O Orgulho amargo da pitonisa

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Brasil haiti duplo

1-Toussaint L’Overture, líder da revolução haitiana no século 18. 2- Lula da Silva e Renèe Preval, presidente do Haiti no século 21

 Luiz Ignacio hoje e Henry Christoffe ontem:’

Que o o Haiti nunca seja aqui.

(O presente artigo enviado para publicação no jornal on line ‘Observatório da Imprensa’ em meados de 2005, no auge da crise do mensalão foi ‘derrubado’ pelo editor-chefe ou seja, considerado irrelevante ou inoportuno para a pauta daquela edição)

Em 05 de março de 2003, ainda no embalo da euforia generalizada que se abateu sobre a população brasileira com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, escrevi, como colaborador do OI, um artigo o qual, de forma um tanto impertinente talvez, intitulei “ Lula-lá- A classe média enfim vai ao paraíso”, A impertinência do título, por alguma razão editorial, não sobreviveu ao crivo do jornal e o artigo acabou sendo publicado mesmo sob um título menos enfático – ou mais politicamente correto para a época- : “Governo Lula –A mídia viu e fingiu não ver” [1]

Haviam contudo, muitas outras impertinências na primeira versão do texto original daquele artigo, do qual, usando o meu próprio e sensato crivo, sugeri para publicação apenas uma versão abrandada[2], que tinha uma relação mais direta com o comportamento estranhamente adesista da mídia– mais precisamente da imprensa brasileira – ás propostas visivelmente difusas e mal alinhavadas de um governo eleito no bojo de um fenômeno político eleitoral ainda mal explicado, além de ligado, demasiadamente talvez, á força da propaganda, do marketing, do poder avassalador da mídia.

Hoje, relendo o referido artigo, mais ainda, comparando-o com o auto censurado artigo original, só posso definir o que sinto, como uma espécie de orgulho amargo por ter sido uns daqueles poucos que, já naquela primeira hora, teve a petulância de exprimir impressões pessimistas, com relação ao obscuro destino de um governo apenas recém eleito.

É também de cabo de guarda chuva o gosto da surpresa com a quase absoluta propriedade da maioria de minhas considerações na época. Fica até valendo a pergunta: Como foi possível a um observador leigo, um não jornalista, portanto, acertar tanto em suas meras suposições, quase pressentimentos? Não seria por que a cobertura da candidatura e da eleição de Lula, por parte da imprensa, foi tão condescendente, tão superficial que acabou funcionando mesmo como mera propaganda?

O artigo em sua época: 2005:

“A renovação da atração popular por símbolos políticos de natureza midiática, ocorrida logo após a ditadura, talvez tenha sido reforçada no imaginário dos brasileiros pela saturação da ideologização estéril ocorrida no processo da campanha pelas Diretas Já, logo seguida pela frustração e a ressaca que sobreveio com a morte de Tancredo Neves e a chegada do tsunami inflacionário que marcou a chamada era Sarney. O certo é que foi mais ou menos por aí que surgiram, como faces de uma mesma moeda, os produtos midiáticos Fernando Collor de Melo e Luiz Inácio Lula da Silva.

Aliás, na inevitável comparação entre estes dois espetaculares fenômenos eleitorais, ambos amparados quase que totalmente na mídia e na propaganda, chama a atenção a contradição absoluta existente entre o perfil dos personagens-produtos, entre os quais, de semelhante, existe apenas o bom talho dos ternos, a embalagem, o lado fashion, tipo Armani.

Em Fernando Collor o modêlo assumido para vender o produto foi o perfil do jovem galã holywoodiano, descaradamente copiado dos presidentes norte americanos (Kennedy e Clinton, principalmente), um símbolo ridículo, porém, caro ao nosso ingênuo eleitorado urbano, principalmente feminino (pelo menos segundo afirmavam as pesquisas de opinião da época.)

Pouco importava o suposto passado de Fernando como Bad boy de Brasília, de algum modo ligado, segundo se dizia, ao rumoroso caso Araceli, de triste memória[3]. A propaganda e a mídia importou apenas facilitar a eleição do príncipe, quando ele se revelou um reles sapo, já era tarde e deu no que deu.

Em Luiz Inácio Lula da Silva, talvez por conta da imagem de propaganda enganosa indelevelmente colada no perfil do produto anterior, o modelo para o merchandising foi radicalmente alterado, passando a ser o sindicalista baixinho e barrigudo, iletrado e popular.

Era sintomático também o fato de o PT, partido escalado para ser ungido com o poder, ter deixado espertamente de propagandear quase todas as suas históricas propostas de esquerda, mantendo no ar apenas as de maior apelo emocional, tais como a estrela vermelha, a “mulher negra e favelada” e o “mutilado operário nordestino“, herói improvável de uma conservadora nação.

