Vissungos do Tijuco hoje. Você sabe o que é isto

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(Foto Spírito Santo em viagem de campo ao local)

Paulo (irmão de Pedro de Alessília), com espingarda no ombro e Chico Xavier ( irmão de Maria Miúda) dois habitantes de Quartel de Indaiá, vissungueiros notórios entre os últimos do lugar em 1981 . (Foto Spírito Santo em viagem de campo ao local)

Recontextualizando um must da etnologia do Brasil

Em janeiro de 2009, Titio Spírito Santo partiu para o alto da Serra do Espinhaço, na região do antigo Serro Frio (Diamantina e adjacências). Voltei lá depois de 27 anos, a convite de um documentarista paulista, para assessorá-lo numa pesquisa que subsidiaria um eventual filme longa-metragem sobre os ‘Vissungos do Tijuco’, protagonizado por seus cantadores remanescentes, todos descendentes de escravos mineradores de diamante e ouro.

Está se tornando um fato corriqueiro. Vez por outra sou acesado por alguém interessado em fazer filmes sobre este tema tão caro para mim.

As minhas conclusões preliminares sobre o tema, complementando emocionados estudos iniciados em 1975 (meu pai era descendente de escravos daquela região) e interrompidos em 1981 são, garanto muito interessantes e inusitadas até, mesmo para aqueles já familiarizados com o assunto.

O que seriam estes chamados ‘vissungos do Tijuco’, curiosa prática de origem africana, muito discutida no Brasil desde a década de 1940?

(Após esta viagem ao campo de 2009 reuni minhas novas conclusões até então, num artigo bem mais completo que a presente resenha. Voce pode lê-lo neste link:

Muito provavelmente, se me animar a escrever um novo livro, ele será com certeza, baseado neste já volumoso material recolhido e analisado de 1981 aré aqui. É – fazer o que? – o grande tema, o carro-chefe entre todas as minhas bissextas pesquisas de escarunfunchador leigo, o tema da minha vida

O eterno garimpo e sua jornada

Ao que nos consta, por tudo que podemos reunir do assunto (e a despeito de ser esta uma afirmação ainda hoje discutível) Vissungo é uma prática musical, rigorosamente, africana.
No que diz respeito à cultura africana introduzida no Brasil, talvez eles, os vissungos, sejam o único elemento com tal grau de integridade no âmbito das manifestações de inspiração africana no Brasil (inclusive o Candomblé), podendo representar, do ponto de vista etnomusicológico, sem nenhum exagero, um verdadeiro elo perdido entre as estruturas da música tradicional de certa região da África mais remota (notadamente aquela praticada nos séculos 18 e 19 ) e suas referências ou ocorrências atuais, tanto em Angola quanto no Brasil.

Por conta destas especiais circunstâncias históricas (que enumeraremos, mais detidamente, no decorrer desta explanação) considerando-se, obviamente, que não havia ainda na época e a rigor, nada sequer parecido com o que hoje conhecemos como música tradicional brasileira, sabe-se hoje, com alguma certeza, que não houve, praticamente nenhuma simbiose deste gênero musical com qualquer outra influência, mesmo portuguesa, durante todo o longo processo de sua existência.

Circunscritos – pelo menos com esta denominação – à região do Serro, em Minas Gerais, havendo sido praticados desde tempos idos (desde o início do século 18, presumo, com o incremento da mineração em larga escala na região) e ainda relembrados, até o final da segunda década do século 20, por várias razões entre as quais algumas discorremos aqui, os vissungos permaneceram, portanto, sob todos os aspectos, legitimamente, africanos.

Afora esta surpreendente longevidade, há que se considerar, contudo que, sendo música ‘socialmente interessada’ (no dizer exato de Mário de Andrade) ou seja, com motivações, diretamente, relacionadas às condições especiais do tipo de trabalho praticado por aquelas pessoas naquela região (garimpo, lavra de ouro e diamante sob regime de escravidão), embora estejam relacionados à práticas culturais ainda hoje ocorrentes na África, os vissungos podem ser considerados como estando, praticamente, extintos no Brasil.

