UPPs: Aguardando o nosso Vietnam

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As UPPs das favelas do Rio resistem até quando?

Admiro a fé e a esperança de alguns, pungente de ver, mas como já disse por aí, há muita ingenuidade e um erro fundamental de conceituação nesta versão oficial das UPPs:

_”Viemos salvar a comunidade ordeira e trabalhadora das favelas do jugo dos traficantes sanguinários”.

Apaguem isto. Nem filme classe C de Hollywood vende mais este peixe passado. É podre esta mensagem.

O primeiro problema das UPPs é, exatamente serem uma tentativa de resolver militarmente um problema que não é, absolutamente militar (policial). Troçam da guerra, brincam com o fogo.

Impossível fugir da sociologia como alguns, cinicamente as vezes tentam, diante de um problema como este, que é – óbvio! – estritamente social. E histórico também. O problema de cidades coloniais como o Rio de Janeiro, sempre foi o que fazer com sua população escrava depois da abolição que, rapidamente transformou os libertos em população “carente”, por falta da implantação de um conceito de sociedade mais humano e inteligente.

Afinal, desembarcaram na Corte-cidade do Rio de Janeiro mais de 2 milhões de africanos (a maioria deles da região da Angola atual). Não ficaram todos por aqui, mas os negros africanos sempre foram a maioria de nossos cidadãos.

Mas não. Por honra e graça da nobreza portuga e, depois da elite aristocrática tupiniquim, ambas semi analfabetas, a solução por aqui, sempre foi a gentrificação, a exclusão física dos pobres, negros em sua maioria, expulsando-os, à força para periferias cada vez mais remotas, mais ou menos como se faz com o lixo empurrado para os cantos da sala (ou para debaixo do tapete)

O problema de “segurança pública” em cidades neo coloniais como o Rio de Janeiro, nasce assim dessa maneira iníqua de se tratar os pobres, que se multiplicam exponencialmente por força da desigualdade social extrema e renitente, pressionando, concretamente, fisicamente o espaço urbano, a oferta de serviços públicos, que tornaram o Rio de Janeiro uma cidade-favela, de ar quase irrespirável.

Lei da natureza.

Logo, desconsiderando os meramente cínicos ou indiferentes, as UPPs só podem ser vistas como um mero “problema de segurança pública” para quem não é preto, não é pobre e vive em condições ideais, com boa casa, boa escola, bom emprego, bons serviços públicos, etc. Para os que estão fora deste cinturão de direitos de cidadania, a segurança pública é muito relativa e pouco importa. O que importa mesmo é sobreviver, seja lá como for.

Os chamados “bandidos traficantes”, suposto “exército inimigo” das UPPs, vejam bem, não invadiram o território das favelas. Sempre estiveram ali. Este discurso da “retomada de território” por parte das “forças do estado” é hipócrita. Ao contrário, eles, os bandidos são crias, fruto destas favelas, são os donos do território. São ou foram crianças nascidas na comunidade, submetidas ás estas condições abjetas de vida nestes guetos infectos, nestes buracos de periferia.

Não são ‘frutos do Mal”, pessoas de má índole, com propensão inata para o crime, “sangue ruim”. Não são um distúrbio genético (nem pense nisto porque estes conceitos são puro racismo) A bandidagem é o efeito colateral da indiferença com que esta enorme parcela de nossa população tem sido tratada, desde a escravidão.

Procure entender que o favelado “honesto e pacífico trabalhador”, tão adulado pela imprensa e pela população incluída, é elogiado apenas por ser…pacato e inofensivo. Mas no fundo, ele é, exatamente o que foi o escravo submisso. Fácil compreender que nem todo mundo aceita ser assim, servil e acomodado.

Para alguns favelados – muitos na verdade – aceitar, estoicamente esta humilhante vida de provações injustas, insuportáveis, é um sacrifício moral intolerável. Assim, traficar drogas, pode acabar sendo sim o trabalho mais digno, o mais honroso e lucrativo encontrado numa favela, embora represente um risco de morte eminente. Reconheça-se que para adolescentes normais, por exemplo, rebelar-se contra as incongruências do sistema é uma reação natural, atávica.

Se as incongruências da vida destes meninos são estas, com pânico dos tiros a esmo dados pela polícia, sendo ofendidos, oprimidos por grosserias e ofensas gratuitas, armas na cabeça, tapas na cara, revistas vexatórias, tendo que optar entre trabalhar como mototaxistas ou vendedores de balas nos pontos de ônibus…porque não virar bandido?

