Joãozinho da Goméia chuta o balde


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Caboclos da Mata mais Candomblé d’Angola na espetacularização dos cultos afro no Brasil.

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  “…No topo da ladeira, onde havia ar fresco um jovem e bonito mulato enxugava constantemente o suor do rosto de oito mulheres em traje de sacerdotisa, cada qual com um jarro dourado ou prateado na cabeça e uma vassoura nova na mão… Observei com interesse o jovem pai.

Era conhecido pelos seus casos de amor com outros homens e pela sua incapacidade de manter disciplina entre as filhas do seu templo de caboclo. Tinha fama de ser dancarino maravilhoso e eu podia imagina-lo, pela sua figura leve e graciosa.

O rosto era bonito e agradável, mas não frágil, e a sua pele de mulato claro contrastava bem com a camisa-esporte azul-marinho que usava aberta ao peito . Atendia com solicitude as filhas, todas aparentando muito mais idade do que ele.

(Ruth Landes em seu livro “Cidade das Mulheres”)

João Alves de Torres Filho (“Pai João“, “Táta Londirá“, “Seu João da Pedra Preta”) um figuraça este Joãozinho da Goméia. Me lembro vagamente em criança da imagem dele, minha mãe, muito macumbeira nesta época adorava o homi-muié, caboclo de Iansã – vê se pode? – uma celebridade exótica nos pudicos anos 1960, sempre aparecendo nos jornais, no rádio e até na TV.

É que estou lendo agora, fissurado várias teses e livros sobre a censura imposta aos cultos religiosos africanos de tendência afro ameríndia (“caboclos”) e bantu (nkises, angola) pelos participantes do II Congresso Afro Brasileiro realizado em 1937 em Salvador, Bahia, um evento chave para se compreender a cultura do negro brasileiro hoje.

Incrível, mas enquanto lia Joãozinho foi logo aparecendo, rebolando, se destacando esfuziante na sua viadagem articulada, roubando a cena dos empolados doutores do congresso.

Na ocasião, por razões ideológicas e políticas diversas, estudadas por poucos autores, um grupo de intelectuais presentes ao congresso (planejado por Arthur Ramos e Edison Carneiro) , numa ação articulada, liderada por Edison, ao fim dos trabalhos, decidiu organizar as principais casas de culto numa associação (União das Seitas Afro-Brasileiras) a partir da qual impuseram, oficialmente por meio de uma resolução formal, que o único culto a ser considerado puramente africano no Brasil, a partir de então, passaria a ser aquele de origem yorubana ou assemelhada,  ou seja, das linhas Ketu ou Nagô, uma distorção etonológica deletéria, de intenções políticas e acadêmicas bem medidas,  cujo impacto negativo no rumo dos estudos sobre a memória dos africanos no Brasil é incalculável, senão irreparável.

Pois é. Você sabia disto? Que o chamado mito da Supremacia Nagô (ou o “paradigma nagô“) foi criado em 1937…oficialmente?

(Digo isto assim, enfático só para que se saiba o diabo para quem trabalha.)

Desta resolução – que poderia ser considerada insidiosa hoje, a luz da moderna etnologia – além dos estudiosos brasileiros citados, próceres consagrados de nossa inteligentsia na época, participaram diretamente ou apoiaram tacitamente a insídia, logo depois, muitos doutores estrangeiros, promovendo verdadeiras romarias ou missões turístico-culturais á Salvador, fazendo residências acadêmicas nos terreiros mais badalados, todos “fazendo cabeça” e se tornando supostos iniciados, logo a partir do ano seguinte ao congresso.

Acorreram assim à Salvador respeitáveis estudiosos da antropologia norte americana mais que de ponta no mundo da época (os antropólogos da Europa, franceses, principalmente dirigiram-se para as ex-colônias francesas no Caribe, notadamente o Haiti, para estudar o Vudu) no momento em que os estudos acadêmicos pós coloniais sobre o negro e a África da Diáspora, se tornavam um must da nascente antropologia.

Entre outros para cá vieram então em corpo ou em ideias Melville Herskovits (participou com textos e cartas para Arthur Ramos), E. Franklin Frazier e Lorenzo Dow Tuner (negros), Donald Pierson (doutorando ainda em 1938) e Ruth Landes, uma bela mulher com quem – dizem os fuxicos – Edison Carneiro, além de diligente cicerone teve um “caso”.