Uma contradição assaz evidente para um bom observador instalava-se aí, para quem quisesse ver. Afinal o que teria havido, na fase do “Lulinha paz e amor”, com a antiga perspicácia de nossa valorosa imprensa livre, efusivamente expressa nos episódios, não menos a eletrizantes, do impedimento do bon vivant Fernando Collor?

Teria sido nossa imprensa conivente, omissa durante o processo de montagem e manutenção desta complexa máquina de corrupção desvendada agora, e sobre a qual a imprensa internacional já lançou a pecha de maior escândalo político eleitoral da história?

O que teria feito esta eventual conivência da mídia subitamente se esgotar, lançando a lama de Lula no ventilador? Tardios arroubos de ética jornalística ou mero reflexo da impaciência, da frustração dos formadores de opinião – consumidores preferenciais das notícias pagas – com os resultados pífios de um governo que, prometendo levar a classe média enfim ao paraíso acaba é mesmo, exatamente como o outro, saqueando os cofres da nação?

É curiosa a constatação de que, este tipo de adesismo oportunista, este comportamento às vezes irresponsável de nossa imprensa – e dos extratos médios da população aos quais esta parece representar – esteve sempre presente como cúmplice ou co-responsável por nossas mais dramáticas crises institucionais. A mesma mão que afaga é aquela que apedreja, dizia o poeta.

Quem não se lembra da campanha jornalística contra o “Mar de lama”, estrelada, entre outros, pelo jornalista Carlos Lacerda, que teve como culminância o suicídio de Vargas, o “Pai dos Pobres“, até agora o mais trágico desfecho de nossas recorrentes crises institucionais.

E a alarmista campanha de marchas d’ “A Família com Deus pela Liberdade” marcada por milhares de velas acesas nas janelas dos apartamentos da orla do Rio, passeatas chics de contritas madames do lar, marchando contra o perigo comunista que ameaçava se apossar solertemente de nossas instituições?

Talvez a mais hipócrita das justificativas para a deposição de Jango, esta campanha essencialmente midiática (segundo padrões da época), ajudou decisivamente a empurrar o Brasil para o longo mergulho na mais triste e obscura ditadura de nossa história.

Com medo de perder os anéis numa radical distribuição de renda supostamente socialista, jogou-se o Brasil numa radical concentração de renda supostamente capitalista.

Mais do que ontem, com certeza, cabe-nos prestar, portanto bastante atenção à natureza, geralmente, oportunista, deste tipo de campanha de opinião, nestes tempos de muito marketing e pouca ética. Nestes casos, está provado que, quase sempre, nos vendem gato por lebre.

A cineasta Lúcia Murat em carta ao jornal O Globo e mais ou menos na mesma linha de raciocínio do nosso artigo de março de 2003, afirma enfática que todos vimos o fausto da campanha de Lula sem nada opinar a respeito.

Na verdade e infelizmente, podemos constatar hoje em dia que havia na época da eleição de Lula muitas outras coisas vistas e sabidas por nossos briosos intelectuais e formadores de opinião – massa crítica seminal do PT vitorioso- talvez omitidas e esquecidas, em nome de um pragmatismo eleitoreiro que, mais ou menos como a casca do ovo da serpente citado pelo sociólogo Francisco de Oliveira, num pertinente artigo publicado na época, ajudou decisivamente na gestação deste gigantesco e monstruoso polvo da corrupção petista.

Os supostos culpados por esta grave crise político institucional que é, parafraseando o presidente, “jamais vista em toda a história republicana” deste país, já estão sendo perfilados para o fuzilamento moral.

Os mais bem talhados para o papel de bodes expiatórios, voluntários  – como Marcos Valério e Duda Mendonça – ou compulsórios – como José Genoíno, Delúbio Soares e Sílvio Pereira– já foram para o abate. Depois de tentarem por várias artimanhas e chicanas jurídicas escapar da fila de espera, Zé Dirceu, Roberto Jeferson danaram-se. De pé ainda, blindado, como se diz, por uma intrincada rede de rabos presos e acordos escusos, indeciso diante de uma candidatura que pode micar, o suposto capo da crise: ele, o “Lulinha paz e amor”.

