Black 17th century. Na verdade barroca o ‘making of’ de nós mesmos

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Aleluia! Aleluia! A dissecação do nosso corpo brasileiro velho, redivivo, graças a Internet está nos livros.

Já disse e continuo a dizer cada vez mais animado: Ai de nós se não fosse a ‘Rede’ este espaço difuso, escorregadio e permeável, porém democrático, que nos governa como um Deus pirado, um Grande Irmão de teletela sem ideologia. Não fosse ela, a ‘Rede’ estaríamos ainda hoje aqui no Brasil na idade das trevas em certos temas que o nosso elitismo racista – que merece outros epítetos, cala-te boca – esconde aqui e ali, na sua pouca vergonha de fingir que há mais Europa na nossa alma do que outras plagas e latitudes mais morenas.

É vero!

É o que tenho descoberto aqui, fuçando por pura intuição e esperteza mais coisas holandesas (e inglesas) do que brasileiras, mais africanas do que portuguesas. Na contramão dos doutos de ocasião que ficam por aí arrotando saberes sem haveres e sem noção, naquela bolorenta prática de incensar cânones arcaicos.

Para ser claro: Fiquei cansado de ser enganado.

É mesmo muito impressionante – e alguns de vocês já tiveram até a chance de observar aqui mesmo – o enorme filão de informações relevantes que aparece diante de nossos olhos quando chutamos o pau da barraca das academicices.

Basta virarmos iconoclastas do pensamento discutível desta gente que elas, as novas fontes, nos aparecem, assim, profusamente como uma cachoeira de água limpa guardada há séculos e séculos em grutas do desconhecimento de nós mesmos, a que fomos relegados por ‘uns e outros’, que tendo a chave de certo saber pensam que sabem tudo e nos deixam trancados no desconhecimento, só porque entre os antepassados tivemos também negros ‘da Guiné’, ‘de Aruanda’, da África enfim, das selvas e das savanas de além mar.

Que mal haveria também sabermos tudo sobre este outro lado de onde viemos? Haveria mesmo algum mal nisto? Hum…

Que doença!

 (Antes algumas dicas bem primárias para quem estiver boiando na história:

…”as invasões holandesas (no caso do Brasil o domínio durou de 1637 a 1644) foram organizadas por uma empresa particular, a Companhia das Índias Ocidentais” (num prenúncio bem remoto do Capitalismo do século 20)

…”(Embora alguns românticos enfeitem o seu pavão)…”a Companhia das Índias Ocidentais também autorizava e apoiava o tráfico de escravos africanos. Esses escravos não eram trazidos apenas para o Brasil, mas também para o Caribe (inclusive a costa norte do a América do Sul) e para a então colônia inglesa da Virgínia, na América do Norte.”

“…”Pernambuco era para os holandeses um entreposto para o comércio de escravos. Num relatório enviado para a Companhia das Índias Ocidentais, o próprio Maurício de Nassau afirmava que no Brasil nada podia se fazer sem escravos. “

                           (Extraído de UOL Educação com grifos em parenteses do Titio)

A preciosa raridade de hoje – vou logo avisando – é impactante mesmo. Chocante até. Difícil nunca a termos visto por aí. Pelo grau de autenticidade da imagem, fotográfica quase – considerando inclusive o caráter remoto da época em que ela foi produzida – ouso dizer que é o mais importante documento sobre o assunto que já eu vi na vida.

O responsável de novo – neste caso em especial- é o inestimável parceiro virtual Daniel Jorge, estudante destas coisas que me repassa tudo que acha interessante de imagens sobre o tema. Nossa curiosa parceria começou assim, com ele comentando regularmente todos os posts que escrevi sobre este assunto, desde que passamos a fazer uso com mais intensidade – na falta de outros – de dados iconográficos.

“Faço pós-graduaçao em História da África e do Negro no Brasil na Universidade Candido Mendes, eu tenho milhares de fotos e gravuras sobre esse assunto. Se você quiser imagens relacionadas a África não-banto ou a escravidão no Brasil é só pedir.”

Grande Daniel!

Vamos lá em então. Instigadão como criança que sou, cavucando mais e mais na internet aprendi o seguinte que repasso para vocês:

(Em tempo me cabe ressaltar, contudo que o cenário da imagem não é o Brasil, exatamente, mas o Suriname (Guiana Holandesa). A ‘licença‘, contudo nem precisa ser classificada como ‘poética‘ porque a cena, protagonizada com toda certeza por africanos vindos de Angola (ou do que hoje é Angola, por suposto) poderia estar ocorrendo em qualquer parte da Diáspora latino americana.)

