Europa Black & White


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SEGUE A PELEJA DOS MOUROS CONTRA OS CRISTÃOS – Post #01image

“Retrato de um homem africano”
Quadro atribuído ao pintor holandês Jan Mostaert, de 1520/30

“O homem veste roupas ricas, luvas, e segura uma espada, todos indicativos de seu importante status. A insígnia em seu chapéu e o alforge, aludem a possíveis origens espanhola ou portuguesa. Muitos dos africanos que chegaram à Europa em tempos medievais e início do Renascimento eram estudiosos e consultores…O retrato é também conhecido como ” Retrato de um mouro”.

(Parte da descrição oficial do RijksMuseum, de Amsterdam, proprietário da obra)

Absolutamente ensandecido com o tema da presença negra ou africana nas artes da velha Europa, vou mergulhando no buraco doido e sem fundo das histórias mal contadas, de fatos tão antigos que remontam a Grécia antiga.

“Há muitos retratos de negros comuns que ainda existem da Europa antiga, para aqueles que ainda não estão convencidos da degenerada natureza mentirosa dos Albinos, afirmamos que não é verdadeira a explicação que nos dão para a existência desses negros nativos europeus afirmando que eles são africanos.

É isso mesmo, sempre que um retrato de um negro europeu é encontrado, a explicação é sempre a mesma: É um Africano. Mas mesmo o leitor leigo sabe que os seres humanos se reproduzem e se reúnem em tipos bem ampliados de família, tribos e grupos maiores.

Logo, assim que vemos alguns negros num contexto, a questão que se coloca é: onde estão os outros? Como todos sabemos, a melhor maneira de fazer algo sumir de vista é chamá-lo de outra coisa…”

(Trecho do inusitado site “Black britain /Realhistory”, voltado para atestar a enorme e sutilmente ocultada presença de negros nas sociedades europeias.)

Nós, os ainda poucos familiarizados com o tema, ao vislumbrarmos essas imagens fantásticas, já nos surpreendemos muito ao descobrir, por exemplo, a existência de tantos negros na Europa Medieval e nos séculos imediatamente posteriores. É que tendemos a associar a saída de negros da África sempre a séculos mais tarde, nos anos mais agudos das invasões colonialistas e da exacerbação da captura massiva de africanos para a escravidão incipiente na Europa e, logo desenfreada para abastecer de mão de obra as colônias das Américas.

Imaginem então qual não foi a minha surpresa ao descobrir o quanto as maravilhosas nuances da história humana, geralmente reveladas assim por acaso, são capazes de nos acachapar: Havia uma multidão de negros na Europa medieval e renascentista, aparentemente quase tantos quanto hoje. E não estava invisível todo esse criouléu. Os artistas da época não se cansavam de retratá-lo, desde, pelo menos o século 3, bem antes da chamada Idade Média.

É mesmo uma indústria de ignorantes essa nossa Educação. Basta um cacho de surpresas visuais como estas as quais fui submetido, para um universo inteiro de novidades, perguntas e respostas nos aparecerem, instigando renovadas questões, cada vez mais surpreendentes.

Negregada Europa enrustida. Pés e mais pés de aristocratas escurinhos, nobres e plebeus, enfiados nos baldes das cozinhas brancas mais insuspeitadas.

Impossível abordar todos os aspectos e pontas soltas dessa história de mais de 10 séculos medievais (do V ao XV). E ainda temos todos os séculos seguintes. Por isso começo de leve, pelo que mais me instigou: o reino encantado das aparências, a quebra do mito da Europa nobre, de sangue azul.

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(Honigmann, E.A.J. (1987). John Weever: a biography of a literary associate of Shakespeare and Jonson, together with a photographic facsimile of Weever’s Epigrammes (1559). Manchester: Manchester University Press.)

Em linhas muito básicas, as razões de ser da nossa ignorância sobre o tema, talvez seja deliberada, como é todo apagão imagético racista, coisa tão corriqueira no Brasil. Construíram, os que nos governam, uma ideia de um “Velho Mundo” ocidental puro, branco, diáfano, o supra sumo da “raça” humana morando ali, uma casca clara para nos iludir sob o que tem dentro desse ovo, nessa complexada mania de ser vira latas, que toda elite aristocrática tem – principalmente no Brasil – sempre à caça de algum inatingível pedigree.

Assim, a ocultação da Europa real, de bases multiculturais, multi “raciais”, não é uma construção exclusivamente brasileira. É apenas a sua gênese mais remota. Ela deve ter se dado gradualmente, na medida em que a criação de uma ordem mundial dicotômica – ricos vagabundos de um lado e pobres servos ou escravos de outro – foi se cristalizando. E isso se deu (ou, pelo menos começou) com alguma certeza, no século 16.

