Penachos de Nzambi a Npungo. O Misifio de Aruanda é do Kariri


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Minas Gerais, 1888/89. Grupo de Congada  (aparentemente um terno de catupé) em festa de comemoração da Abolição da escravatura, recém promulgada. A maioria dos participantes (tocadores  de “ganzás”/reco recos) usam penachos indígenas (indígenas?). Atenção para o orgulhoso “capitão” do terno e as fardas dos “soldados (sendo um descalço) “, em modelito Guerra do Paraguai)

O mimetismo como princípio atávico da cultura preta, branca, humana enfim

Não é, de modo algum academicismo ingênuo, sexo dos anjos, bizantinice. O tema é que tem – como todo assunto-delícia – doses generosas de subjetividade. O prazer instigador das hipóteses, alimento essencial da construção do conhecimento humano.

Penachos, cocares de indígenas daqui e dali.

Detentores de um mistério ainda a ser revelado por novas pesquisas, os “caboclos” (“Índios“) parecem guardar uma estranha relação com os “nkisi“, entidades religiosas angolanas que aparecem, insistentemente sob esta forma ameríndia em cultos afros brasileiros desde, pelo menos o final do século 19.

(Para os leigos e os inocentes, Titio informa que “nkisi“, no vernáculo kikongo, língua angolana da qual a palavra é oriunda, significa, literalmente “imagem”, “Ídolo“. É, exatamente o mesmo sentido que tem a palavra “Orisa“(orixá), do vernáculo yoruba para os adeptos do candomblé.

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    Século 19 – “Nkisi” angolano com penacho

    Ídolo” com o sentido de representação gráfica ou escultórica ou mesmo teatral de uma entidade espiritual, o mesmo que “Santo” no catolicismo português. Uma imagem de “Santo Antônio“, por exemplo, como as encontradas em escavações de sítios arqueológicos ligados à escravidão nas Américas (inclusive Palmares) pode, por isto mesmo ser chamada de “Nkisi“. Do mesmo modo, um devoto incorporado, tomado por uma entidade mística africana qualquer, pode se entender tomado “pelo seu santo”. É o mimetismo semântico provando que também as palavras, como as ideias e as memórias, se acasalam.

A classificação “caboclo-nkisi“, a propósito, pode parecer sim um tanto leviana, ou gratuita, quando consideramos que não deveria ser tão inusitado assim, termos manifestações culturais ameríndias nessas regiões do Brasil. Todo mundo sabe, ou intui sobre a enorme presença indígena na formação do povo nordestino, kariri, pataxó, potiguar, só para nos referirmos às etnias ameríndias mais recorrentes.

Mas estamos tratando aqui, mais precisamente é da enorme sintonia, quase simbiose observada entre diversos elementos da estética, do vestuário, da ritualística ameríndia e mais o que seja, com manifestações religiosas africanas no Brasil e, de certo modo, também no Caribe (“Caraíbas“).

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1950. Festa do Divino. Batuqueiros de penacho da Banda do 3o Batalhão da PM de Diamantina, MG

 

Destaque-se que, com efeito, esta intrigante profusão de índios (“caboclos”) em manifestações culturais ou religiosas, tipicamente africanas chamou muito a atenção de inusitados detratores: acadêmicos proto antropologistas, reunidos em um Congresso Afro Brasileiro realizado em Salvador, Bahia em 1937. Ando falando muito disso por aqui (Edson Carneiro, Arthur Ramos, etc. esses acadêmicos canônicos, tão célebres)

Essas entidades religiosas denominadas “Caboclos“, com efeito, marcadas por esta espécie de simbiose com as práticas ameríndias citadas, representaram, pelo menos até a década de 1930, livremente (e representam ainda hoje, aqui e ali) uma verdadeira corrente espiritual afro-religiosa, paralela ao chamado “culto dos orixás” yoruba (como uma espécie de seu similar não canônico), corrente esta ligada, aliás, de forma simbiótica como constatamos, muito mais aos cultos afro religiosos de inspiração angolana do que a qualquer outra raiz étnica.

