O Orgulho amargo da pitonisa


SPIRITO SANTO

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Brasil haiti duplo 1-Toussaint L’Overture, líder da revolução haitiana no século 18. 2- Lula da Silva e Renèe Preval, presidente do Haiti no século 21

 Luiz Ignacio hoje e Henry Christoffe ontem:’

Que o o Haiti nunca seja aqui.

(O presente artigo enviado para publicação no jornal on line ‘Observatório da Imprensa’ em meados de 2005, no auge da crise do mensalão foi ‘derrubado’ pelo editor-chefe ou seja, considerado irrelevante ou inoportuno para a pauta daquela edição)

Em 05 de março de 2003, ainda no embalo da euforia generalizada que se abateu sobre a população brasileira com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, escrevi, como colaborador do OI, um artigo o qual, de forma um tanto impertinente talvez, intitulei “ Lula-lá- A classe média enfim vai ao paraíso”, A impertinência do título, por alguma razão editorial, não…

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Só Danço Samba (Pobre Samba meu)


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Pixinguinha e Tom. Aparentemente (a foto é de uma série) Pixinguinha nesta ocasião ensina acordes de piano à Tom que também faz duetos na flauta, com Pixinguinha ao piano.

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A foto é muito emblemática. Ao que parece,  Tom Jobim e Chico Buarque usam os chapéus de Pixinguinha e João da Bahiana. As expressões e os sorrisos contidos de Pixinguinha e João podem denunciar que eles não “passaram”, voluntariamente os chapéus para os dois, tornando-os “herdeiros” como a foto insinua.  Sutilezas.

O “sambismo” branco elegante da Bossa Nova posto em xeque.

“Pobre samba meu
Foi se misturando se modernizando, e se perdeu
E o rebolado cadê?, não tem mais
Cadê o tal gingado que mexe com a gente
Coitado do meu samba mudou de repente
Influência do jazz…”

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Gene Lees, grande crítico musical canadense, escreveu um artigo luminoso sobre a Bossa Nova e Tom Jobim sempre republicado por aí, mundo afora (embora quase nunca por aqui) O artigo sobre Antonio Carlos Jobim, que saiu provavelmente em 1987 ou 1993 na revista JazzLetter (escrita e editada por Lees)  foi também publicado no livro do mesmo Gene Lees “Singers & Song II (Nova Iorque : Oxford University Press, 1998) em um capítulo intitulado “Um abraço no Tom”.

Extraí, indiretamente desse artigo uma nota que publiquei na primeira edição de meu livro ‘Do Samba ao Funk do Jorjão“, muito polêmica porque denuncia a presunçosa arrogância elitista (claramente racista, diga-se) de Tom Jobim ao, desairosamente comparar numa entrevista a Lees, a Bossa Nova (dele e João Gilberto) com o Samba Negro (assim mesmo, adjetivado por ele) de todos nós.

Ora, repito insistentemente por aí, a suposta modernização do samba “negro“- cujo primitivismo é bastante questionável (ora, música é uma linguagem atemporal!) – esta fusão do Samba com o jazz, de autoria atribuída por Tom Jobim a ele mesmo, João Gilberto e a sua (deles) Bossa Nova é uma leviandade em todos os termos.

Quem não sabe que fique sabendo: esta “modernização” ocorrida, no mínimo na década de 1920, teve como precursores evidentes, entre outros, os “primitivos” crioulos Pixinguinha e Donga (e vejam: nesta fusion de ritmos africanos do Brasil e o jazz feita por Pixinguinha e os Oito Batutas, nem havia ainda o rótulo Samba, claramente expresso)

Convenhamos: Tom Jobim, um músico andado e viajado pela cena musical do Rio de Janeiro desde, pelo menos, o final da década de 1950, conhecia Pixinguinha, aprendeu até algo com ele (como a foto acima indica) e sempre soube disso. Logo, Tom foi, além de leviano, displicente em sua fala para um arguto crítico musical gringo. A nota que publiquei no livro (de 2011) causa ainda muito frisson nos meios mais laudatórios da obra de Tom Jobim.

A editora da primeira edição do meu referido livro, por exemplo, me chamou, gravemente a atenção sobre a temeridade que seria expor este lado tão politicamente incorreto – inacreditável para ela – de um monstro sagrado de nossa música popular, uma espécie de Villa Lobos da MPB.

