Manoel Kongo, vive! A arqueologia da revolta

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As rebeliões nas histórias mal contadas jamais são debeladas

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Equipe de pesquisadores planeja investigar como sítio arqueológico, a Fazenda Arcozelo, antiga “Fazenda Freguesia”, onde foi deflagrada uma das maiores insurreições de escravos das Américas: A Revolta de Manoel Kongo.

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Convidado pelo historiador da UFRJ Flavio Santos Gomes, especialista em escravidão, com a parceria do arqueólogo Luis Claudio Symanski da UFMG, do mesmo modo focado em sítios arqueológicos do período escravista, o Titio, orgulhosamente passa a integrar a equipe que, a partir de escavações arqueológicas, buscará memórias materiais da época em que nesta enorme fazenda, mandava o Capitão Mor Manoel Francisco Xavier, português, indicado pela Corte Imperial para ser a maior autoridade da região, onde se iniciava o boom das grandes plantações de café, que transferiram milhares de escravos para o Vale do Rio Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro e São Paulo.

Titio Spirito Santo entra em cena por conta de sua pesquisa iniciada em 1994, baseada no esquadrinhamento quase forense, dos autos do processo de condenação de Manoel Kongo em 1839, a partir do qual escrevi um texto teatral denominado “Auto do Manoel Kongo/AMK”.

Enseja também a nossa parceria a participação de Flavio numa mesa de debates na PUC/Rio, com o Titio, por ocasião da exibição do filme “A Roça de Teresa” baseado também numa pesquisa que realizei em 1973, com uma ex escrava cuja família fugiu para um quilombo situado nesta mesma região.

A ideia nesse caso será encontrar registros documentais, certidões, etc. dos principais personagens citados na entrevista/filme de Teresa.
A fazenda Freguesia, origem da maioria dos rebelados capturados, data do final do século 18 e é uma das raras construções coloniais desta época, ainda de pé. Este fato é dramático porque o belo prédio da Casa Grande, com dois andares e ainda intacto, com traços originais preservados, encontra-se em ruínas, prestes a desabar.

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Um imbroglio típico da incúria das autoridades brasileiras responsáveis por financiar a preservação de nosso patrimônio arquitetônico, deixou indefinida a guarda do imóvel que, embora esteja oficialmente sob a responsabilidade da Funarte, se encontrava totalmente abandonado, interditado pela defesa civil.

A atual crise geral brasileira, que atinge em cheio instituições culturais governamentais ligadas à cultura, explica em muito o estado de abandono deste inestimável patrimônio, mas é de todo modo inexplicável a inação das autoridades governamentais superiores, pois, afinal a fazenda de Arcozelo/Freguesia (cujo abandono não é recente) tem importância histórica mundial. Junções junto a Unesco, que não se sabe se foram sequer tentadas, seria o mínimo a ser feito.

Esta nossa primeira viagem teve também quinhentos percalços, como se algo não quisesse nos deixar chegar lá. O carro, lá para as tantas, enguiçou por falta de bateria e, depois de empurrado e andar uns poucos quilômetros acabou apreendido numa blitz do Detran por filigranas burocráticas na documentação. Só depois de dois ônibus, um táxi e um longo trajeto chegamos no local.

Ainda assim, chegando lá mal podemos entrar: A defesa civil continuava a interditar o local e, para acabar de endireitar, um funcionário havia acabado de falecer em serviço, no pátio da fazenda. Fomos, gentilmente convidados a nos retirar, mal começada a nossa empolgada inspeção.

Mas nada disso incomodava os mosqueteiros.

A equipe formou bonito. Conversamos muito no trajeto, descobrimos que líamos as mesmas referencias bibliográficas e, o que é mais bacana: havíamos lido uns aos outros. Daí foi fácil. Viramos, rapidamente uma equipe animada e coesa.

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Contamos já também com algum apoio logístico da Secretaria de Cultura de Vassouras, por intermédio do jovem secretário José Luiz Júnior. Também já contactamos o escritório do IPHAN da região, sob a guarda da sempre parceira arquiteta Isabel Rocha, para as futuras consultas aos documentos do CDH/Centro de Documentação Histórica de Vassouras.

A Funarte, responsável pelo imóvel será também, evidentemente procurada para podermos viabilizar uma inspeção mais acurada do futuro sítio arqueológico.

A ideia central da equipe será realizar densos registros, com os resultados gerando produtos multidisciplinares, quiçá multimídia, os mais diversos. Desde um artigo acadêmico escrito a seis mãos, um livro eventual, uma encenação teatral ou, até mesmo um documentário, as ambições são as mais otimistas possíveis.

Talvez, quem sabe, até um pouco de rebelião neo acadêmica, epistêmica, seja lá o que isto quer dizer, pois…

...Manoel Kongo, vive!

Spirito Santo

Fevereiro 2016

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~ por Spirito Santo em 27/02/2016.

7 Respostas to “Manoel Kongo, vive! A arqueologia da revolta”

  1. A memoria desses guerreiros escravos em balançar o sistema escravista nos faz pesquisar novas fontes historicas no sentido de ouvir essas vozes.
    Parabéns professores!
    Jorge Ribeiro

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  2. Claudio,

    Você tem toda razão. Nós sabíamos disso e eu cometi um lapso. Já corrigi o post. Sob a Santa Teresa, se for a mesma a que me refiro, na ocasião dos fatos narrados na entrevista da ex escrava (1873/74), ela pertencia, com certeza, a Joaquim Gomes Ribeiro de Avellar, estando na época sendo passada para o filho Luis Gomes Ribeiro de Avellar.

    Vamos om toda certeza procurá-lo sim.

    Obrigado e abs.

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  3. Milton,

    Pelo que entendi, não tem cópia. Como vamos fazer para assistir?

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  4. Prezados, parabéns pela iniciativa, a história de nossa região é riquíssima e pouco estudada e publicada. Gostaria de contribuir alertando que a fazenda mostrada nas fotos, é na realidade a Fazenda Freguesia (atual Aldeia de Arcozelo), a Fazenda Maravilha que já não possui mais a sua sede original, fica localizada onde hoje é o Bairro Maravilha. As Fazendas Freguesia, Maravilha e Santa Teresa pertenciam ao Capitão Mor…
    Sou Guia de Turismo/Biólogo, atuo na Região Vale do Café, e me coloco á disposição para contribuir com os Srs., caso julguem conveniente ou necessário. Atenciosamente,

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  5. Realizei um filme de curta metragem chamado “justiça para manoel Congo”.Não tenho acesso aos negativos e nenhuma cópia.
    É importante conhecer filmei em Vassouras 1987.

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  6. Rafael,

    Pois é. Este tema é muito denso. Tem desde aspectos ligados à chamada “segunda escravidão” (escravos-operários, ferreiros e marceneiros, formados na região por iniciativa de um dos Wernecks, foram os líderes da revolta) até as pistas cada vez mais fortes de que grande parte dos rebelados jamais retornou às fazendas ou foi capturada.

    Eu nesmo entrevistei em 1973 uma ex escrava da região que fugiu em 1873/74, com toda a família para “a roça” (escravos não chamavam esses locais de quilombos) e vieram depois, direto para a Corte, ANTES da abolição.

    Fiz um filme reconstituindo essa entrevista. Está no youtube. Se chama “A Roça de Teresa”

    Abs

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  7. Boa noite, achei muito interessante a iniciativa. Em recente monografia do curso de História analisei a figura do Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier. Há muito material para ser analisado acerca do assunto, e principalmente aprofundado.
    A questão da trajetória em que os escravos da revolta tomaram também.

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