Viva Vissungo! É nóis!…Apesar deles.

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Saudades dos “Pacotes Culturais”

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2015. Reinaldo Amancio, Lula Espírito Santo (encoberto) e Spírito Santo. Vissungo em turnê.

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1978. Show histórico na favela do Caramujo, Niterói: Lula Espírito Santo (perfil), Carlos Codó in memorian e Spírito Santo (de costas)

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1995. Spirito Santo, Reinaldo Amancio (o baixinho), Jahir Soares (o careca) e Lula Espírito Santo. Até hoje aí. E aqui.

Na próxima quinta feira, dia 02 de Julho, com fecho de ouro no sábado, 04/7 (na Arena Cultural Dicró, na Penha, ás 20hs) o Vissungo encerra a sua heróica turnê por lonas e arenas culturais da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Foi uma das mais felizes turnês de nossa longeva carreira, que já vai passando dos incríveis 40 anos.

Talvez ninguém se lembre, mas uma das bandeiras mais caras á ideologia do Vissungo, depois da pesquisa de campo, aquele se embrenhar nas maravilhas musicais do black Brasil profundo, a música oculta da Diáspora africana que cunhou a nossa estética negro-pop, depois desse mergulho artístico tão bem sucedido, assumimos como missão tocar, sempre que possível, para gente das periferias, ir de verdade “onde o povo estava”.

Na crônica de nossa carreira, nunca esqueceremos a turnê denominada “Pacote Cultural”, um programa idealizado pela Secretaria Estadual de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, comandado á época (final da década de 1970) pelo teatrólogo Paulo Afonso Grisolli. O convite partiu da querida musicóloga Cecília Conde, coordenadora de música do programa, entusiasta de nosso trabalho desde o início.

A missão desses “Pacotes Culturais”, entusiasticamente aceita por nós, consistia em realizar shows nos mais recônditos cantões do interior do estado com pouco ou nenhum recurso técnico, sem som, sem palco convencional, sem nada, bem no jeito do que o pessoal de teatro na época chamava de “mambembar”.

Viajávamos num fusca entulhado por nós músicos mais os instrumentos (empilhados num bagageiro), numa imagem indiana. Tocávamos em coretos, salas de aulas, púlpitos ou altares de igrejas, quadras de esporte, onde desse.

A filosofia dessas ações oficiais de dinamização da cultura no nosso estado, que vinham de encontro á nossa ideologia de antiga banda suburbana, era um imperativo nas políticas de fomento cultural da época. A população das nossas periferias e do interior, não tinham acesso a, rigorosamente nenhuma atividade artística que não fosse o ainda incipiente acesso à televisão. Não existiam grandes shows promovidos por prefeituras, não haviam casas de espetáculos, shows em clubes, nada.

Este episódio dos primórdios da descentralização das cenas artísticas, musicais do Brasil foi recordado por nós, forçosamente agora, no ensejo desta turnê no âmbito do projeto da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, ao qual nos habilitamos via edital (Fomento Cultural-Rio 450 anos).

Conhecemos então, muito entusiasmados, uma enorme rede de equipamentos culturais (lonas e arenas) espalhados pela extensa periferia da cidade, notadamente a grande zona oeste. Era tudo que sonhávamos ter naqueles velhos tempos. Este sonho se concretizava ali, na agradável missão de tocar em 10 desses equipamentos com som, luz, divulgação, tudo do bom e do melhor.

Como senões apenas as incongruências desta nossa época de paradoxos.

Constatamos, contudo que hoje, o Rio de Janeiro – e o Brasil, como um todo – tem muitos problemas ainda -problemas novos – no que diz respeito à difusão e fomento cultural. O principal deles talvez seja a mercantilização exacerbada da cena artística, e a centralização das ofertas no campo restrito – e imbecilizante – da masssificação.

Assim, a cena musical, por exemplo passou a ser condicionada, radicalmente aos interesses comerciais e às ofertas ditadas pelo mainstream, sem nenhum espaço para a diversidade artística, com prejuízos culturais incalculáveis.

A contradição entre a exuberância da oferta (a cena musical da cidade do Rio, por exemplo é, sempre foi, potencialmente muito rica) e o gosto massificado do público gera o paradoxo desta rede formidável de equipamentos operar quase sem público, como ocorreu em nossa turnê e ocorre, segundo nos informa o pessoal das lonas e arenas, de forma recorrente.

Elefantes brancos?

O que bomba nas lonas e arenas culturais? Um certo Funk, o Pagode Chic, o Sertanejo Chic e qualquer som de segunda mão, copiado do que estiver bombado na Mídia ou que tenha um artista do segundo time da TV Globo como estrela, sub produtos enfim do que está sendo ofertado pelo mainstream mais rasteiro e oportunista que já tivemos notícia por aqui.

A questão não é ignorada. Ela tem gerado muitas polêmicas, a maioria delas falsas, como a que cria uma suposta oposição entre o “puro e sincero gosto popular” e o “gosto burguês elitista”, uma proposta de debate oportunista porque, é fácil perceber que não se trata de uma questão de gosto musical.

Trata-se da redução drástica da oferta, restringida pela barreira midiática que impõe um “gosto musical” compulsório, um monopólio do raso, do simplismo artístico, do “seja lá o que for’, desde que dê lucro.

(A forjada comoção midiática pela morte de Cristiano Araújo que nos diga)

E não é só isso. Há também uma série de incongruências das políticas oficiais de fomento, erráticas e, de certo modo indiferentes ao problema, deliberadamente omissas, pois, qualquer política pública no campo da cultura – quem não sabe? -precisa envolver alguma sinergia entre o estado, o artista e as platéias. Não adianta muito, como constatamos em nosso caso, montar uma rede de equipamentos ideais e entregá-la ao deus dará do mercado, ao pega pra capar do mainstream.

Isto sem falar (e já falando) na enorme vulnerabilidade das políticas baseadas na renúncia fiscal (lei Rouanet) à corrupção nossa de cada dia, com editais corrompidos pelo superfaturamento dos contratos, ensejando um mercado de propinas que, agravando o problema do nivelamento artístico por baixo, já imposto pelo mainstream, impõe a lógica da predileção por projetos e artistas – não importa quais – que possam ensejar cachês mais elevados, passíveis de serem artificialmente engordados nas planilhas, para gerar sobras lucrativas para a rede de corrupção, infelizmente implantada, como parasitas em dez entre dez secretarias de cultura do país.

Essas políticas de desperdício cultural são preocupantes, absurdas, um entrave à ampla circulação da diversidade musical, artística enfim. Precisam ser demolidas

Há neste momento na alma do Vissungo, portanto uma felicidade agradecida. Cumprimos com muito empenho uma missão-delícia, nossa música black-exuberante rolou por aí em 10 ótimos palcos, cachês decentes, som e luz, alegres camarins…

…Mas muito nos constrangeu as platéias quase sempre vazias.

Contaminada pela estupidez do vale tudo corrupto que se apossou do país, vivemos o paradoxo do artista ter o palco, a cena, mas não saber mais onde o público está.

Alguém aí sabe onde o povo, realmente está?

Spírito Santo
Junho 2015

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~ por Spirito Santo em 30/06/2015.

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