Esquecemos, ou não damos importância, por exemplo, o fato histórico decisivo de que os Mouros, dominaram a Europa por…séculos. Sabemos disso, mas não consideramos o impacto cultural decisivo e formidável provocado por uma dominação deste porte, de um povo sobre outro durante tanto tempo. Esquecemos, sobretudo – e aí está o “xis” da questão – até mesmo das consequências, digamos assim…”simbiótico genéticas” dessas relações culturais tão extensas no tempo.

Naturalmente, lei que é da natureza, onde quer que estivermos, sejamos quem formos, crescemos e nos multiplicamos, transamos, procriamos. Nada que é humano, portanto, nos deveria parecer

Neste mesmo sentido, nunca consideramos – ou nunca nos deixaram perceber – que esses muçulmanos todos, povos africanos, vizinhos, habitantes das fraldas da Europa, chamados na época genericamente de “Mouros“, eram em sua grande maioria…gente preta. Eu mesmo, só me dei conta disso quando, morando na Europa, fui um dia, inadvertidamente xingado de “Mohr” por uma velha racista.

“Mohr”, “Moor”, “Maure”, “Mouro”, “Muçulmano“, pude logo descobrir na ocasião, que significava, pejorativamente o mesmo que “negro”, “crioulo”, na Europa inteira e desde a Idade Média – óbvio! – fruto evidente do ódio latente que esta Europa até hoje devota aos seus seculares invasores, que a eles os “caucasianos” cristãos se imiscuíram, não exatamente como estupradores.

(E aqui pessoas com sobrenome “Moura”, “Morais”, “Moro”, “Moraes”, “Moreira” e similares, têm a sua pista: Devem procurar um mouro, um negão em seu passado)

As imagens que fui desvelando nesses livros mostram centenas de africanos e afro europeus proeminentes em suas sociedades, na Rússia, na França, na Inglaterra, na Áustria, na Polônia, em Portugal, na Espanha, na Itália. Incrível, mas desde sempre, todas as sociedades europeias tiveram negros, como galhos ocultos de suas árvores genealógicas, das mais plebeias as mais nobres.

De onde eles vieram? Não é razoável afirmar que todos vieram da África como escravos e na Europa se emanciparam, certo? Nasceram na Europa, muitos deles. Isto é certo!

Esta genealogia trancada em armários pudicos, tem como intenção historiológica principal, ora pois, a tentativa de omitir ou apagar a provável origem europeia do negro número 1 de cada família, supostamente…branca desde Adão e Eva.

Quem não sabe? Isto é típico no Brasil, até hoje, quando numa caixa de retratos antigos de uma família branca, aparece por acaso a foto de uma negra, geralmente idosa, a imagem inusitada explicada diante da nossa surpresa com a resposta vacilante: _” Não sei. Deve ser uma pessoa muito querida da família…não me lembro o nome.”

E a “pessoa querida” quem seria? Uma negra tia distante, uma avó oculta , destinada a ter a imagem renegada para não “queimar” o filme da família?

De certa maneira, embora de modo menos frio e num espaço mais dilatado de tempo, o mesmo ocorreu na velha Europa. Em todos os casos que verifiquei – e foram dezenas – sobre este primeiro negro da família europeia se dizia, invariavelmente ser “um escravo (a) africano (a)” de quem o dono, um parente distante mui bonzinho, mesmo quando nobre, se tomou de amores e deu a este negro (a) sortudo (a), educação, bens e até herança, de modo que alguns desses ex-cativos (as) se tornaram ricos.

Duvidam?

Incrível, mas todos esses negros de alto status, quase nunca têm – ou lhes subtraem – um sobrenome. A todos se aplica o apelido “o Africano”, “o Negro“, o “Mouro”

Com efeito, em muitos casos, certas evidências insinuam que figuras de nobres claramente de ascendência africana podem ter se tornado, efetivamente, não só nobres, cortesãos mas – pasmem! – membros da mais alta nobreza…até reis de verdade, dizem alguns pesquisadores mais radicais.

Só que, desta feita, contudo, este status de alta nobreza de um negro, desmoralizando velhas e rígidas práticas de sucessão por parentesco direto, por via patrilinear (no caso da Europa) costumava ser, literalmente apagado da posteridade por meio do embranquecimento gradual de retratos e gravuras, apagamento este associado ao desaparecimento de qualquer traço documental dessa ascendência negra, processo que torna muito difícil construir teses mais ou menos críveis sobre esta teoria.

(Filhos bastardos, frutos relações sexuais “interraciais”, o bom nome da família em jogo, sabem como é.)