Nenhuma regra moral os impede. A única barreira para os que não se rendem à vida bandida é o medo da morte.

Já procuraram pensar porque estes bandidos estão armados até os dentes? Estão assim para proteger a mercadoria que estão acondicionadas em paióis nas favelas. Sim: As favelas servem de entreposto de drogas. Precisam, portanto de seguranças armados para defender a mercadoria dos rivais e da polícia (que também trafica). A violência destes espaços de periferia está relacionada, diretamente a esta questão comercial e logística imperativa. Não fosse a droga uma mercadoria valiosíssima, cobiçada por concorrentes, não haveria sangrentas disputas armadas.

Afinal, o capital gerado pela droga (além daquele gerado pelo pequeno contrabando de quinquilharias) é o que alimenta, o que faz girar a economia de uma favela. Não fosse a droga, de que viveria grande parte dos favelados? Como escravos, certo?

Ainda no aspecto logístico, já pensaram porque as drogas são acondicionadas em depósitos e paióis de favelas próximas ás áreas nobres da cidade? Lógico que é porque é nestas áreas que reside a grande massa dos consumidores. Este aspecto comercial, mais do que sabido por todos, é crucial para a compreensão do nosso problema.

A existência de consumidores de classe média (por suposto, gente branca) com poder aquisitivo para consumir produto tão caro como a cocaína, por exemplo, é que determina a existência de depósitos do produto em favelas próximas das zonas sul e norte, e de gangs armadas, como dissemos, com a missão de proteger a mercadoria. Não existindo consumidores, não existiria a mercadoria e sem ela, consequentemente não existiriam as gangs defensoras. O problema, portanto, não existiria.

Simples assim.

Não sei se vocês sabem, mas não foi José Mariano Beltrame quem inventou as UPPs. Além de serem uma tática de cerco militar de cidadelas desde o tempo dos romanos, elas, as UPPs nasceram da experiência policial-militar do Exército brasileiro com os “capacetes azuis” servindo a ONU no Haiti, incumbidos da contenção de gangs de bandidos e guerrilheiros em favelas de Port Au Prince, como a chamada Citè Soleil.

O Minustah, nome deste pequeno exército invasor brasileiro, nasceu da intenção vaidosa de Lula da Silva de inserir o Brasil no conselho de segurança da ONU e com esta plataforma virar Secretário Geral da instituição.

A experiência das UPPs foi, posteriormente testada no Morro da Providência, Rio de Janeiro, num plano urdido pelo Bispo Crivela, candidato ao governo do Rio, mancomunado com seu apoiador e entusiasta, o mesmo Lula da Silva. O Exército patrulhando uma obra clientelista numa favela, após o Exército, vergonhosamente, ser induzido pelo governo a firmar um acordo com os traficantes: Nisto consistiu o plano de Lula-Crivela chamado de Projeto “Cimento Social”.

O teste, como um prenúncio do fracasso de suas filhotas, as UPPs, culminou com o assassinato de três jovens negros inocentes, entregues (dizem que vendidos) por soldados do Exército à traficantes de uma favela rival, como castigo por, supostamente terem desacatado os militares, na saída de um baile funk. Os jovens foram trucidados e tiveram os corpos desovados num lixão em Caxias.

Lula esteve no Rio para abafar o escândalo e foi xingado numa pequena manifestação de moradores do Morro da Providência, em frente a sede do Comando Militar Leste, ao lado da Central do Brasil. Deu no jornal. Ninguém viu. Os que viram, esqueceram.

É esta a verdadeira gênese das UPPs. Todos os seus equívocos já apareciam nesta sua gênese, até a mão sem um dedo de Lula da Silva estava lá, paradigmática e suja.

Não é apenas uma macabra coincidência que as dezenas de mortes, quase diárias ocorridas em favelas “pacificadas” por UPPs, sejam de crianças e adolescentes, a maioria inocentes (além de donas de casa indefesas). Trata-se, todos sabemos – e até a Anistia Internacional já denunciou – de uma verdadeira política de genocídio de jovens negros.

O segundo problema – este mais grave ainda – é que as UPPs, ainda assim, nunca visaram resolver, nem mesmo de longe a parte logística ou militar do problema. As unidades de polícia “pacificadora” foram criadas apenas para mudar o problema de lugar. É aí que reside a sua maior estupidez. Pretenderam atacar apenas a superfície do problema (a existência de bandidos armados) sem mover uma palha nos outros aspectos do mercado da droga, razão de ser evidente das armas e os bandidos estarem ali.