(Ruth Landes – que era aluna de Ruth Benedicts, famosa antropóloga norte americana, e orientanda de Margareth Mead, outra bam bam bam do ramo – também seria patrulhada e censurada, mais tarde pelo mesmo grupo por conta de suas teses politicamente incorretas, ressaltando em seu livro maldito “ A Cidade das Mulheres” – “The City of Women“. Albuquerque, University of New Mexico Press, 1994) o caráter feminista da liderança das casas de culto de nação Ketu e trazendo a luz o tabu do homossexualismo nos terreiros que, segundo as más línguas se disseminava nas outras linhas de Candombléimpuro” (culto dos caboclos e as linhas de tendência bantu), mas já tomava, sempre enrustido, as demais linhas de Candomblé como um todo.

Era a invenção e oficialização deliberada do mito da supremacia – e da pureza – nagô, inaugurado por Nina Rodrigues no início do século 20 com a desqualificação rasa dos chamados bantu (angolanos, principalmente) em sua interessante vocação para o mimetismo socio cultural (a rápida adaptação ao meio ambiente, seja ele qual fosse), traço muito característico das culturas sucedâneas do antigo Reino do Kongo, ainda tão pouco estudadas no Brasil, exatamente por terem sido estigmatizadas e vilipendiadas por este culto acadêmico à uma suposta “pureza etnológica africana” tão vaga quanto improvável.

Nascia assim um neo-racismo sutil de pretos assim (‘africanos puros’) contra pretos assados (‘crioulos impuros’), insuflado, militantemente por cientistas sociais pretensamente progressistas, a maioria deles, curiosamente, brancos e estrangeiros.

Uma mistificação, um equívoco antropológico crasso, como se vê, artificialmente criado sob a injunção direta da Academia, numa tendência (até hoje não revista de todo) que discrimina e desclassifica como ilegítima toda a cultura africana de fora deste gueto elitista dos gatos pingados pseudo yorubanos.

Ou seja: Discrimina-se a maioria num maquiavelismo sutil.

Um pouco mais tarde (meados da década de 1940) embora já estudasse o negro desde o fim dos anos 1930, influenciado pelos precursores citados, o incensado Gilberto Freire e, mais adiante (década 1960) até mesmo o monstro sagrado Roger Bastide, seguiram e reafirmaram em seus livros esta insidiosa tese racista, contaminando indelevelmente as ciências sociais brasileiras, no que diz respeito ao trato do africano e da extensão de sua cultura no Brasil

“…São três os principais argumentos que explicam (para Bastide) o caráter degenerado do culto na cidade (Rio de Janeiro) , considerado como “macumba”. O primeiro argumento é o da maior presença de negros de origem banto no Rio de Janeiro.

Influenciado pelas obras de Nina Rodrigues e Edson Carneiro, Bastide aceita a ideia de que os negros bantos não conseguiram resistir e preservar suas crenças religiosas, ao contrario dos negros baianos, de etnia “nago”, que teriam, através da preservação de uma memoria coletiva ancestral, preservado suas praticas religiosas intactas.”

(Elisabeth Castelano Gama, 2012)

Tudo falso ou tendencioso. Teses forjadas a partir de premissas ideológicas equivocadas. Falsa ciência, portanto. Mero arrazoado de preconceitos.

E o que o Joãozinho tem a ver com isto? Tudo!

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 “[…] Há um simpático e jovem pai Congo, chamado João, que quase nada sabe e que ninguém leva a sério, nem mesmo as suas filhas-de-santo, como se chamam em geral as sacerdotisas; mas é um excelente dançarino e tem certo encanto. Todos sabem que é homossexual, pois espicha os cabelos compridos e duros e isso é blasfemo.”

(Edison Carneiro descrevendo Joãozinho da Goméia para Ruth Landes em 1938

Joãozinho da Goméia (de “Rua da Goméia“, em São Caetano, Bahia onde instalou seu primeiro terreiro, que por sua vez nos remete à “Daomé“, antigo nome do Reino do Benin) vou descobrindo agora lendo e lendo, objeto de algumas poucas desconhecidas outras teses e dissertações de mestrandos e doutorandos de pouco ou nenhum renome (entre estes recomendo, fortemente Elisabeth Castelano Gama), é um dos personagens mais paradigmáticos deste enredo eletrizante, que marca o processo de atração e rejeição, desejo e desprezo, menosprezo enfim, da intelectualidade branca e europeia em particular, pela cultura africana, no ensejo talvez de domá-la, controlá-la, torná-la subalterna, no fundo no fundo por puro temor de doutores pequeno burgueses, empurrados pela consciência pesando no lombo ainda escravista.

Na aparência desse medo oculto, a pretensão colonialista de escravizar até o simbólico, até as almas dos africanos, impedidas de se expressarem aqui como realmente são: Humanas, dinâmicas, universais como as almas de toda a gente do mundo.