Contudo, as evidências iconológicas, mesmo nos casos mais cabeludos ou duvidosos como este acima, são instigantes. Algumas delas, mais evidentes, são mesmo impressionantes e, desvendando-as, não resisto ao desejo de partilhá-lhas. Vou começar então abordando-as com o máximo de evidências que pude encontrar até agora.

Preparem-se. São babados muito fortes.

“…Muitos dos africanos que chegaram à Europa em tempos medievais e início do Renascimento eram estudiosos e consultores…O retrato é também conhecido como ” Retrato de um mouro”.

Mas observem: É estranha e vaga demais esta descrição. É por demais evidente que este nobre, em pose imponente de quem tem poderes, vestido de forma suntuosa, de modo a representar seu “alto status” (seria um duque, um conde, um marquês?) como a própria descrição da tela logo em seguida afirma, de forma enfática, realmente existiu. Parece ter havido uma intenção deliberada de tornar esta pessoa anônima

O que torna tudo mais estranho ainda, são as muitas e controversas versões para a identidade do indivíduo retratado, um mistério estranho porque tendo-se o nome e a naturalidade do autor e a data provável do quadro, fatores aliados á evidente proeminência do homem naquela sociedade, atestada pelo rigor e luxo detalhista de suas vestes, como e porque seu nome foi esquecido? Na verdade, as tentativas de identificá-lo são todas muito estapafúrdias. Tanto que a mais recorrente delas eu pude desconstruir em poucas horas de pesquisa.

“… Diz-se também que é a mais antiga pintura de um homem negro na Europa. Foi intitulado com certo desdém como “Retrato de um Africano”. Segundo alguns críticos esta denominação vaga, visa anular todas as possibilidades de pessoa como esta ser um europeu nativo.”

(Nota do “Realhistory”, um site de crítica ao suposto apagamento da imagem do negro na historia europeia, revendo a nota do RijksMuseum)

Realmente são bem controversas as dúvidas sobre a identidade do homem do quadro de Jan Mostaert. A tela tem todos os sinais de ser um retrato fiel. A sugestão de que “pode ser o primeiro retrato de um homem negro na pintura europeia”, é temerária também. O estilo “verista” do barroco holandês (a fotografia de então) cujo auge ocorre 100 anos depois, pode ter tido este início aí, acrescentando que a data do quadro pode ser, quem sabe, de data um pouco posterior (Mostaert morre em 1558)

As mais rasas suposições foram aventadas, logo pude constatar. Ao que parece, os críticos de arte desde sempre, em algum momento de suas expertises, recusavam-se a admitir que o quadro de Mostaert pudesse ser o retrato de um nobre negro de verdade, buscando explicações tranversas para enfatizar o seu anonimato. Este movimento pelo anonimato de personagens negros, geralmente apelavam para a teoria de que o “homem africano”, o “Moor”, seria uma imagem idealizada, devocional, de algum santo católico negro, curiosamente muito comuns na Idade Média.

As primeiras imagens de pessoas negras na arte europeia, foram com certeza imagens devocionais idealizadas. Uma das mais antigas era a de São Maurício (um personagem do século 3) , sendo também muito comuns e populares, as imagens de Balthazar, o rei mago cuja negritude foi, simplesmente inventada apenas em 1437. Muitas imagens de negros reais, por isso mesmo, ao não serem reconhecidas como retratos fiéis, acabaram sendo atribuídas a imagens de Balthazar, São Maurício e outros santos ou seres míticos, figuras de fábulas, etc.

Saint Maurice (também Moritz, Morris, ou Maurício ou, sabe-se lá, mais uma referência à sua ascendência “mourisca”) era um militar romano (!) líder da lendária Legião de Tebas, no século 3, e um dos santos favoritos e mais venerados. Ele era o santo padroeiro de várias profissões, localidades e reinos europeus. Ele também é um santo muito venerado nas igrejas Ortodoxa Copta e Ortodoxas Orientais.”

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(1470-1528) St. Maurice (detalhe do “O Encontro de São Erasmo e São Mauricio” 1517-23, por Mathias Grünewald )

Vejam bem: Um militar negro de alta patente, comandando tropas romanas baseadas em Tebas, Grécia, mais tarde santificado pelo Vaticano, padroeiro de muitos reinos europeus? Isto tudo ocorrendo no século 3? Como explicar?

O certo é que São Maurício nada tem a ver com o homem negro de Mostaert. É fácil perceber isto a partir de uns poucos dados. Tampouco Balthazar. Mas, mesmo assim as divagações sobre o “homem negro” de Mostaert prosseguiram, algumas já tocando de leve alguma pertinência.

