5 respostas em “Bantu num pátio de aldeia. Dirk Valenburg 1706

  1. Depois eu volto (o papo é eletrizante). Eu também trabalho com estes questinamentos sobre os esteriótipos sobre a crueza da escravidão,( a crueza relativa, digamos assim). Só de leve, me lembro que tive que desconstruir muito disto aí quando precisei entender a instituição do ‘nego de ganho’ no século 19 na qual os escravos, muitas vezes eram, na verdade os senhores, totalmente dependentes (até para comer mesmo) do que os ‘escravos’ ganhavam trabalhando nas ruas.. Cara, a história é bem outra, mas há que se ter prudencia porque a questão é muito ideologizada. …Bem, volto depois.

    Curtir

  2. SS, vc tem toda razão no lance do beijo, é algo que merece pesquisa mais aprofundada nos espaços não-europeus. Tem alguma coisa escrita em história cultural para a Europa, mas fora dela eu pelo menos não sei de nada. Falta uma filosofia, uma antropologia dos afetos, que seja trans-cultural…

    Já quanto à liberdade aparente dos escravos, creio que a gente tem na cabeça um modelo – o ‘modelo senzala’ – que não condiz muito com a realidade da escravidão em muitos lugares. Acho que a Amazônia é um desses casos. Da mesma forma, o quilombismo pode ter sido muito diferente do que a gente pensa hoje. Creio que essa onda toda de quilombos na atualidade meio que mascarou a realidade do fenômeno histórico, como já coloquei naquela outra discussão de tempos atrás. Por exemplo, em vários lugares que pesquisei – Norte do Espírito Santo (além do rio São mateus), bacia do Trombetos/Erepecuru/Cuminá/Cuminapanema no Pará, vale do rio Ribeira do Iguape em São Paulo – há muitas evidências de uma ocupação territorial de exclusividade negra. Pense nisso, o país colonizado por negros quilombolas, antes da chegada dos brancos a esses lugares. Isso certamente ocorreu nos lugares que mencionei. Com algumas diferenças – no Iguape, por exemplo, a massa colonizadora foi formada por escravos abandonados depois do esgotamento do ouro, certamente juntos com negros fugidos, que ocupam o local após a saída dos brancos e entram floresta atlântica adentro, ocupando a região. Nos outros dois, a massa era formada por escravos fugidos mesmo, que ocuparam a região com quilombos baseados na fuga (no caso do ES, inclusive baseados na guerra de guerrilha contra fazendeiros, ao que parece).

    Os quilombos, por sua vez, tinham fortes articulações econômicas (e outras) com a sociedade englobante, não eram ‘estados dentro do estado’, visão de caráter marxista que se populariza na década de 60 apenas. Assim, Iguape produzia arroz para a corte recém-chegada ao RJ, o N do ES produzia farinha, finíssima, que era anunciada em jornais do RJ no século XIX como ‘farinha dos quilombos’, e o Trombetas produzia drogas do sertão que chegaram a ser o sustentáculo econômico da região de Santarém após a decadência do cacau na região (onde eram usados os escravos que formaram a massa quilombola do Trombetas).

    Um detalhe interessante, que achei no livro de Coudreau, século XIX, sobre o Trombetas: o registro de uma reclamação feita nos anos 1860 por um proprietário de um escravo que havia fugido. O senhor o achou vendendo produtos na feira (não lembro se em Santarém ou em Oriximiná); aproximou-se dele, que o cumprimentou tranquilamente – ‘bom dia meu senhor!’ – e continuou vendendo seus produtos na feira… O senhor escreveu uma reclamação indignada (rsr) dizendo que o mesmo contava com a conivência das pessoas ali presentes. E certamente contava, porque a produção camponesa livre dos escravos fugidos era então a base da economia local. Dá pra sentir como essa coisa de escravidão, quilombos, etc, foi muito diferente do que a gente pensa?

    Abs!

    Curtir

  3. Impressionante…e esse cachorrinho, detalhe insuspeito, esta exatamente no local do expectador. E quem seria esse expectador? Um vira-lata qualquer a quem ninguém nota a presença? Um amigo fiel como um cão? Com certeza, testemunha dos acontecimentos.