Ô pobreza antropológica “de ponta” pra inglês ver! Ô insídia colonial! Que trabalheira vai dar limpar toda esta sujeira conceitual.

Sem nos esquecermos de que o agente principal de toda esta tendência afro-purista foi o negro Edison Carneiro, cicerone de Ruth Landes (Arthur Ramos, também responsável, correspondia-se com Herskovits na época e o recepcionou no Brasil logo no início da década seguinte) , seguidor fiel de Nina Rodrigues (o precursor, o mestre guru de todos). Acho surpreendente que semelhante tendência de trato claramente racista tenha sobrevivido até hoje e com tanta força nas ciências sociais do Brasil.

“Este camarada “João da Pedra Preta” Que moleque vergonhoso. Seus antepassados, o que eles sabem? Eles se criaram na seita e deixaram cargo pra ele? Não, ele veio do sertão e começou um candomblé. Pega um pouco de jeje, um pouco de nago, um pouco de congo, um pouco de caboclo e assim por diante. Uma mistura vergonhosa”.

(Donald Pierson, do grupo de norte americanos que estudou Candomblé em Salvador, desqualificando Joãozinho da Goméia no fim da década de 1930, citando depoimento de um “anônimo” no livro ‘Brancos e pretos na Bahia” )

Corria os anos 1960 quando Roger Bastide conhece Joãozinho, já famoso como o “Rei do Candomblé” no Rio de Janeiro, para onde se transferiu em 1947, meio no fluxo de muitos migrantes baianos que para cá vieram, meio fugindo da forte censura yorubaiana contra a sua iconoclastia bantu-ameríndia. Antes disso, já no Rio, Joãozinho da Goméia havia sido obrigado a se bater, de novo, contra uma censura oficializante inversa: a invenção no Rio de Janeiro de uma linha de umbanda “branca“, que passava a se aproximar mais do espiritismo kardecista, se afastando do traço “bárbaro” dos cultos afro-negros, para ser mais popular nas altas rodas, melhor aceita pela elite.

(Joãozinho, na verdade, como se viu, era um umbandista tradicional, que seguia a linha do culto dos caboclos imiscuído ao culto angolano dos “nkises“, aos quais ele pincelou, espertamente, aspectos do candomblé clássico, sendo ele mesmo “feito” para ser cavalo do “Caboclo Pedra Preta“, mas ao mesmo tempo, “filho de Iansã“.)

Aliás, este hibridismo entre “nkises” angolanos e caboclos ameríndios, muito intenso na década de 1930 naquela Bahia meio indígena pataxó, de tão forte e orgânica que é, até hoje, precisa ser melhor estudado. Esta hipótese rasa do caráter espúrio desta simbiose é racista e, me parece que, do ponto de vista antropológico deve ser totalmente questionável, inaceitável até.

Ouçam aqui, aliás, “Pavão“, um curioso ponto de caboclo de umbanda cantado por Joãozinho da Goméia. Observem o contraste delicioso entre a brejeirice maravilhosa da melodia numa escala pentatônica bantu/angolana (ou  ameríndia, sei lá) e a imponência meio épica, solene da base rítmica de candomblé ketu (toque “Ilu de Iansã“, me parece) imprimida na base.

Pavão (ponto de Umbanda)

“O pavão é um “pásso” (pássaro) bonito
O pavão é um “pásso” bonito
Com suas penas dourada
daquelas que é mais formosa
Que lá na aldeia os cabôco goza
Que lá na aldeia os cabôco goza…”

Observem também ouvindo este outro no link do Youtube abaixo, o delicioso “Bombogira” (“Pomba Gira” para os íntimos), com o acento da melodia e da percussão, claramente bantu (angolana, por suposto), a raiz da rítmica do Samba de Fato (“De Roda”) fluindo solta.

Mesmo assim desprezado e invejado, com alguma certeza (são poucas ainda as fontes fidedignas) Joãozinho da Goméia foi o principal responsável pela espetacularização ou glamurização do Candomblé moderno, criando para a então seita, uma dramaturgia, um figurino e uma coreografia.

(Não esqueçamos de que foi ele, Joãozinho quem passou para a provável inventora da “Dança Afro Mercedes Batista – como passou também para a interessante bailarina Eros Volúsia, rival branca de Mercedes – elementos de uma suposta “dança dos orixás“, com passos, provavelmente criados ou sistematizados por ele mesmo, teatralizando enfim o culto e dando-lhe no aspecto cenográfico (no campo estrito das aparências), um status de religião “avançada“, organizada que, absolutamente o Candomblé não tinha antes da década de 1930)

“…João volta a cidade (do Rio) em 1947 (depois de ter sido expulso por Vargas em 1943) a convite do jornalista Orlando Pimentel, que o apresentara ao empresario J. Rollas, sendo, assim, contratado como coreografo para mostrar nos palcos do Cassino da Urca seu exotismo de bailarino de danças afro.