“…Jan Mostaert, o pintor, acompanhava a arquiduqueza Margareth da Áustria, sua mecenas, em muitas de suas viagens e pintou muitos retratos de seus cortesãos, que entraram em contacto com a classe superior e figuras públicas.”

“Em 1518, Margaret da Áustria declarou Mostaert “peintre d’honneur”. A seu serviço, ele foi contratado para criar retratos, embora também tenha produzido uma série de imagens devocionais, bem como retratos para a pequena nobreza holandesa.

Óbvio que este “homem africano”, por esses fatores, era um nome muito importante, e exercia relevante função na corte da Arquiduqueza Margareth da Áustria e de Carlos V.”

Ou seja: Lançava-se a identificação do “homem negro” ao limbo da lista de modelos difusos. Mas como ignorar a pompa e a circunstância da nobre figura, cuja importância estava flagrante no próprio fato dela ter sido tão respeitosamente distinguida e retratada pelo pintor mais importante da casa real dos Habsburg?

“…Como era prática comum no século 15 e 16 nos Países Baixos, Mostaert frequentemente reproduzia retratos de figuras políticas baseadas em modelos originais. Em 1521, Margaret encomendou, por exemplo a Mostaert um retrato de seu terceiro marido, o já falecido duque Philibert de Sabóia. O retrato foi feito dezesseis anos após a morte do duque Philibert.”

As evidências de que o quadro de Mostaert é de uma pessoa real, vão se tornando, portanto, quase inquestionáveis. Mas afinal, quem seria essa figura? Ah! Não contavam com a leiga astúcia deste autor. Insatisfeito, sem mais dados a investigar. Corri então atrás do nome atribuído a figura e pronto, eureka! Alguma coisa nova enfim se revelou:

Saibam vocês que o homem retratado, descrito pelas resenhas da obra de Jan Mostaert, não podia ser Christophe Le More, simplesmente porque o Christopher le More real, NUNCA viveu na Corte de Carlos V. A história dele, do Le More real pode ser perfeitamente reconstituída com o cruzamento das boas fontes que encontrei.

Por elas, pude deduzir que um crítico de arte qualquer, acreditado em seu meio, confundiu – ou criou – esta versão aceita pelo RijsMuseum, relacionando o “homem negro” de Mostaert a um outro “homem negro” famoso na ocasião. Ao que pude apreender, o tal expert achou este Christopher o eleito ideal.

Mas era falso. A história mais provável de Christopher, o Mouro, é a que relato a seguir:

“Um africano de nome original desconhecido, escravo de um proprietário de terras siciliano chamado Christopher (Cristofaro) Manasseri, na metade dos século 16 teria adotado sobrenome do proprietário. Este Christopher, seria filho de pais africanos que provavelmente haviam chegado na Sicília entre 1450 e 1480.”

(Obviamente, sendo a quadro de Mostaert datado de, no máximo 1430, Retratando um homem adulto, o Christopher real seria ainda uma criança na época da pintura)

Ou seja: “Christophe Le More“, como ficou conhecido este negro da Sicília, um afro-italiano por suposto, nascido provavelmente já no fim do século 15, segundo sua biografia disponível, “casou-se com a também siciliana Diane Larcan (ou Larcari) também descendente de africanos. Tiveram, pelo menos um filho na cidade de San Fidelpo em 1526, chamado Benedetto, que foi alforriado quando contava cerda de dez anos de idade.”

Benedetto, o filho de Christopher le More e Diana Larcari, que se tornaram cristãos, teria nascido em 1526 na cidade de San Fratello, conhecida também como San Philadelphio Fradello ou perto de Messina, na Sicília. Sim, com todos dados levantados podemos enfim desconstruir parte da história.

(Não se tem notícia da existência de imagens do Christopher le More real – na verdade Cristofaro, il Moro – . Mas isto é natural. Ele era um cidadão afro-europeu comum.)

Talvez vocês nem tenham se dado conta, mas o filho de Cristofaro e Diana, conhecido como “Benedetto, il Moro” (Benedito, o Mouro), aliás, por obra e graça de mais uma das muitas acidentais sacações de nossas pesquisas, é sim…São Benedito, santo popularíssimo entre católicos do mundo inteiro, notadamente negros da África e do Brasil, onde protagoniza, junto com Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia (também negra) animadas Congadas.

Vejam aqui um retrato do próprio, Benedetto, o Mouro, não se sabe se num retrato real, provavelmente imaginado:

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Mas quanto ao nome do homem do quadro de Mostaert?