Alguns leitores mais deselegantes, chegam mesmo a duvidar das minhas fontes que foram, inicialmente o livro “Sambeabá, o samba que não se aprende na escola”, de Nei Lopes e é agora (instigado por um comentário incrédulo de mais um leitor), diretamente extraída da fonte primária: o artigo de Gene Lees que compartilho aqui – com tradução livre do Titio com a ajuda de seu filhão Thiago Rosa – na íntegra para vocês. Antes, disponham do trecho da fala de Jobim que cito no livro, também no original:

“The authentic Negro samba in Brazil is very primitive. They use maybe ten percussion instruments and four or five singers. They shout and the music is very hot and wonderful.

“But bossa nova is cool and contained. It tells the story, trying to be simple and serious and lyrical. Joao [Gilberto] and I felt that Brazilian music had been too much a storm on the sea, and we wanted to calm it down for the recording studio.

You could call bossa nova a clean, washed samba, without loss of the momentum. We don’t want to lose important things. We have the problem of how to write and not lose the swing.”

Como se pode ver, os conceitos ‘negro“, associado à “primitivo” e “sujo“, associado a “Samba negro“, do qual, segundo Tom a Bossa Nova seria uma ‘depuração“, aparecem – verdade seja dita – bem nítidos na fala textual dele, revelada por Gene Lees, insuspeito por ser seu grande admirador.

No bom sentido (e com todo respeito) Titio quis apenas matar a cobra e mostrar o pau.

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Com a palavra, Gene Lees:

“A primeira música que ouvi de Jobim foi “Desafinado”. Dizzy Gillespie executou-a no Salão Sutherland em Chicago, no inverno de 1961-1962, quando Lalo Schifrin estava tocando com o grupo. Mais tarde, no meu apartamento, Lalo tocou a melodia novamente no meu piano, me mostrando as mudanças de acordes. Embora Lalo seja argentino, tinha vivido no Brasil e estava bem familiarizado com a nova música que havia surgido no Rio de Janeiro.

Logo depois eu ouvi um álbum de João Gilberto, a quem muitas pessoas consideram o pai da Bossa Nova (título que não significa nada mais do que ‘algo novo’), e isso só intensificou meu interesse por este notável e sutil balanço, seu acento lírico, particularmente nas músicas de Antonio Carlos Jobim.

Quando no início de 1962 apareceu uma oportunidade para eu passar seis meses na América Latina, incluindo o Brasil, agarrei a chance, em parte porque por muito tempo, nós da América não nos interessamos em saber  algo sobre os milhões de pessoas que dividem o Hemisfério Ocidental conosco .

A este respeito, as coisas não mudaram muito. Mas parte da razão que me instigava era saber mais sobre esta nova música, esta tal de Bossa Nova. E assim, em maio, na nossa primavera, outono no Brasil, eu estava no Rio de Janeiro.

A editora tinha me dado o número de telefone de João Gilberto. Ele não falava Inglês e passou o telefone para sua esposa Astrud. Ela me deu o telefone de Jobim para que eu o contatasse. Jobim me convidou naquela mesma noite para ir a sua casa, à uma curta distância da praia de Ipanema, uma longa faixa de areia em curva, que é uma das glórias daquela cidade. Quando entrei na pequena casa, João Gilberto estava sentado em um sofá cercado por um quarteto vocal chamado “Os Cariocas”.

Ele estava tocando violão e ensaiavam a harmonia de uma canção de Jobim chamada “Só danço Samba”. Eu tinha feito um estudo sobre as músicas de Tom Jobim, e entendia as letras em português. Ele e eu fomos para a cozinha e ele serviu uísque para nós dois. Lembro-me de estar de pé ao lado da geladeira com Jobim me dizendo:

“Eu sou doido, mas ele” – indicando João, na outra sala – “É muito mais doido”

No entanto a maior parte da nossa conversa foi em francês. Jobim falava pouco inglês e eu, pouco português. Sua ascendência era francesa, daí o seu sobrenome.

Eu lhe disse que acreditava que muitas de suas canções poderiam ser vertidas para o inglês e que sabia como fazê-lo. Ele me incentivou a tentar, e antes mesmo de sair do Brasil, eu já tinha escrito letras em inglês para ‘Corcovado “e” Desafinado “, que ficaram conhecidas, respectivamente como” Quiet Nights of Quiet Stars”e” Off Key “. Quando Jobim chegou a Nova York para um concerto no Carnegie Hall, eu o apresentei a Gerry Mulligan, cuja música – pelo testemunho de ambos Antonio e João – foi uma importante influência no desenvolvimento da Bossa Nova.