Considere-se também que práticas religiosas angolanas, já com esse processo de acasalamento com as ameríndias avançado na década de 1930, foram também expurgadas no mesmo ensejo, consideradas “impuras”, indignas da chancela de “religião puramente afro-brasileira“. A rubrica ‘Candomblé de Angola“, por exemplo, nada mais é, proponho, do que o enquadramento forçado de práticas originais kimbundo e ovimbundo à uma ortodoxia e ritualística jêje-nagô, como uma espécie de “linha secundária”, subalterna daquela.

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Década de 1950. Fortaleza, Ceará. Na foto integrantes do grupo de maracatu “Estrela Brilhante” . Índios em profusão.

O fato é que essas personagens afro-ameríndias, junto com personagens, entidades e práticas originais angolanas (de matriz kimbundo e ovimbundo, como disse), a partir dessa época, foram então sendo gradual e sutilmente alijadas das manifestações religiosas afro-negras nordestinas (a partir de supostas maquinações políticas que visavam dar um status oficial de “pureza africana” ao estabilishment afro-religioso local, dominado por personalidades nagô ou de ascendência nigeriana ou yoruba)

É a partir da década de 1950, que essas entidades místicas…indígenas (“caboclos-Nkisi”) já asiladas em cultos afro-religiosos denominados “Umbanda” (“Mbanda”) ou “Quimbanda” (“Ki-Mbanda“), tratadas como “magia negra”, charlatanismo barato por puristas do candomblé e da academia, passaram a ser mais encontradas no carnaval do nordeste (Bahia, Pernambuco, Ceará, etc.), com o nome de “Cordões de Índios“, integrando grupos de Maracatu ou mesmo, as vezes fora do carnaval, sob o nome de “Caboclinhos” uma prática cultural bem popular até hoje na Bahia e adjacências.

Esses “Caboclos” ou “Índios“, em contexto cultural digamos assim, profano, foram muito comuns também no carnaval do Sudeste do Brasil. Os mais velhos como este autor tiveram a chance de testemunhar, pessoalmente aqui no Rio, a exuberância dessas figuras típicas da selva, quase ancestrais, vestidas de forma hiper-realista, entre as quais as mais imponentes – e atemorizantes – eram os chamados “Caciques“.

Pesquisas ainda muito preliminares deste autor, atribuem essa proximidade estética entre entidades religiosas ameríndias e africanas, a um ainda suposto mimetismo característico da filosofia (ou da doutrina) dos nkisi da área Mbundo (Ovimbundo-Kimbundo) angolana, que, segundo algumas evidências e docs., podem (devem) assumir a forma, a estética e alguns maneirismos do ambiente onde, eventualmente se encontram, seja ele qual for.

O processo, aliás, é bastante semelhante ao ocorrido no Palo Mayombe do Caribe (Cuba, Jamaica, Suriname, Haiti) onde, aliás, aspectos rituais de origem Congo/Angola (bakongo, principalmente), alimentados por traços jéje (culturas Ewe/Fon do Dahomey/Benin) geraram marcas ritualísticas e estéticas muito semelhantes ao Vudu haitiano, por sua vez tão aparentado à nossa sobrevivente Umbanda (sem falar na “Casa das Minas” do Maranhão, claro) ou mesmo aos nossos pujantes candombes e nossas vibrantes congadas da angolaníssima Minas Gerais.

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“Gongá” (“ngonga”/altar) angolano-brasileiro com “caboclos” e “preto-velhos” reunidos.

Como se vê, esta simbiose entre culturas negras (e indígenas) de várias partes da África (as que para cá vieram, em maior número)  exercem uma vívida sinergia histórica na diáspora negra americana, mascarada, omitida, talvez apenas aqui no Brasil.

