Penachos de Nzambi a Npungo. O Misifio de Aruanda é do Kariri

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Minas Gerais, 1888/89. Grupo de Congada  (aparentemente um terno de catupé) em festa de comemoração da Abolição da escravatura, recém promulgada. A maioria dos participantes (tocadores de “ganzás”/reco recos) usam penachos indígenas. Atenção para o orgulhoso “capitão” do terno e as fardas dos “soldados (sendo um descalço) “, em modelito Guerra do Paraguai)

O mimetismo como princípio atávico da cultura preta, branca, humana enfim

Não é, de modo algum academicismo ingênuo, sexo dos anjos, bizantinice. O tema é que tem – como todo assunto-delícia – doses generosas de subjetividade. O prazer instigador das hipóteses, alimento essencial da construção do conhecimento humano.

Penachos, cocares de indígenas daqui e dali.

Detentores de um mistério ainda a ser revelado por novas pesquisas, os “caboclos” (“Índios“) parecem guardar uma estranha relação com os “nkisi“, entidades religiosas angolanas que aparecem, insistentemente sob esta forma ameríndia em cultos afros brasileiros desde, pelo menos o final do século 19.

(Para os leigos e os inocentes, Titio informa que “nkisi“, no vernáculo kikongo, língua angolana da qual a palavra é oriunda, significa, literalmente “imagem”, “Ídolo“. É, exatamente o mesmo sentido que tem a palavra “Orisa“(orixá), do vernáculo yoruba para os adeptos do candomblé.

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    Século 19 – “Nkisi” angolano com penacho

    Ídolo” com o sentido de representação gráfica ou escultórica ou mesmo teatral de uma entidade espiritual, o mesmo que “Santo” no catolicismo português. Uma imagem de “Santo Antônio”, por exemplo, como as encontradas em escavações de sítios arqueológicos ligados à escravidão nas Américas (inclusive, se não me engano, Palmares) pode, por isto mesmo ser chamada de “Nkisi”. Do mesmo modo, um devoto incorporado, tomado por uma entidade mística africana qualquer, pode se entender tomado “pelo seu santo”. É o mimetismo semântico provando que também as palavras, como as ideias e as memórias, se acasalam.

A classificação “caboclo-nkisi“, a propósito, pode parecer sim um tanto leviana, ou gratuita, quando consideramos que não deveria ser tão inusitado assim, termos manifestações culturais ameríndias nessas regiões do Brasil. Todo mundo sabe, ou intui sobre a enorme presença indígena na formação do povo nordestino, kariri, pataxó, potiguar, só para nos referirmos às etnias ameríndias mais recorrentes.

Mas estamos tratando aqui, mais precisamente é da enorme sintonia, quase simbiose observada entre diversos elementos da estética, do vestuário, da ritualística ameríndia e mais o que seja, com manifestações religiosas africanas no Brasil e, de certo modo, também no Caribe (“Caraíbas“).

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1950. Festa do Divino. Batuqueiros de penacho da Banda do 3o Batalhão da PM de Diamantina, MG

 

Destaque-se que, com efeito, esta intrigante profusão de índios (“caboclos”) em manifestações culturais ou religiosas, tipicamente africanas chamou muito a atenção de inusitados detratores: acadêmicos proto arqueologistas, reunidos em um Congresso Afro Brasileiro realizado em Salvador, Bahia em 1937. Ando falando muito disso por aqui (Edson Carneiro, Arthur Ramos, etc. esses acadêmicos canônicos, tão célebres)

Essas entidades religiosas denominadas “Caboclos”, com efeito, marcadas por esta espécie de simbiose com as práticas ameríndias citadas, representaram, pelo menos até a década de 1930, livremente (e representam ainda hoje, aqui e ali) uma verdadeira corrente espiritual afro-religiosa, paralela ao chamado “culto dos orixás” yoruba (como uma espécie de seu similar não canônico), corrente esta ligada, aliás, de forma simbiótica como constatamos, muito mais aos cultos afro religiosos de inspiração angolana do que a qualquer outra raiz étnica.

Considere-se também que práticas religiosas angolanas, já com esse processo de acasalamento com as ameríndias avançado na década de 1930, foram também expurgadas no mesmo ensejo, consideradas “impuras”, indignas da chancela de “religião puramente afro-brasileira“. A rubrica ‘Candomblé de Angola“, por exemplo, nada mais é, proponho, do que o enquadramento forçado de práticas originais kimbundo e ovimbundo à uma ortodoxia e ritualística jêje-nagô, como uma espécie de “linha secundária”, subalterna daquela.