Dessa forma, a vinda de João não é narrada pelo autor a partir de motivos religiosos. João veio como bailarino. Não fica claro no texto de Peralta nem no livreto de Paulo Siqueira o que ocorreu para que seu trabalho como bailarino nao tenha se sobressaido ou dado certo, e o que o levou a abrir um terreiro em Caxias.”

(Elisabeth Castelano Gama, “Mulato, homossexual e macumbeiro: que rei é este? Trajetoria de Joao da Goméia (1914-1971)

Mas isto é um assunto muito sério e complexo para um post de internet só. Quer saber mais sobre isto? Leia mais este post linkado do Titio A guerra, a academia e a impureza nagô“.

Chutando o pau da barraca, com vocês então….:

O caso “Arlete”

Um “Pai de Santo” viado dá bananas para os puristas cínicos.

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“Apesar de desfilar todos os anos no carnaval carioca, foi em 1956 que a irreverência de João despertou a ira de Umbandistas e a curiosidade dos jornais cariocas. Tudo por conta de “Arlete” (e não “Odete” como apreceu em um jornal da época). Conta-nos sobre o episódio uma filha de João, não identificada, em relato a Andrea Nascimento:

“O baile do Teatro João Caetano era de travestis, um ultraje para a época, resultando em um enorme escândalo, como poderia um chefe de culto afro-brasileiro cometer tamanha audácia desafiando toda uma estrutura de sobriedade que assumiam os pais e mães de santo do candomblé. No candomblé, aliás, não tinha muita aceitação um escândalo que envolvessem pessoas do culto.

A audácia de Joãozinho lhe renderia fortes dores de cabeça com a Associação de Candomblé da época que exigiam a sua imediata expulsão, com o apoio de mães de santo tradicionais de Salvador como Mãe Menininha do Gantois com a qual fez as pazes mais tarde.”

(João, se defendendo:)

“Eu não consigo me imaginar atualmente como apenas um elemento à parte do cenario afro-brasileiro, se o candomblé assumiu uma postura de espetáculo de luz e cores foi graças a minha roça da Goméia, nao posso acreditar que digam que eu desmoralizo ou desmoralizei o candomblé apenas por gostar de enfeitar meus orixás, ou brincar no carnaval, afinal estou vivo e se cheguei até aqui foi graças a minha personalidade e autenticidade, mas pelo menos tenho uma recompensa perante todo este bafafá, ocupei o meu lugar no mundo e quem estiver incomodado que venha falar comigo, afinal sou ou não sou o Rei do Candomblé.”

(Extraido de artigo de Andréa Nascimento)

-Você não acha que a sua fantasia de vedeta se choca com os regulamentos do Candomblé?

– De nenhuma maneira, meu amigo. Primeiro, porque antes de brincar eu pedi licenca ao meu ‘guia’. Segundo porque o fato de eu ter me fantasiado de mulher nao implica em desrespeito ao meu culto, que é uma Suíça de democracia. Os Orixás sabem que a gente é feito de carne e osso e toleram, superiormente, as inerências da nossa condição humana, desde que não abusemos do livre arbítrio.

– Você esta falando difícil, disse o repórter.

-Você esta pensando que babalaô tem de ser analfabeto?

(Entrevista de Joãozinho da Goméia à revista “O Cruzeiro” em 1956)

O fato é que não conseguiram dobrar a crista nem quebrar a larga veia artística de Joãozinho que, mesmo preterido e insensibilizado pelos doutores, subestimado até hoje como tabu a ser omitido nas lides do Candomblé mais oficial, morreu celebridade adorada, aclamada por uma multidão no enterro em Caxias, RJ. em 19 de Março de 1971.

Os narizes torcidos fingiram que não viram. Só mesmo um Joãozinho da Goméia, para derrubar o cavalo deles.

_”Chuta o balde, Joãozinho!”

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O papo promete (viram só?…venceu até a relativa homofobia do Titio). Com certeza voltarei a este tema qualquer dia desses, amarradão.

Spirito Santo
Agosto 2014

Só vai nêgo que é gente boa- Decupando um clássico seminal do nosso Samba


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1920- Os “8 Batutas” (sem Donga). Pixinguinha em pé num banquinho, aponta o trombonista

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1920- “Era do Jazz” nos EUA ( e no mundo) Mamie Smith and his band

Decupando “Samba de Fato“, suposto partido alto composto por Pixinguinha e Cícero de Almeida

(Cantado por Patrício Teixeira – veja na foto abaixo – e os Oito Batutas.)

