Abram alas pro Morro. Na Favela da OI o morro não tem vez

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favela da OI 3

Que queime no inferno este governo energúmeno!

A questão da desocupação truculenta da favela da OI (prédios abandonados da ex-Telerj, no Engenho Novo, Rio de Janeiro) vai custar caro aos governos Federal, Estadual e da Prefeitura. Quem mandou serem, além de corruptos e irresponsáveis…estúpidos?

A cidade do Rio de Janeiro –  já estou troncho de dizer isto por aí – é uma favelópole, um enorme conjunto de complexos de favelas, nas contas oficiais de 2010 cerca de 1.200 delas aglomeradas em blocos espalhados de norte a sul. Pelas evidências mais lógicas, num cálculo modesto seriam em média cerca de 5.000 pessoas por favela (uso como base o Complexo da Maré, com 130.000 habitantes divididos em 15 favelas, ou seja: incríveis 8.666 pessoas por favela!)

Os beócios, aprendizes de fascistas, não mediram a dimensão do problema que 5.000, 10.000 pessoas desesperadas podem trazer. Qualquer imbecil com uma calculadora destas de camelô pode entender a questão. É um problema elementar da física ginasial: Se dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, quanto mais 10.000.

Calculei bem por baixo então, viram? Pois, façam as contas vocês mesmos.

1.200 favelas vezes 5.000 pessoas =  6.000.000 de almas! Quase TODA a população oficial da cidade que em 2013 era da ordem de 6.430.000 habitantes.

(Eu sei. Há problemas nesta estatística. Falta muita gente nesta conta. Provavelmente milhares, milhões de favelados não estão sendo computados pelo hoje um tanto aparelhado e cooptado IBGE)

De qualquer modo é mais ou menos óbvio – visível a olho nu até – que todo o espaço ocioso da cidade sem proprietários definidos, morros, várzeas, terrenos baldios, alagadiços, já foram ocupados por favelas. Eu mesmo posso lhes afiançar que as favelas tradicionais (as 1.200 citadas, concentradas nas zonas norte e sul) estão consumindo os bairros convencionais pelas bordas, como um câncer virulento que se alastra, inexoravelmente, sem cura. Ocorreu isto no meu bairro, já na zona oeste. Ocorre em muitos outros bairros cidade afora.

Mentiram, descaradamente com o lenga lenga eleitoreiro, cínico, cruel dos “bolsas famílias“, do “minha casa minha vida“, do “Brasil carinhoso“, lançaram na imprensa índices falsos, maquiados nas taxas de inflação e emprego e muitas outras putarias populistas. Queriam o quê? O que estavam esperando?

favela da OI 2Entendam. Não é nada difícil de compreender, pois é uma lei, uma cláusula pétrea da natureza: Um ser humano necessita, como condição sine qua non, de abrigo do tempo (um teto, como se diz) e comida. Já nem falo das demais necessidades acessórias, tão básicas quanto as outras (escola, saúde, vestuário, etc,)

Como não vivemos na selva, teto e comida envolvem, é claro, a necessidade de se ter um emprego, uma ocupação qualquer que seja, uma fonte de renda elementar que cobrirá estas necessidades de qualquer miserável existência – morar e comer –  indispensáveis para que um pobre diabo – assim como um cachorro, um gato ou um reles rato – sobreviva.

É instintivo: Na falta absoluta de acesso à recursos para viver, faremos, rigorosamente TUDO para sobreviver, até mesmo matar, roubar, tudo! E estaremos sempre cobertos de razão por que o instinto de sobrevivência, como se sabe é uma lei da natureza.

O que você faria sem um emprego? Isto te privaria obviamente de ter teto e comida. Moraria ao ar livre, debaixo de uma ponte? Comeria biscoitos de barro como os mais pobres comem no Haiti? Algumas pessoas, algumas poucas, efetivamente fazem isto, comem lixo, vivem em vãos de esgoto, mas não é viável esta solução para milhões.

Era bastante previsível, portanto que, sem emprego e neste desespero extremo, estes milhões de pessoas largadas ao Deus dará, se envolveriam em qualquer atividade que pudesse lhes render algo para comer e morar. Biscates, venda de sucata, de coisas recicláveis, até prostituição, assaltos, roubos, tráfico de drogas, o cacete. Vale tudo quando a outra alternativa é morrer de fome.

Vi ontem mesmo pessoas que ocupavam a  favela da Oi canibalizando veículos incendiados para arrancar material para vender em ferro-velhos. É enorme a quantidade de pessoas que vejo pelas ruas, famílias ás vezes, geralmente mulheres com seus filhos e filhas adolescentes, catando latas de alumínio e garrafas pet para comprar comida, algo para matar a fome insuportável á noite.

Me lembro muito bem que na minha adolescência, pessoas assim desvalidas de tudo eram raras por aqui. Elas saíam por aí pedindo na porta dos menos miseráveis “um prato de comida, por favor“.

Hoje há até prostituição juvenil – feminina, principalmente –  em favelas. É uma prostituição abjeta. Mocinhas magrelas e sem quadril ainda, mal saídas da puberdade ganhando migalhas para fazer “boquete” (sexo oral) em homens sexagenários ou se envolvendo com mulheres homossexuais, de meia idade tidas como “maridos” que as sustentam.

favela da OIGera-se assim um sistema social paralelo, marginal, com regras e leis próprias (inclusive uma economia autônoma) em total desacordo com as regras de convivência social mais convencionais.

