LOMAX! colecionador de memórias indeléveis

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O Campo das memórias gravadas e a vã epistemologia do ser ou não ser.

Sempre achei que o que chamamos de “construção do conhecimento” humano, muito mais do que um conjunto elocubrações ditas por sábios epistemólogos, teóricos de tudo, é, muito mais o conjunto de registros físicos, impressos em alguma mídia, qualquer uma, na pedra, por exemplo, algum tipo de suporte material, concreto, registros colecionados, acondicionados em caixas de memórias – inclusive memórias orais ditadas por algum ser humano comum que acumulou experiências interessantes – simplesmente caixas de memórias tornadas acervos disponíveis, acessíveis a qualquer um.

Sempre achei que as memórias registradas é que são os tijolos básicos do conhecimento a ser construído, organizado, sistematizado, cimentado, melhor dizendo.

O resto, as opiniões divagantes e/ou divergentes dos doutores de ocasião a respeito dessas memórias gravadas, são apenas cortinas, lençóis, fronhas decorativas, que estão ali apenas para enfeitar o quarto já construído e podem ser trocados, assim que ficarem velhos e rotos.

(Como os textos dos maus filósofos, que ficam incompreensíveis, inintelegíveis dez anos depois de formulados, depois de saírem da moda das altas rodas acadêmicas e seus jargões.

Os pensares e opiniões sobre os sentidos ou significados dessas memórias fixadas, registradas e eternizadas, depois de amplamente compartilhadas é que vão gerar, instigar as mais diversas abordagens e conclusões, tão diversas e pertinentes (ou impertinentes) quanto o número de estudiosos, analistas, especialistas ou não, que sobre elas se debruçarem e sobre as ditas refletirão.

Penso enfim que a história das coisas humanas vive mais no que efetivamente ouvimos, sentimos ou vemos, os sentidos (olhos, ouvidos, pele) nus, vive mais no que gravamos no cérebro, do que nas divagações dos presunçosos cultores de filosofias fora de hora ou de lugar

(Os registros, as memórias – o Meio – é que são a mensagem, como dizia aquele ex-super famoso teórico da moda dos anos 1970, o Marshal MacLuhan – alguém se lembra dele aí?)

Pois é. Nossas memórias são seletivas. Só sobrevivem as que servem para nos manter vivos e livres, pensativos por nossa própria conta e risco.

Que a história não se esqueça do colecionador de memórias Alan Lomax, mesmo considerando-o um mero…”folclorista”.

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“O folclorista Alan Lomax passou sua carreira documentando tradições de música folclórica de todo o mundo. Agora, milhares de músicas e entrevistas gravadas estão disponíveis gratuitamente on-line, muitas pela primeira vez.

É parte do que Lomax imaginou, muito antes da era da Internet, como uma coleção.

Lomax registrou uma incrível quantidade de música folclórica trabalhando dos anos 30 aos anos 90, e viajou do sul profundo dos EUA às montanhas de Virgínia ocidental, da Europa às Caraíbas e à Ásia.

Quando chegou a hora de trazer todas essas horas de som para a era digital, os responsáveis do arquivo Lomax não tinham certeza de como resolver o problema.

“Nossa intenção foi fazer o máximo possível”, diz Don Fleming, diretor executivo da Associação para a Equidade Cultural, a organização sem fins lucrativos de Lomax fundada em Nova York nos anos 80. Fleming e uma pequena equipe composta principalmente de voluntários digitalizaram e publicaram cerca de 17.000 gravações de som.

Pela primeira vez, tudo o que digitamos das viagens de gravação de Alan está on-line, em nosso site, diz Fleming, cada tomada, certa ou errada, entrevistas, música, tudo”

“Alan poderia até morrer de emoção, ele teria ficado tão animado!”, diz Anna Lomax Wood, filha de Lomax e presidente da Associação para a Equidade Cultural. “Ele tentava tudo, Alan era uma pessoa que olhava para tudo
que havia, mas o objetivo era sempre o mesmo.”

Ao longo de sua carreira, Lomax estava sempre usando a mais recente tecnologia para gravar música folclórica no campo e depois compartilhá-la com qualquer pessoa interessada.

Quando começou a trabalhar com seu pai, John Lomax, nos anos 30, isso significava gravar em cilindros de metal. Mais tarde, Alan Lomax
Adotou gravadores de fita gigantes alimentados por baterias de carros usadas em casas de campo e aldeias remotas.

Lomax escreveu e recebeu programas de rádio e TV, e passou os últimos 20 anos de sua carreira fazendo experiências com computadores para criar algo que ele chamou de “Global Jukebox”.

Ele tinha grandes planos para o projeto. Em uma entrevista de 1991 com a CBS, ele disse: “O computador moderno, com todos os seus vários aparelhos e instalações eletrônicas maravilhosas agora torna possível preservar e revigorar toda a riqueza cultural da humanidade”.

Ele imaginou uma ferramenta que integraria milhares de gravações de som, filmes, fitas de vídeo e fotografias feitas por ele mesmo e por outros.

Ele esperava que o “Global Jukebox” facilitasse a comparação de músicas em diferentes culturas e continentes usando um complexo sistema analítico que ele planejou – algo como Pandora para estudantes de pós-graduação. Mas a idéia básica era simples: torná-lo disponível para qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo.

Lomax foi forçado a parar de trabalhar quando sua saúde declinou nos anos 90, e ele deixou a “Jukebox Global” inacabado. Agora que seus arquivos estão on-line, a organização que ele fundou está voltando sua atenção para esse trabalho.

A Assossiação para a Equidade Cultural está abrigada em um edifício degradado perto do túnel de Lincoln em Manhattan. A maioria das gravações e notas originais de Lomax agora estão armazenadas na Biblioteca do Congresso em Washington, DC Mas Fleming diz que os escritórios de Nova York ainda exalam a vibração que tinham quando Lomax estava trabalhando lá – até a coleção de cadeiras e mesas e cadeiras de castoff.

“Nunca houve dinheiro para Alan”, diz Fleming. “Alan raspou o tempo todo, e saiu sem dinheiro, ele fez isso por causa da paixão que tinha por este trabalho e encontrou maneiras de financiar projetos que estavam mais perto de seu coração.”

O dinheiro ainda está apertado. Mas isso nunca parou Alan Lomax, e não impediu Anna Lomax Wood, tampouco.

“Ele acreditava que todas as culturas deveriam ser vistas em um campo de jogo uniforme”, diz ela. “Não que elas sejam todas iguais, mas a elas deve ser dada a mesma dignidade, ou seja: Todas têm a mesma dignidade e valor”

Quase dez anos após sua morte, seus herdeiros ainda estão tentando fazer de sua visão uma realidade – uma gravação de cada vez.”

http://www.npr.org/sections/therecord/2012/03/28/148915022/alan-lomaxs-massive-archive-goes-online

(Na foto Alan Lomax (à direita) com o músico Wade Ward durante as gravações Southern Journey, 1959-1960. Shirley Collins / Cortesia lde Arquivo Alan Lomax

Spirito Santo
Janeiro 2016

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~ por Spirito Santo em 10/01/2017.

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