O não silêncio adesista e constrangedor de Cacá Diegues

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“…Oposicionistas não percebem que as UPPs são uma política de Estado, e não de governo…”

(Os adesistas e governistas percebem, claro.)

Começa assim o longo sofisma do artigo do cineasta (abra o link) publicado ontem em O Globo. Cacá Diegues deve saber – claro que sabe! – que a simbiose entre bandidos e policiais no Rio de Janeiro – ou no Brasil – não é individualizada, mas sistêmica, estratégica.

A conivência da parte da polícia e de autoridades com o tráfico de drogas (a instituição) é representada pelas invisíveis relações estabelecidas entre chefões supremos do negócio do tráfico (aqueles acima, muito acima dos chefinhos ou “gerentes” acastelados nas favelas protegendo paióis) e comandantes de batalhões da PM, chefes de polícia e as tais altas autoridades governamentais mestras de todas as corrupções.

Logo, omitindo o caráter macro da corrupção de um sistema que tolera como cúmplice – o comércio da droga e a corrupção governista propriamente dita – Cacá  Diegues induz os leitores a uma avaliação totalmente equivocada do problema.

Ora, é completamente impertinente a comparação que o cineasta faz entre o agente do Estado, o torturador Paulo Malhães, assassino confesso de dezenas de militantes de esquerda, com o pé de chinelo psicopata Elias Maluco, a serviço de si mesmo. Quem quis entender sabe muito bem que Tim Lopes morreu por culpa da Rede Globo, que fazendo vista grossa, permitiu que ele se envolvesse, pessoalmente na obtenção de notícias que, eventualmente serviriam á polícia.

Do ponto de vista de Elias Maluco e seu bando, Tim se colocou então como um agente, um espião a serviço do Estado e foi flagrado, considerado um “X9”, alcaguete da polícia infiltrado na favela. Por isto foi assassinado.

Elias Maluco está preso numa penitenciária de segurança máxima. Paulo Malhães, criminoso a serviço do Estado, está leve, livre e solto, protegido por seus pares e pelo Sistema, totalmente impune, cinicamente descrevendo seus crimes por aí em audiências públicas, num escárnio só.

…”Mas a ditadura é o passado e os traficantes são o presente…”

Como pode, que direito tem um intelectual do prestígio, do nível suposto de Cacá Diegues de proferir sofismas tão toscos? Ou bem reduz o perfil trágico e as consequências indeléveis da Ditadura Militar ou exagera a importância dos bandos de traficantes pés de chinelo.

Ambas as assertivas colocadas por ele são falsas. A pergunta que salta aos olhos é: Com que finalidade Cacá Diegues distorce tanto assim uma realidade tão evidente que, com toda certeza conhece muito bem? Acho estranho demais este intrincado esforço intelectual do cineasta nivelando torturadores do Estado com traficantes fuleiros e pés rapados. Tudo muito questionável e suspeito.

Uma argumentação insidiosa, difícil de ser engolida.

O Brasil está mergulhado na lógica de um Regime, de um Estado corrupto, no qual o tráfico de drogas é um elemento financeiro chave, estruturante. Entre os investimentos que se pode fazer com dinheiro sujo, fruto da corrupção, as drogas são, provavelmente o mais rendoso. O sistema finge, mas não quer, de modo algum acabar com o mercado da droga. Quer “reformá-lo”, “modernizá-lo”, “profissionalizá-lo”, digamos assim.

Não é por outra razão que os órgãos de segurança minimizam ou fingem que não sabem da explosiva proliferação de milícias armadas na Zona Oeste da cidade. Observem bem que, com ou sem UPPs, com ou sem milícias o mercado de drogas no Rio de Janeiro nunca foi descontinuado e funciona de vento em popa.

“…Não posso compreender o silêncio, em relação às UPPs, dos candidatos a cargos eletivos no Rio de Janeiro…”

Vai ficando mais estranha ainda a argumentação. Como Cacá Diegues. “não pode compreender o silêncio em relação ás UPPs”? Não há silêncio algum! De onde ele tirou isto? Omite com desfaçatez toda a corrente de críticas veementes contra o projeto das UPPs, vindas inclusive da imprensa internacional.