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Década de 1950. Fortaleza, Ceará. Na foto integrantes do grupo de maracatu “Estrela Brilhante” . Índios em profusão.

O fato é que essas personagens afro-ameríndias, junto com personagens, entidades e práticas originais angolanas (de matriz kimbundo e ovimbundo, como disse), a partir dessa época, foram então sendo gradual e sutilmente alijadas das manifestações religiosas afro-negras nordestinas (a partir de supostas maquinações políticas que visavam dar um status oficial de “pureza africana” ao estabilishment afro-religioso local, dominado por personalidades nagô ou de ascendência nigeriana ou yoruba)

É a partir da década de 1950, que essas entidades místicas…indígenas (“caboclos-Nkisi”) já asiladas em cultos afro-religiosos denominados “Umbanda” (“Mbanda”) ou “Quimbanda” (“Ki-Mbanda“), tratadas como “magia negra”, charlatanismo barato por puristas do candomblé e da academia, passaram a ser mais encontradas no carnaval do nordeste (Bahia, Pernambuco, Ceará, etc.), com o nome de “Cordões de Índios“, integrando grupos de Maracatu ou mesmo, as vezes fora do carnaval, sob o nome de “Caboclinhos” uma prática cultural bem popular até hoje na Bahia e adjacências.

Esses “Caboclos” ou “Índios“, em contexto cultural digamos assim, profano, foram muito comuns também no carnaval do Sudeste do Brasil. Os mais velhos como este autor tiveram a chance de testemunhar, pessoalmente aqui no Rio, a exuberância dessas figuras típicas da selva, quase ancestrais, vestidas de forma hiper-realista, entre as quais as mais imponentes – e atemorizantes – eram os chamados “Caciques“.

Pesquisas ainda muito preliminares do Titio, atribuem essa proximidade estética entre entidades religiosas ameríndias e africanas, a um ainda suposto mimetismo característico da filosofia (ou da doutrina) dos nkisi da área Mbundo (Ovimbundo-Kimbundo) angolana, que, segundo algumas evidências e docs., podem (devem) assumir a forma, a estética e alguns maneirismos do ambiente onde, eventualmente se encontram.

O processo, aliás, é bastante semelhante ao ocorrido no Palo Mayombe do Caribe (Cuba, Jamaica, Suriname, Haiti) onde, aliás, aspectos rituais de origem Congo/Angola (bakongo, principalmente), alimentados por traços jéje (culturas Ewe/Fon do Dahomey/Benin) geraram marcas ritualísticas e estéticas muito semelhantes ao Vudu haitiano, por sua vez tão aparentado à nossa sobrevivente Umbanda (sem falar na “Casa das Minas” do Maranhão, claro) ou mesmo aos nossos pujantes candombes e nossas vibrantes congadas da angolaníssima Minas Gerais.

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“Gongá” (“ngonga”/altar) angolano-brasileiro com “caboclos” e “preto-velhos” reunidos.

Como se vê, esta simbiose entre culturas negras (e indígenas) de várias partes da África (as que para cá vieram, em maior número) vivem uma vívida sinergia histórica na diáspora negra americana, mascarada, omitida, talvez apenas aqui no Brasil.

Este mimetismo cultural tão claramente expresso nesses exemplos, suponho, pode ser a chave para explicarmos o complexo (e pouco estudado ainda, por puro preconceito) processo de franca expansão da cultura Congo/Angola na Diáspora americana, processo este oriundo talvez, de um idêntico e precursor mimetismo, ocorrido entre a cultura autócne dos bakongo do norte da Angola atual e o catolicismo português introduzido pelos padres jesuítas das expedições de Diogo Cão, ainda no século 15 e, posteriormente por padres capuchinhos, enviados á Angola pela Propaganda Fide do Vaticano, numa época em que o Catolicismo e Islamismo, desempenhavam no mundo, quase exatamente o mesmo papel ideológico que o Capitalismo e o Socialismo desempenharam para o “novo mundo” na Guerra Fria,

Falo portanto da possibilidade da cultura Congo-Angola (mas não apenas ela, quiçá todas as culturas humanas), possuir como uma de suas características fundamentais isto que eu chamei de Mimetismo Cultural, uma capacidade especial, inata de sobrevivência, de adaptação das culturas a um certo meio social, mesmo no contexto de privações inomináveis, quase insuportáveis, como foi a escravidão.