Este mimetismo cultural tão claramente expresso nesses exemplos, suponhamos, pode ser a chave para se explicar o complexo (e pouco estudado ainda, por puro preconceito) processo de franca expansão da cultura Congo/Angola na Diáspora americana, processo este oriundo talvez, de um idêntico e precursor mimetismo, ocorrido entre a cultura autócne dos bakongo do norte da Angola atual e o catolicismo português introduzido pelos padres jesuítas das expedições de Diogo Cão, ainda no século 15 e, posteriormente por padres capuchinhos, enviados á Angola pela Propaganda Fide do Vaticano, numa época em que o Catolicismo e Islamismo, desempenhavam no mundo, quase exatamente o mesmo papel ideológico que o Capitalismo e o Socialismo desempenharam para o “novo mundo” na Guerra Fria,

Falo portanto da possibilidade da cultura Congo-Angola (mas não apenas ela, quiçá todas as culturas humanas), possuir como uma de suas características fundamentais isto que eu chamei de Mimetismo Cultural, uma capacidade especial, inata de sobrevivência, de adaptação das culturas a um certo meio social, mesmo no contexto de privações inomináveis, quase insuportáveis, como foi a escravidão.

Por este nosso entendimento, modernas teorias antropológicas ligadas á ‘Mestiçagem“, a “Crioulidade” ou ao ‘Hibridismo Cultural”, sutilmente eugenistas por terem seus pézinhos ainda assentados nas velhas teses (racismo “científico” reciclado, “democracia racial”, etc.) de Nina Rodrigues e Gilberto Freire, não passariam muito de obviedades irrelevantes, ideologicamente capciosas, não muito mais que chuva ácida no molhado da velha desigualdade sócio “racial” de sempre, uma espécie de teoria da manutenção ad infinitum do status quo.

Ora, vamos refletir: se não existem raças, não pode existir “mistura racial“, mesmo no campo estrito da Cultura. Logo não faz muito sentido supor, portanto, que possam existir “predisposições genéticas” identificáveis na cultura de grupos humanos isolados ou próximos, a ponto de se considerar discrepantes, esta ou aquela diferença ou especificidade nos traços culturais de brancos e negros, por exemplo, que possam ser atribuídas à constituição genética de uns ou de outros.

Juntos, porém nunca misturados. Sempre diversos, o que nos torna culturamente diferentes é o meio, as curcunstancias ambientais, a História, a vida enfim, ora!

Seria, naturalmente racista por isso mesmo, toda teoria que supõe ou sugere a possibilidade de existir algum tipo de possível dicotomia sócio “racial” (tal como: culturalmente brancos – só por serem brancos – seriam assim: “pragmáticos” e os pretos, por razão similar seriam assados: “intuitivos” – por exemplo), principalmente se estas suposições – mesmo insinuadamente – se basearem em algum tipo de parâmetro ligado à “pureza” ou à “impureza” eventualmente embutidas nas características étnicas de cada grupo.

A bibliografia em torno de temas dessa praia afro-brasileira tão encapelada de ondas turvas, está bastante contaminada por esses desvios…epistemológicos de seu passado. Ainda hoje nossos estudos acadêmicos, infelizmente se valem de uma bibliografia predominantemente racista (o monstro insiste em não morrer), embora cada vez mais sutil e ardilosa.

Falta-nos uma antropologia menos laudatória desses cânones rasos todos, mais interessada em sair em campo para quebrar seus mitos interesseiros e se assumir como ciência com probidade. Falta muito a investigar, pesquisar, atestar e escrever: A incúria de nossas ciências sociais em seus vícios coloniais e sua renitente mania de nos dividir para imperar é imensa e antiga.

A inusitada existência de penachos e cocares de indígenas americanos na cabeça de gente descendente de ex-indígenas africanos, bem como a sistemática exclusão destes do âmbito dos terreiros da Bahia, por parte da academia e da casta nagô, a partir de 1937, sob pretextos ideológicos deslavadamente puristas, pode nos dizer muita coisa sobre isso.