(Ressalvando que o parágrafo anterior, como todos narra o contexto da época antes da segunda eleição ganha afinal por Lula – nota minha – 2014)

É provável, no entanto que o paredão moral precise ser muito mais extenso do que se imagina. Talvez estejamos mesmo todos, de algum modo, com os pés atolados no lamaçal desta crise, irresponsáveis que temos sido, desde que, portugueses, negros e índios, fomos nos acanalhando em meio ás espúrias relações havidas entre escravos e senhores, mantendo por além da conta as nossas imorais maneiras de ser, levando vantagem em tudo – na hoje quase pudica Lei de Gerson – equilibristas sociais a ser, ao mesmo tempo, heróicos paladinos da democracia em palcos, praças, redações, estúdios e câmaras parlamentares, enquanto nos mantemos, no recôndito de nossos lares como doutores de Land Rover ou madames do lar, omissos e sisudos patrões de mucamas modernas, horistas, diaristas, folguistas, pedreiros e motoristas, gastando mais com cães de raça, do que com seres humanos.

Assim, como reza a nova “lei de Jefferson“, atire a primeira pedra quem, ao eleger Lula, não sonhou, mesmo modestamente, com algum tipo de vantagem social imoral, algum tipo de mensalão inconfessável.

Até mesmo ele que, pairando acima de todos, como um fantasma de si mesmo, é aquele em nome de quem todo o mal foi feito: Luiz Inácio, o representante do povo, suposta vítima desta impagável tragédia.

O escritor Aimè Cesárie (na peça teatral “A tragédia de Henri Christoffe”) e o cineasta Gilo Petecorvo (no filme “Queimada”), cada um a seu modo, nos contaram um incidente histórico muito significativo, emblemático até, para quem quer se aprofundar nos conteúdos sociológicos desta crise brasileira.

As histórias, ambientadas ali por volta do século 18, contam os detalhes da inusitada ascensão ao poder no Haiti de um grupo de líderes de uma vitoriosa rebelião de escravos africanos, após um longo e sangrento processo de guerrilhas no qual, com a expulsão do colonizador francês, se instalou um estado negro independente, comandado, entre outros, por Toussaint L’Overture (o líder máximo, logo assassinado) e Henri Christoffe (um dos desafortunados sucessores) em pleno auge da era colonialista.

A princípio tolerados pela aristocracia mulâtre (mulata, mestiça), por força de precários acordos e alianças (imperativo da governabilidade), a frágil estabilidade institucional foi sendo rapidamente consumida, sabotada de fora pelas potências colonialistas (para as quais a existência de uma república independente, governada por escravos era intolerável) e, de dentro, por uma emergente classe média, antiga aristocracia (para quem um governo popular independente, era do mesmo modo inaceitável).

Num rápido processo de desestabilização com uma sórdida crônica de maquinações, corrupção, chantagens e traições, a recomposta aristocracia mulâtre mata, corrompe ou coopta os líderes escravos até que, a caricata república escrava se transforme na série de estúpidas ditaduras que culminaram no miserável país-favela que é o Haiti atual.

O triste fim de Henri Christoffe (o líder corrupto) isolado no fausto de seu palácio tropicalista, cercado de inimigos, miséria e violência por todos os lados, é uma imagem por demais evocativa – simbólica, é claro- de nossa crise atual. Seria a história se repetindo (como farsa, é claro, até porque Lula não é um negão ).

É como um aviso piscando ao longe, voltado para os que nos sucederem:

“Que o Haiti nunca seja aqui! Que o Haiti nunca seja aqui! Que o Haiti nunca seja aqui! “

(Eu, Spirito Santo, em 2005 ainda me assinando com o nome civil):

Antônio José do Espírito Santo / Músico e pesquisador

————-

Notas:

[1] A data de 05 de Março de 2003 refere-se á edição de o “Observatório da Imprensa’ on line, na qual o referido artigo original foi publicado.

[2] Um dos argumentos usados pelo jornal para “derrubar’ (não publicar) esta nova matéria, não me lembro bem, mas parece que foi este: Não havia enviado a matéria original na íntegra, e logo não poderia afirmar ter previsto tudo, como afirmei. O argumento seria válido para uma revisão no texto mas, jamais para um veto total como ocorreu.

[3] Para o esclarecimento dos mais jovens: Araceli era uma menina com cerca de 12 anos, filha de uma mulher de programa de Brasília que, segundo a imprensa da época, estava junto com a mãe numa orgia de sexo e drogas protagonizada por filhos de senadores da República, importantes bad boys da capital federal, entre os quais o jovem Fernando Collor, filho do então senador Lindolfo Collor. Ao fim da orgia Araceli apareceu morta misteriosamente, ao que tudo indicava, por estupro. O jornalista José Louzeiro fez um excelente livro- reportagem sobre o assunto: “Araceli, meu amor”

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~ por Spirito Santo em 05/04/2014.

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