(Mas novas pistas não cessam de serem encontradas)

“…Um elemento no retrato que pode ser identificado com certeza é a insígnia (medalha) no chapéu flamengo do homem negro, que está associada a um local de peregrinação (Halle, na Bélgica). Este é o local de uma igreja na qual uma Madona Negra atrai muitos peregrinos, incluindo inúmeros soberanos europeus, de todas as partes do continente, desde 1267. Assim, o homem do retrato provavelmente teria ido a Halle… “

E segue:

“…Em 1520 Carlos de Habsburg foi a Bruxelas, com destino a Halle para honrar a estátua da Madona Negra, como era praxe entre os monarcas católicos do período, em agradecimento por sua eleição para o trono do Sacro Império Romano. Carlos tinha na ocasião 20 anos de idade. Seu irmão Ferdinand (bem mais novo que ele, nota deste autor), estaria em sua companhia.

Escusado será dizer que eles não estavam sozinhos e teriam sido acompanhados por membros da corte de Carlos e um corpo de guarda-costas. A maioria desses guarda costas era de africanos…”

“…Foi Mostaert quem pintou o mouro. Não se trata de uma coincidência. Lembrem-se que ele trabalhou na corte do regente, por isso, é lógico que ele viu Carlos antes ou depois de sua peregrinação a Halle. É lógico, portanto que o homem do quadro é o guarda costas com emblema em seu chapéu, que se destacou pela cor de corpo mais do que os outros, antes ou depois da peregrinação de Charles a Halle. Embora a pintura tenha sido feita entre 1525 e 1530, eu assumo que o ano da peregrinação de Charles de Halle, 1520 é a principal referência para a datação da pintura.)

(Rik Wouters teórico e especialista em turismo em terras flamengas no site historiek.net

Rik Wouter especula. Tenta, de todo jeito enquadrar o nobre negro na figura de um guarda costas, mas não explica porque um desses supostos guarda costas “africanos” foi privilegiado com a distinção de ter um retrato seu pintado pelo principal e exclusivo artista da poderosa família Habsburg, governante de boa parte da Europa, nem porque esse misterioso homem negro se vestia de modo tão suntuoso, portando inclusive, a insígnia de peregrino, objeto raro (e caro) consagrado apenas aos nobres de mais alto status na corte do Sacro Império Romano.

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Medalha (insígnia) de peregrino a Halle, Bélgica, do século 16, provavelmente igual à pintada por Jan Mostaert no chapéu do “homem negro”

Podemos fechar questão, contudo, no seguinte: O quadro “homem africano” de Jan Mostaert é, efetivamente o retrato de uma pessoa real. Esta pessoa, mesmo ainda sem estudos mais definitivos sobre sua identidade, era um nobre de importância e algum poder na corte austríaca, à época da arquiduquesa Margareth da Áustria e de seu sobrinho Carlos V, da família dos Habsburg.

O “homem negro” de Jan Jaas Mostaert estava em Halle, em 1520 junto a Carlos V. Ele era um nobre, uma pessoa “chegada à família”. Muitas estranhas e bem guardadas relações devem envolver a identidade deste homem.

(O site Realhistory, em sua afirmação mais tresloucada, defende a tese de que, no ensejo de haverem tantos negros ocultos na genealogia da nobreza europeia, o “homem africano” de Ja Mostaert poderia ser, o próprio…Carlos V, da família real austríaca Habsburg.) Mas aí já achamos absurdo demais, até porque encontramos dezenas de imagens de Carlos V, branco, com a sua indefectível deformidade ou queixada (prognatismo)

(Aliás, permitam-me observar que no rosto do nobre negro pintado por Mostaert, existe sim uma ligeira deformação, uma certa exagerada proeminência mandibular que causa suspeita para a existência de alguma suposta relação genética entre o negro e os branquíssimos Habsburg.

Não afirmo, mas chamo a atenção para o detalhe de que a história registra a ocorrência dessa deformidade genética entre os homens da nobre família)

Contudo, vocês não perdem por esperar. Os sinais muito evidentes da negritude tão improvável da nobreza europeia de então, são sim muito profusos.

Num próximo post teremos uma história mais cabulosa ainda de um outro negro na nobreza da velhusca Europa, este sim, perfeitamente identificado, quase rei, sem dúvida alguma.

O DNA deste negão, descrito por muitas fontes, escorre até hoje nas veias das melhores famílias de suposto sangue azul do Velho Mundo. Os tais  galhos insuspeitos da árvore genealógica até da família real inglesa, a mais branca realeza da Europa, teriam sido alimentados com a seiva desse homem, cuja história está disponível aos mais curiosos.

Trata-se da arrogante Europa, despeitada, conspurcada e impura, fugindo dos espelhos!

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(Estranha moeda, ducado, aparentemente autêntica,  da época de Carlos V, monarca do Sacro Império Romano, com a esfinge de um homem nobre negro. Em sendo verdadeira a moeda, quem seria esta importante figura? Seria o “homem negro de Mostaert?

