2185- O ano inesquecível

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(Agora é mesmo tarde. Não precisamos mais de Jules Verne, Isaac Asimov ou Arthur C. Clark para prever o nosso inevitável futuro. Acabo de receber, por meios que, honestamente, desconheço, uma mensagem alarmante, vinda do futuro. Veio de alguém que presumo ser meu descendente. Não posso me furtar a responsabilidade de partilhar esta mensagem com vocês. Chamei-a de O Diário de ‘O Turvo‘)

Dizia ele:

“O Airtrain passou pela minha janela agora, fazendo a vidraça trepidar levemente, num frêmito. Aquela mancha súbita, incômoda, era pior ainda à noite, quando a luz do letreiro da boate em frente tremeluzia, trôpego, me assustando como um fantasma fugidio.

Bobagem ainda acreditar em fantasmas a esta altura da vida, mas, fazer o que? Sou do tempo do crack tecnológico de 2098, a época em que o mundo parou por quase 3 anos, travado pela crise provocada pelo esgotamento súbito das reservas de biocombustíveis, que culminou com a desertificação parcial das terras do sul do planeta, levadas a beira da esterilidade total pela monocultura energética, e pelos efeitos catastróficos da Grande Enchente, no Norte.

Evento há muito tempo esperado, como resultado irremediável do aquecimento global, esta inundação catastrófica só ocorreu mesmo, subitamente, no ano novo de 2095.

A maior entre todas as tragédias da humanidade, na qual milhões de pessoas desapareceram, a Grande Enchente foi como se retornássemos ao dilúvio bíblico. Ao fim do processo, o refluxo das águas, incompleto, formou no centro da Europa, uma região aprazível, denominada Grandes lagos do Norte, onde os milionários do mundo e as grandes instituições que governam o planeta se fixaram. Tornada, no entanto a última opção de combustível abundante, capaz de dar vazão a grande demanda de consumo energético do modo nababesco de vida dos povos do Norte, a água dos Grandes Lagos, logo secou.

Ao Downtime, como ficou conhecido o apagão energético do mundo, se seguiu então a chamada Guerra da Água, conflito ocorrido nas Américas, com milhares de mortos e envolvendo os Estados Unidos e o México (associados às potências européias), contra os aliados Brasil, Venezuela, Colômbia e Bolívia, pela posse da bacia hidrográfica do Amazonas. A Guerra da Água foi de um barbarismo sem precedentes. Nela, pela primeira vez na história, foram usados combatentes zumbis, soldados induzidos á lutar até morte, com as mentes controladas por computadores.

Derrotadas, as nações do Sul passaram a ser obrigadas a comprar a sua própria água que, desviada pelo Aqueduto internacional para as terras do Norte, é vendida hoje em tonéis, cujo preço exorbitante torna o abastecimento de água para as populações dos desertos do Sul, um problema dramático.

A Guerra e o Downtime tiveram, contudo, alguns poucos resultados benéficos. Um deles foi volta de muitas de nossas crenças mais primitivas, hábitos culturais antigos – tais como este, de acreditar em fantasmas, em Deus ou mesmo na redenção do ser humano, esta coisa patética em que nos transformamos.

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Este incômodo com a mancha instantânea do Airtrain só me ocorre assim, nas noites de insônia. Quando mergulho nestes tristes e melancólicos pensamentos de saudade dos velhos e bons tempos que se foram, para sempre. Ah, quanto não daria para ter um copo de leite morno nestas horas. Deus do céu, entre todas, esta é uma das maiores e mais insuportáveis provações.

Não existe mais leite na Terra. As vacas há muito se foram deste mundo. Meu bisneto viu uma delas num holograma do VirtualZoo de sua escola. Teve pesadelos durante três dias. Disse que foi do nojo que sentiu, ao ver que as pessoas bebiam aquele líquido infecto, que saía das entranhas de um animal tão gordo e asqueroso.

