A Roça de Teresa – Roteiro para Etno-doc/Docudrama


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Em corte de foto de Marc Ferrez de 1885, escrava adolescente olha para câmera com ar de insolência. Para mim, esta é Teresa

A Roça de Teresa filmada

O eixo condutor da narrativa (leia também: A Roça de Teresa revisitada.) seria uma grande fogueira cujo processo de construção no pátio central de uma antiga fazenda de café seria todo filmado. As cenas iniciais do filme, créditos, etc. poderiam rolar durante a construção coletiva desta fogueira, entendida aqui quase como um personagem (a memória) que, acesa e se consumindo servirá de cenário para as cenas cruciais da história.

Assim, a partir deste elemento deflagrador, o etnodoc. estaria estruturado em dois planos narrativos a saber:

A- Plano passado recente – Os bastidores do registro da fita de 1973 com entrevistas sobre aspectos críticos acerca da carência de registros na época – e ainda hoje – sobre cultura popular e a importância dos registros de história oral e outros assuntos correlatos.

B- Plano passado remoto – Aspectos documentais reconstituidos com ênfase historiológica baseados nos eventos narrados por Teresa. Entrevistas (ilustradas pela audição da fita), com os anciãos do local, extrairiam a narrativa de eventos similares ocorridos na história oral da região.

Sequência 01
Bastidores do registro e da história: A Fita K7

Fazenda antiga no Vale do Paraíba do Sul/ Morro da Serrinha, Madureira, RJ

Exterior Dia/ Noite

Cena: Gravador K7 em close com fita girando. Caixa de fita K7 ao lado, papel com anotações, fotos antigas. Imagens atuais (filmadas) diversas na área rural do Vale do Paraíba junto com flagrantes urbanos do Rio de Janeiro, numa comunidade carente qualquer, de preferência o Morro da Serrinha em Madureira.

Registro da audição da fita marca entrevista com um pequeno grupo de idosos do Vale do Paraíba e por, pelo menos dois dos participantes da entrevista original de Teresa em 1973, também negros e já idosos hoje.

As entrevistas dos dois grupos de idosos podem ser em momentos e/ou locais diferentes. O contraponto entre as épocas (a da entrevista e a do depoimento de Teresa), além das memórias dos idosos locais e entre os dois grupos de ouvintes, daria bons elementos para quebrar o ranço de uma abordagem muito didática e folclorista.

O tema da conversa dos idosos “urbanos” girará em torno dos bastidores e do contexto da entrevista e da cultura negra na época (década de 1970).

Música: Ao fundo, como trilha, o som ambiente da entrevista, tratado – musica pop dos anos 70, Michael Jackson, por exemplo.

O tema das entrevistas com os idosos do Vale do Paraíba, giraria em torno de eventos ocorridos no local que sejam similares aos descritos por Teresa, ou seja, ocorridos no tempo do cativeiro.

Como cenário preferencial, no caso das cenas rurais, a fogueira memorável e o ambiente da fazenda das locações, seus recantos, recônditos das senzalas, de preferência com os depoentes andando ou presentes no cenário, em diversas situações, inclusive ao lado da fogueira. Cenas destas entrevistas, a cargo da direção podem ser distribuídas durante o filme, pontuando cenas.

Sequência 02
Magia e paranormalidade

Fazenda antiga no Vale do Paraíba do Sul
Interior ou Exterior/Noite

Inserts: Imagens de época – fotos, gravuras – de manifestações místicas africanas ou afro brasileiras adequadas ao contexto cultural da região. Cenas, imagens de xamãs, ngangas africanos, pais de santo, pretos velhos.)

Cena: (Exemplo de enxerto de entrevista anterior) Plantação de bananeiras. Anciãos do local andando pelo bananal descrevem cenas paranormais emblemáticas ocorridas em rodas de jongo ou outras manifestações culturais locais, com ênfase em histórias de jongo envolvendo bananeiras míticas)

Narrativa em off, TERESA:..”Queria dizer que naquele tempo eles sabia fazer o que agora num vejo ninguém fazer. Faziam! Se você estava com dor de cabeça ou uma dor de barriga, eles passavam a mão assim na tua cabeça e a dor de cabeça ia embora, passavam a mão assim na tua barriga e dor de barriga ia embora. Agora não. Agora eles não faz nada. Eles não sabem é nada. Eu não…Naquele tempo era bom.

Eu não. Não sabia (curar). Só o Jongo. Num podia nada. E, depois…naquele tempo não podia aprender mais nada porque o Sr. num deixava. “

…Nós carregava os filhos deles. Ah!.. Deus me livre se agora fosse como naquele tempo! Nossa Senhora! Se agora fosse como naquele tempo…

Sequência 03
O Jongo seminal de 1874

Fazenda antiga no Vale do Paraíba do Sul
Exterior/Fim de tarde-Noite

Cena: Do bananal câmera abre para aspectos da fazenda antiga, cenas do local entrecortadas pela preparação de uma roda de jongo que ocorrerá em torno da fogueira que está sendo acesa.

Cena: Num alpendre da fazenda grupo de homens e mulheres, todos brancos e bem vestidos conversam animadamente, bebericando e comendo bolo e outros acepipes, olhando com excitação e curiosidade os preparativos do jongo. Entre eles, por detalhes do vestuário, um se destaca como dono da fazenda

Narrativa em off, TERESA: “O Jongo é dos africanos. É do meu avô…Meu avô era do cativeiro. Chamava Antônio Munhambano, africano. Eu sou de Paraíba do Sul. Ele primeiro era do Dr. Avellar. Ele era escravo do Dr. Avellar, num sabe? Ele era escravo do Visconde e do Visconde ele foi para o Dr. Avellar. O Visconde era o pai do Dr. Avellar. Não sei Visconde de quê. Só sei que é visconde, seu conde…naquele tempo, num é ? Foi lá em Paraíba do Sul, na fazenda de Avellar, num sabe?

Meu avô era africano. Foi achado. A parte da África eu não lembro. Só sei que ele era africano. Era ‘munhambano’. Era de Munhambá (sic) e quem trouxe ele pra aqui foi o português, né? Foi quem trouxe ele. O meu avô.