Spirito Santo
Janeiro 2015

 

 

‘Nobre Negão’ or 17’ century african nobleman


SPIRITO SANTO

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 (Retrato realizado pelo pintor holandês Albert Eckhout de D.Miguel de Castro, nobre do Reino do Kongo, durante uma viagem comercial à colônia portuguesa do Brasil. O quadro é do século 17 e pertence ao acervo do Museu Nacional da Dinamarca).
(Retrato realizado pelo pintor holandês Albert Eckhout de D.Miguel de Castro, nobre do Reino do Kongo, durante uma viagem comercial à colônia portuguesa do Brasil. O quadro é do século 17 e pertence ao acervo do Museu Nacional da Dinamarca).

17’ century african nobleman

A informação é surpreendente. Praticamente inédita. Para os mais empedernidamente crentes no primitivismo selvagem dos africanos nos idos do século 17, a notícia é mesmo i-na-cre-di-tá-vel.

Mas é fato. Modéstia à parte um achado historiográfico impressionante.

Corro atrás de evidências sobre este mistério há muitos anos, depois de ter lido em algum lugar, num texto de Câmara Cascudo, se não me engano, uma informação muito vaga sobre uma mítica embaixada que a rainha Nzinga Mbandi (Jinga) teria enviado ao Brasil, á época do domínio holandês.

A ausência total de qualquer outra referencia sobre o…

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Eugenia reciclada e Arqueologia interesseira


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A peleja improvável do negão Sapiens versus o branquelo Neandertal

Sou reconheço, um pesquisador empedernido e cri cri. Um compulsivo, um obsessivo investigador de tudo aquilo que me chama a atenção, um bisbilhoteiro profissional.

Esta pulga de hoje, me invadiu as orelhas ali por volta de 2004, no ensejo de uma série de posts que comecei a escrever sobre o racismo, na intenção de desmascarar o que me pareciam farsas científicas grosseiras que tentavam reciclar o chamado “Racismo científico” do século 19, com o claro objetivo de justificar ações contra as recentes políticas públicas de combate à exclusão sócio racial, o nosso racismo renitente por suposto, mais precisamente as propostas de cotas raciais, afinal tornadas legais pelo STF.

Chato que nem carrapato, logo pude perceber que havia no Brasil um grupo de pessoas, entre intelectuais e acadêmicos, organizadas, envolvidas de forma militante CONTRA as propostas de reparação das mazelas sociais provocadas pelo racismo.

Os nomes logo foram aparecendo: Entre outros, Ivonne Maggie e Peter Fry (inglês) acadêmicos especialistas em cultura negra (curiosamente, de algum modo ligados ao Movimento Negro dos anos 1970/80) os jornalistas Demétrio Magnoli e Rodrigo Constantino e, o que me parecia ser o líder de todos eles, Ali Kamel, à época super poderoso editor chefe das Organizações Globo, soberano das pautas do jornalão, para o qual foram contratados como colunistas – olhem só que coincidência! – quase todos os citados (com exceção de Fry).

Os mais atentos à questão com certeza perceberam que o jornal O Globo, se transformou na ocasião numa feroz e poderosa tribuna CONTRA a adoção de cotas raciais no Brasil.

Classifiquei na época a cruzada desses intelectuais como Neo-racismo, já que a reciclagem do tal “Racismo científico” aludida acima, era o fulcro teórico principal de suas teses, a maioria extraída das foribundas teorias do direitista e racista, sociólogo e economista norte americano, membro ativo do Tea Party/Partido Republicano dos EUA, Thomas Sowell (que por acaso é negro.)

Ocorre que, já nessa época, no esmiuçamento diligente das teorias do suposto grupo neo racista de Ali Kamel, comecei a perceber a difusão no jornal dessa insidiosa e sutil teoria:

A da sutil superioridade genética do Homem de Neandertal sobre o Homo Sapiens

http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/heranca-dos-neandertais-deu-humanos-modernos-defesa-pre-historica-18439948

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Sério.

É disso que trata mais um artigo de O Globo batendo nessa estranha tecla. Já li vários (dois, bem recentes, estão linkados neste post), todos, ou pelo menos a maioria, assinados pelo geneticista Cesar Baima, aliás – outra coincidência sutil – um dos consultores “científicos” convocado por Kamel e seu grupo para ir à Brasília defender a derrotada ação de inconstitucionalidade da lei de cotas no STF, assumida pelo grupo.