Ah, uma gota, um sorvo só que fosse, deste líquido precioso e abençoado, que não provo há mais de quarenta anos. Acho que, como um elixir da juventude, este sorvo me remoçaria.

Parece mesmo loucura lembrar como as coisas eram antigamente. Quem poderia imaginar que não criaríamos mais animais para matar a nossa fome? Quem suspeitaria, há 100 anos que fosse, que esta história de cadeia alimentar seria, um dia, apenas mais uma das remotas lembranças de nosso passado biológico? E que, mesmo assim, o tardio da decisão de preservar a vida animal na Terra, nos tivesse privado da maioria das espécies que havia? Estas milhares de coisas exóticas que vemos agora nestes tristes e melancólicos hologramas dos VirtualZoos escolares.

Sim. Estamos quase sós no planeta, nossa velha natureza é agora mais pobre e medíocre do que jamais foi. Com força de vontade, se poderia enumerar, no máximo, umas seis espécies de animais ainda não extintas, e isto, contando conosco, é claro. Não é preciso nem pensar muito: Sobreviveram os Cães, os Pombos, os Corvos, os Ratos e as Baratas.

Vi na Hologram-Tv outro dia que há num certo canto remoto do Brasil, uma tribo que come os seus próprios cães e domestica seus ratos, segundo eles, os da tribo, excelentes farejadores de dejetos orgânicos, outro hábito cultural surgido na época do Downtime e praticado pelos endinheirados do Norte, pobres de espírito, que pagam caríssimo pelo produto, cuja venda é controlada por um grande cartel de traficantes denominado ‘The Monopol‘.

Os dejetos, conhecidos pelo estranho nome de Cocablood, distribuídos sob a forma líquida ou pastosa, são considerados uma iguaria afrodisíaca. Era de se esperar uma reação como esta diante do insípido hábito que adquirimos de ingerir pílulas. Asco. É por estas e outras que tenho desprezo profundo por estes tempos modernos. Principalmente por sua fauna.

Ontem saí de casa depois de seis meses de reclusão. A idade avançada reduziu bastante o meu apego pelos passeios, mesmo os noturnos. Não estou mais tão benevolente para aceitar ficar sendo observado, fotografado, quase tocado por estes inconvenientes jovens Seestrangers, que ficam postados em frente a minha janela; gente que nunca viu, assim de perto, um ser humano real, como éramos antes do Downtime. Definitivamente não me agrada ser este tipo de celebridade.

Na verdade sou mesmo quase um bicho raro. Como caminhamos para o ponto onde não existirão mais as antigas diferenças estéticas, biotípicas entre as pessoas, o aspecto que os seres humanos mais novos (‘normais’ como já se diz, com certo desprezo pelos mais velhos) adquiriram, é tão diferente de mim, que sou conhecido aqui no meu bairro como ‘O Turvo‘ (uma alusão ao tom pardo e baço da minha pele, bem diferente do tom claro e brilhante da pele dos mais jovens), sofrendo, todas as vezes que saio às ruas, os constrangimentos mais absurdos que se possa imaginar.

Meu bisneto tentou me convencer um dia destes a aceitar a proposta que um professor de sua escola lhe fez, para que eu, em troca de algum dinheiro – uma verdadeira fortuna, na verdade – posasse como modelo, para imagens holográficas a serem disponibilizadas aos alunos no VirtualZoo local.

_” Como as imagens da vaca?” – Indaguei, para que ele se lembrasse do que sentiu pelo bicho que dava leite e que tanta má impressão lhe causara. Ele não compreendeu a sutileza. Tive que rejeitar a idéia, veementemente, com argumentos bem mais diretos.

Não temo afirmar que a extinção total da diferença entre as raças, ocorrida em 2099, foi de um pragmatismo por demais cruel, (atributo que, infelizmente, se tornou corriqueiro entre nós). Determinados a abolir um componente de nossa humanidade, considerado então prejudicial á boa convivência entre os povos e as nações, os procedimentos científicos que iniciaram, ao fim de longo debate, a extinção das diferenças raciais foi, em quase cem anos, a decisão mais polêmica tomada pela Cúpula Planetária, instituição criada em substituição da ONU, um pouco antes do Downtime.