Apenas 44 anos após a abolição da escravatura. Um tempinho de nada. Um sujeito com 50 anos nesta época, poderia até ter sido escravo.

Daria sim uma tese e tanto sobre os diversos artifícios e idiossincrasias do processo de assimilação, ascensão social e adaptação do negro no que Florestan Fernandes chamou de o “Mundo dos brancos“. Um processo sem heroísmo épico algum, como é normal acontecer com seres humanos comuns, sem as cores mistificadas do pobre “negro sofredor” e sua arte primitiva, baseada no “banzo” de suas reminiscências étnicas, etc. e tal, interpostas por um grupo de estudiosos brancos interesseiros – cada vez se nota mais – manda chuvas espertos, forjando uma história de nós outros muito cheia de nós cegos e mistificações.

Adoro estas elucubrações semióticas! Chutar estas portas mal fechadas, amarrar a história mal amarrada. O que parecia líquido e certo, de repente se esvaindo assim pelas frestas de alguma janela semi aberta e – eureka! – se mostra outra coisa bem diversa do que nos contaram, quem diria?

Cantem junto. Leiam com o Titio as entrelinhas do samba:

Samba de fato

(Pixinguinha/Cícero de Almeida)
com Patrício Teixeira e os 8 batutas – Gravação Victor de 6 de julho de 1932, lançada em agosto seguinte, disco 33585-B, matriz 65534.

Ouça o áudio:

“Samba do partido-alto
Só vai cabrocha que samba de fato
Samba do partido-alto
Só vai cabrocha que samba de fato

Só vai mulato filho de baiana
E a gente rica de Copacabana
Dotô formado de ané de oro
Branca cheirosa de cabelo louro, olé

(refrão)

Também vai nêgo que é gente boa
Crioula prosa, gente da coroa
Porque no samba nêgo tem patente
Tem melodia que maltrata a gente, olé

(refrão)

Ronca o pandeiro, chora o violão
Até levanta poeira do chão
Partido-alto é samba de arrelia
Vai na cadência até raiar o dia, olé

(refrão)

E quando o samba tá mesmo enfezado
A gente fica com os óio virado
Se por acaso tem desarmonia
Vai todo mundo pra delegacia, olé

(refrão)

De madrugada quando acaba o samba
A gente fica com as perna bamba
Corpo moido só pedindo cama
A noite toda só cortando rama, olé

A boca fica com um gosto mau

de cabo velho de colher de pau

porque no samba que não tem cachaça

Fico zangado fazendo pirraça, olé”

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Patrício Ferreira, o cantor de “Samba de fato” acompanhado pelos “8 Batutas”

Leram? Sacaram as pontas soltas pelas beiradas?

A letra da música, pela qual a gente sempre passou batido, quando se presta mais atenção, curiosamente parece retratar, muito mais que uma festa de crioulos alegres e suados, com detalhes impressionantes o esforço de um grupo de negros, artistas, músicos em sua maioria, do Rio de Janeiro ansiosos para serem assimilados no “mundo dos brancos”.

Que coisa! Ela, a letra, está sugerindo que “Partido Alto” (como, aliás, proponho no meu livro) não era um reles sambinha de esquina, no fundo de um quintal da Praça Onze, mas uma prática cultural “diferenciada“, de negros finos, de uma elite que, por conta desta sua condição “superior“, podia, estava autorizada a conviver no mundo dos brancos ricos. Of course.

Com efeito, tudo indica que a expressão “Partido Alto” é oriunda de Salvador, Bahia, largamente usada, pelo menos desde o início do século 20, no meio da casta social dos negros “bem de vida”, notadamente  descendentes da aristocracia Nagô (yoruba), que ficaram ricos como comerciantes transatlânticos (no eixo Salvador-Lagos) em sua maioria.

Vão lendo aí:

Cabrocha, só vai se  for daquelas que sambam…”de fato”, senão, fica de fora. Os que vão com certeza e sem restrições estão listados: Mulato “filho de baiana” vai, pois, esta parece que era uma categoria social importante na ocasião (classe média, algo assim, como disse também no livro, me referindo ao remediado pessoal da Tia Ciata) tanto que o tal “filho de baiana“, está listado junto com “gente rica de Copacabana“, doutores de “ané de oro” e mulheres brancas “cheirosas e de cabelo louro“, que têm presença garantida no “Partido Alto“, mesmo sem saber dar, um passo de “miudinho “que seja de samba (vem de longe isto aí, não é não)

Nêgo também vai, mas só os que forem “gente boa” (pois no samba, “o nego tem patente“). Também vai “crioula prosa“, “gente da coroa” (negras elegantes, de classe média também)

Enfim, vão vendo aí como era a vida desta negadinha fina, descrita pela letra deste “samba”, quando atentamos para as entrelinhas. De certo modo, escravizados ainda naquela época a modos e maneiras subrreptícias de ascender socialmente, os negros eleitos pela historiografia oficial como os “negros” precursores, geniais inventores da cultura negra do Brasil, eram na verdade prepostos, os aceitos pela “sociedade“, aqueles que passavam no crivo dos “ricos”, dos brancos enfim, aqueles mais adaptados aos modos “civilizados” de ser. Negros que “sabiam o seu lugar”, como não?