“…Já a segunda pesquisa foi ainda mais abrangente e revelou que os genes dos neandertais estão ligados a diversas doenças, principalmente autoimunes, como lúpus, cirrose biliar e doença de Crohn, além de diabetes tipo 2 e comportamentos como a capacidade de parar de fumar. Por outro lado, ela também mostrou que o DNA neandertal contribuiu com adaptações evolutivas vantajosas para o Homo sapiens, como as relacionadas à produção de queratina, proteína que fortalece pele, cabelos e unhas, o que teria ajudado os humanos modernos a sobreviverem nos climas mais frios de fora da África.”

http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/a-heranca-genetica-dos-neandertais-nos-homens-modernos-11444984#ixzz3wmbteSiJ

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A campanha pseudo científica visa a eleição do Homem de Neandertal (europeu, suposto ascendente da “raça branca”) como residualmente superior ao Homo Sapiens (africano) considerado o antepassado direto do ser humano moderno. Em suma, a tese tenta, sutilmente atenuar ou mesmo, anular a teoria amplamente aceita hoje, que considera o surgimento do ser humano moderno como sendo um evento africano.

A ojeriza à possibilidade de todos os homens de hoje em dia terem tido um antepassado negro africano comum, aparece escorrendo como veneno nessa teoria.

No presente artigo (cujo teor, aliás, no original, pode não ter as insidiosas intenções da versão de Kamel/Cesar Baima) observem que o infográfico, logo de cara já frauda ou omite aspectos importantes da evolução dos dois grupos de “homos” postos em estranha competição.

Na linha de tempo, a longa e improvável longevidade do Homem de Neandertal é, claramente exagerada. Impossível, a luz da arqueologia moderna, uma espécie de hominídeo ter vivido tanto tempo, sem evoluir para outras espécies sucedâneas. Se o neandertal fosse máximo da evolução deste ramo, como se chamavam, quem seriam seus ascendentes? Que macacos antecederam os neandertal? O infográfico pula essa parte.

“…O que emergiu de nosso estudo, assim como do outro trabalho, é que a miscigenação com humanos arcaicos teve implicações funcionais no homem moderno. Sua consequência mais óbvia foi moldar nossa adaptação ao ambiente pela melhoria de resistência a patógenos e da metabolização de novos alimentos — esclarece Janet, para quem a ideia faz muito sentido.

Os neandertais viviam na Europa e no Oeste da Ásia cerca de 200 mil anos antes da chegada dos humanos modernos. Provavelmente já estavam adaptados ao clima, alimentos e patógenos locais. Ao nos misturarmos com eles, ganhamos adaptações vantajosas.”

Há muitos outros problemas nessa argumentação. Ela supõe o surgimento de dois tipos de seres pré humanos idênticos em áreas, completamente díspares do planeta. A hipótese, com o perdão do chiste, só seria possível mesmo se fossem “…os deuses astronautas”. E mais, a extinção dos brancos neandertais, coitados, teria se dado, segundo essa teoria, por conta da invasão de uma horda de pretos sapiens, que teriam exterminado os neandertais, introduzindo na teoria uma espécie de ‘mágoa branca’, um ressentimento secular dos caucasianos contra os africanos.

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Esta intenção subjacente da pesquisa, aparece, claramente no raso artifício do infográfico de uma das matérias, esta última de 9/01/2016 – uma fraude absurda – quando tenta nos fazer acreditar que o Homem de Neandertal, pronto e acabado, nasceu antes do Homo Sapiens, nessa linha de tempo, teria vivido mais tempo, imprimindo no homem moderno alguns elementos genéticos mais “vantajosos”, senão mais “superiores” do que os atributos biológicos originais dos “negões” Sapiens.

Para corroborar esta teoria esquisita, rasteira, nessa linha de tempo do infográfico, os antecedentes do Homo Sapiens são do mesmo modo, sumariamente omitidos, como se esta espécie também tivesse surgido no planeta assim do nada, vinda de outra galáxia, sei lá. Quem seriam os ascendentes do Homo Sapiens? A ciência já sabe, mas o infográfico, simplesmente omite esta informação, para ressaltar o improvável surgimento do neandertal antes do Sapiens.

“…Quando os humanos modernos (homo sapiens) saíram da África, entre 125 mil e 60 mil anos atrás, eles já encontraram a Europa e a Ásia ocupadas por outra espécie de hominídeos. Eram os neandertais (Homo neanderthalensis), com os quais conviveram durante milênios até que eles foram extintos, há cerca de 30 mil anos. Neste longo período de convivência, no entanto, as duas espécies se cruzaram e estudos recentes mostraram que europeus, asiáticos, oceânicos e americanos atuais têm por volta de 2% de DNA neandertal, praticamente ausente nas populações da África subsaariana, que nunca encontraram com eles.2”

O grande problema como se vê, é que a teoria parece ignorar, completamente as nuances graduais do processo de evolução de ambas as espécies, desconsiderando as inúmeras mutações genéticas que estas sofreram, até atingirem o estágio e a aparência que apresentavam na época em que, supostamente conviveram.