 “Esta pintura, que data de 1707, foi feita no Suriname por Dirk Valkenburg  que visitou a colônia holandesa entre 1706 e 1708. O trabalho, entre outros,  foi encomendado pelo comerciante de  Amsterdam Jonas Witsen, que possuía três fazendas no Suriname. As obras de Valkenburg são as primeiras pinturas conhecidas feitas na colônia holandesa.

“Valkenburg foi o talentoso filho de um professor. Ele foi educado pelo prefeito de Vollenhove, que pagou a sua formação e materiais de arte, em seguida, foi por dois anos aprendiz do pintor Jan Baptiste Weenix.

É veramente incredibile!

A representação naturalista da realidade é como se sabe uma característica da arte pictórica da renascença. Calcada em princípios filosóficos típicos da época, a escola pictórica a que se chamou ‘barroco‘ teve correntes muito distintas espalhadas pela Europa. Itália, Espanha, França, Portugal e Holanda. Se a gente pensar bem, estas escolas artísticas acabaram tendo as características mais evidentes da ideologia que motivava aquelas sociedades, claramente expressas na sua arte. ‘Papo-cabeça’ para entendidos, mas vejam a seguir onde quero chegar:

Os italianos chamavam este naturalismo de ‘Verismo’, associando o conceito, claramente a princípios da fidelidade à verdade, à representação objetiva, ao retrato fiel do que se via. ‘Veramente’, vamos combinar então – e este post provará isto – ao contrário da mentira (que um belo dia tropeça em si mesma e cai) a verdade tem mesmo pernas longas.

Estamos falando de história, da busca de ansiados traços e pistas sobre o passado de nós mesmos, certo? Pouco se escreveu, por exemplo, sobre o século 17 no Brasil. Façam comigo então esta simples pergunta analógica: Se os pintores ‘veristas’ holandeses não viessem para as Américas trazidos por Maurício de Nassau e se o ‘verismo’ característico deles não fosse impregnado daquele pragmatismo ideológico tão…calvinista, o que seria de nós e de nossa ansiada verdade histórica?

Comove e instiga este pensamento: Os quadros holandeses pintados nas Américas (a maioria no Brasil pernambucano) são filosoficamente mais humanistas que os das demais correntes. Se esforçam intensamente em representar africanos como seres humanos reais. É incrível, mas não se vê neles traço do nenhum daquele eurocentrismo renitente que marca a arte – e a historiografia – portuguesa, por exemplo, este colonialismo emocional arcaico que marca a cultura acadêmica brasileira até hoje. Isto em termos históricos faz toda a diferença em nossa pesquisa.

Alguém aí conhece algum quadro verista português ou’ brasileiro‘ do século 17? ‘Mentirista‘ eu conheço um montão.

Esta opinião, aliás, é mais um prato feito para os tolos românticos usarem quando quiserem afirmar que “seríamos um país melhor se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses”. Besteira. Menos…menos. Colonizados não deveríamos ter sido por ninguém.

O exercício que proponho a vocês em suma é, portanto este mesmo: Seja um ‘verista’ holandês você também.

Além de simplesmente ler este post , de novo, exerça a observação acurada – fissurada mesmo, apaixonada – de todos os detalhes, até, e principalmente os mais prosaicos, com lupa mesmo, meticulosamente como um detetive de filme policial de TV.

Ocorreu-me também recortar o quadro – ‘esquartejá-lo’, melhor dizendo, para melhor analisá-lo como fazem os legistas de ocasião (que é no que eu sugiro que nos transformemos). Façam isto. Vão se surpreender maravilhados com as minúcias de ouro que encontrarão.

A incrível descontração dos escravos – sim, nem parece, mas eles são escravos! – totalmente envolvidos numa festa de arromba no que parece ser um fim de tarde, revela muita coisa sobre os hábitos destas pessoas, mas ao mesmo tempo instiga inquietantes questões e contradições.

”Ao voltar da Alemanha para a Holanda, Valkenburg trabalhou para William III no embelezamento do Palácio Real em Amsterdam. Logo depois decide aceitar uma oferta de Jonas Witsen um rico proprietário de terras no Suriname. Com 200 florins emprestados por Witsen (mediante três naturezas-mortas dadas como garantia) Dirk Valkenburg se fixa então no Suriname, exercendo funções administrativas e pintando a fauna, a flora e tipos humanos do Suriname, principalmente escravos.”