Ao contrário, há um grito insistente CONTRA os descaminhos violentos do programa, a truculência incontrolável da PM, a ausência de serviços públicos e a recorrência de medidas, exclusivamente repressivas, voltadas apenas – quem não sabe? – para conter e reprimir a revoltada população das comunidades faveladas em época de grandes eventos turístico esportivos.

Os únicos interessados em propagar e defender o programa das UPPs são o governo federal do PT, o PMDB, o ex governador Sergio Cabral e seus asseclas. Lógico! Os adeptos fervorosos das UPPs são aqueles que usufruem ou usufruirão dos lucros – a maioria escusos, corruptos – dos eventos. Evidente! Os outros, candidatos de oposição ou cidadãos comuns são contra. Porque deveriam ser a favor?

Estes não estão calados nem omissos, estão em desacordo com a política, na defesa de seus próprios interesses, quiçá voltados para a chance de roubar também, vá lá que seja, mas jamais em silêncio. O que o cineasta deseja ou estaria sugerindo? Que todos devemos apoiar incondicionalmente as UPPs?

É fácil constatar que as UPPs e a política de segurança pública que as justificam, na prática são muito providenciais para a população classe média da Zona Sul do Rio. As UPPs isolam e controlam os guetos, criando um cinturão de defesa, num higienismo social, aliás, bem deplorável.

É compreensível, portanto que haja anuência neste extrato de nossa população branca e “gente fina“, egoísta, esnobe, em pânico com o aumento exponencial da violência popular  (como a classe média de 1964 estava em pânico com os “comunistas“), mas isto é um comportamento típico de reacionários, direitistas clássicos. Não é um comportamento aceitável para indivíduos que se afirmam progressistas e “de esquerda”.

Porque esta defesa extremada do cineasta de um programa tão controverso? Parece propaganda eleitoral, não é não?

“…Apesar das lambanças privadas e consequentes constrangimentos públicos, a gestão de Sérgio Cabral foi uma das melhores na história do estado…”

Pronto. Acabei de falar: Cacá assume aqui, claramente seu apoio a Sergio Cabral Filho, um político execrado por tantos, suspeito de falcatruas de alto porte, alvo de violentas manifestações populares contra seus desmandos e ações suspeitas, único governante da nossa história recente que teve a residência sitiada aos gritos de “Fora!

“…As UPPs, por exemplo, não são uma panaceia. Elas são apenas uma porta que se abre para que o Estado entre nas comunidades…”

Acho de um cinismo deslavado de Cacá chamar as UPPs de “porta que se abre para que o Estado entre nas comunidades”. Todos, mesmo os mais ingênuos já sabem que “saúde, educação, saneamento, cultura, diversão”, tudo isto “que ainda falta” nestas comunidades jamais virá por este caminho. A política das UPPs por ser optativa, claramente exclui a possibilidade de outras políticas serem implementadas. Reprimir e conter é mais prático…e bem mais barato.

Constrangedor. Me envergonho com estes artifícios usados por esta torpe “esquerda” do Brasil, esta trupe de intelectuais adesistas, humanistas de fancaria. Que acanalhamento inesperado! Quanta hipocrisia!

“…Eu também quero saber onde está Amarildo…”

A parte mais deprimente de toda a fala do cineasta é esta tentativa tosca de subestimar, minimizar incidentes dantescos – e recorrentes – como a tortura e morte de Amarildo de Souza e o assassinado covarde e bárbaro de Claudia Silva Ferreira, como se fossem apenas uma espécie de efeito colateral, fatos esporádicos, episódicos quando são na verdade – e as inúmeras rebeliões contra as UPPs por parte da população favelada são veementes neste sentido – eventos paradigmáticos, exemplares do quanto esta política de segurança pública é deletéria e equivocada.