Continuar lendo

Cultura P&B, part 02


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Cultura P&B: A chapa esquentando

(Abra o link do Piloto part 01 aqui)

A chapa esquentando. Quem não se toca, dança.

O perigo escorregadio do conceito “pureza étnica” imiscuído na chamada ” Dança dos Orixás” em debate. Papo esquentando a chapa.

Segunda parte do piloto de Cultura P&B. Ciclo de debates sobre cultura afrobrasileira e temas afins produzido pela Uerj/Decult/Coart. Neste segmento discutiu-se a dança afro e o papel que desempenhou Mercedes Baptista – primeira bailarina negra do Teatro Municipal, recentemente falecida – no seu desenvolvimento. Programa resultado de trabalho de pesquisa de Spírito Santo.

 

Cultura P&B part 01 – Enfim no ar!


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 Cultura P&B: O Preto no Branco

(Abra o link do programa aqui ou abaixo)

Enfim, NO AR o programa pilôto da série “Cultura P&B“, criação e apresentação do Titio que vos fala, numa produção e realização da UERJ/Decult/COART.

Acho cada vez mais prazerosa e gratificante a experiência de pesquisar cultura & sociedade e escrever posts-reportagens aqui no facebook e no blog que mantenho na rede, testando maneiras de ser o mais claro possível, instigando debates, muito enriquecedores para mim, na maioria das vezes.

É que sempre me incomodou, pessoalmente, como leitor, que temas densos, profundos sobre cultura só fossem acessíveis ás pessoas comuns, em carrancudas e pomposas teses de mestrado e doutorado, ou ensaios antropológicos pesadões, escritos por supostos sabichões naquela linguagem arrogante do jargão doutoral que eu nunca entendi porque é usado, de tão ilegível que é.

Anti linguagem, ruínas de torre de babel.

Sempre me recordo dos livros e revistas de cultura e ideologia política que lia nos anos 1970- sempre com um livro no sovaco suado, metido a garotão intelectual que eu era –  que hoje o mofo e as traças roem em minhas estantes. Incrível como seus conteúdos, por conta do apelo excessivo ao jargão, se tornaram velhos, caquéticos, completamente esotéricos, incompreensíveis, lixo conceitual mesmo, papel velho.

A questão da linguagem e da fruição e democratização do conhecimento é um problema moderno com certeza e a Internet traz excelentes oportunidades de se chutar este balde.

Porque esta conversa de “cerca lourenço”? É que satisfeitíssimo ideia de levantar lebres novas e escrever por aí, que aceitando um convite da UERJ/Decult/COART, na qual tenho sido Artista Visitante por muitos anos, resolvi fazer uma versão para vídeo-TV dos mais instigantes posts escritos pelo Titio aqui no face e no blog do dito.

Um exercício de linguagem, portanto, com a missão essencial de, como sempre, sacudir o bambuzal do marasmo inconsequente, provocando o debate de temas cruciais para a cultura do negro do Brasil e temas afins.

É isto enfim que se pretende com este piloto de Cultura P&B que vocês vão começar a assistir agora. O programa – sem, o formato escolhido é o de um programa de TV – está dividido em quatro partes de 15 minutos e pretendo exibi-las uma vez por semana.

A série prosseguirá com temas que podem, inclusive serem propostos pelos espectadores. As linhas emstras são apenas, ser cultura, dar ênfase à cultura negra e instigar debates de verdade, discussões acaloradas, mas profundas.

Cultura P&B, preto no branco, debate então o tema “Mercedes Batista e a desconstrução da modernidade na dança afro no Brasil” ou seja, “ A dança Afro é puramente afro mesmo?”.

EM tempo: A produção agradece pelos feed backs.

 Spirito Santo

Agosto de 2014 (ano e mês do 67 – quase 70 – do Titio.)

 

 

“Bidimbo!” – Sistemas de escrita africanos. Já ouviu falar disto?

