Viva Vissungo! É nóis!…Apesar deles.


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Saudades dos “Pacotes Culturais”

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2015. Reinaldo Amancio, Lula Espírito Santo (encoberto) e Spírito Santo. Vissungo em turnê.

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1978. Show histórico na favela do Caramujo, Niterói: Lula Espírito Santo (perfil), Carlos Codó in memorian e Spírito Santo (de costas)

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1995. Spirito Santo, Reinaldo Amancio (o baixinho), Jahir Soares (o careca) e Lula Espírito Santo. Até hoje aí. E aqui.

Na quinta feira, dia 02 de Julho, com fecho de ouro no sábado, 04/7 (na Arena Cultural Dicró, na Penha, ás 20hs) o Vissungo encerrou a sua heróica turnê por lonas e arenas culturais da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Foi uma das mais felizes turnês de nossa longeva carreira, que já vai passando dos incríveis 40 anos.

Talvez ninguém se lembre, mas uma das bandeiras mais caras á ideologia do Vissungo, depois da pesquisa de campo, aquele se embrenhar nas maravilhas musicais do black Brasil profundo, a música oculta da Diáspora africana que cunhou a nossa estética negro-pop, depois desse mergulho artístico tão bem sucedido, assumimos como missão tocar, sempre que possível, para gente das periferias, ir de verdade “onde o povo estava”.

Na crônica de nossa carreira, nunca esqueceremos a turnê denominada “Pacote Cultural”, um programa idealizado pela Secretaria Estadual de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, comandado á época (final da década de 1970) pelo teatrólogo Paulo Afonso Grisolli. O convite partiu da querida musicóloga Cecília Conde, coordenadora de música do programa, entusiasta de nosso trabalho desde o início.

A missão desses “Pacotes Culturais”, entusiasticamente aceita por nós, consistia em realizar shows nos mais recônditos cantões do interior do estado com pouco ou nenhum recurso técnico, sem som, sem palco convencional, sem nada, bem no jeito do que o pessoal de teatro na época chamava de “mambembar”.

Viajávamos num fusca entulhado por nós músicos mais os instrumentos (empilhados num bagageiro), numa imagem indiana. Tocávamos em coretos, salas de aulas, púlpitos ou altares de igrejas, quadras de esporte, onde desse.

A filosofia dessas ações oficiais de dinamização da cultura no nosso estado, que vinham de encontro á nossa ideologia de antiga banda suburbana, era um imperativo nas políticas de fomento cultural da época. A população das nossas periferias e do interior, não tinham acesso a, rigorosamente nenhuma atividade artística que não fosse o ainda incipiente acesso à televisão. Não existiam grandes shows promovidos por prefeituras, não haviam casas de espetáculos, shows em clubes, nada.

Este episódio dos primórdios da descentralização das cenas artísticas, musicais do Brasil foi recordado por nós, forçosamente agora, no ensejo desta turnê no âmbito do projeto da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, ao qual nos habilitamos via edital (Fomento Cultural-Rio 450 anos).

Conhecemos então, muito entusiasmados, uma enorme rede de equipamentos culturais (lonas e arenas) espalhados pela extensa periferia da cidade, notadamente a grande zona oeste. Era tudo que sonhávamos ter naqueles velhos tempos. Este sonho se concretizava ali, na agradável missão de tocar em 10 desses equipamentos com som, luz, divulgação, tudo do bom e do melhor.

Como senões apenas as incongruências desta nossa época de paradoxos.

Constatamos, contudo que hoje, o Rio de Janeiro – e o Brasil, como um todo – tem muitos problemas ainda -problemas novos – no que diz respeito à difusão e fomento cultural. O principal deles talvez seja a mercantilização exacerbada da cena artística, e a centralização das ofertas no campo restrito – e imbecilizante – da masssificação.

Assim, a cena musical, por exemplo passou a ser condicionada, radicalmente aos interesses comerciais e às ofertas ditadas pelo mainstream, sem nenhum espaço para a diversidade artística, com prejuízos culturais incalculáveis.

A contradição entre a exuberância da oferta (a cena musical da cidade do Rio, por exemplo é, sempre foi, potencialmente muito rica) e o gosto massificado do público gera o paradoxo desta rede formidável de equipamentos operar quase sem público, como ocorreu em nossa turnê e ocorre, segundo nos informa o pessoal das lonas e arenas, de forma recorrente.