Este sistema social marginal ou alternativo (sempre no campo da obviedade, da previsibilidade) até pela proximidade física mesmo, é claro que acabaria contaminando a cidade “normal“, competindo com ela, corrompendo, corroendo suas bases morais, éticas, etc. rumo á barbárie.

(A cumplicidade clássica entre polícia e traficantes no Rio de Janeiro, as estruturas da corrupção comezinha, generalizada no dia a dia, o contrabando desenfreado que alimenta o mercado das feirinhas de favelas, capitalizado com o dinheiro do tráfico de drogas, tudo isto é sintoma da decadência incontrolável da metrópole antes dita “maravilhosa” frente às suas mazelas postergadas.)

É ululante a obviedade. Era altamente previsível que, esgotados os espaços urbanos ociosos da cidade e da periferia, as pessoas passariam a invadir imóveis abandonados nos subúrbios. Isto já ocorria em São Paulo. Aqui já invadiram os prédios da OI (Telerj) na Zona Norte. Logo começarão a invadir, se existirem, imóveis abandonados na Zona Sul.

Escorraçadas destas ocupações, logo logo, por falta de alternativas, estas pessoas vão acampar pelas praças e ruas. O que a Prefeitura fará? Campos de Concentração para o excedente de pobres? Não existem abrigos para tanta gente.

Tempo esgotado.

Á Prefeitura não cabe mais esperar. É urgente encarar de frente e com inteligência o problema (haverá inteligência?), convocando os governos estadual e federal para que se manquem, dada a gravidade absoluta da situação, muito semelhante a uma concentração explosiva de refugiados de guerra num país africano, ou a um Haiti destes aí.

Ora, o Estado brasileiro do “Oiapoque ao Chuí” como se dizia antigamente, ignora, solenemente, desde sempre as necessidades mínimas de sobrevivência de milhões e milhões de seres largados ao Deus dará. É esta a lógica burra do Sistema pré capitalista que inventamos após a Abolição da Escravatura: Governar o Brasil grande para o usufruto de poucos (os brancos) e deixar para resto (os negros, os índios, os “não-brancos” enfim) o destino deplorável de se virar nas malhas da desilusão, tendo a morte como único destino, líquido e certo.

É tão óbvia esta necessidade, este direito das pessoas à vida, que está prevista até na nossa constituição – e a rigor na constituição de qualquer nação civilizada. É obrigação do Estado prover seu povo deste direito elementar á vida. Estado literalmente criminoso, portanto, este nosso, pois, além de não cumprir com a mais fundamental de suas obrigações, chega ao cúmulo de reprimir à bala as pessoas, cidadãs do país, por elas estarem apenas, desesperadamente tentando sobreviver.

Queriam o quê? Um povo ordeiro e pacífico, desalojando barracos com o rabo humilhado entre as pernas, diante de um oficial de justiça com um megafone gritando para a multidão, a escorraçando:

_”Rua! Rua! Ponham-se daqui pra fora, seus marginais!”

E agora? Chegou o fundo do poço, a gota d’água para milhares, talvez milhões de pessoas na cidade do Rio de Janeiro.

Investir em medidas de coerção, contenção e repressão policial ou militar, como já disse e tantos repetem por aí, é lançar gasolina na fogueira, suprema estupidez desta elite de merda e seus jagunços fardados, acuada atrás das grades de seus condomínios por culpa exclusiva de sua extrema e inacreditável iniquidade, seu egoísmo colonial.

Pronto. E agora? Na prática já temos um Estado enveredando para um modelo fascista.

Tropas do Exército brasileiro mataram ontem o primeiro cidadão…brasileiro. O paradigma da defesa da pátria contra seus inimigos externos, a qualquer custo, ontem foi quebrado. O povo subversivo é o inimigo da vez. Eu, você, qualquer um podemos ser mortos a tiros por um soldadinho do Exército, como ocorre numa ditadura militar.

É que a era do povo idiota e enganado eterno custou a acabar, mas acabou. Não por causa de nenhuma evolução ideológica. Foi porque a miséria atingiu níveis animalescos, intoleráveis, sabidamente sem nenhuma necessidade econômica, estrutural que os justifiquem. A resposta natural á ignorância estatal só poderia ser o apelo à barbárie, ao foda-se, ao vai tomar no cu, ao vai para o caralho.

Estado filho da puta!

Favelizando, roendo os bairros convencionais pelas beiradas, o morro enfim desceu. Os desvalidos logo saquearão mais supermercados. A desordem, o caos e a violência urbana só cessarão quando um forte investimento nacional em políticas de habitação e emprego for, efetivamente realizado.

Surdos à realidade, preferiam realizar um enorme esforço financeiro nacional para realizar uma medíocre Copa do Mundo, certo?  E agora? Vão acantonar os pobres excedentes em estádios de futebol?

Podem me prender, podem me bater que eu não mudo de opinião.

Prendam e arrebentem Deus, prendam e arrebentem a Natureza. São eles que estão mandando, insuflando:

_”Queimem, quebrem tudo! Fogo no rabo dos pulhas!

Esta é a única linguagem que os governos neo liberais energúmenos de hoje em dia entendem.

_”Queimem a porra toda! “

(…Mas olhem bem vocês: Quando derem vez ao morro, toda a cidade vai cantar.)

Spirito Santo
Abril 2014

(Vejam este vídeo)

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~ por Spirito Santo em 13/04/2014.

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