MOCA,1968: Subversão suburbana em pauta no JB

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A arte rebelde no “Refúgio dos infelizes” de infeliz não tinha nada.

Não lembrava, e assim jamais poderia imaginar que a inauguração desta minha sanha de artista, essa inquietude de bicho carpinteiro meio remédio, meio doença, tivesse sido registrada assim tão gloriosamente. Poucos são os que têm esta chance, esta sorte incrível de encontrar à mão portais de seu passado pessoal, uma janela virada para o quintal dos fundos da alma, assim, do nada.

O ensejo é simples e já até o esbocei aqui: Ex-preso político, ando ultimamente à cata de evidências materiais de minha efêmera subversividade, para juntar aos autos de meu pedido de anistia ao Ministério da Justiça. As maravilhas da Internet passaram a facilitar em muito essa busca, pois, acaba de surgir a hemeroteca da Biblioteca Nacional e é lá que inúmeros registros sobre as estrepolias do Titio vão aparecendo.

Minha fama fugidia (sim, porque sou um quase famoso nessa hemeroteca) está condensada em poucos anos, aqueles mais em brasa, os mais decisivos entre 1968 e 1970, com a parte mais traumática concentrada, principalmente no período entre Abril de 1968 – quando sei lá por que forças movido, ajudo a formar um alegre grupo cultural suburbano – e Janeiro de 1969, quando sou preso pela ditadura.

Pois é o virtual início dessa minha saga juvenil que acabo de encontrar, na página 5 do inesquecível Caderno B do Jornal do Brasil de 15 de Maio de 1968, na época o mais importante suplemento cultural o país.

A memória apagou sem deixar muitos vestígios este momento. O trauma da prisão, aliás, apagou quase tudo dessa época. Salva-me esta querida hemeroteca. Pelo que a página do JB sugere, uma jovem jornalista da área cultural do jornal partiu para os cafundós do subúrbio mais distante, muito afim de entrevistar os integrantes de um altamente improvável grupo cultural do fim do mundo, voltado, principalmente para o Teatro e a Música.

A época era a do recrusdecimento da resistência à ditadura militar que, com o racha do que seria o “Partidão” (Partido Comunista Brasileiro) e sua pulverização em várias micro organizações de esquerda, assumia já a forma de luta armada “no campo e na cidade”.

A resistência da classe artística à ditadura, que exercia, como se sabe, pesada censura sobre atividades culturais de qualquer tipo, já era sentida de forma intensa e presumo que foi a militância desta classe artística (conhecida, pejorativamente como “Esquerda Festiva“) que estimulou a jovem jornalista a sugerir essa pauta e ao editor autorizar sua ida, de certo modo arriscada, às cercanias de Padre Miguel, subúrbio tão distante que, na ocasião estava localizado ainda na região conhecida como Zona Rural da cidade do Rio.

A matéria, que ocupa um lugar de destaque no caderno B, é longa, bem escrita e reflete minuciosamente o que éramos – sem que nos déssemos conta – : uma inacreditável e destemida experiência de insubordinação política, praticada por jovens, praticamente adolescentes ainda, baseada na difusão da arte e da cultura num dos cantões mais remotos da cidade.

(E o Titio lá, exatamente como ainda está por cá.)

Passei boa parte do dia de ontem buscando dados sobre Stella Senra, a jovem jornalista autora do artigo. Surpreso, soube que ela ficou famosa, se tornando uma importante especialista em sociologia da imagem, teve uma carreira acadêmica brilhante, participou da Comissão da Verdade e tem uma obra teórica bastante profusa. Infelizmente os registros que encontrei sobre Stella e os desdobramentos de seu trabalho são de 2014 (Leia mais sobre essa admirável pessoa no fim desse post.)

As ações “subversivas” do MOCA, o grupo cultural criado pelo jovem Titio e seus intrépidos amigos quase guris, como não podia deixar de ser, evoluíram rapidamente para o meu engajamento num grupo da esquerda armada (a VAR Palmares), envolvimento este, de aprendiz de guerrilheiro, orgulhoso “pé-de-chinelo”, logo interrompido pela minha prisão numa madrugada chuvosa de uma rua de Padre Miguel.