Elefantes brancos?

O que bomba nas lonas e arenas culturais? Um certo Funk, o Pagode Chic, o Sertanejo Chic e qualquer som de segunda mão, copiado do que estiver bombado na Mídia ou que tenha um artista do segundo time da TV Globo como estrela, sub produtos enfim do que está sendo ofertado pelo mainstream mais rasteiro e oportunista que já tivemos notícia por aqui.

A questão não é ignorada. Ela tem gerado muitas polêmicas, a maioria delas falsas, como a que cria uma suposta oposição entre o “puro e sincero gosto popular” e o “gosto burguês elitista”, uma proposta de debate oportunista porque, é fácil perceber que não se trata de uma questão de gosto musical.

Trata-se da redução drástica da oferta, restringida pela barreira midiática que impõe um “gosto musical” compulsório, um monopólio do raso, do simplismo artístico, do “seja lá o que for’, desde que dê lucro.

(A forjada comoção midiática pela morte de Cristiano Araújo que nos diga)

E não é só isso. Há também uma série de incongruências das políticas oficiais de fomento, erráticas e, de certo modo indiferentes ao problema, deliberadamente omissas, pois, qualquer política pública no campo da cultura – quem não sabe? -precisa envolver alguma sinergia entre o estado, o artista e as platéias. Não adianta muito, como constatamos em nosso caso, montar uma rede de equipamentos ideais e entregá-la ao deus dará do mercado, ao pega pra capar do mainstream.

Isto sem falar (e já falando) na enorme vulnerabilidade das políticas baseadas na renúncia fiscal (lei Rouanet) à corrupção nossa de cada dia, com editais corrompidos pelo superfaturamento dos contratos, ensejando um mercado de propinas que, agravando o problema do nivelamento artístico por baixo, já imposto pelo mainstream, impõe a lógica da predileção por projetos e artistas – não importa quais – que possam ensejar cachês mais elevados, passíveis de serem artificialmente engordados nas planilhas, para gerar sobras lucrativas para a rede de corrupção, infelizmente implantada, como parasitas em dez entre dez secretarias de cultura do país.

Essas políticas de desperdício cultural são preocupantes, absurdas, um entrave à ampla circulação da diversidade musical, artística enfim. Precisam ser demolidas

Há neste momento na alma do Vissungo, portanto uma felicidade agradecida. Cumprimos com muito empenho uma missão-delícia, nossa música black-exuberante rolou por aí em 10 ótimos palcos, cachês decentes, som e luz, alegres camarins…

…Mas muito nos constrangeu as platéias quase sempre vazias.

Contaminada pela estupidez do vale tudo corrupto que se apossou do país, vivemos o paradoxo do artista ter o palco, a cena, mas não saber mais onde o público está.

Alguém aí sabe onde o povo, realmente está?

Spírito Santo
Junho 2015

“A Patrulha”. Meu sangue escrito na neve da segunda guerra mundial


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Quem tem esta glória familiar que à mantenha viva, para sempre.

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Imaginem! Meu pai herói, teve um combate do qual fez parte no norte da Itália em 1945 registrado num jornal.

Fico aqui, chapado de emoção imaginando o quanto de orgulho meus irmãos e filhos sentirão de seu pai e avô, agora herói mesmo, sacramentado e juramentado.

A notícia eletrizante saiu no jornal (ou periódico) “O Cruzeiro do Sul” do dia 1° de março de 1945, pag 4. A crônica, assinada por aquele que é considerado o maior correspondente de guerra brasileiro, Joel Silveira se chamava “A Patrulha”. Quem garimpa e encontra é, de novo a dileta amiga Bete Scg que me pergunta:

“_.. Vê se pode ser ele”

Sim! Não só pode ser ele.p, como É ELE! Que coisa impressionante!

(Clique na imagem para ler a matéria)

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Seu nome era muito incomum para ser um homônimo. Seria muita coincidência haver um homônimo no mesmo exército, na mesma guerra. Quando convocado estava morando aqui no Rio de Janeiro há muito tempo. Fugiu de casa, em Diamantina, MG com cerca de 14 anos, nunca soubemos, exatamente porque e, sabe-se lá como, fixou-se no Rio de Janeiro desde então.