Daniel Jorge me informa, por exemplo que um dos livros que estudou ( Making of the new world slavery, the – from baroque to modern 1492-1800 ) afirma que ocorreu uma revolta e fuga de escravos neste mesmo local meses depois de Dirk Valkenburg pintar este seu impressionante quadro (cerca de 1706). Muito provavelmente  portanto, estes mesmos escravos são os kilombolas (‘maroons‘) que protagonizaram a fuga. Não é inquietante?

O mais incrível de tudo é que segundo estas fontes que encontrei, surpreendentemente “em 1706 a população rural do Suriname era composta apenas por três brancos – incluindo Dirk, o pintor –  e 148 escravos”, trabalhando em três fazendas (pelo menos uma delas na área onde Valkenburg fez este flagrante).

Dialogando sobre a pintura, Daniel também me sugeriu algo que eu já havia intuído assim que me deparei com a imagem: A cena pode representar com relativa perfeição o que seria um dia de festa num kilombo qualquer (como o nosso de Palmares, por exemplo, dominado pelos portugueses como se sabe, oficialmente, apenas 11 anos antes desta cena no Suriname). Eu faria a este respeito apenas pequenos reparos nas roupas dos kilombolas reais, os quais, por conta de gozarem de liberdade quase plena, deviam vestir roupas bem menos sumárias do que as dos personagens da tela do Suriname vestem.

Um reparo bobamente perfeccionista até porque, reparando melhor, o desenho meticuloso das tangas (na verdade ‘sungas‘ perfeitas) denota claramente que a peça do vestuário destes supostos escravos é sumária sim, mas de modo algum um dispositivo de vestuário displicente, mal desenhado (e caso vocês não saibam, a palavra ‘sunga‘ vem do verbo do kimbundo – ou seria do Umbundo? –  angolano  com o sentido de ‘levantar‘, ‘sustentar’.)

Retrato falado. Seção de ‘manjamento’ ao vivo.

Fiquei esquadrinhando em cada rosto, como disse quase fotograficamente pintado por Valkenburg, a cara quem sabe sisuda, daquele que seria o chefe do grupo, a face do tio ‘sekulo’ (quem sabe um conspirador), o rosto feliz da mulher do tio entre as poucas velhas ‘makotas’ que dançam, as tias de uns, as mulheres dos outros. Nenhum ‘wally‘, claro, mas quem seria ali o Zumbi deles?

E as casas detrás do rio, seriam dos escravos ou da fazenda? E aquela figura solitária que vem lá de longe, tão fora do clima, com água num cântaro? E o anão que dança? Que dança será aquela. Como parece o Jongo de Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, gente!

E aquele batuqueiro mais claro, a quem uma diligente mulher – mãe, irmã, esposa, sei lá – dá na boca algo de comer, afim de que o batuque não cesse. Os tambores, aliás, me impressionaram mais que tudo. Sou um músico especialista destas coisas e sem modéstia posso afirmar, com absoluta certeza que Dirk viu um tambor bantu real.

Ampliei os tambores ao máximo, investiguei suas cordas trançadas, as cunhas de tração, a perfeita fisiologia (já tive um tambor idêntico a este). Posso afirmar também que a condição de escravo não é de modo algum propícia a que um músico-artesão consiga produzir tambores tão complexos. É preciso tempo, pesquisa e coleta de materiais, liberdade, ócio criativo, know how. A precisão descritiva, etnomusicológica de Valkenburg é mais um aspecto o que reforça credibilidade a todos os outros detalhes. Não por acaso penso eu,  é exatamente num destes tambores que ele insere a sua assinatura: ‘D.V”.

“…Ai que saudade da fazenda do sinhô!”

A descontração é tanta no ambiente (parece até que é ‘…domingo lá na casa do Vavá”) que a pergunta que não quer calar viram muitas outras, um turbilhão. Reparei emocionado, por exemplo, que um casal de jovens supostos escravos se beija, sofregamente como nós mesmos, quando apaixonados nos beijamos hoje em dia por aí.