(Como se pode observar em qualquer VirtualBook, desmoralizada por um formidável esquema de corrupção, liderado por proeminentes membros do antigo Conselho de Segurança, envolvendo tráfico de armas e negociatas com mercenários, a ONU foi extinta em 2097).

Segundo os especialistas consultados, sociólogos e antropólogos em sua maioria, a diversidade étnica, entre outros inconvenientes (como a inevitabilidade do racismo, por exemplo) seria um recurso já totalmente ultrapassado, do tempo em que a humanidade, do ponto de vista de sua evolução biológica, apenas engatinhava.

O principal impulso a esta decisão, foram os avanços da engenharia genética no século 21, a partir da descoberta das células tronco, o que tornou viável a maravilhosa esperança – para eles –  que será o ser humano homogeneizado, o Homem Mestiço, sem qualquer traço de diferenciação racial. Segundo a minha modesta e suspeita opinião, mais uma aberração, entre tantas, que o homem criou depois que passou a se julgar o Deus de si mesmo.

O processo, no entanto se prevê, poderá incorrer em diversos inconvenientes e muitas consequências indesejáveis, como, por exemplo, já ocorre com o crescente surgimento de movimentos que preconizam a expulsão de pessoas contrárias á homogeneização para os distantes desertos do Sul.

Chamadas pela imprensa de Racialistas, estes grupos contrários á homogeneização, foram criados por clérigos progressistas do Norte, que fundaram o Movimento Racialista da Humanidade (conhecido como a última fronteira da religiosidade humana) que prega a manutenção da diversidade étnica e racial, afirmando que a homogeneização irá produzir uma praga genética pandêmica, que dizimará mais gente do que a Grande Enchente.

Logo após o Downtime, com a explosão dos movimentos migratórios para o Norte, a medida que boa parte do sul do planeta se desertificava, as pressões da Cúpula Planetária acabaram forçando ainda mais a expulsão em massa de racialistas para as áreas desérticas, onde já viviam as populações originais, largadas á própria sorte pelas potências do Norte.

Regredindo, com o decorrer dos anos, a um estágio de civilização primitivo, bem semelhante aos modos de vida dos humanos do início do século 21, a população destas terras do sul, atualmente são governadas pela irmandade dos clérigos racialistas e uma casta aristocrática de emigrados recentes, fugidos ou banidos do Norte, que pregam uma guerra violenta contra os povos do Norte.

As áreas desertificadas da Amazônia e do Sudeste asiático são os habitats mais característicos destes povos, entre os quais os Mulatos do Brasil e os PanChinos da Tailândia se destacam pela selvageria.

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A maioria dos seres humanos, muito em breve, será ‘Flex‘. Não existirão os gêneros humanos, homem, mulher, tais quais os conhecíamos. Serei um dos poucos exemplares vivos dos homens convencionais, Protohetero, como a ciência já nos classifica hoje. Mais um constrangimento que me faz pretender, para mais breve ainda, a minha partida deste mundo.

Os ‘Flex’ não serão homens nem mulheres. A evolução dos seres humanos para o estado ‘Flex’ se tornou um imperativo, na medida em que o intercurso sexual, com fins de procriação, se tornou uma prática totalmente desnecessária entre os humanos. A formidável evolução científica nesta área, possibilitou a implantação definitiva da gestação por meio da inseminação artificial de células tronco, permitindo que qualquer indivíduo, homem ou mulher, passasse a poder gerar e gestar filhos, naturalmente.

A revolucionária inovação, no entanto, não conseguiu abolir, absolutamente, o prazer que, desvinculado da necessidade de haver intercurso sexual, mesmo que simbólico, entre seres de gêneros diferentes, passou a ter exacerbados os seus aspectos mais primitivos,ancestrais, como vício mesmo, ou necessidade atávica cuja saciedade, apesar de transgredir regras sociais atualmente vigentes, precisa ser conseguida, irresistivelmente, a qualquer custo.