José Cyrilo chegou no Rio de Janeiro (na época Distrito Federal) sozinho passando, segundo contou para minha mãe, por São Paulo ali por volta de 1932. No ensejo de sua convocação para a guerra na Europa, já estava aqui, portanto por cerca de 13 anos e deve ter sido identificado no quartel, por alguma razão, como natural daqui do então Distrito Federal.

O “Ceará” ao qual a crônica se refere, pode ser o amigo mais chegado dele, morto numa barraca de campanha num inesperado bombardeio alemão. Ele contou este incidente para minha mãe Geny, se referindo a um nordestino (tinha na memória que minha mãe falara num “Paraíba“, mas pode muito bem ter sido um “Ceará”).

Ele, Cyrilo, saiu da barraca com uma caneca de café recém feito, justo na hora em que o morteiro caiu. Por segundos não morreu neste incidente e eu, seu filho não teria existido para contar sua formidável história.

Talvez tenha sido um dos muitos gaúchos da bem sucedida patrulha, aquele amigo presenteou Cyrilo com uma bela cuia de chimarrão, com borda e bomba de prata, que guardo carinhosamente comigo até hoje

(…Eu sei. Preciso limpar a prata, mas é que gosto do óxido do tempo)

Num doc. de 1967, já publicado aqui, minha mãe solicita ao exército a correção do nome de José Cyrilo no certificado de sua medalha de campanha, grafado sempre equivocadamente sem o “y”.

Acordei há pouco e esta foi a primeira notícia do dia. Estou aqui emocionado, tomando o meu cafézinho matinal. Um bomba boa acabou de explodir aqui no meu cafofo.

José Cyrilo do Espírito Santo, meu pai herói

http://www.defesanet.com.br/ecos/noticia/2786/15-de-setembro-de-1944—–A-cobra-esta-Fumando—-Brasileiros-entram-em-combate-na-Italia/

(O jornal “Cruzeiro do Sul” onde a crônica foi publicada tem como fundador e principal colunista, a interessante figura de Félix de Araújo, paraibano, pracinha voluntário (veja a foto) correspondente de guerra, poeta que se tornou comunista e político muito bem sucedido, assassinado em 1953 com um tiro pelas costas, desferido por um desafeto político.

Existe uma controvérsia sobre a fundação do jornal, atribuída, oficialmente à FEB, segundo o link que obtive, em matéria onde o nome de Félix de Araújo, sequer é citado.

Agradeço comovido a este outro herói de guerra que foi Félix de Araújo, ou quem quer que seja o autor da crônica, por ter registrado para a eternidade o heroísmo de meu pai.

Aguenta coração!

Spírito Santo

Junho 2015

Auto do Manoel Kongo/ AMK. Mané Kongo: Tição botô fogo na mata


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Arcozelo 30

Equipe deflagra projeto de montagem do Auto do Manoel Kongo no Vale do Café

Velho Caxambuzeiro:

_”O ambiente tá pesado por aqui nesta fazenda da Freguesia. O capitão-mor, o dono…mandou feitor fazê guarda na frente da senzala dia e noite…Inda mês passado mataram um feitor por aqui…As coisa são falada a boca pequena que é pra guarda nacional não saber…O capitão-mor tem medo que o Werneck, chefe da Guarda Nacioná, de Valença, mancomunado com os Avellar, o Correa e Castro, o Leite e todos os seus inimigos, arranjem um jeito de ferrar ele. Vão querer botá tropa nas terras dele. Vão ter um prato feito para arruinar Manoel Francisco Xavier…”

(Velho segue)

_”…E o que ele fez? Botou polícia interna, falou com os capanga e com os feitor que daqui não sai negro nenhum, nem vivo nem morto, pra fazê quilombo…O Werneck da guarda nacioná já tá inteirado. Investigou que lá pros lado do Pilar, a polícia prendeu um mascate sabe com o que? Uns tres barril de pórvora encomendado pelos preto daqui…Num se sabe com que dinhêro, nem com que intenção. Pórvora, sô! Só pode ser pra fazê furdunço!..Botar nas espingarda e matá branco…Virge Nossa Senhora!..Mas…tá bom. A gente sabe mais que eles, né? Só que vamos ficar como diz João Angola…de boca lacrada!”

                                   (Auto do Manoel Kongo de Spirito Santo, fragmento)

Foi muito mais do que eletrizante conhecer a antiga Fazenda da Freguesia, atual Aldeia Arcozelo, em Paty de Alferes, núcleo do qual se originou toda a ocupação e o fausto do chamado Vale do Café (Vale do rio Paraíba do Sul) no século 19.