(_Olha a “Mocidade” aí, gente!)

Como registro curioso do quanto era perigoso fazer arte e cultura naqueles anos, vejam este trecho de uma das matérias que saiu na imprensa da época sobre a minha prisão e o inquérito policial militar que ela gerou:

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A experiência do MOCA, mesmo assim, violentamente reprimida e precocemente interrompida, rendeu muitos frutos. Um dos mais importantes foi a invenção do gente boa Aurélio de Simoni, que se transformou num dos melhores iluminadores de teatro do país, justo ele, aluno do CPOR (um centro de formação militar) que no MOCA não tinha nenhuma vocação artística insinuada e em cuja casa o grupo se reunia. Sem falar nas crias: O MOITA do Méier, ainda de 1968, com um dos integrantes preso junto com o Titio e, que eu me lembre, logo a seguir e surgidos no mesmo subúrbio, o “Garra Suburbana” e o profícuo “Panela de Pressão” do bom amigo Sidnei Cruz, hoje um renomado diretor de teatro.

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MOCA, QUANDO A ARTE TAMBÉM VAI AO SUBÚRBIO
Por Stella Senra – 15 de Maio de 1968, para o caderno B do Jornal do Brasil

“No princípio era apenas um grupo de estudantes que viajava no mesmo trem entre a escola, o trabalho e casa. Depois eles começaram a se reunir nos fins de semana em festinhas na casa dos amigos. Moradores do subúrbio eles conheciam bem das limitações de seus bairros, mas foi então que descobriram que a escola lhes abria caminhos que nem todos os moradores do subúrbio podiam conhecer.

Assim nasceu a idéia. Porque não contribuir para que os moradores do subúrbio tivessem também acesso à cultura? Se não tinham condições econômicas para ver peças, ler livros ou ouvir música de boa qualidade, por que não levar até eles o teatro, a biblioteca, a discoteca, à preços acessíveis? A resposta a estas perguntas poderia parecer um tanto ousada para um grupo de jovens sem dinheiro, mas eles se puseram a trabalhar. Foi então que nasceu o MOCA, Movimento Cultural e Artístico. Sua finalidade: Através da arte, levar a cultura à população do subúrbio.

As reuniões do MOCA se realizam nos fundos da casa de um de seus membros, em Senador Camará*. Na parede um mural com recortes de jornal sobre os últimos acontecimentos – a morte de Lhuter King, os conflitos dos estudantes com a polícia do Rio, um crítica de televisão. Na mesa o projeto do cartaz da peça que o grupo está montando. É o rosto de um homem com o título: “Zé Menino, Vida e História“. Ao lado o símbolo do MOCA: Uma seta dentro de um quadrado.

Do pequeno jardim da entrada se escuta o barulho das vozes lá dentro. Risadas e muita conversa tumultuada antes de começar a reunião. Hoje estão presekntes 20 jovens. são os da ativa, os que trabalham para o MOCA em todas as suas horas de folga. Vestem-se muito simplesmente e as moças estão discretamente maquiadas. São os Moquinhas, 36 membros ao todo, moradores de subúrbio, principalmente Campo Grande, Bangu e Realengo. A maioria é de secundaristas, mas há alguns universitários.

Quase todos trabalham para se manter. Por isso só podem se reunir aos sábados e domingos:

_”Nós nos consideramos a classe privilegiada daqui, pois, a grande maioria da população daqui é semi-analfabeta. Conhecemos muito bem o nosso meio e dispomos dos elementos necessários para fazer um movimento que atinja as pessoas nas sua casa, no conforto de seu dia-a-dia e que as faça pensar um pouco. Isto é que é importante, fazer com que as pessoas se façam perguntas” _ explica um rapaz de calça Lee.

Para fazer as pessoas se perguntarem, o MOCA se organizou em três setores: Musical, Teatral e Literário, unidos por uma coordenação. Cada setor tem o seu coordenador e todos os elementos colaboram com ele.

A SOMA DA EXPERIÊNCIA

Antes do grupo começar a funcionar, organizou-se uma pesquisa de opinião pública abrangendo as áreas onde sua atuação seria mais presente. Vários grupos saíram às ruas, falando com as pessoas em suas casas, para conhecer melhor o pessoal, estudar a receptividade que seu movimento encontraria e procurar sugestões por parte dos interessados.