Nem é preciso ser geneticista ou arqueólogo para entender a trama, que tem um curioso parentesco com teses eugenistas do século 19 ou mesmo com as teorias pré nazistas que inventaram o mito do ser humano puro, ariano.

Ora, os humanos, em sua expansão pelo planeta, não poderiam ter nascido em condições climáticas tão hostis quanto as temperaturas abaixo de zero, mas, como se viu, as teses em que Cesar Baima se refere, assim grosseiramente traduzidas, cometem esta estranha afirmação tão improvável: Os neandertal – que nas gravuras aparecem com a pele branquinha, lisinha e totalmente desprovida de pelos – teriam aparecido, do nada, já nas terras frias, adaptados a elas, sem terem nenhum antepassado na linha inversa de sua evolução.

Como assim?

Óbvio ululante que, por conta da saga durante a sua expansão rumo às terras frias, o ser humano primordial, a partir de sua origem num clima ideal à sua natural evolução (a África, provavelmente), inventou procedimentos de adaptação em séculos de experimentação, tentativa e erro (descobrindo o fogo e as roupas de peles de animais, por exemplo) e foi assim sofrendo mutações biológicas respectivas ás suas necessidades de sobrevivência.

Está claro e sobejamente provado pela própria arqueologia, que nesse processo, certos grupos de hominídeos foram se tornando, gradativamente mais “brancos”, com a pele e os olhos mais claros e os cabelos lisos, se adequando assim à, por exemplo a absorção de vitamina A, em condições de insolação precárias, etc. (entenda-se aqui a melanina como um filtro solar)

Assim, grupos de homens africanos (os quais,aliás, nem sabemos se eram, originalmente negros) em condições anteriores bem diversas, migrando para o norte do planeta, iniciaram a linhagem biológica dos “brancos” europeus, caso dos neandertais, uma das muitas espécies de hominídeos geradas pelo ser humano primordial, que se espalharam pela Terra.

Ocorre que a espécie de hominídeo que mais se adaptou, de forma generalizada ao planeta, foi um grupo diretamente descendente do que chamamos hoje de Homo Sapiens. A linha de hominídeos que resultou no Homem de Neandertal, não evoluiu e se extinguiu, paciência. Afinal, a extinção de espécies é um evento absolutamente natural segundo a teoria da sobrevivência das espécies estabelecida pelo recorrente Darwin.

A pergunta que não quer calar, contudo é: Porque esses grupos de cientistas e intelectuais insistem tanto nessa teoria da eventual relevância, ou até superioridade do Homem de Neandertal?

Tenho uma resposta simples: Porque o Neandertal, supostamente seria um hominídeo BRANCO. Esses grupos pretendem assim, segundo esta minha simples constatação, manter válida a insidiosa teoria da superioridade da “raça” branca. É a única dedução possível.

São sim – por ideologia ou oportunismo – neo racistas toscos esses aí.

Chifre em cabeça de cavalo, pelo em ovo? Não creio. Como disse, trata-se de uma conversa bizantina, bizarra até, mas muito pertinente, pois, é nessas questões bizantinas que mora o perigo.

Eu sei. É estranho e temerário questionar assim, com uma argumentos tão banais teorias científicas mui abalizadas, referendadas por publicações científicas tão respeitaveis, mas, devemos nos recordar que as do mesmo modo complexas e…”avançadas” teorias acadêmicas do chamado “racismo científico” do século 19 deram no que deram.

As teorias, aparentemente mais rigorosamente científicas, não raro nascem embasadas nas mais baixas e estúpidas ideologias.

Recapitulando: Numa linha que, partindo de Gobineau, passou por Lombroso e Nina Rodrigues, aprofundadas mais tarde por Richard Chamberlain, essas “teorias pós escravistas…”de ponta”, justificaram todo o barbarismo do Nazismo.

Estas ideias de jerico, envenenaram o mundo pós colonial e só foram paradas, vistas como charlatanismo pirado, dezenas de anos mais tarde com a vitória das forças aliadas numa segunda guerra mundial sangrenta, revelando ao mundo o espetáculo aterrador das sepulturas coletivas, coalhadas de corpos nus de judeus e outros seres humanos, “inferiores”, trucidados em escala industrial em nome da pureza ariana.

Melhor estar atento e forte diante da iniquidade humana, sempre tão solerte, não é não?

Spírito Santo
Janeiro de 2016