Devemos observar também que, neste processo de extinção (hoje em seu curso final) enquanto cantos específicos, aparentemente, os elementos mais característicos dos vissungos foram se diluindo ao longo do tempo, num processo muito similar e paralelo ao desaparecimento daqueles modos e meios de produção do regime de trabalho escravo que os caracterizava.

Por outro lado, as raízes destas práticas de garimpo, do ponto de vista tecnológico, apropriadas que foram, pragmaticamente, pelos portugueses, podem ter sido algo similar àquelas, muito antigas, utilizadas na África remota, pelo menos a partir do século 12, época indicada como sendo a da fixação dos bakongo no delta do Rio Kongo, povo bantu, que descendo da região do Camarões, se tornou a matriz étnica de todos os reinos da região do antigo Kongo (entre os quais o reino do Benguela).  Este fator (a integridade ancestral da cultura destes povos) também pode ter contribuído bastante para a longevidade, quase perenidade, da manifestação dos vissungos entre nós.

É bastante provável enfim, que o formidável estado de preservação destes cantos, ouvidos ainda hoje, tanto tempo após a extinção do trabalho escravo e a interrupção do fluxo de escravos angolanos para a região, esteja relacionado à manutenção, mais ou menos inalterada, de certas condições sociais e culturais por parte dos negros fixados naquela região mineira.

Entre estas condições, podem figurar certos modos de organização sócio-familiar ancestrais, favoráveis à perpetuação de núcleos ou agrupamentos populacionais em estado de relativo isolamento (cuja natureza mais provável, pode ter sido a de povoados originados de antigos quilombos, formados por escravos fugidos) grupos estes que, posteriormente, passaram a se dedicar à prática do garimpo clandestino ou qualquer outra forma de economia de subsistência ou sobrevivência, independente da economia convencional da área, mantendo-se, culturalmente arredios até uma ocasião bem próxima aos nossos dias.

Mesmo a ocorrência de gírias, expressões idiomáticas e vocábulos extraídos de um português castiço (uma espécie de ‘crioulo são joanense’ como bem definiu Aires da Matta Machado) nas letras de muitos vissungos, não pode ser, com segurança, atribuídos à experiência linguística destes escravos no Brasil, pela simples razão de que esta mesma experiência, já se dava ainda na África, desde de época bem remota (só como exemplo, devemos considerar que o catolicismo português já havia sido introduzido em Angola desde o século 15, notadamente em regiões no entorno dos centros administrativos de então tais como Luanda e, posteriormente, Benguela)

Kilombo, Vissungos e nação

Tudo isto considerado, podemos avançar deduzindo que, outras razões não menos determinantes podem ter contribuído também para a configuração daquelas ‘especiais circunstâncias’ acima referidas como decisivas para a preservação dos chamados ‘vissungos do Tijuco’.

Entre estas razões devemos considerar fortemente os espaços de liberdade cultural, eventualmente criados pelos escravos mineradores, entre eles, com toda ênfase, os chamados quilombos que, ao que tudo indica, foram muito mais numerosos e perenes nesta região do que em qualquer outro ponto do país.

É notório que, pela própria injunção de um atavismo recorrente, o ser humano escravizado quando restabelece suas condições de liberdade plena ou mesmo furtiva, busca, imediatamente, reconstituir a sua humanidade perdida, recuperando a prática de hábitos e costumes mais peculiares ao grupo, antes controlados ou mesmo proibidos, por conta de sua natureza, evidentemente subversiva, refazendo a sua condição de membro de um grupo específico, integrante de uma ‘pátria’ ou ‘nação’.