Ele tinha raiva de português porque trouxeram ele pra aqui. Diz que abanavam lenço encarnado e eles vinham chegando. Eles não sabiam naquele tempo quem eram e aí, trouxeram ele….

O Jongo representa pra mim a mesma coisa que é: Negócio da gente africana. O Jongo era festa dos cativos. Era Caxambu, viola…Tinha viola. Meu pai era tocador de viola. Antônio Bento da Silva. Tocava viola…e meu avô, tocava urucungo…

(Nota de direção de arte: Todas as cenas, principalmente aquelas referentes à citações do Jongo dançado, seriam realizadas com os escravos caracterizados com roupas de época, NÃO festivas e um pouco surradas. De algum modo seria importante deixar claro nas cenas de dança que as rodas de jongo eram compulsórias, obrigatórias para alegrar as visitas do senhor.

Vamos reconstituir a formação instrumental – musical – citada por Teresa afim de quebrar os chavões que se criaram sobre o Jongo. Podemos também refazer a coreografia original do Jongo real, da época de Teresa)

Narrativa em off, TERESA: “Olha…se você não queria dançar, você tinha que levar couro. Se não queria fazer qualquer coisa, tinha que apanhar. Tinha tronco. Tinha tronco de campanha, tinha tronco de botar nos pés, tinha tronco de botar no pescoço, tinha isso tudo.

“…Não…cantado mesmo…O Jongo era a festa dos pretos. Se era dos preto velho? Não. Era festa dos pretos. Pros brancos vê a gente dançar.

Era um terreiro grande, tocava o caxambu e os brancos vinham e a gente cantava pra eles vê a gente cantar e dançar. Era só pra eles vê. Que a gente era escravo, tava na fazenda. O que é que ia fazer? E se não dançasse, ó…!

Inserts: Flashs de instrumentos de tortura fundidos à cena de preparação do jongo.

Cena: Os dançarinos, todos adultos e a maioria velhos, vindos da senzala, se aproximam devagar e vão ocupando o pátio. Vestem as mesmas roupas surradas do trabalho, e não demonstram nenhuma alegria especial. Olham ressabiados, meio constrangidos, para os assistentes no alpendre. Tambores são posicionados à beira da fogueira começada.

Narrativa em off, TERESA: “..Era sábado e domingo. As vezes fazia na festa de São João. Foi meu avô quem trouxe o Jongo da África e botou na fazenda pra todo mundo.

Até hoje eu danço, canto o Jongo. Os instrumentos? O que eu sei era caxambu…É aquele de bater: caxambu. A viola era de tocar e o pandeiro acompanhava a viola e o meu avô tocava urucungo, sabe o que é não é ? Botava na barriga …O senhor não sabe o que é urucungo?!

Pois então!? É igual a berimbau. Só que naquele tempo não era berimbau. Era urucungo. Botava aqui, ó (mostra a barriga). Botava no umbigo a cuia e batia.

Eu achava o Jongo daquela época mais bonito. Agora eu faço o desse tempo mesmo. Deixa eu lembrar…Um bom…Jongo dele mesmo, do meu avô. Quando ficou forro e a gente cantava. ‘Carolina‘.

Música ao vivo (reconstituição de jongo cantado por Teresa na fita) será acrescida de acompanhamento e inserts musicais em estúdio.

Cena: Escravos dançam, a princípio pouco animados. Assistentes brancos, visitas do dono da fazenda, se excitam primeiro e seguem a dança com palmas frenéticas, mas sem jeito. Escravos vão sendo dominados pela dança e ficando eufóricos. Fogueira vai ficando alta, intensa. Sombras dos escravos emolduradas pela luz da fogueira. Ponto de vista da câmera em fade out, indica que ela está atrás de uma bananeira, cujas silhuetas das folhas, a medida que a cena ensandecida do jongo vai se afastando, se misturam com as silhuetas dos dançarinos.

Sequência 04
O contexto, o Trabalho

Fazenda antiga no Vale do Paraíba do Sul e imediações
Exterior/Dia

(Inserts: Imagens de época, filas de escravos, escravos no campo. Fazenda antiga com casa grande parcialmente em ruínas, aspectos do mato, os tijolos e telhas caídas.

Cena: Aspectos esparsos e misturados do cotidiano do Vale do Paraíba hoje e no passado reconstituído, situações normais de trabalho antes e depois. imagens de época de escravos no campo, em situações de trabalho similares as de hoje.

Narrativa em off, TERESA:…”Meu pai era capataz da fazenda. Meu avô criador de porco, mas era porco mesmo, num era esses porquinho de hoje não. A gente passava bem e passava mal. Mas morreu muita gente e, depois o Dr. Avellar era muito ruim! O pai dele num era ruim como ele não mas ele era. É brincadeira? Botar ‘bacalhau’? Não sabe o que é ‘bacalhau’?! Aqui na cidade tinha que ainda quando eu vim aqui pra cidade eu vi ‘bacalhau’, vi tronco aqui na cidade.

‘Bacalhau é aquilo que é como se diz?…Como aquilo que é couro, enroscado assim…Um relho! Mas não era chicote não. Chicote era trançado e não era trançado não. É. É o que fazia…Dr. Avellar. Ele era filho do Visconde….

Sequência 05
Antecedentes da Fuga

Fazenda antiga no Vale do Paraíba do Sul
Exterior/ Noite (ou Dia)

(Esta seria a situação crucial do filme. Dramatização, simulação da situação descrita por Teresa que, de forma discreta, pode ser as vezes apenas sugerida, em sombras e flagrantes fugazes com personagens.)

Cena: Com fogueira acesa ao fundo, jovem filho de sinhô esbofeteia pai de menina (Teresa) que tenta partir em defesa do pai, mas é impedida por parente. Pai, humilhado puxa facão que traz na cintura ou outro objeto perfurante qualquer que esteja à mão.

Narrativa em off, TERESA:”…Dava tapa na cara das criada, dos escravo. Olha!.. Eu tinha raiva de um tal de nome Lulu. Era filho do Dr. Avellar, de que meu pai era escravo.

Cena: Menina se desvencilha de parente e agride verbalmente o filho do sinhô até ser levada para longe. Escravos que seriam tios de Teresa retiram o pai dela da cena.

