as bases eruditas do idioma kikongo, levantando uma gramática e escrevendo um dicionário (kikongo-espanhol-kikongo). Este estudioso se chamava Manoel Raboredo e foi capelão do manikongo D.Antonio Nkanga a Nvita, morto decapitado na batalha de Mbwila em 1665.

É a esta língua erudita, pois – sem kongocentrismo algum e por conta desta sistematização que descrevi grosso modo – que chamo de “Kikongo clássico“.

(Façam uma analogia com o estado de formação do português no século 16 ao 17
que encontrarão muita similaridade no processo congolês, a rigor comum na formação de qualquer língua humana).

Por injunções históricas bem óbvias, este Kikongo se espraia para o sul, no âmbito da geopolítica colonial, formando na época da hegemonia de Luanda como sede da colônia, uma língua denominada “Kimbundo“, uma espécie de kikongo popular, uma “língua da plebe“, com evidente impregnação de elementos das línguas autócnes.

Evidente que ao estudarmos aspectos gerais de nossa cultura negra neste período (escravos oriundos do Porto de Luanda) nos séculos 16 (final) e 17 (todo) a língua de referência será este Umbundo/Kimbundo.

Foi com o deslocamento dos interesses econômicos da colônia mais para o sudeste de Angola que entramos no contexto linguístico do Mbundo, que é talvez uma variação local do Kimbundo do centro oeste de Angola que, como vimos se formou como variação do que chamei de “Kikongo clássico“. Um processo longo e complexo de amalgamento linguístico, pois, ocorrendo no tempo e no espaço, gerou duas outras línguas tributárias daquele Kikongo seminal, misturado como disse à línguas locais, de origem mais remota.

Sobre o surgimento da cultura Mbundo-kimbundo na região das Minas Gerais, Brasil, a entrada de escravos angolanos nesta região, de modo mais evidente começa mesmo com a descoberta de ouro e diamantes na área, ali por volta da virada do século 17 para o 18 passando a ser muito intenso este fluxo de meados para o fim do século 18 (vide Chico Rei em Vila Rica e Xica da Silva – natural de Milho Verde – em Diamantina)

(Observe-se que depois da derrota do Reino do Kongo em 1665, Portugal descobre que não há ouro em Angola decidindo lançar todas as suas fichas no ouro descoberto nas Minas Gerais do Brasil)

Este fluxo de mão de obra escrava se torna mais intenso ainda até o início do século 19, quando se reduz, drasticamente com o fim da Real Extração e Diamantina e a transferência do nosso eixo econômico para o Rio de Janeiro com a entrada do ciclo do café (Vale do Paraíba do Sul)

Espero ter sido claro, mesmo nestas breves colocações, apesar de achar óbvio demais todo este processo.

2009. Titio com meninos e meninas descendentes do povo Benguela de São João da Chapada, cercanias de Diamantina, Minas Gerais.

2009. Titio com meninos e meninas descendentes do povo Benguela de São João da Chapada, cercanias de Diamantina, Minas Gerais. (foto: Felipe Mantovan)

Sobre as digressões sobre as nossas traduções supostas, a minha e do Rafael, me poupo de comentar por enquanto por que elas só demonstram a impossibilidade de se traduzir Vissungos a partir de meras suposições com palavras soltas. Afinal, por exemplo, de onde você, Rafael, tirou este sentido de “velocidade” para a palavra “ondoró“? Em qual dicionário você encontrou esta grafia para “ondoró“. Não existe esta forma em Kimbundo, nem em Mbundo! Este fonema “on”, invariavelmente é o “n”’ ou “m‘ bilabiais, sendo que o “r” vibrante não existe nestas línguas (como não existe em japonês) daí eu sugerir “Ndolo“, palavra mais aproximada da fonética em português)

A superficialidade desta abordagem vocabular, enfim é por demais evidente.

Esta minha suposição para o garimpo clandestino (o texto do ponto é que, supostamente fala em garimpo “depois do sol se por“) se baseia em dados históricos estabelecidos, bem conhecidos e em fontes orais idôneas também, recolhidas na região, que enfatizam, fortemente a prática de garimpo clandestino por parte de escravos, de maneira muito recorrente (Aires da Mata em seu livro clássico, traz muitos dados sobre isto)

Aludindo ao caráter metafórico (eventual) do texto, este “garimpar após o sol se por” pode ter também outro sentido menos literal, aspecto que também deve ser considerado.