Pois é. Assim Titio vai aprofundando o assunto, por aqui ou, oportunamente por ali, um dia após o outro. Enquanto isso, reflita por si mesmo.

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Índios brasileiros reais visitam terreiro de Umbanda

Mas a saga maravilhosa do “Caboclo-Nkisi” não acaba assim, não acaba nunca.

Já nos provisórios finalmentes desse post, na hora mesmo de passar a régua de uma última revisão de conceitos, eis que me surge a visão do quão sem fim é este fio de meada tão enovelado na relatividade mais incrível dessa vida:

O que serão esses blocos de índio de Salvador, Bahia, gente? Alguém já estudou isso? Mas estudou mesmo? Sim, porque tem muita gente que pensa que a História avança aos saltos.

Nascidos, segundo consta no fim da década de 1960. Soube de ler por alto que foram inspirados dos grandes blocos de índios do Rio de Janeiro (Cacique de Ramos, por exemplo, que é o padrinho do Apaxes de Salvador) todos, vamos pensar bem, tanto em Salvador quanto no Rio, blocos tipicamente afro-brasileiros, com massa de foliões majoritariamente negra.

De onde veio isso? Claro que não pode ter nascido assim, do nada, sem fundamento ou passado.

Certo: São todos calcados nos índios do mainstream, índios de hollywood, por suposto, apaches, comanches, sioux, moicanos, mas vamos pensar, vejam lá como é hoje a estética dos “Caboclo-Nkisi” da nossa Umbanda…Vejam lá!

Comanches, sioux, moicanos, ovimbundos, kimbundos…African Red-Black indians, sei lá.

Só sei que é assim.

(A tese, o insight sobre o Mimetismo em especial (versus “hibridismo”, “mestiçagem” essas coisas)- até prova em contrário – é do Titio. Ninguém tasca.

Sobre penachos, diretamente ouvi pela primeira vez interessantes impressões de Rafael Galante e Maria Paula Adinolfi. Podem ser referendadas também como estando no bojo do assunto o trabalho de Ana Stella Cunha).

A propósito, convém enfatizar que os penachos de “nkisi”, ou mesmo em personagens humanos representando entidades, não são, exatamente muito comuns em Angola)…mas o são em Moçambique, ahá!

(Observações recentes deste autor- 2017 -, notadamente iconográficas, nos dão conta da grande profusão de penachos nas festas de rua da Corte do Rio, praticadas por grupos denominados de Kukumbis no imediato pré abolição. Nada indica que esses penachos tenham qualquer coisa a ver com indígenas ameríndios.

Uma rápida olhada na iconografia da cultura  tradicional dessa região moçambicana, com efeito, nos mostra inúmeras manifestações que usam de modo recorrente majestosos penachos. Ao que tudo indica, portanto, pelo menos nesse caso, os penachos da cultura negra do Brasil foram trazidos do Inhambane/Moçambique para cá. Os “indígenas” que cito, sendo assim, podem ter sido..africanos também)

Spirito Santo

27/8/2015
Ano do 6.8 do Titio

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MOCA,1968: Subversão suburbana em pauta no JB


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A arte rebelde no “Refúgio dos infelizes” de infeliz não tinha nada.

Não lembrava, e assim jamais poderia imaginar que a inauguração desta minha sanha de artista, essa inquietude de bicho carpinteiro meio remédio, meio doença, tivesse sido registrada assim tão gloriosamente. Poucos são os que têm esta chance, esta sorte incrível de encontrar à mão portais de seu passado pessoal, uma janela virada para o quintal dos fundos da alma, assim, do nada.

O ensejo é simples e já até o esbocei aqui: Ex-preso político, ando ultimamente à cata de evidências materiais de minha efêmera subversividade, para juntar aos autos de meu pedido de anistia ao Ministério da Justiça. As maravilhas da Internet passaram a facilitar em muito essa busca, pois, acaba de surgir a hemeroteca da Biblioteca Nacional e é lá que inúmeros registros sobre as estrepolias do Titio vão aparecendo.