Na ocasião Jobim me disse:

“O samba autêntico negro do Brasil é muito primitivo. Eles usam talvez dez instrumentos de percussão e quatro ou cinco cantores. Eles gritam e a música é efusiva e exuberante demais. Mas a Bossa Nova é leve e contida. Conta uma história, tentando ser simples, grave e lírica.

João e eu sentimos que a música brasileira soava exagerada como uma tempestade no mar, e queríamos torná-la calma, mais adequada à gravação em estúdio. Você pode chamar bossa nova de um samba limpo, lavado, sem perda do clima.

Nós não queremos perder coisas importantes. Só temos o problema de como compor sem perder o balanço. “

“E eles não perderam” – segue  Gene – “Influenciaram o jazz americano quase tão profundamente quanto o jazz americano os havia influenciado Com o passar dos anos, Jobim continuou a se desenvolver. O samba não é, de modo algum o único ritmo tradicional do Brasil.

A influência da África é muito profunda, particularmente no norte e o folclore musical é muito rico. Nos anos seguintes Jobim passou a refletir em sua música esta tradição musical variada; os anos da bossa nova ficaram para trás. Cada vez mais suas canções passaram a refletir seu interesse pela ecologia do planeta e sua destruição.

“Estamos construindo um deserto, meu amigo”, ele me disse certa vez em Los Angeles.

Corcovado (Quiet Nights of Quiet Stars) é uma das primeiras canções de Jobim que ouvi. Na versão da letra tentei manter, não só o significado do original, mas também o ar fatalista, comum nas canções brasileiras e que, acredito deriva de fado português, remotamente oriundo da doutrina árabe do kismet. Corcovado é o nome da montanha na qual a estátua do Cristo Redentor foi erguida com os braços estendidos, como se abraçasse a cidade do Rio. A palavra significa corcunda, que é como os primeiros colonos chamavam a montanha.

“Só Danço Samba” foi a música que eu ouvi João Gilberto cantando no sofá de Jobim na noite em que conheci os dois. João cantou tão baixinho (mas tão perfeitamente!) que eu mal podia ouvi-lo, mesmo estando a poucos centímetros de distância.

Ele desenvolveu um estilo de um quase “vibrato less” (sem vibratos) uma forma de cantar que me fez lembrar, de uma só vez, o cantor francês Henri Salvador (o qual João disse tê-lo influenciado) e Chet Baker. A canção era sobre um rapaz que se diz cansado do twist, do calypso, e do cha-cha e que, de agora em diante” “Eu só danço samba”, que é o que o título significa.

A gravação, dessa música com Stan Getz, foi feita logo após a caravana de músicos brasileiros chegar à Nova York. A canção “Desafinado” (Off Key) é uma espécie de hino da bossa nova, pois aborda com humor a escola mais antiga de cantores e músicos do Brasil que se opuseram ao movimento da Bossa Nova, músicos mais velhos, críticos do bebop dos Estados Unidos.

Existe uma piada construída na harmonia desta canção: uma quinta bemol na segunda corda – um efeito harmônico que fazia parte do bebop. Os conservadores do Brasil disseram que a bossa nova tinha melodias tortuosas, mas a canção se tornou um hit internacional. “Grande amor” é uma das músicas menos conhecidas de Jobim, do início de sua carreira.

Ela foi incluída numa das sessões de gravação de Stan Getz com João Gilberto. A canção mantém a sua beleza melancólica, mesmo três décadas após a sua gravação. Insensatez (How Insensitive): A seqüência de acordes de abertura é copiada do “Prelúdio em Mi Menor de Chopin” e alguns de nós, ocasionalmente, brincávamos com Jobim sobre isso.

Gerry Mulligan foi tão longe com a gozação que propôs gravar o “Prelúdio em Mi Menor” em ritmo de samba.

Inútil Paisagern (Useless Landscape): Tirando o fato de achar essa uma das melhores músicas de Jobim queria também acrescentar o seu dueto com Elis Regina. Apesar dele tocar piano em muitas de suas músicas, isso não dá uma idéia real de quão bem ele tocava. Eu tenho uma fita dele com Gerry Mulligan gravada no final dos anos sessenta.

Jobim soa um pouco como Bill Evans na fita. O acompanhamento neste disco dá bem uma dica sobre sua forma de tocar. “

Gene Lees em junho 1993

© -Gene Lees, protegido por direitos autorais; todos os direitos reservados

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…”Quase que morreu
E acaba morrendo, está quase morrendo, não percebeu
Que o samba balança de um lado pro outro
O jazz é diferente, pra frente pra trás
E o samba meio morto ficou meio torto
Influência do jazz

No afro-cubano, vai complicando
Vai pelo cano, vai
Vai entortando, vai sem descanso
Vai, sai, cai… no balanço!