Contudo, observe que não faço afirmações peremptórias, apenas sugeri que se abordasse de maneira menos superficial e subestimativa os aspectos complexos de nossas origens africanas transatlânticas, infelizmente ainda tratadas com tanto preconceito e parcimônia, sabe-se lá porque.

Vocês têm ouvido música popular angolana ultimamente? Prestem muita atenção em quantos “auês” vocês vão ouvir por aí, falamos algum Mbundo-kimbundo sem o sabermos. Que mal haveria em melhor saber?

Finalizo com uma última provocação:

Esta tendência dos estudiosos e acadêmicos brancos (e pretos sem noção) de enquadrar tudo quem é da cultura negra no escaninho reducionista do “mágico“, do “místico” ou do “religioso“, reflete a mesma metodologia geral calcada neste inaceitável preconceito, uma tendenciosa vocação para reduzir tudo que é africano ao campo do primitivismo, do barbarismo e do empirismo mais improváveis.

Muito pouco de científico nisto aí. Hora de quebrar esta redoma.

No mais grande abraço a todos e muito obrigado ao Rafael Galante pelas instigações de sua postagem.

(Em tempo: Existe por aí uma regravação deste disco “Canto dos Escravos” em que o Titio – sim, eu mesmo! – apareço cantando duas composições minhas (uma cantada junto com a Clementina que faz aí sua última aparição em estúdio). As faixas foram extraídas do vinil da trilha do filme Chico Rei, de Walter Lima Júnior, gravado pela Som Livre)

Spírito Santo

Março 2014

O Cais do Valongo deu no “The New York Times”


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Os navios negreiros no século 19, atracavam no cais de pedra enorme na Rua do Valongo, exposto por arqueólogos perto do porto do Rio de Janeiro. Foto Lianne Milton para o The New York Times .)

Os navios negreiros no século 19, atracavam no cais de pedra enorme na Rua do Valongo, exposto por arqueólogos perto do porto do Rio de Janeiro. Foto Lianne Milton para o The New York Times .)

(Da série “Eu não disse?Eu não disse?Eu não disse?”)

Titio fez aqui no seu blog uma profícua série de posts sobre o assunto Cais do Valongo. Já faz tempo. O artigo principal se chamava “A arqueologia do Caô Caô” (leia a série completa a partir deste link: “A Lama do Valongo. Arqueologia do Caô Caô”

Tomei uns cascudos de gente omissa, ignorante ou oportunista, envolvida com os graves fatos que os posts denunciavam: A completa e suspeita indiferença carioca pela surpreendente importância arqueológica da região compreendida pelo Cais do Valongo e o chamado cemitério dos pretos novos, descobertas arqueológicas do acaso.

Titio falou também do caráter, muitas vezes raso das pesquisas relacionadas aos achados, e, principalmente do desinteresse das autoridades da Prefeitura e seu Porto Maravilha, preocupadas muito mais em esconder do que revelar as descobertas, numa ação que denominei “desarqueologia”.

Validando minhas afirmações sobre a importância histórica e arqueológica dos sítios fiz uma relativamente bem acurada pesquisa, chegando a conclusões muitas vezes inéditas, consideradas por muitos como tresloucadas ilações de um pesquisador piradão, mas vistas como pertinentes por quem sabe, pelo menos fazer um “o” com um copo.

Pois sim. Rindo a toa agora. Não é que hoje mesmo, tudo que o Titio concluiu, junto a uns poucos gatos pingados, acaba de sair, quase que literalmente levantado por uma excelente matéria, nada menos que do…THE NEW YORK TIMES?

E agora? Colonizados que são vão dizer o que os omissos e os oportunistas de plantão?