Minha fama fugidia (sim, porque sou um quase famoso nessa hemeroteca) está condensada em poucos anos, aqueles mais em brasa, os mais decisivos entre 1968 e 1970, com a parte mais traumática concentrada, principalmente no período entre Abril de 1968 – quando sei lá por que forças movido, ajudo a formar um alegre grupo cultural suburbano – e Janeiro de 1969, quando sou preso pela ditadura.

Pois é o virtual início dessa minha saga juvenil que acabo de encontrar, na página 5 do inesquecível Caderno B do Jornal do Brasil de 15 de Maio de 1968, na época o mais importante suplemento cultural o país.

A memória apagou sem deixar muitos vestígios este momento. O trauma da prisão, aliás, apagou quase tudo dessa época. Salva-me esta querida hemeroteca. Pelo que a página do JB sugere, uma jovem jornalista da área cultural do jornal partiu para os cafundós do subúrbio mais distante, muito afim de entrevistar os integrantes de um altamente improvável grupo cultural do fim do mundo, voltado, principalmente para o Teatro e a Música.

A época era a do recrusdecimento da resistência à ditadura militar que, com o racha do que seria o “Partidão” (Partido Comunista Brasileiro) e sua pulverização em várias micro organizações de esquerda, assumia já a forma de luta armada “no campo e na cidade”.

A resistência da classe artística à ditadura, que exercia, como se sabe, pesada censura sobre atividades culturais de qualquer tipo, já era sentida de forma intensa e presumo que foi a militância desta classe artística (conhecida, pejorativamente como “Esquerda Festiva“) que estimulou a jovem jornalista a sugerir essa pauta e ao editor autorizar sua ida, de certo modo arriscada, às cercanias de Padre Miguel, subúrbio tão distante que, na ocasião estava localizado ainda na região conhecida como Zona Rural da cidade do Rio.

A matéria, que ocupa um lugar de destaque no caderno B, é longa, bem escrita e reflete minuciosamente o que éramos – sem que nos déssemos conta – : uma inacreditável e destemida experiência de insubordinação política, praticada por jovens, praticamente adolescentes ainda, baseada na difusão da arte e da cultura num dos cantões mais remotos da cidade.

(E o Titio lá, exatamente como ainda está por cá.)

Passei boa parte do dia de ontem buscando dados sobre Stella Senra, a jovem jornalista autora do artigo. Surpreso, soube que ela ficou famosa, se tornando uma importante especialista em sociologia da imagem, teve uma carreira acadêmica brilhante, participou da Comissão da Verdade e tem uma obra teórica bastante profusa. Infelizmente os registros que encontrei sobre Stella e os desdobramentos de seu trabalho são de 2014 (Leia mais sobre essa admirável pessoa no fim desse post.)

As ações “subversivas” do MOCA, o grupo cultural criado pelo jovem Titio e seus intrépidos amigos quase guris, como não podia deixar de ser, evoluíram rapidamente para o meu engajamento num grupo da esquerda armada (a VAR Palmares), envolvimento este, de aprendiz de guerrilheiro, orgulhoso “pé-de-chinelo”, logo interrompido pela minha prisão numa madrugada chuvosa de uma rua de Padre Miguel.

(_Olha a “Mocidade” aí, gente!)