Por uma destas coincidências mágicas da vida, destino escrito sei lá, ali por volta de 1966, aí com os meus 18, 19 anos e já mexendo com estas coisas de teatro e por conta de um prêmio que o meu grupo suburbano (o MOCA) recebeu, havia visitado a Aldeia Arcozelo.

Não fazia a menor ideia até então de que aquele lugar havia sido a maior fazenda de escravos da primeira metade do século 19 na qual foi deflagrada uma das maiores insurreições de escravos da Diáspora americana.

Cheguei a conhecer Pascoal Carlos Magno o dono e principal incentivador daquilo que era uma formidável iniciativa de fomento do teatro brasileiro. Tenho uma vaga lembrança da exuberância e do bom estado de conservação do complexo, tanto que me deu uma certa tristeza revoltada, ver a degradação do local, principalmente a velha casa grande, com partes desabadas e ameaçadas de ruir.

Arcozelo 7Na entrada do complexo vimos uma grande placa da Funarte, atual administradora da Aldeia de Arcozelo, mas no interior nenhum sinal de obras de manutenção ou restauração do que se trata de um dos complexos arquitetônicos do século 19 (as construções iniciais remontam o século 18) mais importantes das Américas.

Os funcionários e contatos locais nos informaram que um presidente e outras autoridades da Funarte já estiveram por lá em solenidades e vistosas visitas, mas nada de concreto ainda ocorreu. Fala-se em verbas emendas parlamentares e recursos de um novo PAC, mas nada realmente conclusivo.

Não compreendi, enfim como está sendo encaminhada a questão da salvação deste patrimônio inestimável, seriamente ameaçado, por parte do Iphan, do governo brasileiro enfim, já que a Funarte, embora sendo uma herdeira natural do sonho teatral de Pascoal Carlos Magno – um dos aspectos relevantes do valor do espaço como bem cultural imaterial – não tem, absolutamente nenhuma relação com a preservação de patrimônio arquitetônico e histórico, da cultural material deste importante lugar.

Tampouco jamais poderia imaginar que tantos anos depois me veria envolvido com a pesquisa e a criação de um espetáculo teatral que narra, em minúcias historicamente bem realistas os incidentes principais da revolta. Afinal foi ali que estes tumultuosos incidentes ocorreram. Exatamente ali os personagens todos do Auto do Manoel Kongo viveram conspiraram, se rebelaram e morreram no calor da refrega numa mata próxima ou mais tarde, cansados de cativeiro, moídos de velhos ali pela fazenda mesmo, onde muitos estão enterrados.

Dá bem para vocês entenderem a emoção indescritível que senti caminhando pelos espaços, pátios, alpendres e cômodos onde os personagens da história que escrevi, efetivamente existiram.

“…O tenente-coronel Gil Francisco Xavier herdou a fazenda Freguesia com a morte de sua mãe adotiva, Francisca Elisa Xavier, primeira baronesa da Soledade, viúva de Manuel Francisco Xavier. Endividado pelo jogo, Gil Francisco Xavier cedeu ou vendou a fazenda para o médico português Joaquim Teixeira de Castro que mudou o seu nome para fazenda Arcozelo, que era onde ficava a quinta de sua família em Portugal (freguesia de São Miguel de Arcozelo, concelho de Vila Nova de Gaia). Joaquim Teixeira de Castro recebeu do rei D. Luís I de Portugal, em 1874, o título de visconde do Arcozelo.

“…A partir da década de 1930, o excelente clima da região passou a ser conhecido nacionalmente com a propaganda feita grande médico infectologista Miguel da Silva Pereira. Isto atraiu muitos turistas de veraneio procedentes da cidade do Rio de Janeiro e, assim, a fazenda foi transformada em hospedaria em 1945.

Finalmente, a fazenda foi loteada e a parte com as edificações tornou-se propriedade de João Pinheiro Filho, que, em 1958, a doou ao embaixador Pascoal Carlos Magno com o propósito de ali criar uma escola de teatro e local de retiro de artistas.

O centro cultural Aldeia de Arcozelo foi inaugurado em 1965.”