Narrativa em off, TERESA: “Eu não sei o que foi que meu pai fez, meu pai ia levar o… ele foi, veio de lá, e mandou um tapa na cara de meu pai. Aí meu pai ficou revoltoso. Ai meu tio disse assim: Vamo embora! E o meu pai, não sei se queria matar ele. Eu num sei. Foi embora. Pra roça. Aí eu tomei raiva dele. Aí ele falou: Ô crioula! Eu falei: Crioula é a sua mãe!

Que ocê deu um tapa na cara do meu pai agora! Se eu fosse meu pai eu te capava a barriga agora!

E ele: Ó sua negrinha! Negrinha, não. Não sou negrinha. Tava com 15 anos. Aí eu fui indo pra roça. Aí meu pai: Mas ocê veio pra roça? Falei: Vim que eu não quero mais ficar na fazenda. Que eles botava as crianças, as pequena, as negrinha, pra brincar com os filhos, pra carregar os filhos dela.”

Cena: Madrugada, quase amanhecendo. Em frente á senzala, pai de Teresa e dois dos tios arrumam trouxas com tralhas pessoais. Abrem a porta, se despedem de parentes.

Sequência 06
A Fuga

Fazenda antiga no Vale do Paraíba do Sul
Exterior/Dia

Cena: Manhã na fazenda com fogueira ainda ardendo em brasas remanescentes. Fumaça. Três escravos (sugere-se que sejam o pai de Teresa e os irmãos) com calças rasgadas e sujas correm em descampado rumo a um morro ou serra no horizonte. Câmera corre com eles cortando o mato em disparada.. Durante a fuga muitas outras situações dramáticas podem ser pensadas pela direção.

Narrativa em off, TERESA:”…Se fugia muita gente? Fugia! Fugia! Chamava Capitão do mato. Procurava eles. O que procurava eles era o Capitão do Mato.

Coitados! Vinha tudo amarrado, algemado assim, tudo algemado, heim!

Em Paraíba tinha tudo. Pra onde eles fugia? Era no mato virgem. Era mais na roça. Paraíba, Campo Verde, Boa Vista, Conceição, Santa Teresa. Eu fui criada na fazenda da Santa Teresa. Era do Visconde de Avellar. Ficavam lá no mato, coitados. As vezes eles vinham, roubavam um porco do senhor e iam comer no mato. Fazia fogo no mato pra comer.

Ficava. No mato eles ficava escondido. Quando pegavam eles…meu senhor! Como passavam mal, como eles passavam mal no bacalhau…Olhe! Deus soube o que fez. Deus soube o que fez, meu filho! Eu vi isso tudo, sabe? Esse tempo eu tinha meus 15, 16 anos.

(Inserts: Jornais de época com notas sobre lei do ventre livre e imagens de crianças escravas)

Narrativa em off, TERESA:“…Eu vi muita coisa, né? Eu era Ventre Livre, eles queriam me bater, eu disse não! Eu sou forra! Eu sou ventre livre, não sou escrava não! Escravo é minha mãe e meu pai! Queriam me bater? Não. Não me batem não!

“…Aí eu fugi. Eu fugi e fui encontrar com meu pai, aí meu pai era fugido…Que ele vinha fugindo do serviço, ora! Que vinha fugindo da roça!…Aí meu pai me disse: O que que ocê está fazendo aqui, minha filha?

Eu falei: Eles queriam me bater, eu fugi! Meu pai: Você não pode apanhar, porque você é forra, minha filha. Escravo sou eu, que sou seu pai! Agora você não vai mais pra lá!

Aí eu fui lá pela roça, com meu pai. Ia pra roça com meu pai e minha mãe. Deus faz a verdade, o que eu vi aquele pessoal passar aquele tempo. “

Cena: Escravos em fuga, junto com a câmera correndo pelo descampado até câmera parar e focar nos escravos correndo em direção ao morro até se perderem no horizonte

Música.A trilha será, basicamente Jongo extraído da fita de Teresa. Algumas inserções incidentais ou musicais serão colocadas em estúdio.

Sequência 07
O Munhambano

Fazenda antiga no Vale do Paraíba do Sul e imediações
Exterior/Dia

Cena: Tardezinha. Em frente da senzala, grupo de crianças escravas brinca e zomba de um velho senhor mulato de longos cabelos. Pegam no cabelo dele que se desvencilha. Correm dele que finge pegá-las, crianças correm rindo e fingindo dançar, sempre tentando pegar o cabelo do velho.

No pátio onde ocorreu o jongo escravos aparecem ao longe retornando, cansados do eito. Carregam trouxas, tralhas e ferramentas de trabalho. Vão se dirigindo às casinhas de cada um na senzala. Alguns se sentam no chão, ali mesmo, esgotados. Crianças e velho sempre brincando.

Narrativa em off, TERESA:“Tinha festa. Eles davam muita festa pros escravos. Muito. Eles davam S.João, Santo Antônio, tudo. Eles davam…Natal. Tudo eles davam festa. No Natal eles davam roupa…Os fazendeiros é que dava. Dava tudo. Graças á Deus! Dava tudo mas…era aquilo. Mas, era ali, ó!

Minha avó era lavadeira dos escravos. Meu avô era tratador de porco. Minha avó era Benta! Benta da Silva e meu avô também era Bento. Antônio Bento da Silva. Ela era Munhambana.

Ele também era. É. Todos dois eram Munhambanos. Ah…Eles num contaro como era de onde eles vinham não. Eles num contaro que a gente era criança naquele tempo…Meu avô num era preto não. Meu avô, o cabelo dele era aqui (mostra abaixo do ombro) Minha avó também. Meu pai era mulato mas casou com a minha mãe que era preta.

E as outras minhas irmãs eram tudo mulata. Eu e meu irmão saiu da cor da minha mãe. Mas, meu avô? Meu avô o cabelo dele parava aqui (mostra de novo o ponto). Nós penteava o cabelo:(imitando avô:)’Ara! Ara eu! Ara eu pega ocê!’ Tudo assim que ele falava. (imita de novo:) ‘Oça o tutra!” Sei lá, colher que ele pedia, a gente não sabia, se era uma coisa que ele pedia e a gente não sabia. (imita de novo:) ‘ Mim dá essa coisa aí o ningrinha!’: Nós pidia a ele.