Como registro curioso do quanto era perigoso fazer arte e cultura naqueles anos, vejam este trecho de uma das matérias que saiu na imprensa da época sobre a minha prisão e o inquérito policial militar que ela gerou:

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A experiência do MOCA, mesmo assim, violentamente reprimida e precocemente interrompida, rendeu muitos frutos. Um dos mais importantes foi a invenção do gente boa Aurélio de Simoni, que se transformou num dos melhores iluminadores de teatro do país, justo ele, aluno do CPOR (um centro de formação militar) que no MOCA não tinha nenhuma vocação artística insinuada e em cuja casa o grupo se reunia. Sem falar nas crias: O MOITA do Méier, ainda de 1968, com um dos integrantes preso junto com o Titio e, que eu me lembre, logo a seguir e surgidos no mesmo subúrbio, o “Garra Suburbana” e o profícuo “Panela de Pressão” do bom amigo Sidnei Cruz, hoje um renomado diretor de teatro.

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MOCA, QUANDO A ARTE TAMBÉM VAI AO SUBÚRBIO
Por Stella Senra – 15 de Maio de 1968, para o caderno B do Jornal do Brasil

“No princípio era apenas um grupo de estudantes que viajava no mesmo trem entre a escola, o trabalho e casa. Depois eles começaram a se reunir nos fins de semana em festinhas na casa dos amigos. Moradores do subúrbio eles conheciam bem das limitações de seus bairros, mas foi então que descobriram que a escola lhes abria caminhos que nem todos os moradores do subúrbio podiam conhecer.

Assim nasceu a idéia. Porque não contribuir para que os moradores do subúrbio tivessem também acesso à cultura? Se não tinham condições econômicas para ver peças, ler livros ou ouvir música de boa qualidade, por que não levar até eles o teatro, a biblioteca, a discoteca, à preços acessíveis? A resposta a estas perguntas poderia parecer um tanto ousada para um grupo de jovens sem dinheiro, mas eles se puseram a trabalhar. Foi então que nasceu o MOCA, Movimento Cultural e Artístico. Sua finalidade: Através da arte, levar a cultura à população do subúrbio.

As reuniões do MOCA se realizam nos fundos da casa de um de seus membros, em Senador Camará*. Na parede um mural com recortes de jornal sobre os últimos acontecimentos – a morte de Lhuter King, os conflitos dos estudantes com a polícia do Rio, um crítica de televisão. Na mesa o projeto do cartaz da peça que o grupo está montando. É o rosto de um homem com o título: “Zé Menino, Vida e História“. Ao lado o símbolo do MOCA: Uma seta dentro de um quadrado.

Do pequeno jardim da entrada se escuta o barulho das vozes lá dentro. Risadas e muita conversa tumultuada antes de começar a reunião. Hoje estão presekntes 20 jovens. são os da ativa, os que trabalham para o MOCA em todas as suas horas de folga. Vestem-se muito simplesmente e as moças estão discretamente maquiadas. São os Moquinhas, 36 membros ao todo, moradores de subúrbio, principalmente Campo Grande, Bangu e Realengo. A maioria é de secundaristas, mas há alguns universitários.

Quase todos trabalham para se manter. Por isso só podem se reunir aos sábados e domingos:

_”Nós nos consideramos a classe privilegiada daqui, pois, a grande maioria da população daqui é semi-analfabeta. Conhecemos muito bem o nosso meio e dispomos dos elementos necessários para fazer um movimento que atinja as pessoas nas sua casa, no conforto de seu dia-a-dia e que as faça pensar um pouco. Isto é que é importante, fazer com que as pessoas se façam perguntas” _ explica um rapaz de calça Lee.

Para fazer as pessoas se perguntarem, o MOCA se organizou em três setores: Musical, Teatral e Literário, unidos por uma coordenação. Cada setor tem o seu coordenador e todos os elementos colaboram com ele.

A SOMA DA EXPERIÊNCIA

Antes do grupo começar a funcionar, organizou-se uma pesquisa de opinião pública abrangendo as áreas onde sua atuação seria mais presente. Vários grupos saíram às ruas, falando com as pessoas em suas casas, para conhecer melhor o pessoal, estudar a receptividade que seu movimento encontraria e procurar sugestões por parte dos interessados.