Destacado


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Foto: ” L’initié Bruly Bouabré qui a popularisé l’écriture Bété. O iniciado Bruly Bouabré que popularizou a escrita Bété.

Não? Então descolonize-se antes que seja tarde demais

“…Nós sabemos que a África não foi a única origem da escrita, mas a sobrevivência desta prática depois do fim das civilizações do Vale do Nilo manteve-se forte no continente. A lista certamente incompleta de sistemas de escrita africanos já descobertas é muito forte e importante, não há dúvida de que existiram outros sistemas de escrita que desapareceram durante os 500 anos de destruição do continente.

Além disso, é interessante observar o que esses sistemas de escrita estão ainda muito enraizados no vale do Nilo, o que reforça a noção de unidade e identidade negra na região. Assim, sem querer ofender os ideólogos ocidentais, a África não teria apenas uma tradição oral, mas igualmente uma tradição escrita.”

Depois deste texto, ainda apenas beliscando o assunto, instigado pela descoberta recente da existência de dezenas de ideogramas denominados “Vevés” e as belíssimas bandeirolas de paetês ambos sistemas de signos do vudu haitiano entre outras instigações irresistíveis, acrescentaria algumas pimentas neste tempero.

Logo de início ressaltaria que os processos de expansão no tempo e no espaço das culturas africanas originais – como é o caso do Egito – por força de migrações motivadas por guerras, razões climáticas extemporâneas e motivações as mais diversas e em todas as direções do continente, era óbvio se supor que sistemas de escrita ancestrais se espalhariam pela África, como todos os outras sistemas gráficos se espalharam em outras partes do mundo.

Logo, supor uma África negra inteiramente ágrafa ou, por outro lado, superestimar o papel da escrita como parâmetro de superioridade no âmbito das civilizações humanas, inferiorizando aquelas culturas onde, além da escrita, a oralidade é também considerada um sistema de comunicação e transmissão de conhecimento eficiente, não passa de rematada tolice, pura babaquice intelectual.

Assim, avançando seja rumo ao norte (com a formação da civilização grega, segundo Heródoto) ou para o sul (com a suposta criação do império de Monomopata com suas grandes e enigmáticas muralhas), para o centro-oeste, com a grande civilização desenvolvida no que é hoje os Camarões, origem remota da cultura Bakongo, berço da Angola atual (origem da chamada escrita kongo, estudada pelo cubano Bárbaro Martinez-Ruiz), ou seja para o oeste remoto, próximo ao Atlântico (com, por exemplo as culturas do Benin, da Nigéria e do Gabão atuais) os sistemas de escrita tradicionais jamais desapareceram da África, não tendo sido esta linguagem, absolutamente inventada ou mesmo introduzida no continente pelos colonialistas europeus.

Ao contrário, foi comum na África colonial até o pós escravidão (fim do século 19, até as décadas de 40 e 50 do século 20) a invenção de dezenas de novos sistemas de escrita originais, baseados em experiências ancestrais associadas.

“O silabário ou escrita Bamum (Camarões) foi inventado pelo rei Ibrahim Njoya, do povo bamum em 1896. Esse rei também coletou muitos manuscritos que continham a história de seu povo e usou sua escrita para compilar uma ‘’farmacopéia’’, para criar um calendário e para guardar registros de leis. Ele também construiu escolas, bibliotecas e uma gráfica.”

(Importante se ressaltar neste caso que as origens remotas da cultura Kongo – BaKongo – num processo de migrações contínuas ocorrido entre os séculos 10 e 12 de nossa era – se localizam, exatamente no sul do Camarões.)

“A primeira versão dessa escrita Bamoun incluía 465 símbolos. O rei Njoya simplificou essa escrita muitas vezes até que chegou ao silabário A-Ka-U-Ku que é escrito da esquerda para a direita. Essa escrita apresenta 73 sílabas, mais 42 combinações, 10 numerais, 5 pontuações. Os tons são indicados quando necessários por sinais adequados.”

Escrevo, logo leio

Swahili: ler = kusoma; escrever = Kwandika

Lingala: Leia = kotanga; escrever = kokoma

Bambara (língua mandinga): Leia = kalan; escrever = Sebe

Hausa: Leia = karatou; escrever = rouboutou

Fulani: Leia = djangougol; escrever = windougol

Logo surge a pergunta que não quer calar: Como cinco entre as línguas negro africanas mais importantes do continente, definiram em vocábulos originais os atos da leitura e da escrita sem fazerem uso de ideogramas ou palavras árabes ou europeias?

Como, afinal estes povos conseguiriam definir o que significa ler e escrever se não lessem e escrevessem? Este simples detalhe da evolução da linguagem humana parece provar, quase sem sombra de dúvida, o óbvio: a leitura e a escrita eram sim havidas e sabidas na África negra bem antes das invasões europeias.

