Zé Maria no Kalunga Ngombe. Tributo ao branco que foi grande

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 A descolonização da saudade de Zé Maria Nunes Pereira, o eterno mestre branco da minha negritude.

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…A raiz da minha história está na separação dos meus pais, quando eu tinha seis anos. Se desquitaram, fiquei com meu pai e fomos morar, primeiro, numa república de portugueses, depois,papai comprou um casarão enorme e fui criado por uma família negra: Mãe Lúcia, as irmãs e os meus dois irmãos de criação, que eram mais velhos e me protegiam..”

…”Fui um menino de bairro negro e de cais do porto; das minhas janelas eu via o cais. E mãe Lúcia teve muita influência em mim. Ela sempre se preocupava em dizer: “Você vai ser grande branco.”

…Ela era da ‘Casa das Minas’, mas nunca me levou para lá, escondia tudo o que era de culto. As nossas velhas de antigamente queriam que a nossa gente negra fosse criada no mundo dos brancos. Não era por alienação, era para vencer. Eu é que fazia ao contrário.

…Eu sempre fui um assimilado ao contrário, um sujeito africanizado desde muito cedo. Foi uma influência que pareceu depois esquecida, mas mais tarde veio a marcar muito a minha vida.

Agora, no dia 4 de dezembro, dia de Iansã, ela faria 100 anos se estivesse viva. Ela e papai morreram com dois meses de diferença. Eles se amasiaram, ele morreu, e ela morreu dois meses depois.”

(Entrevista concedida entre 15 e 28 de dezembro de 2006, no Rio de Janeiro, a Verena Alberti e Amílcar Araújo Pereira)

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Não tenho na minha já velha memória nenhuma referência de mestre, sábio condutor de vidas, maior que este maranhense emotivo que soube hoje que se foi. Nem encontro palavras para descrever a perda irreparável que a alma vívida e intensa dele fará no rol de minhas memórias mais preciosas, na memória de todos que conviveram com ele.

No início dos anos 1970, eu jovenzinho ainda, o conheci na seção de Ipanema da Universidade Cândido Mendes. Ali, pela modesta injunção dele, em tumultuados, quase anárquicos encontros vespertinos, se urdia o que viria ser o refundado Movimento Negro Brasileiro.

Não vejo ninguém lhe dando este crédito merecido (quem sabe talvez por julgá-lo um branco a mais) mas no meu entender, ele é sim o principal instigador desta refundação daquilo que, aglutinando grupos diversos de negros, naqueles politizados, embora tensos anos da ditadura militar, acabou gerando sólidas instituições, o IPCN carioca e o MNU nacional, para citar apenas as mais bem sucedidas, inspiração para a criação de dezenas de outras instituições antirracistas, políticas, culturais e artísticas pelo Brasil afora.

Mas ele será sempre reconhecido por todos pelo seu incansável trabalho de intelectual militante pela descolonização e a libertação da África, ainda envolta em sangrentas guerras naquela época em que tive o enorme prazer de conhecê-lo.

Sem nenhuma dúvida, tudo que sou hoje, esta ligação com a pesquisa da cultura do negro no Brasil, a escrita, a música, tudo dessas mesmas coisas, o kissange e a marimba dos quais me tornei mestre fazedor e ensinador, o Grupo Vissungo, o Musikfabrik, meu textos meu livro, tudo que sou como intelectual orgânico, compulsivo, veio dele, espécie de pai do que me transformei:  José Maria Nunes Pereira.

A memória mais intensa que me vem dele agora, vivificada pela tristeza de perdê-lo, é a de uma daquelas tardes de sábado num pequeno quarto do apartamento da Rua Dois de Dezembro onde ele, dadivoso, com a intensa emoção que o caracterizava, abria mapas, tocava vinis, cedia cópias em fitas K7 (as quais guardo até hoje) emprestava livros, nos iniciando, ele, o branco, nas coisas da África negra – de Angola, principalmente- sua grande paixão.

A cena é ele, o querido Zé Maria, no calor do quarto, ás lágrimas cantando para nós, pobres rapazes negros ignorantes e atônitos, um poema de Agostinho Neto musicado por Rui Mingas que deixo aqui como tributo saudoso a esse branco que foi grande.

Mãe Angola
(Adeus à hora da largada)

Minha mãe
tu me ensinaste a esperar
como esperaste paciente nas horas difíceis
Mas em mim, a vida matou esta mística esperança
Eu não espero. Sou aquele por quem se esperar

A esperança somos nós os teus filhos
nascidos par uma fé que alimenta a vida

Nossas crianças nuas
nas senzalas do mato
Os garotos sem escola
a jogar bolas de trapos

Nos areais ao meio dia
Nós mesmos, os contratados
a queimar a vida nos cafezais

Os homens negros, ignorantes
que devem respeitar o branco
e temer o rico.

Somos os teus filhos
dos bairros de pobres
conforme concebes
com vergonha de te chamarmos mãe
com medo de atravessar a rua
com medo dos homens
Somos nós a esperança
em busca da vida.”

——–

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José Maria Nunes Pereira Conceição foi um dos fundadores, em 1973, do Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) da Faculdade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, uma instituição de referencia para assuntos ligados à África e suas relações com o Brasil. Nascido em São Luis do Maranhão (1937), estudou em Portugal (1947-1962) e participou dos movimentos de libertação das colônias ponuguesas na África.

Graduou-se em ciências sociais na UFF (1972), foi pro­fessor de história da África e editor da revista Estudos Afro-Asiáticos, do CEAA (1978-1986). Sua dissertaçáo de mestrado em sociologia, defendida na USP em 1991, teve como tema o centro de estudos que fundou: ”Os estudos africanos no Brasil e as relações com a África – um estudo de caso: o CEAA (1973-1986)”. A tese de doutorado, também defendida na USP, em 1999, intilulou-se “Angola: uma política externa em contexto de crise (1975- 1994)”.

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Spírito Santo
Julho 2015

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~ por Spirito Santo em 11/07/2015.

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