                           (Wikipedia)

Arcozelo 15

A impactante emoção influenciou então fortemente o plano da montagem, já que o complexo arquitetônico tipicamente do século 19, de maneira incrível se presta maravilhosamente à encenação do Auto, contendo em seu contexto todos os cenários constantes da itinerância do formato que eu, o autor estou propondo, com cenas ocorrendo num curto trajeto percorrido pela plateia.

O fato de serem cenários absolutamente reais, torna a ideia de montar o espetáculo na antiga fazenda da Freguesia, absolutamente irrecorrível.

Assim, depois de uma animada e bem sucedida rodada de encontros com secretários de cultura e pessoas representativas da região saímos de lá decididos a promover uma série de espetáculos em, pelo menos duas ou três cidades do Vale do Café.

Uma conspiração virtuosa foi deflagrada e os quilombolas buscam as armas para subir e ocupar a Serra.

O Quilombo de Manoel Kongo, vive!

“…Mané Kongo botô Paty pra queimá…
….Matou, incendiou, fez tudo pra fugir
do cativêro de Paty…”

_Tição botô

(coro) Fogo na mata

_Vagalume alumiou

(Coro)Toda a mata…”

(Jongo do Mané Kongo, música tema do Auto)

Spirito Santo
Fevereiro 2014

Arcozelo 39E a equipe é:

Spirito Santo (autor)

José Luiz Menezes Júnior (Secretario de Cultura de Vassouras)

Samba, Futebol e Congada mineira: Tudo a ver!


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Zuzuca, o esperto rei negro flanando por aí

Meu amigo Julio Barroso, aqui no Facebook, todo animado, exalta:

(Comece abrindo este link):

(Agora siga a onda):

Julio Barroso:

“_E a torcida do Barça canta; Olê lê, olá lá, pega no ganzê, pega no ganzá! Esse samba virou patrimônio universal da humanidade…Valeu Salgueiro!”

Titio iconoclasta consciente, questionando, veemente:

“…Valeu, Salgueiro, o cacete! Tá no livro do Titio: Este refrão foi plagiado de um ponto de congada da cidade de Oliveira, MG. O samba inteiro, aliás. Zuzuca só mudou a letra do estribilho. Rs rs rs rs…Titio tem a prova.

        Valeu, isto sim, congadeiros de Oliveira!”

O samba “do” Zuzuca não é samba. É um ponto de Catupé*!

Está lá, no meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“, primeira edição, na página 225:

“…Voltando à ligação entre o catupé e a Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, tivemos certa feita, pesquisando congada na região (Minas Gerais) , a grande surpresa de nos depararmos, numa noite em Oliveira — na década de 1970 —, com um desses ternos de catupé (*dança típica do ciclo das congadas) cantando algo que, segundo informações dos mais velhos do lugar, era “um dos pontos mais populares e antigos da festa, remontando talvez ao tempo da escravidão”.

O intrigante era que o refrão do ponto nos era muito familiar, pois, tinha exatamente a mesma letra e melodia do conhecidíssimo Samba da Acadêmidos do Salgueiro — “Festa para um Rei Negro”, “de” Zuzuca — no carnaval de 1971: “Oi lelê/ Oi lalá/ Pega no ganzê/ Pega no ganzá”.

Versando sobre a caminhada de um terno de congo rumo à coroação de Nossa Senhora do Rosário — um tema muito comum nas congadas em geral por ser a santa reconhecida pelos congadeiros como solidária com o sofrimento dos escravos — o resto da letra do ponto de catupé era inteiramente diferente dos versos de Zuzuca; a melodia, no entanto, era rigorosamente igual à do Samba.

Oh, Senhora do Rosário
que vem nos abençoar…

…………

…que beleza!
inté manhã
que noutro dia eu vou voltar.

Oi lelê
Oi lalá
Pega no ganzê
Pega no ganzá,

A despeito da possibilidade de termos aí uma evidência de plágio de um tema folclórico, coisa infelizmente muito comum em nossa música popular, o fato tinha uma explicação marota, proposta por um velho Mestre de Catupé da cidade com um sorrisinho “mineiro” nos canto dos lábios:

Zuzuca, o pitoresco salgueirense autor do samba, antes de ser um mero plagiador seria na verdade um conterrâneo, mineiro de Oliveira como todos os outros catupezeiros locais; seria, isso sim, um grande apaixonado pela cultura de sua terra natal, da qual havia decidido se tornar o difusor.