_”Foi uma experiência maravilhosa” _ conta um dos rapazes _ em alguns lugares éramos recebidos com o maior calor. Uma moça ficou tão contente em nos ouvir que acabou contando toda a sua vida. Numa outra casa a mulher de um metalúrgico fez sugestões que nos ajudaram muito. Um casal que estava brigando não quis receber as moças do grupo e o marido mandou-as embora. Depois a mulher pediu desculpas e contou todos os seus sofrimentos com o marido para um segundo grupo que a procurou.

A CONTRIBUIÇÃO DA MÚSICA

Antonio José do Espírito Santo é um dos compositores do grupo e o encarregado pelo setor musical. Sem nunca ter estudado música ou tocar qualquer instrumento já compôs várias músicas. Tem 20 anos, é secundarista e classificou duas músicas** no I Festival Estudantil ano passado: O “Samba de Morte” e “Roda de Sorrir”. Acompanhando-se com uma caixa de fósforos canta com uma voz bonita e sempre rindo a história de um samba roubado no morro. É o Samba de Morte, que segue a linha de Noel Rosa, tem uma melodia simples e letra muito rica. De vez em quando o grupo canta em coro.

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Titio, com Norma Blum, todo pimpão com o prêmio no festival, três meses após a entrevista de Stella Senra com o MOCA

O plano do setor musical é montar um show para angariar fundos para o grupo. Eles têm dois violonistas, um trio vocal e compositores não faltam. A direção (musical: nota do Titio) da peça que o grupo está montando também está a cargo de Antônio.

O TEATRO ACESSÍVEL

Luiz Alberto Rodrigues tem 20 anos e é o autor (e diretor: nota do Titio) da peça “Zé Menino, vida e história”. Além dessa já escreveu mais duas, mas “Zé Menino” é a primeira a ser montada. Seu contato com o teatro é feito, principalmente a partir da leitura de peças, pois o dinheiro não dá para as entradas.

_”No máximo uma por mês” _ esclarece.

Agora Luiz Alberto está estudando Brecht e dirigindo sua própria peça.

A estréia de Zé Menino está marcada para fins de abril no Teatro Arthur Azevedo, em Campo Grande. Depois grupo pretende correr os diretórios acadêmicos, levar a peça aos clubes de subúrbio e às ruas. “Será cobrada uma entrada mínima, pois, no subúrbio ninguém pode pagar entrada”.

O encarregado pelo setor literário também é Antonio José. O grupo já conseguiu juntar uma biblioteca de cem volumes que deverá ir para as ruas. Futuramente eles gostariam de construir um barracão para ali instalar os livros e uma pequena biblioteca. O primeiro dinheiro que o grupo conseguir reverterá para a biblioteca. Também faz parte dos planos a instalação de um programa de alfabetização e as comissões já estão constituídas.

Stella Senra
15 de Maio de 1968, para o caderno B do Jornal do Brasil

Notas:
* Na verdade as reuniões eram em Guilherme da Silveira, bairro entre Padre Miguel e Bangu
**Havia classificado apenas uma música, que se chamava “Havia”. A música teve excelente desempenho, ficou em terceiro lugar, com o Titio cantor sendo o melhor intérprete.v

Feliz demais em re-constatar que nada fiz senão seguir com perseverança – e certa compulsão, confesso – aquela mesma missão do fim da adolescência. É assim que o jovem Titio idoso que sou, insiste:

_”Que bom sobreviver!”

Spirito Santo
Agosto de 2015 (mês dos 68 anos do Titio)

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A então jovem jornalista Stella Senra em foto recente

(Stella Senra é pesquisadora nas áreas de cinema, vídeo e fotografia, com textos publicados em livros, revistas especializadas e catálogos. Foi professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de O último jornalista – imagens de cinema (1997; Estação Liberdade), assina o posfácio de Abbas Kiarostami, de Youssef Ishaghpour (2004; Cosac Naify), e Marcados, da fotógrafa Claudia Andujar (2009; Cosac Naify).