Aí ele sabia o que era. Meu avô Antônio. Ele não era preto. Era mulato. Se era mulato de cabelo liso? Era mulato de cabelo liso. É. Veio da África. Meu avô, minha avó contava, porque na fazenda tinha muita gente africana, tinha…Angola, isso…D’Angola… isso tudo tinha.

(Inserts: Mapa da África em busca ansiosa, passa por cidades de Angola, até focar a área de Inhambane, em Moçambique. Fecha série de inserts com imagens de indígenas moçambicanos, mulatos com biotipo do Inhambane.)

Narração em off: Idosos urbanos comentam em off, durante inserts, a desconfiança dos entrevistadores sobre a origem africana do avô de Teresa

Narrativa em off, TERESA:“..Os português trazia ele pra aí. Tudo era assim.(Se irritando com a desconfiança dos entrevistadores reticentes com a descrição do avô): Meu avô era africano! Meu avô, minha avó, era tudo africano….(de novo irritada com a insistência da pergunta sobre o estranho biotipo de seu avô): É. Africano. Gente africano. Pois ele era africano! Munhambano é África!

É África. meu avô era africano! Quantas vezes quer que eu falo? (mais irritada ainda): Não! É África! Lugar na África (se acalmando:)… Aqui não tem Madureira? É como assim. É África. É mesmo que lugar da África. Aqui não tem cidade? Num tem Paraíba do Sul? Então? É como a África. É assim.

Aquele tempo…A gente morria de medo de fazer filho.

De que jeito que a gente vivia? O filho lá….Um dia chegava, tirava o filho da gente pra vender. Hum! Minha mãe num foi vendida? Minha mãe num era daqui. Minha mãe era lá da Bahia. Foi. Vendero aí pra um vendedor aí, ó! Meu avô num foi vendido? Meu avô era africano e foi vendido. Então? Foi vendido, num é? Foi o Visconde! Minha avó foi vendida. Isso tudo foi vendido. Agora vai vender quem é?

…Vão vender quem é? Vai vender ocê?…(Solta uma gargalhada) Vão vender quem é?”

Música final

(Fogueira totalmente consumida, mas com brasas dormidas ainda soltando fumaça por força do vento. Fusão da fogueira com imagem do gravador K7 com fita girando. Imagem fundida faz fundo para roll com letreiros finais)

Música final segue até fim do roll.

FIM

Spirito Santo

(para Imagine Filmes)
Setembro 2014
 
Leia também: A Roça de Teresa revisitada.

A Roça de Teresa revisitada – A pesquisa


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Transcrição completa de entrevista em fita K7 com uma ex-escrava de fato

Numa noite de 1973, na quadra da Escola de Samba “GRES Arranco de Engenho de Dentro”, localizada entre Cascadura e Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, fiz uma entrevista impressionante, a primeira pesquisa de campo da minha vida! Comigo, participou um grupo de amigos que estava por lá (entre os quais o radialista Rubens Confeti, da Rádio nacional aqui do Rio de Janeiro, o poeta Lucio Flávio e o fotógrafo José Ricardo D’Almeida).

O impressionante era que a entrevistada estava prestes a completar 117 anos e…havia sido escrava! Quem já ouviu, ou mesmo viu, uma pessoa de 117 anos? São pessoas raras. Muitos eventos que só conhecemos pelos livros, foram para elas corriqueiros.

A visão clara que elas têm do passado remoto, para nós é tão desconcertante que parece mentira. Mas juro. Não minto e repito: Isto não é ficção. Desta vez, a história é a mais pura realidade. Os incidentes que a entrevistada nos dá conta – como testemunha ocular (!) – são de 1874, quando ela estava com 15 anos. Aconteceram, numa fazenda de café do Vale do Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, chamada Santa Teresa, num município denominado hoje Avellar (que, na época, ainda pertencia à cidade de Paraíba do Sul).

O nome Avellar é emblemático pois o patrão, o senhor de nossa entrevistada era, ninguém menos, que o Visconde da Paraíba, João Gomes Ribeiro de Avellar. O nome de nossa entrevistada é Maria Teresa Bento da Silva, matriarca de uma espécie de dinastia que, sediada no morro da Serrinha, em Madureira, não só implantou no lugar o Jongo trazido da roça, como ajudou a criar, em 1947 a Escola de Samba Império Serrano (Teresa foi a orgulhosa mãe de Antônio dos Santos, o Mestre Fuleiro, histórico diretor de harmonia desta escola).

O registro foi feito num gravador K7, cuja fita, mídia fantástica que é, sobrevive intacta em meu arquivo já digitalizada e na nuvem (o CD com a cópia reserva que fiz, já morreu) O documento – que eu tenho um orgulho enorme de ter produzido – é um dos mais impressionantes e raros registros históricos, que eu conheço sobre o assunto e será posto um dia à disposição dos interessados em algum acervo público, dos poucos que o Brasil possui.

(Dos poucos registros de relatos ou entrevistas com escravos que conhecemos, pode-se citar alguns poucos, como os realizados por Nina Rodrigues já no fim do século 19 e o relato de Solomon Northup, registrado no filme “12 years slave“. São contudo relatos escritos, transcritos por terceiros. Fatos tão remotos narrados pelo próprio ex-escravo, de viva voz, com sua opinião e visão sobre oque viveu sem intermediações, confesso que nunca ouvi falar de outro no mundo. Se alguém souber que nos informe)

Decidi dar a este post, que reproduz a transcrição da entrevista, um jeito menos formal. A ideia foi deixar Teresa falar sem edição, diretamente, para nós, seus leitores. Teresa morreu dois ou três anos depois da entrevista (entre 1975 e 1976) Tinha, pelas contas que fazia, 120 anos. Com sua voz valendo, narrando por si mesma os episódios, faremos um roteiro de cinema cuja produção começa agora. As locações serão nos ambientes reais, onde tudo aconteceu.

Ao final deste post, alguns comentários se fizeram necessários, já que a entrevista gerou uma série de questões inéditas, a serem respondidas por uma pesquisa, de veios muito ricos, que, pelo visto não vai acabar tão cedo. Um destes veios é sobre o Jongo, enquanto ingrediente importante do caldo de cultura que é o Samba e que, a partir dos elementos trazidos à luz pela entrevistada, ganha contornos muito mais nítidos, no tempo e no espaço.