Como o incidente foi presenciado por este autor in loco em época ligeiramente posterior ao sucesso do Samba atribuído a Zuzuca, alguém poderia considerar que o ponto de catupé é que foi, ele sim, plagiado do célebre “Pega no ganzê”.

A possibilidade, no entanto, convenhamos: é bastante remota. A paródia não é, de modo algum, prática usual em manifestações folclóricas, pelo menos no Brasil.”

(Spirito Santo in Do Samba ao Funk do Jorjão“)

————

Na matéria deste link abaixo, há uma explicação algo equivocada da história:

“…A música foi uma das responsáveis pelo título do Salgueiro naquele ano. Ganzá é o nome de um instrumento de percussão parecido com o chocalho e a palavra ganzê foi inventada pelo compositor para rimar. Após o sucesso no Carnaval, a letra foi adaptada de acordo com o interesse de cada torcida, mas a melodia não foi modificada”

Mero chute do articulista, mal informado: Chama-se hoje, por aí, chocalho de ganzá. No interior de Minas Gerais contudo, “Ganzá” é como o pessoal desta região de Oliveira até Montes Claros, chama o pequeno reco-reco usado na dança do catupé. O nome vem, seguramente de “DiKanza” um tradicional e muito popular reco-reco angolano.

Com certeza é este o “Ganzá” da música apropriada pelo esperto Zuzuca.

Na mesma matéria Zuzuca dá a sua marota versão para a estupenda internacionalização do “seu” samba::

“…Tudo começou no Maracanã. Daqui, saiu espalhando para o mundo afora. A torcida brasileira lá na Copa do Mundo, América do Sul toda, eu gravei samba no mundo inteiro, mais de 40 países.”

(Esqueceu de agradecer à Nsa. Senhora do Rosário, a quem a música foi devotada talvez ainda no tempo do cativeiro. Zuzuca ganhou muita grana com este samba.

Titio sabe. Titio diz.

———–

Aviso final aos incrédulos: Titio guarda consigo até hoje, mais de 40 anos depois, a fita K7 gravada in loco, numa rua de Oliveira, MG, coalhada de ternos de congada, um deles cantando o “Pega no Ganzê” original.

Ahá!

Spirito Santo

Junho 2015

As chaves da alma abrem, escancaram mais uma porta do passado…e já nem sangra.


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Ruínas dos fundos da velha cadeia do presídio da Ilha Grande, Rio de Janeiro

Titio na hemeroteca da BN: Quase um anti superstar

(E não vivo dizendo? Titio tem história.)

Emocionado aqui. Bastante, coração apertado e tudo. A amiga pesquisadora Bete Scg me socorre e encontra na hemeroteca da BN dados jornalísticos sobre a orgulhosa prisão do Titio como subversivo em 1969.

Gratidão eterna.

habeas Data 2

A casa na verdade – o policiazinha inapta – na verdade era outra, que não consta no inquérito e era um aparelho da Var Palmares. Nenhum de nós três morava lá.

Havia muito material no aparelho, inclusive, que eu tenha visto, pelo menos um velho fuzil e o tal mimeógrafo. Cruzamos uma vez com pessoas estranhas lá, deviam ser figurões da organização. Me lembro que eram muito brancos e se vestiam como europeus ou gente rica da zona sul, algo assim muito ” bandeira” num subúrbio, para quem faz coisas perigosamente clandestinas.

Na minha casa mesmo só havia “documentos” (textos de estudo marxista ou manuais de luta armada) escondidos no baú de um velho sofá cama e meus livros. Cercaram o quarteirão. Levaram e destruiram tudo. Como não conseguiram arrancar nada de nós no Exército, onde foi o “interrogatório” (e nem foi assim tão  insuportável a tortura), nada disso, da Var Palmares, pode constar nos inquéritos…uffa! (num dos docs. que li do inquérito, diz que esqueceram de separar o que apreenderam de outras apreensões e contamiram, melecaram todas as provas. )

(Cliquem nas imagens para ampliá-las)

Abaixo, Titio Spírito Santo tal como estava em Agosto de 1968, em foto para a revista do Festival Estudantil da TV Globo, apenas quatro meses antes da prisão. Como se vê, pareço mesmo um perigosíssimo terrorista subversivo.

Habeas Data 3

Habeas data corrigido 1

O curioso é que a polícia ignorou, solenemente esta decisão judicial noticiada pelo jornal Tribuna da Imprensa 5/6 de julho de 1969 e não me libertaram de jeito nenhum.