“Corrida do Rio rumo ao futuro atropela passado escravo”

(Por Simon Romero para o “The New York Times” – 8 de Março de 2014

Fotos de Lianne Milton – Tradução livre de Spirito Santo )

“RIO DE JANEIRO – Vindos da costa angolana, do outro lado do Atlântico, os navios negreiros atracavam no Rio de Janeiro no século 19 num enorme cais de pedra onde deixavam sua carga humana para as “casas de engorda” na Rua do Valongo. Cronistas estrangeiros descreveram a degradação deste mercado de escravos sempre superlotado, incluindo as lojas que vendiam crianças africanas magras e doentes.

Os corpos dos escravos recém-chegados que morriam antes mesmo de iniciada a sua labuta nas minas do Brasil, eram carregados para serem enterrados em valas comuns nas proximidades do cais. Os cadáveres eram deixados ao ar livre para se decomporem em meio a pilhas de lixo. Como se plantassem flores imperiais os escavadores do Cemitério dos Pretos Novos esmagavam os ossos dos mortos, para abrir lugar para “plantarem” milhares de novos cadáveres.

Agora, com equipes de construção civil demolindo enormes áreas do Rio de Janeiro para as obras dos grandes eventos da Copa do Mundo deste ano e dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016, descobertas arqueológicas impressionantes estão sendo feitas no entorno dos canteiros de obra, oferecendo uma nova visão sobre a brutalidade que imperava na cidade do Rio no tempo em que ela era o centro nervoso do tráfico transatlântico de escravos.

Petrúcio Guimarães dos Anjos e sua esposa, Ana de la Merced Guimarães, em sua casa. Foto: Lianne Milton para o The New York Times

Petrúcio Guimarães dos Anjos e sua esposa, Ana de la Merced Guimarães, em sua casa. Foto: Lianne Milton para o The New York Times

Mas, apesar disto as empreiteiras avançam pelos arredores do porto de escravos recém descoberto com seus projetos futuristas, como o Museu do Amanhã, que custa cerca de US $ 100 milhões e foi projetado na forma de um peixe pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava.

Esta frenética reforma urbana está desencadeando um debate sobre se o Rio está negligenciando seu passado histórico na corrida consumista para construir o seu futuro.

“Estamos descobrindo sítios arqueológicos de importância mundial e, provavelmente, muito mais extensos do que o que foi escavado até agora, mas em vez de priorizar essas descobertas nossas autoridades estão prosseguindo com a sua reconstrução grotesca do Rio”, disse Sonia Rabello, um jurista eminente e ex-vereadora.

A cidade instalou placas indicativas nas ruínas do porto de escravos e um mapa de um circuito da herança africana. Os visitantes podem agora caminhar pelo local onde estava localizado o mercado de escravos. Ainda assim, os estudiosos, ativistas e moradores do porto argumentam que tais ações são muito tímidas em comparação aos projetos urbanísticos de bilhões de dólares que vão tomando conta de todo o espaço.

Além do Museu do Amanhã, criticado por ser um empreendimento de custo muito elevado, as empreiteiras e as autoridades estão tocando ali numa série de outros projetos bombásticos, como um complexo de arranha-céus em homenagem a Donald Trump e um condomínio fechado para a moradia de juízes olímpicos.

Ao mesmo tempo, os descendentes de escravos africanos que vivem como posseiros em prédios decadentes ao redor do porto de escravos, estão se organizando num esforço para obter títulos para suas casas, colocando-se em conflito com a Ordem Franciscana da Igreja Católica, que reivindica a posse das propriedades.

“Sabemos que os nossos direitos”, disse Luiz Torres, 50, um professor de história e líder do movimento dos direitos de propriedade. Com as ruínas do mercado de escravos perto de sua casa, como testamento, ele acrescentou: “Tudo o que aconteceu no Rio foi moldada pelas mãos dos negros.”

(Foto: Ossos humanos esmagados de um cemitério foi descoberto na casa de Petrúcio Guimarães dos Anjos e Ana de la Merced Guimarães durante uma renovação. Crédito Lianne Milton para o The New York Times)

Os estudiosos dizem que a escala do comércio de escravos no Rio de Janeiro foi impressionante. De acordo com o banco de dados do Trans-Atlantic Slave Trade, um projeto da Universidade de Emory, o Brasil recebeu cerca de 4,9 milhões de escravos através do comércio atlântico, enquanto que a América do Norte importou apenas cerca de 389.000 durante o mesmo período.