Contudo e por tudo, mais uma vez afirmo, é Maria Teresa Bento da Silva, a ex-escrava quem fala sobre o que viu em 1874. Por mais desconcertante que isto possa parecer, é tudo verdade.

A Roça na voz de Teresa

..”Queria dizer que naquele tempo eles sabia fazer o que agora num vejo ninguém fazer. Faziam! Se você estava com dor de cabeça ou uma dor de barriga, eles passavam a mão assim na tua cabeça e a dor de cabeça ia embora, passavam a mão assim na tua barriga e dor de barriga ia embora. Agora não. Agora eles não faz nada. Eles não sabem é nada. Eu não…Naquele tempo era bom.

Eu não. Não sabia (curar). Só o Jongo. Num podia nada. E, depois…naquele tempo não podia aprender mais nada porque o Sr. num deixava. Nós carregava os filhos deles. Ah!.. Deus me livre se agora fosse como naquele tempo! Nossa Senhora! Se agora fosse como naquele tempo…O Visconde era de Paraíba. De Avellar. Visconde de Avellar.

Num sabe aquela família Avellar? Ainda está lá. O sobradão branco, diz que tá cheio de cobra. Num tem mais nada daquilo. Num tem mais nada daquilo, meu filho. Fui uma vez lá depois que eu vim pra aqui, com alguém. O sobrado tá a mesma confusão mas, o sobrado eu conheço por dentro. Um apartamento, lá no alto. Sobrado grande. Só a fazenda! Só o pessoal que tinha!

O Visconde tinha escravo de pagode! Tinha escravo pra duas forma. Duas forma (cerca de 300 escravos)! O visconde botava duas forma. Visconde de Avellar. Foi senhor do meu pai….Pra quem viu o cativeiro como eu vi….É triste. Olha…se você não queria dançar,você tinha que levar couro. Se não queria fazer qualquer coisa, tinha que apanhar. Tinha tronco. Tinha tronco de campanha, tinha tronco de botar nos pés, tinha tronco de botar no pescoço, tinha isso tudo.”

A fuga da fazenda

…”Meu pai era capataz da fazenda. Meu avô criador de porco, mas era porco mesmo, num era esses porquinho de hoje não. A gente passava bem e passava mal. Mas morreu muita gente e, depois o Dr. Avellar era muito ruim! O pai dele num era ruim como ele não mas ele era. É brincadeira? Botar ‘bacalhau’? Não sabe o que é ‘bacalhau’?! Aqui na cidade tinha que ainda quando eu vim aqui pra cidade eu vi ‘bacalhau’, vi tronco aqui na cidade.

‘Bacalhau é aquilo que é como se diz?…Como aquilo que é couro, enroscado assim…Um relho! Mas não era chicote não. Chicote era trançado e não era trançado não. É. É o que fazia…Dr. Avellar. Ele era filho do Visconde…

Se fugia muita gente? Fugia! Fugia! Chamava Capitão do mato. Procurava eles. O que procurava eles era o Capitão do Mato.

Coitados! Vinha tudo amarrado, algemado assim, tudo algemado, heim!”(perguntada se lá tinha quilombo, não entende a pergunta):Em Paraíba tinha tudo. Pra onde eles fugia? Era no mato virgem. Era mais na roça. Paraíba, Campo Verde, Boa Vista, Conceição, Santa Teresa. Eu fui criada na fazenda da Santa Teresa. Era do Visconde de Avellar. Ficavam lá no mato, coitados. As vezes eles vinham, roubavam um porco do senhor e iam comer no mato. Fazia fogo no mato pra comer.

Ficava. No mato eles ficava escondido. Quando pegavam eles…meu senhor! Como passavam mal, como eles passavam mal no bacalhau…Olhe! Deus soube o que fez. Deus soube o que fez, meu filho! Eu vi isso tudo, sabe? Esse tempo eu tinha meus 15, 16 anos. Eu vi muita coisa, né? Eu era Ventre Livre, eles queriam me bater, eu disse não! Eu sou forra! Eu sou ventre livre, não sou escrava não! Escravo é minha mãe e meu pai! Queriam me bater? Não. Não me batem não!

Aí eu fugi. Eu fugi e fui encontrar com meu pai, aí meu pai era fugido…Que ele vinha fugindo do serviço, ora! Que vinha fugindo da roça!…Aí meu pai me disse: O que que ocê está fazendo aqui, minha filha?

Eu falei: Eles queriam me bater, eu fugi! Meu pai: Você não pode apanhar, porque você é forra, minha filha. Escravo sou eu, que sou seu pai! Agora você não vai mais pra lá!

Aí eu fui lá pela roça, com meu pai. Ia pra roça com meu pai e minha mãe. Deus faz a verdade, o que eu vi aquele pessoal passar aquele tempo. Dava tapa na cara das criada, dos escravo. Olha!.. Eu tinha raiva de um tal de nome Lulu. Era filho do Dr. Avellar, de quem meu pai era escravo.

Eu não sei o que foi que meu pai fez, meu pai ia levar o… ele foi, veio de lá, e mandou um tapa na cara de meu pai. Aí meu pai ficou revoltoso. Ai meu tio disse assim: Vamo embora! E o meu pai, não sei se queria matar ele. Eu num sei. Foi embora. Pra roça. Aí eu tomei raiva dele. Aí ele falou: Ô crioula! Eu falei: Crioula é a sua mãe!

Que ocê deu um tapa na cara do meu pai agora! Se eu fosse meu pai eu te capava a barriga agora!

E ele: Ó sua negrinha! Negrinha, não. Não sou negrinha. Tava com 15 anos. Aí eu fui indo pra roça. Aí meu pai: Mas ocê veio pra roça? Falei: Vim que eu não quero mais ficar na fazenda. Que eles botava as crianças, as pequena, as negrinha, pra brincar com os filhos, pra carregar os filhos dela.”

O Munhambano…

“Tinha festa. Eles davam muita festa pros escravos. Muito. Eles davam S.João, Santo Antônio, tudo. Eles davam…Natal. Tudo eles davam festa. No Natal eles davam roupa…Os fazendeiros é que dava. Dava tudo. Graças á Deus! Dava tudo mas…era aquilo. Mas, era ali, ó!