Entre as condições prioritárias a serem, urgentemente restabelecidas é, com toda certeza a língua, código de comunicação interpessoal indispensável para o ressurgimento seguro da identidade cultural e emocional do grupo que, em muitos casos – especialmente quando durou tempo demais a sujeição a uma cultura opressora – é reconstruída, recriada a partir da lembrança dos mais velhos e dos outros dispositivos de memória contidos na literatura oral ou, até mesmo inventada, a partir de diversos expedientes, entre os quais a própria desconstrução semântica da língua estranha que lhe foi imposta, associada a resíduos fragmentários de vocábulos da língua ancestral, porventura sobreviventes na memória de alguns, no que convencionalmente se convencionou chamar de idiomas “crioulos”.

Nossa pátria é a nossa língua’, já dizia o caolho Camões.

O mais surpreendente no caso dos ‘vissungos’ é que, por conta do alto poder de preservação cultural dos escravos da região (talvez uma característica própria, ainda pouco estudada das culturas negro-africanas em geral), a língua ancestral (o umbundo) pôde ser magnificamente preservada no texto das canções, podendo serem observados nelas, praticamente todos os elementos constitutivos de sua origem remota, sua gramática, sua semântica, elementos claramente identificados como sendo de uma língua desta região de Angola, perfeitamente sistematizada e dicionarizada e, portanto ainda hoje viva, ativa em seu local de origem (onde inclusive, um vasto material de literatura oral se encontra, do mesmo modo, preservado), material este que, por meio de comparações e reinterpretações, poderá talvez, com alguma certeza, restabelecer o fugidio sentido, os ‘fundamentos’ enfim dos textos dos ‘vissungos’ originais registrados.

São ainda hoje bastante raros os registros em áudio (única mídia capaz de corresponder a verdade, neste caso). Não se tem informação alguma sobre a existência de gravações fonomecânicas que poderiam ter sido utilizadas por Araújo Sobrinho, o prestimoso assistente de Aires da Matta que transcreveu, no fim da década de 1920, cerca de 65 ‘pontos’ de vissungo. A este respeito, a informação mais conclusiva é a de que um ‘conhecedor’ dos ‘vissungos’, ‘bom amigo’ de Aires, chamado João Tameirão foi quem se dispôs a aprender as cantigas, supondo-se que os ‘registros’ aos quais Araújo Sobrinho se valeu para realizar as transcrições já na década de 1930, teriam sido aqueles contidos na memória solícita, porém quem sabe, humanamente imprecisa de Tameirão.

(Na verdade em seu prolongamento já em 2009, a minha pesquisa particular confirmou que foi sim, João Tameirão o principal informante dos cantos, na verdade apenas copiados por Araújo Sobrinho, pois – surpreendentemente – João Tameirão além de negro e garimpeiro, era músico, maestro da banda local de São João da Chapada, sabendo sim os cantos de memória, mas também perfeitamente habilitado para grafá-los na partituras.

A propósito, eu mesmo encontrei em 2010 em São João da Chapada, a pista de um outro João Tameirão, descendente deste Tameirão que informou Aires (neto, talvez), o segundo também maestro de banda, no momento emigrado para algum lugar na periferia de São Paulo.)

Só 14 anos depois (1942) da pesquisa de Aires, acontece aquele que foi o melhor de todos os registros sobre o tema – realizado fonomecanicamente, com os melhores equipamentos disponíveis na ocasião, por técnicos norte americanos no âmbito de pesquisa coordenada pelo etnomusicólogo Luiz Heitor Correa de Azevedo, a serviço da Biblioteca do Congresso Americano, que gravou música tradicional do mundo inteiro, antes da segunda Guerra Mundial (no contexto da Política de Boa Vizinhança no governo Getúlio Vargas). É provável mesmo que o trabalho dos norte americanos tenha estimulado a publicação do livro de Aires, cuja primeira edição só é lançada em 1944, 18 anos depois de sua alentada pesquisa, datada de 1928.