Pobre samba meu
Volta lá pro morro e pede socorro onde nasceu
Pra não ser um samba com notas demais
Não ser um samba torto pra frente pra trás
Vai ter que se virar pra poder se livrar
Da influência do jazz.”

(Influência do Jazz – Carlos Lyra)

Spirito Santo

Julho 2015

Zé Maria no Kalunga Ngombe. Tributo ao branco que foi grande


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 A descolonização da saudade de Zé Maria Nunes Pereira, o eterno mestre branco da minha negritude.

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…A raiz da minha história está na separação dos meus pais, quando eu tinha seis anos. Se desquitaram, fiquei com meu pai e fomos morar, primeiro, numa república de portugueses, depois,papai comprou um casarão enorme e fui criado por uma família negra: Mãe Lúcia, as irmãs e os meus dois irmãos de criação, que eram mais velhos e me protegiam..”

…”Fui um menino de bairro negro e de cais do porto; das minhas janelas eu via o cais. E mãe Lúcia teve muita influência em mim. Ela sempre se preocupava em dizer: “Você vai ser grande branco.”

…Ela era da ‘Casa das Minas’, mas nunca me levou para lá, escondia tudo o que era de culto. As nossas velhas de antigamente queriam que a nossa gente negra fosse criada no mundo dos brancos. Não era por alienação, era para vencer. Eu é que fazia ao contrário.

…Eu sempre fui um assimilado ao contrário, um sujeito africanizado desde muito cedo. Foi uma influência que pareceu depois esquecida, mas mais tarde veio a marcar muito a minha vida.

Agora, no dia 4 de dezembro, dia de Iansã, ela faria 100 anos se estivesse viva. Ela e papai morreram com dois meses de diferença. Eles se amasiaram, ele morreu, e ela morreu dois meses depois.”

(Entrevista concedida entre 15 e 28 de dezembro de 2006, no Rio de Janeiro, a Verena Alberti e Amílcar Araújo Pereira)

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Não tenho na minha já velha memória nenhuma referência de mestre, sábio condutor de vidas, maior que este maranhense emotivo que soube hoje que se foi. Nem encontro palavras para descrever a perda irreparável que a alma vívida e intensa dele fará no rol de minhas memórias mais preciosas, na memória de todos que conviveram com ele.

No início dos anos 1970, eu jovenzinho ainda, o conheci na seção de Ipanema da Universidade Cândido Mendes. Ali, pela modesta injunção dele, em tumultuados, quase anárquicos encontros vespertinos, se urdia o que viria ser o refundado Movimento Negro Brasileiro.

Não vejo ninguém lhe dando este crédito merecido (quem sabe talvez por julgá-lo um branco a mais) mas no meu entender, ele é sim o principal instigador desta refundação daquilo que, aglutinando grupos diversos de negros, naqueles politizados, embora tensos anos da ditadura militar, acabou gerando sólidas instituições, o IPCN carioca e o MNU nacional, para citar apenas as mais bem sucedidas, inspiração para a criação de dezenas de outras instituições antirracistas, políticas, culturais e artísticas pelo Brasil afora.

Mas ele será sempre reconhecido por todos pelo seu incansável trabalho de intelectual militante pela descolonização e a libertação da África, ainda envolta em sangrentas guerras naquela época em que tive o enorme prazer de conhecê-lo.

Sem nenhuma dúvida, tudo que sou hoje, esta ligação com a pesquisa da cultura do negro no Brasil, a escrita, a música, tudo dessas mesmas coisas, o kissange e a marimba dos quais me tornei mestre fazedor e ensinador, o Grupo Vissungo, o Musikfabrik, meu textos meu livro, tudo que sou como intelectual orgânico, compulsivo, veio dele, espécie de pai do que me transformei:  José Maria Nunes Pereira.

A memória mais intensa que me vem dele agora, vivificada pela tristeza de perdê-lo, é a de uma daquelas tardes de sábado num pequeno quarto do apartamento da Rua Dois de Dezembro onde ele, dadivoso, com a intensa emoção que o caracterizava, abria mapas, tocava vinis, cedia cópias em fitas K7 (as quais guardo até hoje) emprestava livros, nos iniciando, ele, o branco, nas coisas da África negra – de Angola, principalmente- sua grande paixão.