    Curtir

  4. JS,

    Muito pertinente todo o seu papo. tentei mesmo ressaltar estas diferenças entre os barrocos todos e o acaso de termos tido esta linha holandesa, pragmática voltada para o ‘retrato fiel’ da realidade. Já havia percebido isto nos vários quadros do Albert Eckhout que encontrei nesta saga iconológica. A questão (fora o acaso) é ideológica mesmo. O barroco portugues foi – como o espanhol também, de certo modo – muito contaminado pela religião católica e toda a hipocrisia dos dogmas e do proselitismo religisioso, aquele fundamentalismo exacerbado. O barroco italiano, grosso modo, além da contaminação do catolicismo, foi também muito marcado pela exaltação do mecenas, aquela paparicação dos fru-frus da aristocracia veneziana e suas adjacencias. O verismo que nos privilegiou como dado histórico relevante ficou sendo mesmo coisa dos calvinistas da W.I.C.

    É bem isto aí mesmo. Só não concordo por enquanto é com a interpretação daquele beijo. Da mesma forma que observei em Eckhout, onde se encontra uma série de elementos inusitados, quase inconcebíveis para a época (como aquele emissário do rei do Kongo vestido de holandes), mas que mergulhando mais na pesquisa se descobre que faziam sentido sim, que podiam ser reais, sim, cópia fiel do que o pintor viu. Penso que a inserção de um ou outro elemento ‘modernista’ (‘surrealista’, no caso) nestes quadros holandeses, feria de morte o preceito, as finalidades ideológicas e técnicas do barroco holandês.

    Consideremos inclusive que tanto Eckhout quanto Valkenburg tinham poderosos mecenas na época em que pintaram estes quadros que comentamos e não precisavam – pelo menos ainda – impregnar suas obras de comercialismos ou apelações desta ordem (existem tapeçarias atribuídas a Eckhout de anos após a sua estada no Brasil que são baboseiras comerciais com toda certeza). Não acho de todo improvável que aquele tipo de beijo já fosse praticado pelos negros da imagem. Aliás, o fato da prática do beijo na boca, aparentemente ter se iniciado na Europa nesta época, não quer dizer que ela já não existisse em outras partes do mundo. Um caso a ser aprofundado, com toda certeza. Beijo de língua também é cultura!

    No caso da excessiva liberdade aparentemente gozada pelos escravos do Suriname, eu concordo sim, em parte, mas as evidencias de que a cena poderia ser a de uma festa num kilombo qualquer das Américas ou do Caribe, continuam a valer, isto considerando-se também que a questão não é bem os escravos estarem soltos, mas sim a natureza de sua descontração, quase absoluta. Difícil imaginar escravos tão ‘livres’, leves e soltos promovendo uma rebelião poucos meses depois desta cena ser pintada. Se rebelar para que? A maioria perguntaria para os líderes.

    No mais, com certeza muito pano para esta manga do Valkenburg, não é não?