Desta época para cá, apenas no fim da década de 1970, talvez só dois outros registros tenham sido realizados: O do etnólogo austríaco Gerhard Kubik (de cujo material em áudio, efetivamente recolhido, já localizamos o paradeiro) e os breves registros realizados por este próprio autor, cujas fitas k7 recolhidas em Quartel de Indaiá em 1981 estão, milagrosamente em bom estado e seguras.

Já em época mais recente, entre os anos de 2001 e 2005, foram realizadas também algumas gravações, a maioria nos municípios de Milho Verde, Baú e Ausente, na região do Serro entre elas as interessantes conclusões do pesquisador suíço Marc-Antoine Camp e pesquisadores da UFMG, entre eles Lúcia Valeria do Nascimento (que fez um interessante estudo fonológico sobre o tema) e Sonia Queiroz (que coordenou um interessantíssimo suplemento sobre o assunto, com o concurso de diversos outros estudiosos locais (Minas Gerais).

A principal qualidade destas esparsas gravações é servirem de constatação cabal de que, infelizmente, a maioria dos variados elementos da prática dos vissungos (cantigas ‘de multa’, cantigas ‘de mofa ou insulto’, cantigas de ‘secar água’- ou ‘cantos de trabalho’ em si, etc.) se extinguiu, completamente, sobrevivendo na memória de dois ou três cantadores remanescentes, apenas aquelas cantigas ligadas aos rituais de sepultamento, as chamadas ‘cantigas de carregar defunto’.

Estas gravações mais recentes, tão inestimáveis quanto todas as anteriores, expressam também, de forma bem clara e elucidativa, o processo de extinção da manifestação do ponto de vista da sua diluição etnolinguística, da descaracterização ou da desconstrução etimológica dos textos das canções que, à medida que os cantadores remanescentes foram perdendo as referências vernaculares (semânticas, gramaticais, em suma) da língua original, foram sobrevivendo apenas no seu aspecto, meramente fonético, contexto no qual apenas alguns vocábulos esparsos e desconexos podem ainda ser traduzidos e no qual muito do sentido, do conteúdo ou ‘fundamento’ dos textos ou ‘pontos’ (notadamente por sua essência, fortemente metafórica) se perderam, quase que inteiramente.

Reino do Benguela: A batalha de Mbwíla e suas consequências

Como compensação, no entanto, pode-se deduzir também que vissungos não seriam – como a maioria dos pesquisadores tem suposto – cantos de trabalho praticados ‘exclusivamente’ por escravos mineradores de certa região de Minas Gerais.

Esta singela constatação – tão óbvia depois que se recorre à prosaica ajuda de um bom dicionário – pode ser a chave para se decifrar muitos enigmas que mistificam o tema desde 1944, quando o precursor dos estudos sobre o assunto lançou as suas, reconhecidamente, preliminares conclusões no clássico livro ‘O negro no garimpo em Minas Gerais’.

A palavra ‘vissungo’, plural de ‘ocisungo’ significando, literalmente (e talvez não especificamente)‘, ‘hino’, pode ter servido de forma genérica (por injunção do conceito estabelecido para a palavra por Aires da Mata Machado Filho) para denominar, portanto toda e qualquer prática musical, vocal, característica de um determinado grupo etnolinguístico conhecido como Ovimbundo, vindos como escravos para o Brasil em determinada época, notadamente, a partir do início século 18.  Esta prática, em seu sentido etnomusicológico mais genérico (ou em seu sentido lato), com relativa segurança, pode ter se disseminado por todas as regiões brasileiras onde foram utilizados escravos do mesmo traço etnolinguístico.

A única razão que justificaria a interpretação que se dá ao vocábulo, como sendo o nome de uma prática cultural específica, é o fato de ele ter sido usado, pelo que se pode averiguar até agora, com esta denominação, apenas naquela remota região.

Nesta linha de raciocínio, genericamente, seriam também ‘vissungos’ alguns tipos de pontos de jongo, de congada, de candombes e moçambiques, assim como de catupés e diversos outros gêneros de música tradicional de inspiração angolana existentes no Brasil, principalmente, em Minas Gerais.