A cena é ele, o querido Zé Maria, no calor do quarto, ás lágrimas cantando para nós, pobres rapazes negros ignorantes e atônitos, um poema de Agostinho Neto musicado por Rui Mingas que deixo aqui como tributo saudoso a esse branco que foi grande.

Mãe Angola
(Adeus à hora da largada)

Minha mãe
tu me ensinaste a esperar
como esperaste paciente nas horas difíceis
Mas em mim, a vida matou esta mística esperança
Eu não espero. Sou aquele por quem se esperar

A esperança somos nós os teus filhos
nascidos par uma fé que alimenta a vida

Nossas crianças nuas
nas senzalas do mato
Os garotos sem escola
a jogar bolas de trapos

Nos areais ao meio dia
Nós mesmos, os contratados
a queimar a vida nos cafezais

Os homens negros, ignorantes
que devem respeitar o branco
e temer o rico.

Somos os teus filhos
dos bairros de pobres
conforme concebes
com vergonha de te chamarmos mãe
com medo de atravessar a rua
com medo dos homens
Somos nós a esperança
em busca da vida.”

——–

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José Maria Nunes Pereira Conceição foi um dos fundadores, em 1973, do Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) da Faculdade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, uma instituição de referencia para assuntos ligados à África e suas relações com o Brasil. Nascido em São Luis do Maranhão (1937), estudou em Portugal (1947-1962) e participou dos movimentos de libertação das colônias ponuguesas na África.

Graduou-se em ciências sociais na UFF (1972), foi pro­fessor de história da África e editor da revista Estudos Afro-Asiáticos, do CEAA (1978-1986). Sua dissertaçáo de mestrado em sociologia, defendida na USP em 1991, teve como tema o centro de estudos que fundou: ”Os estudos africanos no Brasil e as relações com a África – um estudo de caso: o CEAA (1973-1986)”. A tese de doutorado, também defendida na USP, em 1999, intilulou-se “Angola: uma política externa em contexto de crise (1975- 1994)”.

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Spírito Santo
Julho 2015

_”Matem a macaca!” Uma jornalista negra é o alvo da vez.


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O atirador é o racismo caolho de sempre.

Titio já disse: A invisibilidade midiática é o calcanhar de aquiles do racismo.

É uma tese simples: Negros visíveis, ocupando funções sociais proeminentes, normais, corriqueiras, desmontam a tese absurda de que os negros são intelectualmente inferiores e que por isso devem ocupar funções modestas e subalternas na sociedade.

Mas isto é um problema de nervo exposto, ferida aberta. A cabecinha de um negro ou negra aparece ali, acima da linha d’água e pronto, começam o ataque histérico, a celeuma, as pedradas.

Aflora aí, nos racistas – sempre na sombra, mas que são muitos e muitos no Brasil – uma espécie de complexo de inferioridade intolerável, uma consciência de culpa mau deglutida, um sentimento raso e ambíguo de ressentimento que assume a forma de ódio cego, desmedido.

(Franz Fanon explica)

É o que sempre ocorre em casos como o de Maria Júlia Coutinho. Os racistas fóbicos, radicais aparecem como uma matilha de cães raivosos se aproveitando de tudo para demolir a pessoa negra que ficou célebre, no afã de desconstruí-la, destruí-la, reinvisibilizá-la, devolvê-la ao limbo.

No fundo no fundo morrem mesmo é de medo, de cagaço, os coitados. São portadores de uma fobia colonial, um complexo de inferioridade bem psicótico, doentio.

(Nos estertores da escravidão brasileira, com a Abolição já dada como certa, inexorável, um medo pânico se espalhou pelas fazendas e pela Corte do Rio  – inclusive entre os abolicionistas, pretos e brancos – se apossando, preferencialmente dos brancos escravistas  – inclusive os pobres – por aí afora, temendo que os negros antes de serem libertos, impacientes, se rebelassem por si mesmos e pegando em armas, facas, mosquetes, catanas ou mesmo as próprias mãos crispadas, se lançassem sobre os brancos, sedentos de vingança:

A imprensa da época chegou até a chamar este clima paranóico de o “Terror Negro”.)

O caso do Joaquim Barbosa, o negro vingador insubmisso, ocorrido tanto tempo depois, praticamente ontem mesmo, é tão clássico quanto simbólico, do quanto a evocação deste passado escravocrata é ainda latente.

