Auto do Manoel Kongo/ AMK. Mané Kongo: Tição botô fogo na mata

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Arcozelo 30

Equipe deflagra projeto de montagem do Auto do Manoel Kongo no Vale do Café

Velho Caxambuzeiro:

_”O ambiente tá pesado por aqui nesta fazenda da Freguesia. O capitão-mor, o dono…mandou feitor fazê guarda na frente da senzala dia e noite…Inda mês passado mataram um feitor por aqui…As coisa são falada a boca pequena que é pra guarda nacional não saber…O capitão-mor tem medo que o Werneck, chefe da Guarda Nacioná, de Valença, mancomunado com os Avellar, o Correa e Castro, o Leite e todos os seus inimigos, arranjem um jeito de ferrar ele. Vão querer botá tropa nas terras dele. Vão ter um prato feito para arruinar Manoel Francisco Xavier…”

(Velho segue)

_”…E o que ele fez? Botou polícia interna, falou com os capanga e com os feitor que daqui não sai negro nenhum, nem vivo nem morto, pra fazê quilombo…O Werneck da guarda nacioná já tá inteirado. Investigou que lá pros lado do Pilar, a polícia prendeu um mascate sabe com o que? Uns tres barril de pórvora encomendado pelos preto daqui…Num se sabe com que dinhêro, nem com que intenção. Pórvora, sô! Só pode ser pra fazê furdunço!..Botar nas espingarda e matá branco…Virge Nossa Senhora!..Mas…tá bom. A gente sabe mais que eles, né? Só que vamos ficar como diz João Angola…de boca lacrada!”

                                   (Auto do Manoel Kongo de Spirito Santo, fragmento)

Foi muito mais do que eletrizante conhecer a antiga Fazenda da Freguesia, atual Aldeia Arcozelo, em Paty de Alferes, núcleo do qual se originou toda a ocupação e o fausto do chamado Vale do Café (Vale do rio Paraíba do Sul) no século 19.

Por uma destas coincidências mágicas da vida, destino escrito sei lá, ali por volta de 1966, aí com os meus 18, 19 anos e já mexendo com estas coisas de teatro e por conta de um prêmio que o meu grupo suburbano (o MOCA) recebeu, havia visitado a Aldeia Arcozelo.

Não fazia a menor ideia até então de que aquele lugar havia sido a maior fazenda de escravos da primeira metade do século 19 na qual foi deflagrada uma das maiores insurreições de escravos da Diáspora americana.

Cheguei a conhecer Pascoal Carlos Magno o dono e principal incentivador daquilo que era uma formidável iniciativa de fomento do teatro brasileiro. Tenho uma vaga lembrança da exuberância e do bom estado de conservação do complexo, tanto que me deu uma certa tristeza revoltada, ver a degradação do local, principalmente a velha casa grande, com partes desabadas e ameaçadas de ruir.

Arcozelo 7Na entrada do complexo vimos uma grande placa da Funarte, atual administradora da Aldeia de Arcozelo, mas no interior nenhum sinal de obras de manutenção ou restauração do que se trata de um dos complexos arquitetônicos do século 19 (as construções iniciais remontam o século 18) mais importantes das Américas.

Os funcionários e contatos locais nos informaram que um presidente e outras autoridades da Funarte já estiveram por lá em solenidades e vistosas visitas, mas nada de concreto ainda ocorreu. Fala-se em verbas emendas parlamentares e recursos de um novo PAC, mas nada realmente conclusivo.

Não compreendi, enfim como está sendo encaminhada a questão da salvação deste patrimônio inestimável, seriamente ameaçado, por parte do Iphan, do governo brasileiro enfim, já que a Funarte, embora sendo uma herdeira natural do sonho teatral de Pascoal Carlos Magno – um dos aspectos relevantes do valor do espaço como bem cultural imaterial – não tem, absolutamente nenhuma relação com a preservação de patrimônio arquitetônico e histórico, da cultural material deste importante lugar.

Tampouco jamais poderia imaginar que tantos anos depois me veria envolvido com a pesquisa e a criação de um espetáculo teatral que narra, em minúcias historicamente bem realistas os incidentes principais da revolta. Afinal foi ali que estes tumultuosos incidentes ocorreram. Exatamente ali os personagens todos do Auto do Manoel Kongo viveram conspiraram, se rebelaram e morreram no calor da refrega numa mata próxima ou mais tarde, cansados de cativeiro, moídos de velhos ali pela fazenda mesmo, onde muitos estão enterrados.