Minha avó era lavadeira dos escravos. Meu avô era tratador de porco. Minha avó era Benta! Benta da Silva e meu avô também era Bento. Antônio Bento da Silva. Ela era Munhambana.

Ele também era. É. Todos dois eram Munhambanos. Ah…Eles num contaro como era de onde eles vinham não. Eles num contaro que a gente era criança naquele tempo…Meu avô num era preto não. Meu avô, o cabelo dele era aqui (mostra abaixo do ombro) Minha avó também. Meu pai era mulato mas casou com a minha mãe que era preta.

E as outras minhas irmãs eram tudo mulata. Eu e meu irmão saiu da cor da minha mãe. Mas, meu avô? Meu avô o cabelo dele parava aqui (mostra de novo o ponto). Nós penteava o cabelo:(imitando avô:)’Ara! Ara eu! Ara eu pega ocê!’ Tudo assim que ele falava. (imita de novo:) ‘Oça o tutra!” Sei lá, colher que ele pedia, a gente não sabia, se era uma coisa que ele pedia e a gente não sabia. (imita de novo:) ‘ Mim dá essa coisa aí o ningrinha!’: Nós pidia a ele.

Aí ele sabia o que era. Meu avô Antônio. Ele não era preto. Era mulato. Se era mulato de cabelo liso? Era mulato de cabelo liso. É. Veio da África. Meu avô, minha avó contava, porque na fazenda tinha muita gente africana, tinha…Angola, isso…D’Angola… isso tudo tinha.

Os português trazia ele pra aí. Tudo era assim.(Se irritando com a desconfiança dos entrevistadores reticentes com a descrição do avô): Meu avô era africano! Meu avô, minha avó, era tudo africano….(de novo irritada com a insistência da pergunta sobre o estranho biotipo de seu avô): É. Africano. Gente africano. Pois ele era africano! Munhambano é África!

É África. meu avô era africano! Quantas vezes quer que eu falo? (mais irritada ainda): Não! É África! Lugar na África (se acalmando:)… Aqui não tem Madureira? É como assim. É África. É mesmo que lugar da África. Aqui não tem cidade? Num tem Paraíba do Sul? Então? É como a África. É assim.

Aquele tempo…A gente morria de medo de fazer filho.

De que jeito que a gente vivia? O filho lá….Um dia chegava, tirava o filho da gente pra vender. Hum! Minha mãe num foi vendida? Minha mãe num era daqui. Minha mãe era lá da Bahia. Foi. Vendero aí pra um vendedor aí, ó! Meu avô num foi vendido? Meu avô era africano e foi vendido. Então? Foi vendido, num é? Foi o Visconde! Minha avó foi vendida. Isso tudo foi vendido. Agora vai vender quem é? Vão vender quem é? Vai vender ocê?…(Solta uma gargalhada) Vão vender quem é?”

Teresa e a República

…”Hoje é tudo diferente, meu filho. Óia…Porque que eles tiraram o Deodoro da Fonseca?

Porque Deodoro sabia governar! Inda outro dia (imitando o questionamento dos filhos)… Aí, oh mãe…Ó mãe, a Sra…(como se a interromper os filhos)…O que?? Deodoro sabia governar!! Assim que acabou o cativeiro, foi Deodoro que tomou conta. Deodoro botava tudo ali, na linha. Agora não. A mulher dele era boa. Ele era muito bom. A gente comia bem, bebia bem. Aquelas coisa que ficava ruim nas venda…ele mandava jogar tudo fora. Aí…Óia a gente panhando na rua!

Que é de que tá assim agora? Que é de? Que é de?.. Peixeiro, que chegava aí, da praia, lá do lado de lá, da praia de Niterói,…Chegava os peixeiros ? Dava tudo pro home. Ah…! Ele botava aqueles peixes tudo fora. A gente panhava aqueles peixes grandes. Ficava bem bom. Óia a gente se espanando nos peixes. Mas, agora?

Trabalhei pra Deodoro da Fonseca! Eu que tô aqui! Não me incomoda. Aqueles soldados (imitando o soldado lhe fazendo a corte:) ..Ih! De adonde ocê é, heim? E eu: Num tem conversa! Subia. Levando a roupa que minha tia lavava, eu ajudava ela a lavar, ajudava a engomar, viu? E tô aí, com a graça de Deus! Eu agora nem sei o que é soldado!? Soldado hoje é porcaria, não vale nada, não vejo nada. Eu ando na rua e num sei quem é soldado! Porque, aquele tempo…era SOLDADO!

Aquele tempo ocê conhecia GENERAL! Hoje em dia num sabe quem é general, não sabe quem é doutor, num sabe nada nesta vida!…Aquela época tinha (imitando marcha:) báu, báu, báu, báu! Aquelas fardas, que a gente passava, as fardas alumiando o sol, assim…ninguém podia. Agora, hoje em dia num se vê nada. Num vê nada. Anda de calça arregaçada. Aquele tempo, ocê via isso aqui do general, dos soldado…

Você dizia: Ih!, fulano, eles vem lá! Hoje em dia ocê até empurra eles assim…Soldado muito bem vestido, a roupa bem engomada. Quando era gala, a roupa branca…a coisa ali, ó! Eu tinha (respeito)! Eu tinha! Tanto que as vezes até tomava benção.

Ocês sabe que general naquele tempo era General. Hoje eu não sei quem é general! General assim, com estrela, (imitando marcha de novo:)…Táu, táu, táu, táu, chega só…só naquele pisar dele eu sentia medo. Soldado que ocê tem aí? As vezes eu fico assim oiando. Lá perto de mim mora um soldado. Eu falo (desalentada:)… Isso é soldado?! Ah…Eu tinha respeito de soldado. Hoje em dia não tenho respeito de soldado. Tinha”.

Jongo em 1874

“O Jongo é dos africanos. É do meu avô…Meu avô era do cativeiro. Chamava Antônio Munhambano, africano. Eu sou de Paraíba do Sul. Ele primeiro era do Dr. Avellar. Ele era escravo do Dr. Avellar, num sabe? Ele era escravo do Visconde e do Visconde ele foi para o Dr. Avellar. O Visconde era o pai do Dr. Avellar. Não sei Visconde de quê. Só sei que é visconde, seu conde…naquele tempo, num é ? Foi lá em Paraíba do Sul, na fazenda de Avellar, num sabe?