Os estudos sobre este tema, muito complexos, estão bem avançados no exterior, notadamente pelo esforço de etnólogos, antropólogos, filólogos e linguistas africanos e europeus como o congolês Fu Kiau Benseki (veja no trabalho dele o impressionante cosmograma bakongo decifrado) a zairense Clémentine Faïk-Nzunji Madyia, o belga Jan Vansina, o norte americano Robert Farris Thompson (um precursor), entre tantos outros.

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Estes estudos, contudo, estão bastante atrasados no Brasil por causa, entre outros motivos dos renitentes e arcaicos preconceitos que ainda predominam nas ciências sociais do país (o rançoso racismo acadêmico para os íntimos) que considera as memórias africanas para cá trazidas pelos escravos, hibridismo impuro, sincretismo reles, subproduto cultural de povos inferiores, primitivos e incivilizados.

“De acordo com a historiografia ocidental, o sábio Bruly Bouabré (na foto que ilustra este post) que se juntou a seus ancestrais, em janeiro de 2014, seria o inventor da escrita Bété da Costa do Marfim. Ele teria criado, sozinho em 1948, 448 sinais silábicos desta linguagem a ponto de ser possível escrever histórias com eles. A escrita Bété é pictográfica, ou seja, contém desenhos como na escrita egípcia e a escrita Mende, de Serra Leoa.

Um estudo mais aprofundado demonstra, sem dúvida nenhuma que existem sinais comuns nos sistemas de escrita da África negra. Bruly Bouabré, obviamente, não era um inventor da escrita Bété, mas sim um iniciado, que aprendeu a dominar esta escrita com seus antepassados.”

Uma excelente referência – esta já mais próxima de nós, brasileiros – é o especialista cubano em história da arte (com especialização em África e Centro América) Bárbaro Martinez-Ruiz que estuda o tema dos sistemas de escrita africanos, a partir de fragmentos do sistema tradicional de escrita Bakongo (bidimbo) sobrevivente na cultura cubana e caribenha (“firmas“) principal ligação entre a cultura africana na diáspora centro americana, e suas prováveis origens na região do antigo Reino do Kongo, com eixo centrado em Mbanza Kongo, antiga e histórica capital do reino, circunscrito, quase que inteiramente no que conhecemos hoje como República de Angola, além de partes do Zaire e da República Democrática do Congo atuais.

Estudante generoso, recomendo também – com insistência – muita atenção para o complexo sistema filosófico e de escrita afro-haitiano conhecido como “Vé-vè” (busque na rede por “Vé-Vè”, interessantíssimo livro do franco-haitiano Milo Rigaud, o maior especialista no tema) com sua provável ligação com o sistema de escrita bakongo (entre outras misteriosas e mui antigas ligações), principalmente pelo fato surpreendente de alguns de seus signos esotéricos, estarem misteriosamente contidos no âmbito da Kimbanda do Brasil (aquela dita umbanda bastarda, “do mal”) , sob o nome de “pontos riscados” (no Haiti como aqui, cada ponto é riscado, desenhado no chão do terreiro com pós específicos, entre os quais o “pemba”, feito no Kongo e Angola de uma argila branca especial, de valor místico conhecido, presumo desde o Egito.

Há sim, tudo indica, uma ligação fortuita entre estes sistemas de signos africanos todos, ligação menosprezada por aqui por conta dos preconceitos acadêmicos citados.

Existe, aliás, acabo de perceber assim de garimpar imagens – e me surpreendendo cada vez mais – uma intimidade gráfica, imagética inquietante entre o Vudu do Haiti, chegado nas Américas, em parte via Benin e a desprezada Kimbanda, para os tolos um ramo impuro da Umbanda, ambas (Umbanda e Kimbanda) com fortes raízes angolanas, remotas origens bakongo, por suposto.

Muito ainda a ser estudado para se encontrar a lógica desta história de tantas ramificações, embaralhada que foi pela escravidão, pela diáspora. O pó soprado desta magia da escrita africana, contudo, se espalhou por ai, mas não se dissipou. Escrita que é, não se dissipará jamais.

Bem, enfim são estes, por enquanto os amplos sinais bibliográficos, meio areia movediça, meio saco sem fundo, que a minha intuição tem seguido. Você pode seguí-los também, pinçando links, associando ideias, queimando pestanas. O jogo das descobertas está posto, o chicotinho, quente-frio está queimando.

(Para quem sabe ler, um pingo é letra).

Spirito Santo

Agosto 2014

(Fonte parcial: http://africanhistory-histoireafricaine.com)