“…Muitos PMs têm morrido atuando nas UPPs, todos com menos de 30 anos de idade…”

Esta parte da argumentação do cineasta, infelizmente se assemelha muito com o discurso dos defensores do golpe militar, da ditadura e de seus carrascos – como Paulo Malhães, por exemplo – exigindo a condenação dos crimes cometidos por militantes de esquerda, quando todos sabemos que a maioria das mortes de agentes da ditadura por parte de militantes de esquerda foi episódica e, geralmente em combate, nunca se comparando à covardia inominável dos agentes da ditadura, a serviço do Exército, da Polícia, do Estado, torturando até a morte centenas de presos indefesos e executando prisioneiros, não menos indefesos como se fez com os brancaleônicos guerrilheiros da selva do Araguaia.

Embora lamentáveis sim, as mortes de PMs nas UPPs são em número irrisório diante dos massacres cometidos contra centenas de bandidos traficantes – geralmente negros magrelos e adolescentes – muitos apenas suspeitos, supostos meliantes, defendidos pelas famílias, sinceramente ofendidas em sua moral nunca desagravada.

São sim memoráveis, tanto quanto revoltantes as sanguinolentas cenas exibidas nos jornais populares de pilhas de cadáveres de jovens, trucidados, abatidos a tiros, pelas costas, do alto de helicópteros como ratos desprezíveis em becos de favelas.

Me espanto com a frieza com que estas mortes são assimiladas, ignoradas por esta “esquerda” sórdida, como se fossem ovos quebrados de um omelete macabro. Como comparar assassinatos em massa com a morte em serviço de uns poucos PMs diante de quadros de verdadeiro genocídio como estes que ocorrem nas favelas?

“…Como é possível ficar em silêncio, insensível a isso tudo, só porque os candidatos são hábeis e espertos, precisam do voto de eventual oposição?..”

Preciso ser franco: Não acredito mais, absolutamente na sinceridade ideológica de intelectuais como Cacá Diegues nesta extremada defesa das UPPs e do governo do trânsfuga Sergio Cabral Filho. O que o cineasta diz não faz sentido e seus argumentos, como disse acima, são sofismáticos, ardilosos, omitindo cuidadosamente elementos fundamentais do problema – como esta farsesca e desmedida ocupação do Complexo da Maré pelas Forças Armadas – simplificando grosseiramente fatores cruciais de um debate que apenas começou.

É preocupante como vai se tornando comum no Brasil a propagação de ideias e discursos cínicos como este, por parte de gente que se diz “de esquerda“, justificando a manutenção do status quo como meros reacionários pequeno burgueses do século passado. Um gosto estranho daquele adesismo canalha, muito semelhante ao papo alarmista da oportunista classe média de 1964, abrindo caminho para uma ditadura de direita que durou mais de 20 anos.

Não ouso especular quais são os interesses que podem estar por trás de discursos falsamente ambíguos como este de Cacá Diegues. Apenas declaro que só interesses ocultos – quiçá escusos, oportunistas quem sabe – podem explicar a defesa de políticas e práticas governistas, políticas e partidárias tão evidentemente execráveis.

Sem tirar nem por é como se em 1964 o CPC da UNE, os jovens cineastas do Cinema Novo movimento do qual Cacá foi destacado precursor – tivessem aderido ao golpe militar, “com a Família, com Deus e pela liberdade”.

Na dúvida, Cacá Diegues entra assim na minha lista dos defensores de interesses que, absolutamente não são os meus, nem – presumo –  da maioria de nós.

Assim de relance, vendo as notícias sobre a saída de Sergio Cabral do governo anteontem, dando lugar ao seu candidato, o enigmático  e indecifrável ainda “Pezão” (Cabral tentará se eleger para o Senado), fiquei desconfiado da providencial publicação deste artigo do cineasta justamente ontem.

Seria a deflagração de uma campanha disfarçada? Uma declaração de apoio implícito, subliminar, exigida por conta de compromissos ou interesses, acordos passados ou promessas negociadas? Vai saber.

Época revoltante esta nossa, de tantas máscaras caindo e tanta gente que se declara ainda solidário humanista mostrando a verdadeira face de direitistas, fascistas de ocasião.

(São apenas desconfianças de um velho cabreiro, cansado de ser enganado, mas as vezes esta minha geração me envergonha por demais. Ô raça!)

Spirito Santo

Março 2914

http://oglobo.globo.com/opiniao/um-silencio-constrangedor-12099164

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~ por Spirito Santo em 06/04/2014.

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