Meu avô era africano. Foi achado. A parte da África eu não lembro. Só sei que ele era africano. Era ‘munhambano’. Era de Munhambá (sic) e quem trouxe ele pra aqui foi o português, né? Foi quem trouxe ele. O meu avô.

Ele tinha raiva de português porque trouxeram ele pra aqui. Diz que abanavam lenço encarnado e eles vinham chegando. Eles não sabiam naquele tempo quem eram e aí, trouxeram ele….O Jongo representa pra mim a mesma coisa que é: Negócio da gente africana. O Jongo era festa dos cativos. Era Caxambu, viola…Tinha viola. Meu pai era tocador de viola. Antônio Bento da Silva. Tocava viola…e meu avô, tocava urucungo.

Não…cantado mesmo em…O Jongo era a festa dos pretos. Se era dos preto velho? Não. Era festa dos pretos. Pros brancos vê a gente dançar.

Era um terreiro grande, tocava o caxambu e os brancos vinham e a gente cantava pra eles vê a gente cantar e dançar. Era só pra eles vê. Que a gente era escravo, tava na fazenda. O que é que ia fazer? E se não dançasse, ó…!Era sábado e domingo. As vezes fazia na festa de São João. Foi meu avô quem trouxe o Jongo da África e botou na fazenda pra todo mundo.

Até hoje eu danço, canto o Jongo.Os instrumentos? O que eu sei era caxambu…É aquele de bater: caxambu. A viola era de tocar e o pandeiro acompanhava a viola e o meu avô tocava urucungo, sabe o que é não é ? Botava na barriga …O senhor não sabe o que é urucungo?!

Pois então!? É igual a berimbau. Só que naquele tempo não era berimbau. Era urucungo. Botava aqui, ó (mostra a barriga). Botava no umbigo a cuia e batia.

Eu achava o Jongo daquela época mais bonito. Agora eu faço o desse tempo mesmo. Deixa eu lembrar…Um bom…Jongo dele mesmo, do meu avô. Quando ficou forro e a gente cantava. ‘Carolina‘. Cantava assim:”(cantando)

(Áudio e partitura:Arquivo grupo Vissungo, RJ)

Oh, pra que pente carorina?
Num tem cabelo
Pra que pente Carorina?
Sem cabelo
Pra que pente Carorina?

Ê pra que pente Carorina?
Sem cabelo, pra que pente Carorina?
Ê pra que pente Carorina?
Não tem cabelo,
pra que pente Carorina?”

…”Mas era eles que cantavam e a gente respondia…Era língua africana sim, uai?! Assim. A gente até caçoava deles (zombando): Canta assim, num é ? (enfática): Era língua sim! (repete a letra do ponto de Jongo sem explicar)…essa era na língua deles (canta mais) …mas a gente não respondia assim. Respondia depois.”

Jongo 100 anos depois

…”Hoje num tem mais nada. De primeiro, na casa dessa só tinha Jongo (se referindo á Madureira) . Todos os sábados nós dançava mas…o pessoal morreu. Num ficou ninguém. Cada casa tinha Jongo. Cada casa tinha Jongo. Era todo sábado.

Ah…Quem canta o Jongo sou eu…tem essa outra aqui mais…as outra precisa…Pode aprender. Nós aprendemo, num é? Elas pode aprender, vê a gente dançar, cantar e elas aprende também….Tem. Tem. Em Madureira tem muito. Tem muito, oh!.. A Maria (se referindo á Maria Joana, mãe de Darcy do Império, já falecido e hoje conhecido como Darcy do Jongo) quando deu o Caxambu teve gente lá assim, ó! Na casa dela. Agora eu não. Se ocês for lá vê. Eu nunca mais dei. Eu não. Meu marido morreu, eu fiquei eu com meus filhos, sabe. Graças a Deus.

Fiz Jongo! Óia…Ainda hoje eu soube que lá na minha terra tem Jongo quase todo sábado. Diz que tem Jongo. Naquela casa que ocês….diz que eu vou lá. Ela disse que qualquer tempo ela vai me levar lá. Diz que o Jongo, que o bagúio lá é assim! O Caxambu lá é de arromba. (para Joana):..Ocê tem num vontade de pular no Caxambu de lá não, Maria? O Caxambu lá é de fato.

E a gente sabe cantar aqui? Num sabe cantar. Num tem voz! Essa gente aqui num tem voz pra cantar. Quem vai cantar o Caxambu sou eu…Aquela pequenazinha hoje num sei se vem, é só. E lá não…todo mundo à cantar, todo mundo à dançar! Lá em minha terra. Graças a Deus!

Óia…Todo mundo fala: A Sra., já tá com essa idade e ainda dança? Danço! Inda pulo o meu Caxambu! Graças á Deus!”

Notas finais

(Trechos de pesquisa suplementar)

Maria Teresa teria nascido em 1859. Os fatos dos quais nos dá conta são de quando ela estava com cerca de 15 anos (não exatamente um ano determinado, mas uma faixa de tempo entre os 10 e os 17 anos, por exemplo) Logo, o Jongo que descreve é, portanto, aquilo que sobre a manifestação poderia saber uma adolescente. São preciosas no entanto as descrições sobre uso no Jongo da época, de instrumentos como o Uruc-ungo (a raiz ‘Ungo” diz respeito a um arco musical tipicamente Bantu, angolano mais precisamente) e a viola.

Em 1874, já com o processo de decadência das fazendas da região se aguçando, sabe-se que foi hábito comum entre os ‘Barões do Café‘ demonstrar, ostensivamente, os resquícios de fausto que lhes restavam, forçando seus escravos a se exibir para visitas, vindas, não raro, da Corte.

Foram, certamente, a partir destas viagens, que danças como o Lundu, por exemplo, migraram para a os salões da Corte. São importantíssimas as informações que presta, no sentido de que seu avô, africano de nação ‘Munhambano‘, foi quem trouxe a prática do Jongo para o local (não o seu avô, pessoalmente, é claro, podemos deduzir, mas africanos bantu, trazidos para aquela região, de cultura similar a dele). O fato curioso dela falar e insistir que seus avós eram mulatos de cabelo liso, pode ser, definitivamente, explicado pelos dados a seguir, colhidos posteriormente quando pesquisava para o livro “Do Samba ao Funk do Jorjão” no qual reproduzo a entrevista de Teresa.