É por estas e outras que eu e Daniel nos perguntamos: Será que os personagens são mesmo, ainda, escravos ou Valkenburg fez o quadro depois da tal fuga? Nenhuma semelhança daquele pátio com um cantão de fazenda. Não há senzala á vista. A construção atrás da cena é enorme. Nenhum sinal de ferramentas de trabalho, nenhum monjolo, nada. Que estranha fazenda libertária seria esta?

Afinal a fuga historiada no livro que Daniel leu, ocorreu apenas poucos meses depois. Quem pode garantir que o quadro não tenta representar, exatamente o cantão feliz no qual a pequena escravaria de 148 escravos de Jonas Witsen se homiziou?

Quem for são e com noção pode crer: Destas, muitas outras pistas virão. A cortina que lançaram (nem nos interessa mais saber porque) sobre este tema vai se abrindo como numa janela batida pelo vento.  A cortina é portuguesa e brasileira. A janela, holandesa.

Os textos escritos mentem ou rareiam? Usamos – como ‘sãotomés’ – as imagens que não sabem enganar. Se as imagens rarearem, usaremos as canções dos mais velhos, que cifram segredos milenares, as pulsações das batucadas imemoriais.

A mentira – vocês já sabem – tem perna curta. A verdade– como o rabo do cachorro – está sempre além de nós, sempre à frente e o sentido da vida é mesmo este aqui: persegui-la obsessivamente até a morte.

Então – já que outro jeito não há- vamos que vamos!

Spírito Santo

Julho 2011  

7 respostas em “Black 17th century. Na verdade barroca o ‘making of’ de nós mesmos

  1. Daniel,

    Muito incrível esta nova iimagem, pois, apesar de ter sido, claramente produzida por meio de informações de terceiros, o instrumento de cabaça (um reco-reco tradicional kimbundo (ou seria umbundo?) existe realmente, até hoje. Chama-se, se não me engano ‘Umacola’ e foi registrado pelo José Redinha aquele etnomusicólogo português especialista em instrumentos musicais de Angola.

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  2. Lígia,

    A propósito do vestuário – das mulheres maroons do quadro, eu também fiquei impressionado, mas curiosamente a minha preocupação foi inversa: Achei tão parecida a roupa delas com o que elas vestem ainda hoje que cheguei a duvidar da data do quadro. Muito grato pela contribuição e pela visita.

    Abs

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  3. Marcus,

    Pois é, parceiro. Reparei sim todos estes elementos. Esta da posição dos tocadores, suas mãos o gestual todo, para quem toca tambor é nítido. Dá pra ouvir a batida sim! Fiquei muito impressionado com o padrão das cunhas que eu pensava que era bem mais recente, coisa do século 19, por aí. Sim, sim, muito impressionante esta imagem e seus detalhes..

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  4. Uau!!! Agora que estou vendo a imagem ampliada… é impresionante!!! Não há dúvida que os elementos que elencastes estão todos ali. Inclusive, preste atenação num detalhe ergonômico e etnomusicológico. Trata-se de uma parelha completa de tambores. Um médio, um crivador e “quentando” ao lado, provavelmente no fogo (inclusive com uma corda para sustentação na cintura do tocador) um tambor mãe ou grande. Trata-se de um ‘tambor de crioula” ou um jongo ancestral… rsrsrs. VEja que a postura dos tocadores, incluindo a distância das mãos em relação ao couro dos tambores é muito similar. O médio fazendo um padrão pá_ _ tú, e o crivador (ou pequeno ou pererengue) fazendo um padrão _rá cá_ Chego a quase ouvir… paracatu, paracatu, paracatu… emocionante… ou seja, impressionante como esses padrões ritmicos, essas sonoridades, essas ergonomias e corporeidades resistem aos tempos!!! é mais resistente que a rocha e talvez mais fiel que caneta e papel… abraço!

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  5. Falou e dissse mestre. Essa janela pictórica é um back to the past para nós… abração…

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  6. Que maravilha, Spirito! Não sabemos de quase nada mesmo, não é?
    Na década de 80, com o dolar em alta, Belém era invadida pela população das Guianas para compras. Nesta ocasião eu tinha um hotel frequentado por caravanas de surinameses, As roupas que as mulheres “maroons” usavam eram muito parecidas com essas do quadro e me espantava ao vê-las sem a blusa e com o filho engatado ao quadris.
    O desenvolvimento social dos “maroons” não foi maior que o dos nossos escravos, apesar das pinturas os mostrarem felizes, lá existe muito preconceito com eles também.

    Um abraço. querido

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