O ódio ideológico contra ele, por conta de sua firme condução do processo jurídico do Mensalão, rapidamente assumiu proporções absurdas, a feição de ódio racial exacerbado ficou clara para todos. Passaram a atacar a sua reputação, seu passado, sua família, tudo que dissesse respeito a ele foi…”denegrido“.

Foi o que fizeram – de forma chocante! – pessoas adeptas do PT, sintomaticamente brancas em sua maioria (negros petistas, inclassificáveis – não nos esqueçamos – também atacaram Joaquim) pessoas que julgávamos apenas equivocadas, porém, honestas e progressistas, “de esquerda”, mas que, máscaras caídas, começaram a se comportar como racistas fóbicos, direitistas mesmo, quase nazistas, no ensejo de desmoralizar, desqualificar o emérito juiz, mesmo sendo ele a maior autoridade jurídica do país.

_”Morte ao macaco!”_ Escreviam os mais estúpidos, insanos.

Para se ter uma ideia do quão virulento era este sentimento de ódio racial aflorado, basta lembrar que até ameaçado de morte Joaquim Barbosa foi, sendo obrigado a se aposentar e abandonar suas funções no STF, numa carreira promissora que ainda duraria muitos anos.

É este o contexto onde se pode encaixar o ódio ainda enrustido, mas já perceptível contra Maria Julia Coutinho, uma simples jornalista, apenas mais uma entre tantas belas mulheres escaladas para cobrir – com rara competência diga-se – notícias sobre o clima no Brasil no maior jornal de TV do país, mais uma “Moça do Tempo“, e daí? Mas…

“_Matem a macaca!”_

Escrevem no facebook jovens brancos imbecis. E um coro de brancos adultos, velhos, senhores e senhoras, surgem das sombras como fantasmas balbuciando por entre os dentes:

(_”Matem e…esfolem!”)

É por isso que sempre digo: A invisibilidade midiática é o calcanhar de aquiles do racismo.

Não basta ao negro ser eficiente, competente, irrepreensível. Vocês, nós todos precisamos entender que não somos mais escravos carentes da magnanimidade ou do reconhecimento do Sinhô.

A estratégia, a ideologia ideal não é este abolicionismo tardio e comedido das Seppirs, este assimilacionismo pai-joão de movimento negro elitista e pomposo, de ministras pretas de echàrpes bregas, de se submeter as regras de um sistema que não tolera negros fora de “seu lugar”… De-jeito-nenhum.

Sejamos resolutos, insubmissos. Sejamos VISÍVEIS e já que, pobres de espírito precisamos ainda de modelos edificantes: Sejamos heróis.

Simbolicamente…Matemos o Sinhô doente, psicopata que está encarnado, encruado em nós.

_Xô, xô, sinhô!

Spirito Santo
Julho 2015

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VISSUNGO, a Saga: Avaliando K I L O M B O L O K O!


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A carreira do Vissungo em revista

No fim desta sensacional turnê do Vissungo (40 anos de praia!) pela rede de lonas e arenas culturais da Secretaria Municipal de Cultura do Rio, muitas reflexões ocorrem ao Titio. Algumas, das mais ácidas, já esbocei num post anterior.

No fim do último show, eufóricos com o resultado artístico maravilhoso, fica a vontade de manter a azeitada máquina do Vissungo em moto contínuo, forever.

Um tanto surpreso e feliz com a nossa excelente forma de curtido vinho antigo, reflito sobre as perguntas de sempre, que nos invadem toda vez que terminamos uma jornada dessas, mais uma de nossa longa, longa, longa trajetória. Entre as perguntas surgidas aqui e ali da plateia ou de fãs curtidores das notícias da turnê, duas são chave:

_ “O CD! Cadê o CD!”_ Nos perguntou um grupo de ávidos novos fãs no final do penúltimo show desta turnê.

_ “Quando o Vissungo virá à minha cidade?”_ Nos perguntam outros fãs mais distantes, um pergunta que envolve questões muito mais instigantes e dubiosas.

Afinal, porque com um trabalho considerado artisticamente tão moderno e consistente, numa cancha que envolve trabalhos emblemáticos e premiados internacionalmente em trilhas sonoras para TV e cinema, com incursões tipo saga, por lugares e remotos do país (a pesquisa) ou em excursões por lugares europeus musicalmente importantes como a Itália e Áustria, carece tanto de visibilidade e projeção em seu próprio país?

Pois é.

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Estas perguntas sempre me inquietaram. Sempre reluto também em tentar respondê-las porque, fatalmente caio no lodo escuro da dúvida.