Olhando a questão ainda pelo ponto de vista estritamente militar, óbvio que as forças “inimigas” desalojadas do território iriam, em certo prazo se reagrupar, se reequipar e atacar para retomar suas posições antigas. Era só uma questão de tempo. Consideremos de novo que estas “forças inimigas” eram naturais, oriundas dos territórios de onde foram desalojadas e, na verdade as UPPs é que desempenham nessas favelas o papel de forças invasoras.

Para simplificar: As UPPs pretenderam apenas expulsar os bandidos, crias das favelas, sem desmontar o esquema de distribuição das drogas, para talvez assumir elas mesmas (a Polícia Militar) o controle deste mercado no Rio. Seu controle militar das comunidades e favelas transformadas em cidadelas fechadas nunca passou muito disso. Qualquer favelado sabe que muitos dos traficantes continuam lá, desarmados agora, traficando sob as ordens comissionadas, “arregadas”, de um comandante de UPP que, por sua vez obedece a um grande chefão de tudo, inatingível.

Recentemente foram desmascarados inúmeros comandantes de batalhões e UPPs, envolvidos com o tráfico de drogas, venda de proteção, contrabando de armas, etc.

É por isto que o mercado das drogas no Rio de Janeiro não sofreu – reparem bem – um abalo sequer com as UPPs. Quase nenhuma prisão de traficantes ocorreu, quase nenhuma grande apreensão de drogas (senão apreensões simuladas, como propaganda), nenhuma interrupção do fluxo da mercadoria das fábricas distantes para os depósitos nas favelas daqui.

Portanto, é necessário acordar logo desta ilusão ingênua de que as UPPs surgiram para resolver um problema de segurança pública da cidade. Ela são isto sim, mas apenas para uma pequena parte da cidade, uma parte urbanizada, onde moram os ricos, um oásis cercado de favelas por todos os lados.

O fracasso desta suposta solução para o enorme problema da violência urbana no Rio era previsível, como era previsível também que, em certo prazo, sendo uma tática militar por excelência, a medida traria o risco potencial de tornar a cidade muito mais violenta, espalhando, pulverizando um problema que antes estava circunscrito apenas ao âmbito das favelas.

Logo, para as UPPs nenhuma solução à vista senão andar algumas casas para trás, acabando com as ditas, mesmo sem ter o que colocar no lugar. Elas, as UPPs não podem, por razões políticas insuperáveis, simplesmente ser descontinuadas. Vão ter que cair de maduras então, cercadas e incendiadas pela população revoltada, auxiliada pelos bandidos recalcitrantes, no momento homiziados em morros e favelas da zona oeste.

A Polícia Militar pode ser escorraçada das favelas, como foram os mariners dos EUA no Vietnam, com os rabos entre as pernas, os soldados fugindo pendurados em helicópteros, aos magotes, podem crer.

Os bandidos voltarão. Sim, claro que voltarão. Na verdade já até voltaram. O mercado da droga, razão de ser aparente do problema vai ser atacado? Não, pois, o capital da droga já está, profundamente imiscuido na economia capitalista da cidade. Não pode mais ser desprezado, deslocado.

O problema social, a exclusão social, o racismo, causas seminais de todo o problema serão resolvidos com políticas públicas urgentes? Não, pois a desigualdade e o racismo são pilares fundamentais de nossa sociedade, deste sistema pelo qual somos regidos e o custo de uma política (as UPPs) inviabilza todas as outras (as sociais).

Só mesmo uma revolução para resolver este impasse absoluto e terrível, mas…revoluções hoje em dia são factíveis? (Marx ri, do túmulo)…Claro que não!

Então? Agora é meio tarde, não é não? Por enquanto, o único conselho que o Titio pode dar é:

_”Vocês que são brancos…que se entendam.”

Spirito Santo
Abril 2015

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~ por Spirito Santo em 05/04/2015.

3 Respostas to “UPPs: Aguardando o nosso Vietnam”

  1. Bingo!

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  2. Legalize já! opa! esta é uma afirmação subversiva.. porque como você bem disse “.. o capital da droga já está, profundamente imiscuido na economia capitalista da cidade…” mas é claro que tem que ser ilegal pra continuar sendo um capital.

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  3. Fantástica análise!

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