    Curtir

  5. SS, não sei se as pinturas barrocas holandesas eram ‘mais realistas’ q as portuguesas/brasileiras. Acho q a diferença é da sociedade – no caso holandês, país protestante, sua temática não foi religiosa como a quase totalidade da arte barroca no Brasil, país católico. Mas é uma questão de temática, apenas. No caso holandês, um dos gêneros de pintura era a retratação de cenas da vida cotidiana, porque os pintores vendiam as pinturas para uma gama de compradores de diferentes classes e origens; no Brasil, eram feitas por comissão da igreja. NO Brasil, como nos países ibéricos e do sul da Europa, o elemento dramático era muito acentuado: pinturas religiosas tinham uma função semelhante à da TV, serviam para enebriar os fiéis, maravilhar a vista e induzir o êxtase, servindo também de um substituto cristão ao ‘paganismo’ de negros e índios; na Holanda, esse elemento dramático era fraco, os pintores preferiam reproduzir cenas que eram comuns à experiência de muita gente que podia pagar pelos quadros – comerciantes, principalmente (é o caso do pintor que vc discute aqui). Pintar cenas de fazendas de escravos é menos uma questão de realismo que de mercado: não é à toa que os holandeses produziram muitas paisagens e marinas nesta época, que eram temas ‘não direcionados’ (como o são retratos, por exemplo) e que portanto poderiam ser vendidos pra qualquer um que pudesse pagar. De certa forma, os negros pintados aí são tão mercadoria (enquanto imagem) quanto seus corpos eram na vida real. O aspecto ‘realista’ é comum tanto ao barroco português/brasileiro quanto ao holandês, se dando no plano da composição principalmente: por oposição á composição simétrica renascentista, a pintura barroca (e a estatuária, literatura, música, etc) ressalta uma distribuição mais ‘realista’ dos elementos da composição, anárquica como na natureza (a tal da ‘janela para um mundo’ que Wolfin fala, a gente sente que pode ver pelas bordas do quadro adentro como se fosse uma janela para um mundo próprio, ao contrário da pintura renascentista clássica que se esgota nos limites da tela). A termática barroca brasileira é virtualmente 100% religiosa, de forma que não retrata personagens negros praticamente nunca. Seus grupos temáticos são do velho e novo testamento, retratos de figuras bíblicas e um núcleo mariano específico, muito forte no Brasil. Mas é também ‘verista’ na forma de representação, como a pintura barroca italiana (também religiosa, mas não inteiramente como no Brasil onde os compradores eram sempre da igreja, comissionando artistas para a representação de cenas sacras).

    Já quanto à cena em si, é bom a gente lembrar que, sendo a população do interior do Suriname – população não-Índia – tão pequena, não havia muita necessidade de se prender escravos. O medo dos Índios e a dependência de mercadorias trazidas da costa eram prisão suficiente. Meso apos a formação dos boeschnieggers (os marroons do Suriname), estes se colocaram quase sempre como inimigos dos Índios, muitas vezes promovendo o extermínio deles no território que passaram a ocupar. Em muitos lugares do Surinam estes grupos são até hoje inamistosos uns com os outros. A mesma coisa para o oeste do Pará, região limítrofe ao Suriname e Guiana franesa, onde trabalho agora, que teve larga população quilombola no rio trombetas desde o século XVIII e teve uma história de conflitos com os Índios da região que se extende quase que até hoje. Houve inclusive contatos ente eles e os Saramakás e Djukás, quilombolas do Suriname, duranteo século XIX e começo do XX. Também aí a mobilidade dos quilombolas e mesmo seus contatos e sua particpação na vida econômica local eram notórios. O sistema de senzala não funcionava na Amazônia, ao que parece.

    Na pintura, uma coisa que você chama a atenção – o beijo no canto direito da tela – parece-me bem pouco realista. Se não me engano, esse tipo de beijo – boca com boca – começava apenas a se tornar popular na Europa dos ricos da época, que começava em meados do século XVII a superar o mau hálito com cremes e pastas e especiarias resultado da exploração de matérias-primas das Américas. Ele começava a existir como símbolo do amor romântico, idéia que tinha então (começo do século XVIII) poucas décadas de existência (Romeu e Julieta, de Shakespeare, escrito coisa de cem anos antes dessa pintura, é um retrato do início desta idéia, que se firmava então no cenário intelectual europeu). É possível que esse beijo fosse apenas uma marca da ‘contemporaneidade’ da pintura, mais um rótulo que a representação de uma cena real, uma vez que era um costume ainda não plenamente estabelecido na Europa (plebeus não faziam isso, por exemplo – não podiam pagar os cremes pra tirar o mau hálito…), que poderia ser praticado pelos mercadores que compavam os quadros mas menos provavelmente pelos escravos de plantations surimanesas (a menos que fosse um costume originário da África – não sei se é o caso, não tenho conhecimentos nessa área).

    Vai desculpando pelo post enorme velho, mas a pintura – e a discussão – são inspiradoras.

    Abraço grande!

    Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s