Será que o Mercado, o mainstream nos recusa espaço por alguma razão misteriosa? E esta é uma pergunta com resposta óbvia. Fôssemos atraentes ao mainstream e teríamos tido nesses 40 anos de carreira a nossa chance de gravar muitos LPs, CDs e estourar na praça, lógico!

Claro está também que a razão de fundo é mesmo muito misteriosa. Me ajudem a refletir, por favor: Que razão misteriosa seria esta?

A qualidade artística, musical de nosso trabalho, foi uma razão descartada logo de início, até porque o mercado nunca foi muito criterioso quanto a isto. Com muita frequência se pode observar que o sucesso de um artista medíocre ou relevante se dá, fulgurante, a despeito da qualidade chinfrim ou supimpa de seu trabalho.

A baixa apreciação do público também é outro fator descartável. Qualquer um que já assistiu um show ou a um ou outro clip do Vissungo e que esteja lendo este post agora, pode dar aqui testemunho do seu apreço, do seu prazer.

O que seria então? Nas centenas de entrevistas que já demos descrevendo assim ou assado o nosso trabalho, nas reportagens que abordaram aspectos de nossa carreira, nenhum jornalista se atreveu a nos sugerir uma resposta válida sequer para este enigma.

Por que o mercado sempre nos ignorou, descartou ou desprezou, assim tão renitentemente?

Com certeza, o fato de termos uma proposta artística fora dos padrões engessados dos escaninhos, dos nichos recorrentes do mercado: Samba, Rock, Funk, Sertanejo, Forró, patati patatá, é um fator relevante. Sim. Nossa música contêm, de algum modo, elementos de todos esses gêneros, mas os mesclamos de uma forma original, na lógica da música da Diáspora africana, nosso eixo temático fundamental.

Mas vejam, somos cria fiel da riquíssima música popular dos anos 1970, quando a regra principal e irrevogável do sucesso artístico era ser diverso, inusitado, original. Era pecado mortal naquela época alguém parecer demais com o outro. Imediatamente seria tratado, pejorativamente como “papel carbono” como se dizia na época. Havia um impulso dos produtores para encaixar as propostas num quadradinho estilístico inicial, mas ser cover, cover mesmo, jamais. O cover, o reles imitador, quase sempre amargava o limbo do mercado.

Que eu me lembre agora, dois exemplos são emblemáticos: a semelhança, então inaceitável entre Jorge Ben – hoje Benjor – e Bebeto e o certo jeitão de Milton Nascimento/Gilberto Gil misturados que tinha o Djavan do início. Com efeito ambos tiveram alguma dificuldade para emplacar. Dos dois, apenas Djavan conseguiu virar emblema de sucesso total.

O Vissungo, orgulhosamente não parece com ninguém, mas isto, estranhamente não nos beneficiou nos anos 1970, quando o inusitado era desejável. Porque teria sido?

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Quando surgimos, por exemplo, o “Afro Beat” era uma tendência musical generalizada no continente africano, mas completamente desconhecida no Brasil. O gênero consistia na inserção de elementos “afro” da Black Music da Motow (o Funk-Soul de James Brown, basicamente) na música tradicional, tribal mesmo da África seminal, incrementada por linhas contrapontísticas de baixo e guitarra desta Black Music mais visceral. Este original estilo africano, não entrava no Brasil de jeito nenhum.

Nossa experiência na Europa nos mostrou que existe ainda hoje – e desde os anos 1970 talvez – uma rígida divisão do mercado fonográfico da música popular mundial entre Europa e EUA. Nada, rigorosamente NADA da música negra bombada na Europa, abastecida pela riquíssima cena musical das ex colônias escravistas, tocará nas áreas de mercado subordinadas aos EUA e vice versa e temos aí neste quadrado americano o mercado brasileiro.

(E vejam, se liguem no paradigma: A chamada música pop internacional é uma invenção, claramente africana, gestada nas grandes cidades das Américas, no imediato pós abolição)

O estilo do Vissungo, formatado como “MPB negra” na origem , a partir dos anos 1980 (O samba, gênero bem sucedido no mercado na ocasião, o era apenas como um gênero tradicional, quase folclórico) o Vissungo assumiu enfim, francamente um formato “Afro-Pop“. Era uma tendência clara do mercado mundial, refletindo o explosivo sucesso comercial da luminosa gravadora Motown, ocorrido ainda nos anos 1970.