Inhambane de fato se refere a uma vasta região ao norte de Maputo, em Moçambique, no litoral do país, habitada por um povo de fenótipo muito característico, já que foi exposto, durante muito tempo, às influências gerais das históricas relações entre Ásia e África, ocorridas na costa africana do Oceano Índico, relações estas que produziram, entre outros efeitos, alguma mestiçagem de negros com árabes (cujos interesses comerciais penetraram ali antes dos portugueses) e indianos (que marcaram fortemente o perfil étnico da população do Madagascar, por exemplo, ilha muito próxima à costa a Moçambique).

Num gráfico sobre a demografia escrava na região de Vassouras, RJ, está demonstrada a existência na região da própria Vassouras e de Paraíba do Sul de indivíduos da etnia Inhambane, associação evidente com o ‘Mu-nhambano‘ citado por Maria Teresa, mais conhecidos na bibliografia, genericamente como “moçambiques”

Por esta hipótese quase cabal, os avós de Maria Teresa foram pegos no território Inhambane e postos num navio que, atravessando o cabo da Boa Esperança, deu no oceano Atlântico, seguindo para o Brasil, onde estas pessoas desembarcaram no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, seguindo a pé, serra acima para as fazendas de café do Vale do Paraíba do Sul.

Sendo o umbundo e o kimbundo angolanos as línguas de uso predominante entre os escravos da região na época, usava-se o prefixo (adjetivo coletivo) ‘Mu” antes do local de origem das pessoas, para identificá-las mesmo que esta origem não fosse Angola (‘Mu-Kongo‘: Congolês, ‘Mu-brasil’: brasileiro).

Por esta hipótese etimológica evidente, Mu-inhanbane (ou ‘munhanbano‘ como quase vernacularmente falava Teresa) eram pessoas oriundas do Inhambane, Moçambique, região com alguma miscigenação entre africanos negros e asiáticos oriundos em tempos mais remotos das ilhas do Oceano Índico e da costa do continente asiático, razão também cabal do fenótipo do avô de Teresa ser ‘mulato de cabelo liso’.

Segundo o gráfico acima citado (de Flávio G. dos Santos), haviam apenas 8 indivíduos de origem Inhambane na região de Vassouras entre 1837 e 1840, seis deles residindo em fazendas nas quais pode ser incluída a Santa Teresa, citada por Maria Teresa. Alguns destes indivíduos são citados nos autos do processo de condenação de Manoel Kongo à forca em 1839. A hipótese de, pelo menos, dois destes seis escravos serem parentes (os dois seriam os próprios avós ‘Munhambanos‘ de Maria Teresa) é de todo modo, impressionantemente plausível.

Precioso é, do mesmo modo, seu testemunho pessoal – e ocular- de que eram comuns na região as torturas, as fugas e os ‘aquilombamentos‘. Os locais descritos por ela, correspondem a onde está circunscrito hoje parte do Município de Avellar, vizinho de Paraíba do Sul.

Na crônica da insurreição de escravos conhecida como ‘Quilombo do Manoel Congo‘ (sobre o qual este autor escreveu o espetáculo o ‘Auto do Manoel Kongo’ que pode ser lido neste link“), ocorrida em 1838 nesta região), tem papel importante nos conflitos a fazenda de Santa Teresa, já pertencente naquela época a João Gomes Ribeiro de Avellar, o Visconde do Paraíba (chamado de Visconde de Avellar por Maria Teresa).

Nã foi possível ainda identificar, exatamente o homem que Teresa descreve como filho do visconde, o tal que era detestado pela entrevistada  por ter batido na cara de seu pai e que é chamado por ela de ‘Lulu’, apelido comum para “Luiz” ou “Paulo” (“Pau…Lulu”).

Na crônica da rebelião de Manoel Kongo há um Paulo Ribeiro Gomes de Avellar (que não era filho de João Gomes de Avellar, irmão, presumo) dono da Fazenda Pau Grande, da família Avellar, citado no processo que condenou Manoel Congo à morte, como dono do escravo descrito como sendo o próprio ‘Vice Rei‘ do quilombo, um tal de Epifânio Moçambique, provavelmente um “munhambano“, morto na refrega. A grande distancia no tempo entre os dois incidentes (mais de trinta anos) e a confusa genealogia da família Avellar disponível deixa muitas dúvidas ainda sobre este aspecto.

Não tendo feito qualquer comentário sobre o retorno de seu pai, de sua mãe ou dela mesma para a fazenda, depois da fuga narrada, fato que, por sua relevância dramática, com certeza teria sido citado na entrevista, pode-se deduzir que Maria Teresa (e toda a sua família), viveu na condição de quilombola a partir de 1874 em diante.

A afirmação que faz de que ainda viu instrumentos de tortura na Corte, atesta o fato surpreendente de que ela já estava residindo no Rio de Janeiro, na proclamação da República, havendo ficado livre, portanto, cerca de 14 anos antes da Abolição. A este respeito, o fato da família já estar estabelecida no Rio de Janeiro ao tempo de Deodoro da Fonseca, corrobora em parte esta hipótese de sua chegada á corte antes de 1888.

Nota final

Num ano destes aí – já na década de 2000- esta entrevista apareceu transcrita, desautorizadamente, sem crédito algum à sua fonte que é o Grupo Vissungo (grupo musical e de pesquisa o qual coirdeno, que teve a iniciativa de entrevistar Teresa em 1973 – com a participação dos entrevistadores citados, entre eles este que vos escreve) num site do departamento de História de uma importante Universidade Federal aqui do Rio de janeiro.

Advertidos os responsáveis por email, a transcrição foi deletada do site. Informamos aos leitores por causa deste fortuito, antiético e algo recorrente incidente, que a transcrição de documentos e fontes orais, do mesmo modo que qualquer documento histórico, precisam ter os créditos dos autores devidamente informados, como aliás adverte a licença Criative Commons que inserimos no topo desta matéria.

Esta eletrizante entrevista é um dos eixos temáticos principais do meu livro (veja no link)  Do Samba ao Funk do Jorjão que saiu em versões papel e e.book.

Spírito Santo

(Atualizado em setembro 2014)