A Mina de Diamantes e os escravos do Sr Vidigal

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1868-MG. Mina de Diamantes do Senhor Vidigal no Rio Jequitinhonha

A grande panorâmica mostra o serviço de tiragem do cascalho resultante do processo de extração de diamantes, a esta época ainda realizado totalmente por meio de serviço braçal de centenas de escravos, vistos organizados em turmas, com os tradicionais “caborés” na cabeça.

A imagem (que tive o cuidado de separar em cortes para vocês) mostra detalhadamente toda a organização da mina, inclusive hierárquica, com os grupos controlados por capatazes, coordenadores de turmas, feitores e as turmas separadas segundo trechos determinados das escavações.

Destaque para o Sr Vidigal, o proprietário de tudo e de todos, sozinho em pose arrogante ao centro da imagem e um menino bem novo, provavelmente filho de Vidigal, certamente sendo orientado por um capataz nas artes de ser no futuro o herdeiro dono de tudo e de todos.

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Ao fundo, no entorno do grande buraco, se pode ver alguns miseráveis casebres, provavelmente usados como moradia pelos escravos e paióis de ferramentas.

Mina vidigal 45
Os escravos, majoritariamente oriundos de Angola, notadamente gente de etnia ovimbundo e kimbundo, trouxeram para a região, entre outras memórias caras à nossa história, técnicas ancestrais de mineração de ouro e diamantes (razão mais provável de sua escolha para os trabalhos  forçados nas minas do Brasil).

Trouxeram também uma cultura musical muito rica e original, inestimável por ser genuinamente africana, na qual se destacam os cantos de trabalho e para marcar práticas comunais e funções sociais outras, denominados de forma genérica de vissungos (“Ovisungo“, palavra difusa do idioma mbundo, com o sentido vernacular provável de “repertório“, conjunto de cantos, geralmente de natureza religiosa, raiz provável dos cantos de catupés, das festas de congado e da música específica de tanta outras práticas africanas aqui reconstituídas, espalhadas por todo o sudeste do país.

As conclusões vastas (embora ainda esparsas em certos pontos), da pesquisa que realizo desde a década de 1970 sobre o tema tão crucial à real compreensão deste aspecto de nossa cultura brasileira, têm linhas cabais que já indicam a necessidade de uma coleta de campo em Angola, origem efetiva dessas tradições que nos chegaram íntegras, (embora partidas circunstancialmente ao meio pela travessia do Atlântico), carecem nesta fase do apoio concreto e efetivo de instituições de pesquisa oficiais ou particulares.

Mas tarda a descoberta – cujas razões precisam ser também estudadas – por parte da universidade brasileira do caráter crucial dos estudos profundos desta cultura africana que mais profundamente nos formou, para enfim nos revelarmos como uma sociedade integrada por negros, não brancos e brancos, destinada à prosperidade pela força hoje reprimida de nossa formidável diversidade.

Aguardemos que a ignorância dos que têm o poder de corrigir isto, arrefeça.

Spirito Santo
Julho 2016

———–

Nota:

“Augusto Riedel (o fotógrafo) cobriu a viagem de suas altezas reais D.Pedro II, mais seus parentes, o Duque de Saxe e seu irmão D. Luís Philippe ao Interior do Brazil no ano 1868. Tratou-se de uma expedição que visitou várias cidades mineiras. Esta fotografia, tirada por Riedel, mostra uma mina no Rio Jequitinhonha, no trajeto de uma viagem que começa em Serro, Minas Gerais e segue para o Atlântico.”

“A Coleção Thereza Christina Maria, da qual estas fotos de Riedel fazem parte, é composta por 21.742 fotografias, reunidas pelo Imperador Pedro II e por ele doadas à Biblioteca Nacional do Brasil.”

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~ por Spirito Santo em 13/07/2016.

4 Respostas to “A Mina de Diamantes e os escravos do Sr Vidigal”

  1. José Chinhama,

    Sim, amigo, Bem sei desse aspecto linguístico fundamental. É básico no estudo da cultura africana no Brasil e apenas os menos experientes incorrem nesses erros.

    Há também outras questões como a evolução das línguas aí é aqui que obedecem a processos diferentes fazendo com que o sentido de uma mesma palavra se altere de um lugar para o outro. No caso de Kilombo, por exemplo, é mais ou menos óbvio que o que houve foi apenas uma pequena variação fonética ou ortográfica no prefixo (“Ki” para os kimbundos e “Tchi”para os povos do leste (a propósito, suponho que esta ligeira diferença seja fruto de alguma influência da evangelização italiana, que produziu alguns dicionários nos quais o prefixo “Ki” (escrito “qui” pelos portugueses) passou a ser escrito “chi” (que se lê Ki ou qui em italiano), que poderia ter gerado o Tchi dos ovimbundo.

    Como se vê é uma área muito carente de novos estudos.

    Um bom reparo contudo preciso fazer sobre a origem dos escravos para o Brasil. A tese de que vinham de regiões muito diversas, que sugeria uma diluição cultural quase caótica, felizmente já vai sendo superada por estudos mais modernos, históricos e cartográficos, principalmente.

    Já se sabe que vieram em número esmagadoramente maior pessoas da área atual de Angola, iniciando-se com bakongo nos séculos 16 e 17 (embarcados ba área no entorno do Nsoyo), kimbundo(embarcados em Porto próximo a Luanda) e, finalmente mbundo, embarcados na área próxima do dito Reino do Benguela, trazidos em grandes massas para a mineração de ouro e diamantes, logo seguidos por moçambicanos, já no fim do tráfico, embarcados no Porto de Imhambane.

    Há sim, portanto, uma lógica linguística capaz de permitir analogias é restabelecer sentidos idênticos nessas línguas. É preciso aprofundar estes estudos nas universidades tanto daqui quanto daí.

    Muito bom nosso diálogo

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  2. Obrigado pela consideração.
    No entanto deve sempre considerar que os escravos vindos de áfrica e que formaram grande comunidade aí no Brasil, foram trazidos de diferentes pontos de Africa falando diferentes línguas. Por força da situação em que foram submetidos, mortes, separações, casamentos forçados etc. muitos uniram-se para sobreviver e consequentemente algumas palavras de muitas línguas também sofrearam alteração.
    Por exemplo, a palavra kilombo em Angola é pronunciado de diferentes formas mas com o mesmo significado. Kilombo nos povos kimbundos e TCHILOMBO nos povos do leste.

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  3. José Chinhama,

    Agradeço demais a sua colaboração. Vou cinsiderá-la também, é claro, mas devo observar que tenho me baseado em informações sempre de gente daí e tenho recebido várias grafias diferentes (como no caso do uso de um “s” aoenas, já que me informaram ser. O mais correto em mbundo)não podendo ainda fechar questão quanto a isso.

    Com relação á sua tradução, est era a que eu usava, frequentemente, baseado em vários dicionários, angolanos e brasileiros. Contudo, na observação de campo aqui no Brasil (Diamantina)tenho observado que a expressão costuma ser usada com este sentido de “conjunto específico” de canções, geralmente as de teor religioso, tendo a palavra assumido este sentido genérico que os dicionários khe atribuem por mera simplificação léxica.

    À propósito andei seguindo também a opinião de outros informantes que apontam essa linha, na qual estou tendendo a reafirmar.

    No fim, são traduções idênticas, sendo que no meu caso, insisto no catáter específico da palavra.

    Obrigado e vamos nos falando.

    Abs

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  4. Vissungo vem da palavra “OVISSUNGO” plural e “otchissungo” singular na lingua umbundu falado no sul e centro de Angola que significa canto, cantos, ou musica e musicas

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