Mas havia um perceptível torcer de narizes dos críticos da época no Brasil que, furibundos nacionalistas, não admitiam uma música “negra” que não fosse tradicional por um lado, ou por outro (oh, contradição!), mero sucedâneo da Black Music gringa. Havia, isto sim, é um esforço enrustido de não estimular um música negra pop original, moderna, feita por negros.

Vai explicar!

Com efeito, o mercado musical brasileiro a partir do final dos anos 1970, em sua ideologia capitalista exacerbada (inserida na lógica da divisão de território mercadológico citada acima), pressionado por uma forte cena black (o fenômeno “Black Rio”), forjou e estimulou um produto negro musical mais voltado para o sucedâneo, o similar ao original, o cover enfim, aqui carimbado, sintomaticanente de…”Black Music“, com Tim Maia e Banda Black Rio nas cabeças.

Ora, o Vissungo também sempre tocou música popular fusion Afro Americana, só que optou fazer isso a partir do som da África que, historicamente dizia mais respeito ao Brasil: Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cuba, etc. uma música mais fácil de ser fundida com a música afro brasileira tradicional mais disseminada por aqui, o Samba, as Congadas, o Jongo e vejam: fazemos esta nossa fusion, exatamente com o Funk/Soul do inesquecível James Brown.

Tivemos um incidente curioso ligado a este paradoxo, recentemente. Foi quando insinuamos á amigos músicos mais jovens, a criação de uma “frente Afro-Beat” no Rio, visando a formação de uma plateia específica, tipo de movimento muito comum nos anos 1970.

Hum, pra quê? Fomos sutil e educadamente ignorados. Soubemos depois, sondando por aí, que não éramos bem vistos na cena por não sermos considerados uma banda de “Afro Beat”…”legítima” porque, simplesmente este rótulo passou a significar apenas aquilo que era cover de Fela Kuti, da música popular fusion da África Ocidental (Nigéria basicamente) com o formato bandão de sopros.

Pagamos no início o preço de sermos precursores. Pagamos nos anos 1980 o preço de não termos aquele sotaque da música negra norte americana mais recorrente. Pagamos na volta da Europa o preço de não sermos suficientemente “brasileiros” e continuamos a pagar ainda hoje o mesmo preço pela nossa insistência em sermos independentes e originais, não nos rendendo à “modinha” do Afro Beat do Fela Kuti, por exemplo.

Mas seria isto mesmo? De relance, as vezes, achamos que estamos mesmo é envoltos no manto de invisibilidade que cobre toda manifestação artística e cultural de negros no Brasil, enredados nesse racismo nosso de cada dia.

Com efeito, na crônica da música popular do Brasil, tem sido muito recorrente o ostracismo a que são relegados artistas negros com propostas não conformistas ou submissas às leis rasas do mercado local. Quantos não raparam fora para deslancharem suas carreiras no exterior?

“_Vocês não são crioulos? Toquem Samba tradicional, ora!”_ Nos diziam alguns produtores e críticos dos anos 1970/1980.

“_ Vocês não são crioulos? Toquem Fela Kuti, ora!_” Nos diz hoje a garotada branca que controla a incipiente cena musical “africana” do Rio de Janeiro.

Será que sermos, enfim uma verdadeira banda de crioulos musicalmente insubmissos, rebeldes é o verdadeiro “xis” do problema?

_” Vocês não se dizem crioulos rebeldes? Toquem Funk, ora!”_ Penso ouvir gritar pra mim um MC de “Proibidão’ na saída de um show no Complexo da Maré.

(Já nos mandaram tocar Raggae music também, claro!)

Afinal, porque esta cisma misteriosa do mercado com o Vissungo véio de guerra? Alguma pista para vocês nesta resenha sobre o perfil, supostamente maldito de nossa proposta? Jamais saberemos e por isto seguimos empávidos e felizes. Alguém, algum biógrafo que descubra .

Fica, portanto um conselho óbvio para vocês, amados fãs empedernidos de nossa rebeldia.

Visitem nossa página do Facebook. Falem de nossa saga, ouçam, vejam, divulguem, comprem, sugiram que comprem shows do Vissungo por este país afora.

_Alô, Brasília! Alô, São Paulo! Alô Belo Horizonte! Alô Salvador! Alô, Brasil!

Estamos em ponto de bala e os senhores do mercado para nós são…vocês.

Somos o VISSUNGO do K I L O M B O L O K O, morou?

(Fotos de Caio Rosa na Arena Cultural Dicró, na Penha em 04/07/2015. Veja o álbum)

Spirito Santo.
06/97/2015

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