Por este entendimento do Titio, modernas teorias antropológicas ligadas á ‘Mestiçagem“, a “Crioulidade” ou ao ‘Hibridismo Cultural”, sutilmente eugenistas por terem seus pézinhos ainda assentados nas velhas teses (racismo “científico” reciclado, “democracia racial”, etc.) de Nina Rodrigues e Gilberto Freire, não passariam muito de obviedades irrelevantes, ideologicamente capciosas, não muito mais que chuva ácida no molhado da velha desigualdade sócio “racial” de sempre, uma espécie de teoria da manutenção ad infinitum do status quo.

Ora, vamos refletir: se não existem raças, não pode existir “mistura racial“, mesmo no campo estrito da Cultura. Logo não faz muito sentido supor, portanto, que possam existir “predisposições genéticas” identificáveis na cultura de grupos humanos isolados ou próximos, a ponto de se considerar discrepantes, esta ou aquela diferença ou especificidade nos traços culturais de brancos e negros, por exemplo, que possam ser atribuídas à constituição genética de uns ou de outros.

Juntos, porém nunca misturados. Sempre diversos, o que nos torna culturamente diferentes é o meio, as curcunstancias ambientais, a História, a vida enfim, ora!

Seria, naturalmente racista por isso mesmo, toda teoria que supõe ou sugere a possibilidade de existir algum tipo de possível dicotomia sócio “racial” (tal como: culturalmente brancos – só por serem brancos – seriam assim: “pragmáticos” e os pretos, por razão similar seriam assados: “intuitivos” – por exemplo), principalmente se estas suposições – mesmo insinuadamente – se basearem em algum tipo de parâmetro ligado à “pureza” ou à “impureza” eventualmente embutidas nas características étnicas de cada grupo.

A bibliografia em torno de temas dessa praia afro-brasileira tão encapelada de ondas turvas, está bastante contaminada por esses desvios…epistemológicos de seu passado. Ainda hoje nossos estudos acadêmicos, infelizmente se valem de uma bibliografia predominantemente racista (o monstro insiste em não morrer), embora cada vez mais sutil e ardilosa.

Falta-nos uma antropologia menos laudatória desses cânones rasos todos, mais interessada em sair em campo para quebrar seus mitos interesseiros e se assumir como ciência com probidade. Falta muito a investigar, pesquisar, atestar e escrever: A incúria de nossas ciências sociais em seus vícios coloniais e sua renitente mania de nos dividir para imperar é imensa e antiga.

A inusitada existência de penachos e cocares de indígenas americanos na cabeça de gente descendente de ex-indígenas africanos, bem como a sistemática exclusão destes do âmbito dos terreiros da Bahia, por parte da academia e da casta nagô, a partir de 1937, sob pretextos ideológicos deslavadamente puristas, pode nos dizer muita coisa sobre isso.

Pois é. Assim Titio vai aprofundando o assunto, por aqui ou, oportunamente por ali, um dia após o outro. Enquanto isso, reflita por si mesmo.

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Índios brasileiros reais visitam terreiro de Umbanda

Mas a saga maravilhosa do “Caboclo-Nkisi” não acaba assim, não acaba nunca.

Já nos provisórios finalmentes desse post, na hora mesmo de passar a régua de uma última revisão de conceitos, eis que me surge a visão do quão sem fim é este fio de meada tão enovelado na relatividade mais incrível dessa vida:

O que serão esses blocos de índio de Salvador, Bahia, gente? Alguém já estudou isso? Mas estudou mesmo? Sim, porque tem muita gente que pensa que a História avança aos saltos.

Nascidos, segundo consta no fim da década de 1960. Soube de ler por alto que foram inspirados dos grandes blocos de índios do Rio de Janeiro (Cacique de Ramos, por exemplo, que é o padrinho do Apaxes de Salvador) todos, vamos pensar bem, tanto em Salvador quanto no Rio, blocos tipicamente afro-brasileiros, com massa de foliões majoritariamente negra.

De onde veio isso? Claro que não pode ter nascido assim, do nada, sem fundamento ou passado.

Certo: São todos calcados nos índios do mainstream, índios de hollywood, por suposto, apaches, comanches, sioux, moicanos, mas vamos pensar, vejam lá como é hoje a estética dos “Caboclo-Nkisi” da nossa Umbanda…Vejam lá!

