Orson Welles, Titio pesquisador e a “Story of Samba”


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado por uma licença Criative Common

 História, mais que ler, é ver para crer.

image

Seção rítmica clássica do Samba de 1920 a 1940: Surdos de primeira e de segunda (não existia o de terceira) de barricas, caixas (sem esteiras, corpos curtos) e repinique (corpo longo). Tambores antigos, toscos, denotando a perda por parte do povo, do excelente know how dos antigos tambores africanos. As peles eram então retesadas à tachinhas de sapateiro ou pregos e afinadas no calor (sol ou tochas de jornal). Os tambores de lata de carbureto, aparentemente tinham a pele fixada, de forma semelhante, com pequenos cravos de madeira, talvez. Um notável e candente exemplo de resistência cultural.

As fotos que ilustram este post são frames do filme “Story of Samba” de Orson Welles, capturados por Hall Preston diretor de fotografia do documentário em 1942, nunca exibido completamente. Pesquisador sortudo, encontrei o filme durante a pesquisa para a segunda edição de meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“.

É que uma das teses centrais do livro, era o estudo do processo de evolução organológica das baterias de escola de samba do Rio de Janeiro, as quais, por razões até então, que eu saiba, nunca estudadas, estranhamente usavam instrumental, diretamente extraído das seções rítmicas das bandas marciais e musicais de origem européia, da virada do século 19 para o 20. Desconstruo e construo este processo, meticulosamente no livro.

Desenvolvida na primeira edição do livro, de forma, acredito, convincente a hipótese que considerava a exclusão sócio racial, o racismo enfim, como elemento crucial para a perda do know how da fabricação de tambores africanos de alta performance, portado pelos descendentes de africanos até o início do século 20, era a explicação mais plausível, mas faltava um elemento de prova concreto para transformar a hipótese em tese, um elemento que tornasse a teoria desta transição inquestionável.

image

Organologia mista. Flagrando a transição em 1942: Tambores antigos, toscos, com pele retesada à tachinhas, afinadas no calor (sol ou tochas de jornal) e tambores de tarrachas, “modernos”, semi industrializados, usados desde o final século 19 por bandas militares.

A intuição e a investigação holística do Titio – um auto didata típico  – atenta a qualquer pista, de qualquer origem, me entregaram a chave: A transição dos tambores rústicos e elementares do Samba carioca se dera, EXATAMENTE na década de 1940. Ela podia – como foi – flagrada nas ruas, no carnaval de 1942.

Bingo!

Como provei? Com essa sequência de frames do filme de Orson Welles de fevereiro de 1942. Nele Hall Preston conseguiu captar, em detalhes, todas as caraterísticas fisiológicas desta transição. Assim, ao invés de descrever em sempre questionáveis palavras e mais palavras os detalhes da teoria, faço como São Tomé e publico as imagens.

Na prática, a teoria é outra.

Mas não é tão  fácil assim a vida de um escarafunchador de nossa cultura negra tão ambígua e fugidia. Titio não perdia por esperar.

Já com a segunda edição do livro na reta da gráfica, acabo de descobrir (por honra do pesquisador Sormani Silva) que o fato das escolas de Samba usarem tambores toscos e rudimentares até a década de 1940, talvez tivessem razões bem menos  sociológicas ou prosaicas.

Em matérias de jornais e outras publicações cariocas como a “Revista da Semana”, década de 1920, por exemplo, em fotos e mais fotos, se podia perceber que a população “do asfalto”, gente tão ou quase tão pobre quanto a do morro – maioria negra inclusive – já usava tambores de bandas militares amiúde, desde sempre, talvez desde do início do século 20, diria.

O único detalhe a se destacar era o fato desses tambores industrializados, serem usados apenas em ranchos carnavalescos e organizações carnavalescas afins…cultura carnavalesca “do asfalto”. O morro, nesse caso, ainda andava sem vez.

(Um mistério etnomusicológico dos bons, isto) sim.

Hipótese inicial, a conferir: Os sambistas, confinados  nos morros, apesar de sofrerem dificuldades sociais exacerbadas, não usavam tambores militares porque…porque não os queriam, não os apeteciam musicalmente, por uma intenção etnológica fortuita, uma forte vontade de manter, a qualquer custo alguma tradição organológica dos tambores africanos seminais, feitos à mão. Por um respeito muito intenso pela tradição. ,

Perderam o know how, o jeito dos artífices do passado, mas não perderam o charme, a pose organológica. Não é doido isso?

image

Tambores toscos, ainda normalmente inseridos no Samba de carnaval. O custo dos tambores “modernos”, deve ter atrasado bastante a utilização destes por parte da população negra, mais pobre, moradora em favelas.

É tudo verdade” é um filme inacabado de Orson Welles composto por três histórias sobre a América Latina. “My Friend Bonito”, supervisionado por Welles e dirigido por Norman Foster no México, em 1941, “Carnaval” (também conhecido como “The Story of Samba“) e “Jangadeiros” (também conhecido como “Quatro Homens em uma jangada”) foram dirigidos por Welles no Brasil em 1942.

“É tudo verdade” era para ter sido o terceiro filme de Welles para RKO Radio Pictures, depois de “Cidadão Kane” (1941) e “The Magnificent Ambersons” (1942). O projeto foi uma co-produção da RKO e do Escritório do Coordenação de Assuntos Interamericanos dos EUA.

A produção não realizada foi o tema de um documentário de 1993 escrito e dirigido por Richard Wilson, Bill Krohn e Myron Meisel.

Enquanto algumas das filmagens de “É Tudo Verdade” foram reaproveitadas ou enviadas para bibliotecas de filmes de ação, cerca de 200.000 pés de negativos de nitrato em Technicolor , a maior parte do episódio “Story  of Samba”, foi lançado no Oceano Pacífico na década de 1960 ou 1970 .

Na década de 1980 uma caixa de negativos, grande parte em preto-e-branco, foi encontrado em um cofre e entregue ao UCLA Film and Television Archive. Um inventário de 2000 indicou que cerca de 50.000 pés de “É tudo verdade” tinham sido preservados, junto com aproximadamente 130.045 pés do negativo de nitrato de preservação ainda não garantidas.

image

Tarol e repique “modernos”, de bandas militares, já inseridos, normalmente no Samba de carnaval

Em 2015 no embalo da revisão de conteúdo para esta segunda edição do livro, voltei ao excelente site “Citizen Grave“, onde encontrei o filme desses frames. Pretendia compartilhar o link de todo o filme no livro. Decepcionado constatei que a maldita RKO (seus representantes) produtora original do filme de Orson, por ela amaldiçoado, havia retirado o dito do YouTube.

Azar o dela. Titio havia feito na primeira visita esses prints que, orgulhoso e satisfeito publico no livro e compartilho aqui.

Perdeu RKO! Valeu Orson Welles.

É tudo verdade!

Quer saber mais? A segunda edição do livro do Titio está na rua. Compre no site

http://rosasespíritos.wixsite.com/vendas ou na Editora e Livraria Folha Seca, Rua do Ouvidor, 37 – Centro Rio.

Spirito Santo
Fevereiro 2016