Acredita-se que o Rio de Janeiro tenha importado mais escravos do que qualquer outra cidade das Américas, superando lugares como Charleston, Carolina do Sul; Kingston, Jamaica e Salvador, Bahia. Ao todo o Rio recebeu mais de 1,8 milhões de escravos africanos, ou 21,5 por cento de todos os escravos que desembarcaram nas Américas, disse Mariana P. Candido, historiadora da Universidade de Kansas.

“Os horrores cometidos aqui são uma mancha na nossa história”, disse Tânia Andrade Lima, arqueóloga chefe das escavações que expuseram o Porto do Valongo, construído logo após o príncipe regente de Portugal, D. João VI, fugir dos exércitos de Napoleão, em 1808, transferindo a sede da seu império de Lisboa para o Rio.

Ativistas dizem que as descobertas arqueológicas mereciam, pelo menos um museu e as escavações deveriam ser muito mais extensas, a exemplo de projetos similares de outros lugares, como o Museu Slavery International, na cidade portuária britânica de Liverpool, onde os navios negreiros eram preparados para as viagens, o Museu Old Slave Mart em Charleston e Castelo de Elmina, um entreposto para o comércio de escravos na costa de Gana.

O Cais do Valongo funcionou até a década de 1840, quando as autoridades resolveram soterrá-lo sob um cais mais elegante concebido para receber a nova imperatriz do Brasil da Europa. As duas construções foram finalmente soterradas, passando a fazer parte de um bairro residencial popular conhecido vulgarmente como “A Pequena África“.

Muitos descendentes de escravos se estabeleceram na área onde o mercado de escravos funcionava e suas línguas africanas eram faladas na região ainda no início do século 20. Apesar do bairro ter conquistado amplo reconhecimento como berço do samba, uma das tradições musicais mais apreciados do Brasil, ele foi por muito tempo negligenciado pelas autoridades.

“Sabemos dos nossos direitos”, disse Luiz Torres, 50, um professor de história e líder do movimento dos direitos de propriedade. Com ruínas do mercado de escravos perto de sua casa, como testamento, ele acrescentou: “Tudo o que aconteceu no Rio foi moldada pelas mãos de negros

Navios negreiros no século 19, atracavam no cais de pedra enorme na Rua do Valongo, exposto por arqueólogos perto do porto do Rio de Janeiro. Crédito Lianne Milton para o The New York Times .)

O Dia da Consciência Negra é comemorado anualmente no Brasil em 20 de novembro, para que se reflita sobre as injustiças da escravidão. Em 2013 Sonia Rabello, observou que o prefeito Eduardo Paes, que está supervisionando a maior reforma da cidade em décadas, diante das pesadas críticas não compareceu à cerimônia no Valongo, onde os moradores começaram uma campanha para que o cais seja reconhecido como um Patrimônio Mundial da Unesco.

Para complicar o debate sobre a forma como o passado histórico do Rio precisa ser tratado no processo desenfreado de reconstrução da cidade, algumas famílias ainda vivem em cima dos sítios arqueológicos, ocasionalmente fazendo escavações por sua própria conta.

“Quando eu vi pela primeira vez os ossos, eu pensei que eram o resultado de um assassinato horrível envolvendo inquilinos anteriores”, disse Ana de la Merced Guimarães, 56, o proprietária de uma pequena empresa de controle de pragas que vive em uma casa velha quando os trabalhadores que realizavam uma reforma no imóvel descobriram os restos de uma vala comum em 1996.

Merced Guimarães descobriu assim que estava vivendo em de um vazadouro de corpos de escravos mortos que foi usado por décadas, até por volta de 1830. As estimativas variam, mas os estudiosos dizem que cerca de 20.000 pessoas foram enterradas nestas sepulturas, incluindo aí muitas crianças.

Merced Guimarães e seu marido optaram então por permanecer em sua propriedade, criando uma modesta organização sem fins lucrativos no local, onde os visitantes podem ver partes da escavação arqueológica. As autoridades têm planos para construir uma via expressa na rua de Merced, o que pode levar a mais descobertas.

“Este era um local de crimes indescritíveis contra a humanidade, mas é também o lugar onde vivemos”, disse Guimarães em sua casa, reclamando que os órgãos públicos têm fornecido pouco apoio a sua organização.