_”Foi uma experiência maravilhosa” _ conta um dos rapazes _ em alguns lugares éramos recebidos com o maior calor. Uma moça ficou tão contente em nos ouvir que acabou contando toda a sua vida. Numa outra casa a mulher de um metalúrgico fez sugestões que nos ajudaram muito. Um casal que estava brigando não quis receber as moças do grupo e o marido mandou-as embora. Depois a mulher pediu desculpas e contou todos os seus sofrimentos com o marido para um segundo grupo que a procurou.

A CONTRIBUIÇÃO DA MÚSICA

Antonio José do Espírito Santo é um dos compositores do grupo e o encarregado pelo setor musical. Sem nunca ter estudado música ou tocar qualquer instrumento já compôs várias músicas. Tem 20 anos, é secundarista e classificou duas músicas** no I Festival Estudantil ano passado: O “Samba de Morte” e “Roda de Sorrir”. Acompanhando-se com uma caixa de fósforos canta com uma voz bonita e sempre rindo a história de um samba roubado no morro. É o Samba de Morte, que segue a linha de Noel Rosa, tem uma melodia simples e letra muito rica. De vez em quando o grupo canta em coro.

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Titio, com Norma Blum, todo pimpão com o prêmio no festival, três meses após a entrevista de Stella Senra com o MOCA

O plano do setor musical é montar um show para angariar fundos para o grupo. Eles têm dois violonistas, um trio vocal e compositores não faltam. A direção (musical: nota do Titio) da peça que o grupo está montando também está a cargo de Antônio.

O TEATRO ACESSÍVEL

Luiz Alberto Rodrigues tem 20 anos e é o autor (e diretor: nota do Titio) da peça “Zé Menino, vida e história”. Além dessa já escreveu mais duas, mas “Zé Menino” é a primeira a ser montada. Seu contato com o teatro é feito, principalmente a partir da leitura de peças, pois o dinheiro não dá para as entradas.

_”No máximo uma por mês” _ esclarece.

Agora Luiz Alberto está estudando Brecht e dirigindo sua própria peça.

A estréia de Zé Menino está marcada para fins de abril no Teatro Arthur Azevedo, em Campo Grande. Depois grupo pretende correr os diretórios acadêmicos, levar a peça aos clubes de subúrbio e às ruas. “Será cobrada uma entrada mínima, pois, no subúrbio ninguém pode pagar entrada”.

O encarregado pelo setor literário também é Antonio José. O grupo já conseguiu juntar uma biblioteca de cem volumes que deverá ir para as ruas. Futuramente eles gostariam de construir um barracão para ali instalar os livros e uma pequena biblioteca. O primeiro dinheiro que o grupo conseguir reverterá para a biblioteca. Também faz parte dos planos a instalação de um programa de alfabetização e as comissões já estão constituídas.

Stella Senra
15 de Maio de 1968, para o caderno B do Jornal do Brasil

Notas:
* Na verdade as reuniões eram em Guilherme da Silveira, bairro entre Padre Miguel e Bangu
**Havia classificado apenas uma música, que se chamava “Havia”. A música teve excelente desempenho, ficou em terceiro lugar, com o Titio cantor sendo o melhor intérprete.v

Feliz demais em re-constatar que nada fiz senão seguir com perseverança – e certa compulsão, confesso – aquela mesma missão do fim da adolescência. É assim que o jovem Titio idoso que sou, insiste:

_”Que bom sobreviver!”

Spirito Santo
Agosto de 2015 (mês dos 68 anos do Titio)

 

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A então jovem jornalista Stella Senra em foto recente

(Stella Senra é pesquisadora nas áreas de cinema, vídeo e fotografia, com textos publicados em livros, revistas especializadas e catálogos. Foi professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de O último jornalista – imagens de cinema (1997; Estação Liberdade), assina o posfácio de Abbas Kiarostami, de Youssef Ishaghpour (2004; Cosac Naify), e Marcados, da fotógrafa Claudia Andujar (2009; Cosac Naify).


 

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~ por Spirito Santo em 07/08/2015.

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