Me lembro que estava na Ilha Grande nesta época, transferido para lá na madrugada do dia 12 de junho de 1969 e nem cheguei a ficar sabendo que a II Auditoria da Marinha, tão “boazinha”, havia acatado este recurso de forma assim tão meiga, como se houvesse lei na ditadura.

Habeas data corrigido 2

Como se vê, a minha prisão preventiva foi prorrogada por mais seis meses e segui preso por quase dois anos, sem nenhuma acusação formal apresentada.

Era uma justiça de fancaria aquela. As vezes podiam absolver presos que já estavam mortos. A cada recurso legal concedido, havia sempre um novo pedido de prisão preventiva interposto e decretado. Além de torpes eram ineptos em sua opressão desmedida.

O fato é que nem me lembro direito quando saí de lá, da Ilha Grande.

Não achei nenhum doc. de minha saída de lá, nenhum memorando, nada. Só sei que não foi dessa vez que saí. É como se, oficialmente eu ainda estivesse lá, fantasma entre as ruínas do presídio, hoje demolido.

Sei apenas que voltei para a prisão da Dops e lá fiquei e estava ainda lá em setembro de 1969, quando do rumoroso sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrik. Me lembro bem até de um dos libertados que estava comigo nesta prisão da DOPS: Ricardo Vilas, o de mais baixa estatura entre os libertados, algemados em frente ao avião Hércules que partiria para o México (veja na foto)

Habeas Data 9

Ricardo é músico. Integrava o grupo vocal Momento Quatro (veja no link com Ricardo ao lado de Edu Lobo, na foto) que apresentara com Edu Lobo a música Ponteio, no III Festival Música Brasileira de 1967. Mostrei a ele uma música que havia composto pouco antes da prisão, se não engano, uma parceria interrompida com o Carlos Dafé. 

(Por acaso, depois de tanto tempo, me encontrei dia desses, não tem nem um mês, com o Ricardo Vilas na UFRJ – ele, claro nem se lembrava mais de mim – por força de um ensejo para-acadêmico que talvez nos reúna e do tão pequenininho que este nosso mundo é.)

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O MOITA citado na matéria ao lado, na verdade era um grupo de teatro do Méier, recém criado por influencia do MOCA (Movimento Cultural e Artístico) este sim a tal “célula comunista” segundo a polícia, de onde saímos todos os presos, que, por acaso, faziam teatro mesmo. Muito Brecht. Eu, por exemplo dirigia a música do grupo.

Éramos, portanto, subversivos bem novatos. Havíamos, os três presos naquele janeiro, feito apenas dois treinamentos com arma de fogo, no alto da Serra de Bangu (um deles com uma velha garrucha enferrujada)

O fato é que nunca soube, exatamente quanto tempo fiquei preso. Presumo que tenha sido entre um e quase dois anos. O único doc. oficial que consegui do fim desta saga foi o memorando desta mesma II Auditoria da Marinha comunicando à DOPS o arquivamento do meu processo em 1970 (no print)

Habeas Data 6Não tinha a menor ideia sobre a existência dessas matérias de jornal sobre o trâmites do meu processo. Me senti importante guerrilheiro, juro. Estas matérias de 1970 provam, cabalmente que não me soltaram mesmo em julho coisíssima alguma. De abril de 1970, provavelmente (me lembro vagamente) prorrogaram a prisão preventiva por mais seis meses.

Devo ter sido solto, ali pelo final de 1970, cumprindo uma cadeia, como sempre imaginei, cerca de 2 anos.

Vou enviar todos estes docs. recentes à Brasília onde corre um interminável processo no MJ/Comissão de Anistia, visando a reparação dos crimes da ditadura cometidos contra este plácido Titio.

Só me falta agora achar os prints das matérias imediatas à prisão, para o Titio ex terrorista ficar, completamente famosão.

Habeas Data 8——-

As matérias gentilmente encontradas pela amiga Bete Scg – nem sei como agradecer – são das seguintes datas e jornais:

Diário de Notícias 12 de Janeiro de 1969
Tribuna da Imprensa, 5/6 de Julho 1969,
Diário da Tarde, Curitiba, 1 de Abril de 1970,
Jornal do Brasil, Rj, 1 de Abril de 1970,
Tribuna da Imprensa, RJ – 1 de Abril de 1970,

Spírito Santo

Junho 2015