Samba, Futebol e Congada mineira: Tudo a ver!

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Zuzuca, o esperto rei negro flanando por aí

Meu amigo Julio Barroso, aqui no Facebook, todo animado, exalta:

(Comece abrindo este link):

(Agora siga a onda):

Julio Barroso:

“_E a torcida do Barça canta; Olê lê, olá lá, pega no ganzê, pega no ganzá! Esse samba virou patrimônio universal da humanidade…Valeu Salgueiro!”

Titio iconoclasta consciente, questionando, veemente:

“…Valeu, Salgueiro, o cacete! Tá no livro do Titio: Este refrão foi plagiado de um ponto de congada da cidade de Oliveira, MG. O samba inteiro, aliás. Zuzuca só mudou a letra do estribilho. Rs rs rs rs…Titio tem a prova.

        Valeu, isto sim, congadeiros de Oliveira!”

O samba “do” Zuzuca não é samba. É um ponto de Catupé*!

Está lá, no meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“, primeira edição, na página 225:

“…Voltando à ligação entre o catupé e a Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, tivemos certa feita, pesquisando congada na região (Minas Gerais) , a grande surpresa de nos depararmos, numa noite em Oliveira — na década de 1970 —, com um desses ternos de catupé (*dança típica do ciclo das congadas) cantando algo que, segundo informações dos mais velhos do lugar, era “um dos pontos mais populares e antigos da festa, remontando talvez ao tempo da escravidão”.

O intrigante era que o refrão do ponto nos era muito familiar, pois, tinha exatamente a mesma letra e melodia do conhecidíssimo Samba da Acadêmidos do Salgueiro — “Festa para um Rei Negro”, “de” Zuzuca — no carnaval de 1971: “Oi lelê/ Oi lalá/ Pega no ganzê/ Pega no ganzá”.

Versando sobre a caminhada de um terno de congo rumo à coroação de Nossa Senhora do Rosário — um tema muito comum nas congadas em geral por ser a santa reconhecida pelos congadeiros como solidária com o sofrimento dos escravos — o resto da letra do ponto de catupé era inteiramente diferente dos versos de Zuzuca; a melodia, no entanto, era rigorosamente igual à do Samba.

Oh, Senhora do Rosário
que vem nos abençoar…

…………

…que beleza!
inté manhã
que noutro dia eu vou voltar.

Oi lelê
Oi lalá
Pega no ganzê
Pega no ganzá,

A despeito da possibilidade de termos aí uma evidência de plágio de um tema folclórico, coisa infelizmente muito comum em nossa música popular, o fato tinha uma explicação marota, proposta por um velho Mestre de Catupé da cidade com um sorrisinho “mineiro” nos canto dos lábios:

Zuzuca, o pitoresco salgueirense autor do samba, antes de ser um mero plagiador seria na verdade um conterrâneo, mineiro de Oliveira como todos os outros catupezeiros locais; seria, isso sim, um grande apaixonado pela cultura de sua terra natal, da qual havia decidido se tornar o difusor.

Como o incidente foi presenciado por este autor in loco em época ligeiramente posterior ao sucesso do Samba atribuído a Zuzuca, alguém poderia considerar que o ponto de catupé é que foi, ele sim, plagiado do célebre “Pega no ganzê”.

A possibilidade, no entanto, convenhamos: é bastante remota. A paródia não é, de modo algum, prática usual em manifestações folclóricas, pelo menos no Brasil.”

(Spirito Santo in Do Samba ao Funk do Jorjão“)

————

Na matéria deste link abaixo, há uma explicação algo equivocada da história:

“…A música foi uma das responsáveis pelo título do Salgueiro naquele ano. Ganzá é o nome de um instrumento de percussão parecido com o chocalho e a palavra ganzê foi inventada pelo compositor para rimar. Após o sucesso no Carnaval, a letra foi adaptada de acordo com o interesse de cada torcida, mas a melodia não foi modificada”

Mero chute do articulista, mal informado: Chama-se hoje, por aí, chocalho de ganzá. No interior de Minas Gerais contudo, “Ganzá” é como o pessoal desta região de Oliveira até Montes Claros, chama o pequeno reco-reco usado na dança do catupé. O nome vem, seguramente de “DiKanza” um tradicional e muito popular reco-reco angolano.

Com certeza é este o “Ganzá” da música apropriada pelo esperto Zuzuca.

Na mesma matéria Zuzuca dá a sua marota versão para a estupenda internacionalização do “seu” samba::

“…Tudo começou no Maracanã. Daqui, saiu espalhando para o mundo afora. A torcida brasileira lá na Copa do Mundo, América do Sul toda, eu gravei samba no mundo inteiro, mais de 40 países.”

(Esqueceu de agradecer à Nsa. Senhora do Rosário, a quem a música foi devotada talvez ainda no tempo do cativeiro. Zuzuca ganhou muita grana com este samba.

Titio sabe. Titio diz.

———–

Aviso final aos incrédulos: Titio guarda consigo até hoje, mais de 40 anos depois, a fita K7 gravada in loco, numa rua de Oliveira, MG, coalhada de ternos de congada, um deles cantando o “Pega no Ganzê” original.

Ahá!

Spirito Santo

Junho 2015

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~ por Spirito Santo em 07/06/2015.

3 Respostas to “Samba, Futebol e Congada mineira: Tudo a ver!”

  1. Bom te ler!

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  2. JCRC,

    Que ótimo. Seja bem vindo ao blog do Titio.

    Vou ler o seu artigo e volto. Como você diz faz muita falta gente que conte o que foi a escravidão em seus detalhes menos aparentes. Seu blog me vai ser muito útil e orazeroso de ler.

    Estamos juntos!
    Grande abraço

    Curtido por 1 pessoa

  3. Meu caro,

    Primeira visita ao seu blogue. Gostei. Você escreve de uma forma muito própria sobre um tema muito interessante. Conhecendo relativamente bem o Brasil (por livros, televisão, cinema e 5 visitas ao país) sempre achei o tema da escravidão um pouco negligenciado no Brasil, sobretudo pelo papel que o Brasil jogou no período do comércio transatlântico e você é um daqueles “teimosos” que faz um esforço extra para abordar o tema, sobretudo, o contributo do negro na formação cultural do Brasil.

    Eu também animo um blogue (www.angonomics.com) que é muito focado em questões contemporâneas da economia e sociedade angolanas, mas sendo um amante da história, em particular do período do tráfico de escravos entre as costas atlânticas de África e Américas (pelo papel que teve Angola – incluo aqui o Reino do Kongo), no meu blogue escrevo também sobre história e há um artigo particular que escrevi que poderá ser do seu agrado:

    http://angonomics.com/2015/03/28/como-os-angolanos-inventaram-o-mundo/

    Um abraço.

    Curtir

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