Já tivemos, pessoalmente a oportunidade de observar, inclusive em muitas destas manifestações, notadamente ‘Catupés’ e ‘Moçambiques’ (sem falar nos ‘Candombes’ mineiros originais mais antigos, dos quais tivemos notícia) da insistente ocorrência de ‘pontos’ e canções com a mesma estrutura musical dos ‘vissungos’ (inclusive no seu aspecto linguístico).

Do ponto de vista etnomusicológico a importância dos ‘vissungos do Tijuco’ seria por esta hipótese, maior ainda do que se imaginava, abrindo novas possibilidades para uma melhor compreensão das especificidades de toda a música africana de inspiração angolana praticada no Brasil, além das reiterações e dos lugares comuns ainda em voga.

É importante se ressaltar, contudo que a palavra ‘ovisungo’ pode estar relacionada sim, diretamente, a um tipo especial de canção tradicional de caráter religioso, música sacra por assim dizer, já que a palavra tem servido em Angola até hoje em dia, para designar hinos religiosos especiais (como ‘benditos’ e ‘ladainhas’ portugueses) utilizados em missões tanto católicas quanto protestantes, notadamente, na região do Benguela, local onde a disseminação deste tipo de missionarismo ocorre, com alguma regularidade, desde meados do século 18.

Este fenômeno da eventual pré-catolicização de boa parte dos escravos angolanos chegados ao país, (a despeito da repressão contra as missões católicas e protestantes empreendida pelas autoridades coloniais portuguesas do período, logo após a expulsão, por razões políticas, da Ordem dos jesuítas) é um tema que, apesar de pouco estudado ainda no Brasil, parece ter muita relevância neste caso.
Logo, pela curiosa hipótese da palavra ‘ovisungo/vissungo’ já ter vindo para o Brasil com este sentido especial (de hino religioso) que a diferencia de outras práticas musicais digamos assim, profanas, já incorporado (quiçá até com elementos sincréticos da liturgia católica já inseridos) é uma forte – e irônica – indagação a ser inserida na pesquisa.

Enfim, o que teria ocorrido na região do entorno de Diamantina, Minas Gerais teria sido, nada mais nada menos, que o acaso de especiais circunstâncias ensejarem a preservação de práticas culturais, principalmente, musicais, muito específicas de uma determinada região africana mantendo-as, maravilhosamente íntegras até a década de 1940, quando Aires da Matta Machado Filho e Araujo Sobrinho, seu informante, as ‘descobriram’.

A natureza tão especial destas circunstâncias como vimos está, por ordem de importância, ligada, muito provavelmente, ás opções estratégicas adotadas pelas autoridades coloniais portuguesas, no sentido de transferir para as minas de ouro (e, posteriormente, diamantes) descobertas na região do Arraial do Tijuco no início do século 18, escravos oriundos de certa região de Angola onde a mineração já era praticada pelos locais, de forma especializada e sistematizada, de maneira mais intensa na época do que no resto do território sob o jugo de Portugal.

Esta escolha pragmática teria recaído sobre indivíduos sequestrados na área relacionada, histórica e geograficamente, ao porto de Benguela, ao sul de Luanda (que fora o porto preferencial em épocas anteriores) na parte centro-oeste do que é hoje a República Popular de Angola.

Entre as demais razões para que o porto de Benguela passasse a ser o ponto principal de embarque de mercadorias e escravos, é provável que razões de natureza militar também tenham sido decisivas já que, em época, imediatamente anterior ao incremento em larga escala da mineração de ouro e diamantes em Minas Gerais (1712), a área sob influência militar de Portugal (Luanda), estava por demais conflagrada ainda pela cruenta guerra travada pela Rainha Nzinga Mbandi e seu clã (kanda) , integrado pelos supremos mandatários dos mais poderosos reinos da região (ela soba dos reinos do Ndongo e de Matamba, seu irmão rei do Kongo e seu tio, soba do Reino do Nsoyo).