Foi assim que o sexo acabou se transformando em droga proibida, cuja comercialização assumiu proporções avassaladoras quando se descriminalizou a prática da pedofilia (outrora tolerada apenas quando praticada por ricos) para fins sexuais amplos, desde que normais e controlados.

A decisão, que causou grande polêmica entre a população, só foi tomada após um disputadíssimo referendo mundial. A vitória dos adeptos da Pedofilia Controlada, como não podia deixar de ser, provocou o surgimento de um mercado clandestino, dominado por traficantes e voltado para o atendimento á clientes viciados naquelas aberrações anteriormente toleradas, tais como a mutilação e/ou assassinato de crianças pra fins de canibalismo.

É comum aqui, por esta razão, a apreensão, quase diária, de comboios de Airtrains, carregados de jovens, meninos e meninas, criados nos desertos do Sul (principalmente no Brasil) exclusivamente, para alimentar este mercado abjeto do Norte.

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Mais um Airtrain passou agora mas não me animei ainda em pegar um. A hora está chegando, mas o esforço mental para pegar um veículo destes, mesmo com o confortável procedimento da Teletransportation, é tão grande – ainda mais na minha idade – que quase desfaleço, só de pensar.

O fato é que morro em breve. Posso saber disto, assim, com tanta convicção, porque as mortes perderam a inevitabilidade natural que tinham antigamente e precisam ser programadas hoje em dia. Como sempre foi com tudo na vida, vivem mais os que possuem dinheiro. Para os pobres a morte é líquida e certa.

Sempre achei este procedimento, chamado popularmente de Morte Legal, um total absurdo, mas, o departamento do governo que cuida do controle populacional já me comunicou: meu tempo se encerra daqui à três meses e exatamente às 16 horas do dia 5 de setembro de 2185 serei declarado oficialmente morto e terei que ser fisicamente apagado. Vivo ou morto, no entanto, 2185 será, com certeza, o meu ano inesquecível.

Por isto pegarei o Airtrain pela primeira e última vez ainda hoje. O processo é simples e indolor, posso garantir. Você mentaliza o seu desejo de embarcar no momento em que algum sinal da vinda do Airtrain se processa. Uma tremida da vidraça, o trepidar do assoalho, qualquer indício é o sinal. Assim que veículo passa pela sua janela, o embarque é instantâneo. Num átimo você está dentro do veículo rumo ao destino que mentalizou.

Sem que os funcionários da LifeDelete saibam, partirei. Os traficantes de matéria são facilmente encontrados no interior do Airtrain. Eles me teletransportarão para as terras do sul sem problemas, a um custo bem em conta, se julgarmos a enorme alegria que terei. Estou decidido a passar meus últimos dias numa tribo do Brasil, minha origem genética, perto de pessoas iguais á mim. Morrer naturalmente, definhando, é o que eu desejo.

Chego até a sonhar com alguém que reze por mim aquelas velhas rezas do passado. Velas acesas, flores. Gurufim com tambores. Talvez um velho Samba na voz da Clementina de Jesus. Incelenças, ladainhas. Pontos de Jongo ou de Macumba. Velhos rituais ancestrais do tempo em que tínhamos ainda resquícios de humanidade.

A vidraça tremeu. Não sei por que, no meio dos pensamentos de embarque, surgiu o rosto dela, daquela que foi a minha última mulher, exatamente como estava no dia em que nos conhecemos. O vestido estampado, as pequenas flores de flamboyant no cabelo. Linda. Ah! Como é doce esta felicidade. Aos meus sonhos mais antigos, portanto, satisfeito e conformado eu vou.”

Spírito Santo
em algum momento de 2008 (ou seria 2007?)

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~ por Spirito Santo em 25/01/2016.

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