Washington Fajardo, um assessor do prefeito do Rio de Janeiro sobre questões de planejamento urbano, disse que alguns passos importantes foram tomados nos sítios arqueológicos, incluindo a designação do porto de escravos como uma área de proteção ambiental. Ele disse também que existe um plano em estudo para criar um laboratório de arqueologia urbana, onde os visitantes poderão ver resíduos e objetos arqueológicos e acompanhar o trabalho dos arqueólogos que estudam o material dos sítios.

A casa em ruínas perto de onde o mercado de escravos Valongo, no Rio de Janeiro, uma vez funcionou. Crédito Lianne Milton para o The New York Times)

Washington Fajardo também enfatizou que em outro novo empreendimento no porto, o Museu de Arte do Rio, moradores da região representam mais de metade do pessoal contratado.

“Nós gostaríamos de fazer mais”, disse ele, referindo-se ao cemitério de escravos. “É complexo, porque há pessoas que residem sobre os sítios. Se eles querem ficar, temos de respeitar os seus desejos” ‘

Ao longo da cidade do Rio, outras descobertas estão sendo feitas. Perto de um projeto de expansão de uma linha de metrô, os pesquisadores descobriram recentemente relíquias pertencentes a Pedro II, último imperador do Brasil, antes de ser derrubado em 1889. Perto do porto de escravos, os arqueólogos encontraram também canhões usados como parte de um sistema de defesa marítima da cidade com quatro séculos de idade.

Mas nenhuma das descobertas foi tão marcante como a do Cais Valongo em 2011 e as escavações anteriores do cemitério em casa de Merced Guimarães. Além das grandes pedras do cais, os arqueólogos encontraram itens que ajudaram a reconstruir o cotidiano dos escravos, incluindo peças de cobre, talismãs e dominós usados como jogos de azar.

Entre o porto de escravos e o cemitério, os visitantes também podem ver a Ladeira do Valongo, onde os depósitos de mercado de escravos do Rio de Janeiro, horrorizavam viajantes estrangeiros. Um visitante, Robert Walsh, clérigo britânico que veio para o Brasil em 1828, escreveu o local e as transações que ali ocorriam.

“Eles são mal tratados pelo comprador que os descreve citando as diferentes partes de seus corpos, exatamente como eu já vi açougueiros descrevendo um bezerro”, disse ele. “Já vi algumas vezes grupos de mulheres bem vestidas comprando escravos aqui, exatamente como havia visto senhoras inglesas se divertindo em nossos bazares.”

O legado de escravidão é evidente em todo o Brasil, onde mais da metade dos seus 200 milhões de pessoas se definem como negros ou pardos, tendo o país mais pessoas de ascendência africana do que qualquer outro país fora da África. No Rio, a grande maioria dos escravos veio do que é hoje Angola, disse Walter Hawthorne, um historiador da Universidade Estadual de Michigan.

“O Rio era uma cidade de forte e vibrante cultura africana”, disse Hawthorne. “As pessoas comiam, se vestiam e tudo o mais, tinham modos e hábitos enfim, em grande medida influenciados por práticas culturais angolanas”

Brasil aboliu a escravidão em 1888, tornando-se o último país das Américas a fazê-lo. Agora, a abordagem relativamente displicente em relação às presentes descobertas arqueológicas está levantando dúvidas se as autoridades estão mesmo,dispostas a rever esses aspectos da história do Brasil.

“Os arqueólogos estão expondo as bases de nossa sociedade desigual, enquanto nós assistimos a uma tentativa perversa de refazer a cidade em algo semelhante a Miami ou Dubai”, disse Cláudio Lima Castro, um arquiteto e estudioso de planejamento urbano….Estamos perdendo uma oportunidade de nos concentrarmos em detalhes importantes do nosso passado, e talvez até mesmo aprender com ele.”

(Taylor Barnes, contribuiu com esta reportagem.)

(Agradecimentos especiais ao amigo Vincent Rozemblatt que me repassou o original da matéria, a qual quem quiser pode ler neste link: “Rio’s Race to future intersects  slave past. Com o perdão pela esforçada tradução do Titio)

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Spirito Santo

Março 2014