Havendo sido bem sucedidos apenas em 1665 (batalha de Mbwila) os esforços portugueses para subjugar os angolanos comandados por Nzinga  e seus parentes, Portugal acaba por descobrir que as lendárias minas e ouro que julgava existirem na região do Kongo (e que foram o principal móvel de seus esforços de invasão, além do comércio de escravos), não passavam de depósitos de cassiterita e outros metais inferiores, estimulando a transferência de seus interesses mais para o sul, precisamente, a região próxima ao Reino do Benguela – reino inventado pelos próprios portugueses, a partir da artificial união de sobados títeres – onde já ecoavam, inclusive,  notícias da descoberta de riquíssimas minas de ouro e diamantes na África do Sul.

Estas históricas circunstâncias, ao que tudo indicam, foram determinantes para que tenham sido exatamente, indivíduos oriundos da região relacionada ao Reino do Benguela (aqui conhecidos, vulgarmente como ‘benguelas’) os chegados em considerável maioria para a região do Serro, Diamantina e adjacências.

A constatação, indicando a necessidade, premente de se aprofundar e cruzar dados (geo-linguísticos, etnológicos, etc.) brasileiros e angolanos, no intuito de, por fim, se compreender fenômeno cultural de tão especiais características é, portanto decisiva para o prosseguimento das pesquisas especializadas sobre todo e qualquer assunto ligado à formação da cultura brasileira.

Ou seja, a questão crucial que se impõe às pesquisas atuais sobre o assunto, talvez seja esclarecer como e porque a prática de se cantar vissungos teria, excepcionalmente, durado tanto tempo, a ponto de ainda ser lembrada, na maioria dos seus muitos detalhes, por praticantes (informantes) ainda em 1928, havendo permanecido, estranhamente, íntegra, imune às naturais influências do seu meio brasileiro, por mais de 120 anos depois de ter sido iniciada por aqui.

Parece evidente também neste caso, que o foco destas pesquisas deva ser ajustado para dois pontos, ainda muito negligenciados da questão, a saber:

1-Muito mais do que na cultura urbana e sub-urbana (rural) acessível e visível nas manifestações culturais mais comuns e recorrentes, como terreiros de candomblé e umbanda e festas periódicas (como Congadas e Marujadas, por exemplo) as chaves mais elucidativas, do ponto de vista etnológico, no que diz respeito á cultura brasileira de origem africana, parecem estar naquelas manifestações mais recônditas e obscuras, como aquelas praticadas em lugarejos (como o Jongo mais ‘primitivo’), ainda existentes no interior dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, além de certos lugares remotos que ainda se conhece vissungos (antigos quilombos ou lugarejos surgidos em torno de lavras clandestinas, principalmente).

2-As propriedades mais importantes à perfeita compreensão dos fundamentos essenciais destas manifestações não podem ser, de modo algum, decifradas se não se realizar um estudo comparativo delas em seu contexto original africano. No caso específico dos vissungos (e da cultura negra do sudeste do Brasil como um todo) nada será efetivamente compreendido se não se estudar, detidamente, a cultura angolana, notadamente naqueles aspectos relacionados à cultura (a linguística, a cosmologia, a história enfim) dos povos relacionados à cultura ancestral bakongo, com ênfase na sua expansão pela região abrangida pela invasão e influência militar portuguesa, região esta compreendida pelo antigo reino do Kongo (século 15 e 16), das adjacências do porto de Luanda e da cidade de Mbaka ou Ambaça (até o século 18) e às adjacências do Porto de Benguela (do século 18 até os anos mais próximos à abolição da escravatura).

Pode estar aí – e é por esta caminho que a nossa pesquisa envereda agora – a chave para a elucidação de diversas outras ainda mal traçadas linhas de nossa pujante – e ainda tão pouco reconhecida – diversidade cultural brasileira.

Spírito Santo
Dezembro 2014

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~ por Spirito Santo em 02/06/2014.

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