Dá bem para vocês entenderem a emoção indescritível que senti caminhando pelos espaços, pátios, alpendres e cômodos onde os personagens da história que escrevi, efetivamente existiram.

“…O tenente-coronel Gil Francisco Xavier herdou a fazenda Freguesia com a morte de sua mãe adotiva, Francisca Elisa Xavier, primeira baronesa da Soledade, viúva de Manuel Francisco Xavier. Endividado pelo jogo, Gil Francisco Xavier cedeu ou vendou a fazenda para o médico português Joaquim Teixeira de Castro que mudou o seu nome para fazenda Arcozelo, que era onde ficava a quinta de sua família em Portugal (freguesia de São Miguel de Arcozelo, concelho de Vila Nova de Gaia). Joaquim Teixeira de Castro recebeu do rei D. Luís I de Portugal, em 1874, o título de visconde do Arcozelo.

“…A partir da década de 1930, o excelente clima da região passou a ser conhecido nacionalmente com a propaganda feita grande médico infectologista Miguel da Silva Pereira. Isto atraiu muitos turistas de veraneio procedentes da cidade do Rio de Janeiro e, assim, a fazenda foi transformada em hospedaria em 1945.

Finalmente, a fazenda foi loteada e a parte com as edificações tornou-se propriedade de João Pinheiro Filho, que, em 1958, a doou ao embaixador Pascoal Carlos Magno com o propósito de ali criar uma escola de teatro e local de retiro de artistas.

O centro cultural Aldeia de Arcozelo foi inaugurado em 1965.”

                           (Wikipedia)

Arcozelo 15

A impactante emoção influenciou então fortemente o plano da montagem, já que o complexo arquitetônico tipicamente do século 19, de maneira incrível se presta maravilhosamente à encenação do Auto, contendo em seu contexto todos os cenários constantes da itinerância do formato que eu, o autor estou propondo, com cenas ocorrendo num curto trajeto percorrido pela plateia.

O fato de serem cenários absolutamente reais, torna a ideia de montar o espetáculo na antiga fazenda da Freguesia, absolutamente irrecorrível.

Assim, depois de uma animada e bem sucedida rodada de encontros com secretários de cultura e pessoas representativas da região saímos de lá decididos a promover uma série de espetáculos em, pelo menos duas ou três cidades do Vale do Café.

Uma conspiração virtuosa foi deflagrada e os quilombolas buscam as armas para subir e ocupar a Serra.

O Quilombo de Manoel Kongo, vive!

“…Mané Kongo botô Paty pra queimá…
….Matou, incendiou, fez tudo pra fugir
do cativêro de Paty…”

_Tição botô

(coro) Fogo na mata

_Vagalume alumiou

(Coro)Toda a mata…”

(Jongo do Mané Kongo, música tema do Auto)

Spirito Santo
Fevereiro 2014

Arcozelo 39E a equipe é:

Spirito Santo (autor)

José Luiz Menezes Júnior (Secretario de Cultura de Vassouras)

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~ por Spirito Santo em 10/06/2015.

4 Respostas to “Auto do Manoel Kongo/ AMK. Mané Kongo: Tição botô fogo na mata”

  1. Valeu, Togo. O futuro aguarda ansioso pela rememoração do passado real.
    Abs

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  2. Entre a concepção estatal da história e a sábia prática do indivíduo engajado, fica mais do que evidente que o discurso político é ininterrupto, quando emana da consciência étnica da sociedade específica, como neste exemplo protagonizado por Spírito Santo. É quando faz-se mover o mofo deixado por ocasos de “tombamentos” institucionais, que são regulados pelo foco de história nacional . Daquela história nacional que o negro somente é percebido como cousa, peça de inventário museológico . Ou seja, como tal não cumpre outro propósito senão a de ser exibido nos calendários oficiais. Para a gente imbrincada nas micro-histórias nunca, nunca os registros de nossa presença poderão ser esquecidos, cujas mentes insubmissas instam os fazeres revolucionários. Por isso é que são “(re) descobertos”, mesmo em outros tempos, os meios para que sejam recontadas e reconhecidas as nossas histórias , segundo o olhar crítico dos sobreviventes da Diáspora Atlântica. Parabéns Spirito Santo e toda equipe.

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  3. O auto de Manoel Kongo é muito representativo da faceta literária e performática do amigo. Gosto demais e torço para que o espetáculo “vingue”, nos dois sentidos do termo… 😉

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  4. Quero ver esse espetáculo!!!

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