Comanches, sioux, moicanos, ovimbundos, kimbundos…African Red-Black indians, sei lá.

Só sei que é assim.

(A tese, o insight sobre o Mimetismo em especial (versus “hibridismo”, “mestiçagem” essas coisas)- até prova em contrário – é do Titio. Ninguém tasca.

Sobre penachos, diretamente ouvi pela primeira vez interessantes impressões de Rafael Galante e Maria Paula Adinolfi. Podem ser referendadas também como estando no bojo do assunto o trabalho de Ana Stella Cunha).

A propósito, convém enfatizar que os penachos de “nkisi”, ou mesmo em personagens humanos representando entidades, não são, exatamente muito comuns em Angola)

Spirito Santo

27/8/2015
Ano do 6.8 do Titio

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~ por Spirito Santo em 30/08/2015.

3 Respostas to “Penachos de Nzambi a Npungo. O Misifio de Aruanda é do Kariri”

  1. Republicou isso em Mamapresse comentado:
    Os “Blocos de índios” encantavam a minha infância, no Fonseca em Niterói onde eles apareciam. Eram homens grandes, alguns com lábios esticados com uma madeira. Imaginava como eles conseguiam fazer aquelas fantasias, e como conseguiam ter ocre/oliva de pele malhada pelo sol e idade.
    Só em 2000 quando fui no Monte Pascoal, descobri que aqueles homens fantasiados de índios, eram índios mesmos, Pataxós que haviam fugido para o sul, dos massacres das de´cada de 50 perpetrados pelos
    governadores e suas milícias de MG, ES e Bahia.
    Muitos encontraram abrigo em Niterói e Ilha do Governador, onde ainda haviam missões indígenas. Eram eles que junto com os Botocudos que viviam por aqui, me encantavam no carnaval. Um descendente deles da minha idade, que conheci trabalhando num boteco da Ponta da Areia, em Niterói, foi um dos organizadores da retomada do Monte Pascoal, pelos povos originais da área, expulsos em 1953/56.
    Foi uma coincidência nos reencontrarmos numa noite no Monte Pascoal, nos reconhecemos e dançamos juntos. A mesma dança dos tal “Cablocos”, que eu aprendera com eles na minha infância.
    Spiírito Santo você me trouxe com este artigo memórias caras e preciosas, dos repentes do meu pai e da minha avó do Povo Cariri Chocó.
    Quanta coisa não sabemos da gente!
    Marcos Romão

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  2. Os “Blocos de índios” encantavam a minha infância, no Fonseca em Niterói onde eles apareciam. Eram homens grandes, alguns com lábios esticados com uma madeira. Imaginava como eles conseguiam fazer aquelas fantasias, e como conseguiam ter ocre/oliva de pele malhada pelo sol e idade.
    Só em 2000 quando fui no Monte Pascoal, descobri que aqueles homens fantasiados de índios, eram índios mesmos, Pataxós que haviam fugido para o sul, dos massacres das de´cada de 50 perpetrados pelos
    governadores e suas milícias de MG, ES e Bahia.
    Muitos encontraram abrigo em Niterói e Ilha do Governador, onde ainda haviam missões indígenas. Eram eles que junto com os Botocudos que viviam por aqui, me encantavam no carnaval. Um descendente deles da minha idade, que conheci trabalhando num boteco da Ponta da Areia, em Niterói, foi um dos organizadores da retomada do Monte Pascoal, pelos povos originais da área, expulsos em 1953/56.
    Foi uma coincidência nos reencontrarmos numa noite no Monte Pascoal, nos reconhecemos e dançamos juntos. A mesma dança dos tal “Cablocos”, que eu aprendera com eles na minha infância.
    Spiírito Santo você me trouxe com este artigo memórias caras e preciosas, dos repentes do meu pai e da minha avó do Povo Cariri Chocó.
    Quanta coisa não sabemos da gente!

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  3. Em Niquelândia-GO há um antigo terno de Penacho, que se apresenta na festa de Congada.
    Nos maracatus de baque virado (ou nação) pernambucanos havia sempre um brincante vestido de índio no grupo, o caboclo reamar ou arreamá. Já li alguns relatos que dão conta dessa presença noutros tempos. Ainda cheguei a ver essa figura, nos carnavais de 2000 e 2001, no Ewcife e em Olinda. Ultimamente não tenho mais visto. Quanto mais a gente pesquisa, mais descobre!
    Adiante, Titio!

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